2.6 Implantations num´eriques de la MEFPIL
2.6.3 S´eparation et fusion de particules
As problemáticas da identidade e da diferença estão no núcleo das práticas racistas, ou seja, os atos de exclusão são justificados com base na suposição que a cor revela a inferioridade. Em nosso texto, o assunto é focalizado de modo transversal. Por exemplo, Novaes et al. (2008), na pesquisa Nova Cartografia Social da Amazônia, apontam que “O processo dos mapeamentos sociais redundam no reconhecimento de múltiplas identidades, porquanto uma negra ou negro, ou um homossexual pode se autodefinir também como afro-religioso da mesma forma que o homossexual exerce atividades de trabalho, independente da sua orientação sexual”
Abordar a diferença admite situar que há uma diversidade de jovens conforme classe, escolaridade, cor, etc, portanto, na atenção a saúde sexual e reprodutiva, evidencia-se o imperativo em integrar na compreensão dos processos de subjetivação, a inserção das jovens negras em grupos sociais, as transformações biopsicossociais do ciclo vital, as pressões sofridas para que se tornem o espelho da subjetividade “padrão”13, isto é, a massificada pela
13 Aos adolescentes, é continuamente exigido transitar entre uma ambiguidade: seguir os modismos para vestir, dançar, falar e, ao mesmo tempo, individualizar-se.
indústria cultural de consumo, a exigência de vivenciar rituais de passagem que incluem praticar e receber várias formas de violência.
A ponderação acerca da identidade requer que a jovem negra receba informações da escola e das famílias, que as permitam elucidar o jogo cultural e econômico das sociedades capitalistas, repetidos no lugar em que vivem. Deste modo, as práticas sexual e reprodutiva serão saudáveis, já que não foram impelidas a agir de modo descuidado, assentindo ao que afirma Critelli (1996, pp.16-18): “As condições em que a vida nos é dada favorecem a perda de si, quer dizer que habitamos um mundo que nos é inóspito, não consegue nos abrigar e acolher”.
O esclarecimento obtido por meio da educação e da instrução possibilita as jovens negras superar as vicissitudes impostas, há séculos, às mulheres escravizadas no Brasil. Com a segurança psicológica alcançada, formam-se suportes internos e externos para refutar atitudes de zombaria, assim como, as ideias de uma suposta “inferioridade” e a comparação estética às mulheres argentárias vindas da Europa. Em consequência, as filhas que nascerão das jovens negras formarão um senso de si e identidade potente. De tal modo, a gravidez de jovens negras em contingentes populacionais de baixa renda não implicará na transmissão geracional de conhecimento materno às filhas, visto que elas favorecem a repetição do papel feminino, ou seja, a reprodução de muitos filhos sem suportes econômicos e sem a efetiva participação dos pais. Silva (2007), em investigação sobre o projeto de vida e a escolarização de adolescentes negras de 14 a 18 anos como bases da inclusão social, para além do trabalho doméstico na condição de empregada ou de “esposa”, identificou,
A educação apontada como prioridade para as adolescentes, e inserida como projeto de vida, parece ser uma forma de dar visibilidade a esse grupo étnico-racial, que não tem como construir uma identidade étnico-racial no espaço escolar, porque não se vê representada nesse espaço. Nesse sentido, tomo a escola como espaço significativo de representação de identidade e que é ao mesmo tempo reprodutora de violências, para perceber também o quanto tem importância para as adolescentes negras que pensam seu futuro para além do ensino médio (Silva, 2007, p.85).
O relatório “Situação da Adolescência Brasileira 2011: O Direito de Ser Adolescente: Oportunidade para reduzir vulnerabilidades e superar desigualdades” nos informa que: dos 21 milhões de adolescentes brasileiros 10.367.477 são mulheres. (IBGE/Pnad, 2011) Na região Norte, os indicadores estatísticos são: 2.056.862 adolescentes de 12 a 17 anos, sendo 981.410 no Pará, cujo percentual de negros é de 81,7%, e destes 485.032 são mulheres de 12 a 17 anos (p.148).
O relatório também expõe que “A gravidez é outra situação de vulnerabilidade com impactos profundos na vida dos adolescentes: em sua saúde, no seu desempenho escolar, nas suas oportunidades de formação para o trabalho” (Relatório, 2011, p.45).
A Organização Mundial da Saúde define adolescente como o indivíduo que se encontra entre os 10 e 20 anos de idade. No Brasil, no Estatuto da Criança e do Adolescente, há a indicação de outra faixa etária: dos 12 aos 18 anos. Entretanto, na atenção a saúde, os profissionais que atuam em Unidades Básicas precisam observar que, as adolescências não constituem um padrão universal, mas se formam nos contextos socioculturais.
A gravidez na adolescência é um dos fenômenos sociais que se torna um campo de preocupação, tanto da saúde quanto da educação pela crescente incidência, sobretudo na região Norte do Brasil. Neste início do século XXI, podemos afirmar que, embora as informações sobre os métodos contraceptivos sejam alvo de campanhas divulgadas massivamente pelos veículos de comunicação, a gravidez inesperada na adolescência, ainda se estabelece em um fato crescente como se estas informações fossem desconsideradas pelos(as) jovens.
O abandono dos estudos pelas adolescentes grávidas é de ocorrência significativa. Para os pais adolescentes, o episódio de renúncia de seus estudos se dá por outros fatores que não pelo fato de serem pais, uma vez que a frequência de adolescentes do sexo masculino que se responsabilizam pela paternidade de seu filho é baixa, em função de não se acharem preparados para trabalhar ou com idade suficiente para assumir a paternidade.
Pais e mães, que também não foram informados(as) e educados(as) sexualmente sobre o risco de adquirir Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e de engravidar precocemente, não falam a respeito com seus(suas) filhos(as) adolescentes (Nascimento & Pimentel, 2011).
Roland (1994, p.248) afirma que: “A gravidez precoce na adolescência é consi- derada como obstáculo. Existe uma diferenciação entre a iniciação sexual dos adolescentes no Norte e Nordeste, que ocorre antes dos 15 anos, enquanto que no Sul e Sudeste, a primeira relação sexual ocorre após esta idade”. Na visão de Nascimento (2006), a gravidez e o parto na adolescência englobam aspectos médicos, psicossociais e de saúde pública, os quais são indissociáveis. Ao aventarmos a gravidez na adolescência, é comum recorrer a três quali- ficativos que remetem às ideias: a) gravidez precoce - pressupõe uma idade mais adequada para ter filhos, isto é, a existência de um ponto ótimo de
maturidade física e psicológica; b) gravidez não planejada – resultante de um descuido por omissão, falta de habilidade ou problema no uso de contracep- tivos, solicita antevisão do risco associado à vida sexual ativa; c) gravidez não desejada – contraria as aspirações à felicidade naquele momento da vida. Essas opiniões, certamente, são permeadas pelos significados e valores atribuídos à juventude nos distintos contextos socioculturais e pela hegemonia do recurso ao enfoque de risco para hierarquizar os problemas e planejar as ações de saúde .
Conhecer o universo de jovens negras grávidas significa adentrar em um es- paço de singularidades e saberes, sujeições e abandonos, ausência de proteção por meio da oferta de políticas com direitos fundamentais sendo, ainda con- siderável em números, uma vez que esta população no Brasil ultrapassa atual- mente o quantitativo dos 40 milhões, pois considerando a faixa etária dos 19 aos 24 anos de idade – incluída pelo Ministério da Saúde como jovem – esta população atinge quase os 48 milhões de brasileiros, segundo informações do IBGE em 2007. Deste número de adolescentes apresentados, cerca de 70% re- sidem nas cidades e áreas urbanas, enquanto que 30% vivem em espaços rurais. A incidência de gravidez na adolescência é maior entre as adolescentes negras. Enquanto 3,9% das adolescentes brancas entre 15 e 17 anos já eram mães em 2009, entre as adolescentes negras, esse percentual subia para 6,1%. Configura-se mais uma forma de desigualdade.
No âmbito regional, corrobora-se, além disso, quando se analisam os dados sobre gravidez na adolescência que o Norte e o Nordeste têm os maiores percentuais de mães adolescentes de 12 a 17 anos. Enquanto a média nacional, em 2009, era de 2,8% de meninas nessa faixa etária que já tinham filhos, no Norte, esse número era de 4,6%. As maiores taxas foram verificadas nos Estados do Acre (5,3%), Amazonas (5,2%) e Amapá (4,9%). Quanto à faixa etária, meninas que engravidam antes dos 15 anos, também verificaram fortes desigualdades regionais.