1.2 M´ethodes num´eriques de discr´etisation spatiale
2.1.1 Choix de l’´el´ement fini
No Brasil, o Relatório de Desenvolvimento Humano (2005) enfatiza que o racismo é uma das causas da miséria no país e um dos determinantes na viola- ção de direitos. O documento explicita em seus relatos a grande desigualdade social marcada pelas diferenças raciais, regionais, de gênero e de geração. O racismo no Brasil configura uma situação relacionada aos 388 anos de escravidão e tráfico de escravos provenientes da África, ressaltando que, após a abolição da escravatura, no século XIX, não foram implantadas pelo Estado políticas afirmativas e inclusivas para inserção da população brasileira negra que vivia em condições de miséria, à margem da sociedade.
No campo da saúde, a principal política afirmativa foi fundada pela Portaria nº 992, de 13/05/ 2009 que instituiu a política nacional de saúde integral da população negra. É uma proposição de cunho transversal, cujo objetivo geral “Promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico-raciais, o combate ao racismo e à discriminação nas instituições e serviços do SUS.” (Brasil, 2009, p.2).
Quanto às concepções, saúde sexual significa que os profissionais, o estado e as famílias reconheçam que as mulheres são donas de si mesmas, tendo o direito de vivenciar a sexualidade e o desejo sem o enquadre da heteronormatividade, enquanto a saúde reprodutiva significa envolvimento dos parceiros na composição da família que desejam construir (Cruz, 2004). As formas equivocadas que a sociedade brasileira articulou para lidar com a população negra estão associadas, conforme Heilborn, Araújo e Barreto (2010), à tese da negação da diferença e do conceito de raça “pura”. Os autores avaliam que o conceito de raça limitava o reconhecimento da diferença e da diversidade de tipos humanos, já que a referência de sujeito estava centrada no padrão físico europeu, negando os demais tipos humanos.
Heilborn, Araujo e Barreto (2010) assinalam que a tese racista de haver sangue “impuro” é uma premissa derivada do determinismo biológico hereditário que estabelecia comportamentos baseados em vícios e descendência. Tais princípios fundamentaram o protorracismo ocidental que comprovava a “superioridade” das sociedades europeias sobre as outras, denominadas “inferiores ou atrasadas”.
Geneci de Oliveira (2008) aponta, citando os trabalhos de Clyde (1999), que o zoroastrismo, uma proposta religiosa da civilização persa para categorizar
a espécie humana, elaborou o mito religioso que apresentava o conflito entre o bem e o mal, representado pelas figuras de Ahura Mazda e os deuses benévolos e da luz, assim como Angra Mainryu e os deuses maléficos das trevas.
O princípio observado no livro sagrado Avesta influencia as religiões monoteístas modernas: judaísmo, cristianismo e o islamismo, apontando pela diferenciação na cor as figuras do bem e do mal, o primeiro representado pela cor branca e o último pela cor preta. Esta influência também é descrita na Bíblia na passagem acerca de Noé e seus filhos sobre o dilúvio, em que o filho Cam teria sido punido por ter visto seu pai Noé nu, por isso, teve sua pele escurecida, surgindo, assim, o mito de que os negros eram descendentes dele, tal explicação serviu de base para a justificativa religiosa para a escravidão e o tráfico negreiro (Heilborn, Araujo &Barreto, 2010).
Para Silvério e Trinidad (2012), o conhecimento científico articulou a categoria raça, no século XIX, para explicar um sistema de classificação que pretendia ordenar as diferenças fenotípicas e socioculturais para a espécie humana. Heilborn, Araujo e Barreto (2010) declaram que o conhecimento científico produzido na área da biologia contribuiu para naturalizar a inferioridade dos negros, através de Charles Darwin, na obra A origem das espécies. Na esfera social, Herbert Spencer criou as bases para o darwinismo social, pautando-se na crença de que os diferentes grupos humanos se desenvolveram pela sua adaptação ao meio, assim como pelo conflito entre os grupos, em que os mais fortes e aptos sobreviveram e subjugaram outros.
Tal lógica justificaria a expansão colonial do século XV ao XVII com as grandes navegações, o escravismo e o extermínio de povos africanos e ameríndios, inspi- rados na filosofia iluminista; e do século XIX sobre os povos asiáticos e africanos. Segundo Guimarães (1995), a definição de raça foi alterada pela contribuição do movimento pós-estruturalista francês que vinha desconstruindo o conceito nas teorias das ciências sociais que utilizavam o conceito biológico, além dele, o diferencialismo cultural, no campo das ciências humanas, disseminava o essencialismo e naturalizações acerca dos diferentes grupos sociais.
Em síntese, a tese da naturalização das diferenças sociais foi elaborada pela teologia (divino), pela ciência (endodeterminismo) e pelo “imperativo” histórico, político e social das sociedades ocidentais, para explicar a subordinação de uma cultura a outra.
Oliveira, Meneghel e Bernardes (2009) asseguram que atualmente a categoria raça não vem sendo mais utilizada nos estudos científicos, porém militantes do movimento negro e alguns membros da Academia a utilizam como um conceito eminentemente político para evidenciar as desigualdades no acesso aos bens públicos e tornar visível o racismo.
De acordo com Munanga (2005), o racismo se pauta na noção de raça e de superioridade de uma sobre a outra. Já para Lima e Vala (2004), o racismo ocorre em duas dimensões: individual e institucional. Ambos diferem do preconceito racial que é gerado por atitudes hostis de uma pessoa para com a outra, em esfera individual.
Assim, o racismo é constituído por um processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra todo um grupo social, o que, conforme Zamora (2012), produz efeitos sobre a subjetividade e a vida social dos indivíduos que enfrentam posições desvantajosas.
Alguns efeitos subjetivos que as jovens negras podem vivenciar diante do ra- cismo e as exclusões são: experimentar sentimentos de inferioridade, incapa- cidade, dependência e culpa; apreender de forma negativa seus atributos físicos e comparar o seu corpo ao ideal estético branco, sobretudo, o cabelo crespo apelidado de “palha de aço” e o nariz, configurando uma autoimagem negativa. Para André (2007), o movimento de readequação e disfarce da negritude é fruto da tentativa de acomodar-se ao padrão estético (e de vida) baseado no modelo branco europeu, o qual foi imposto à sociedade brasileira desde o período colonial com o sistema escravocrata.
Deste modo, ao negro e a negra foram infligidos ao descrédito sobre suas crenças e práticas sociais, sendo vinculada à africanidade uma marca inferiorizada, à margem, fora do centro, afetando a população negra na construção de sua identidade e subjetividade.
Nesse contexto de racismo e exclusão, adotamos a compreensão gestáltica abordada em Oliveira (2008), cujo trabalho a respeito de Relações Raciais e Gestalt Terapia examina a discriminação racial e a compreensão de outras formas de relações discriminatórias que atuam de forma nociva sobre o contato entre o self e o meio.
Na perspectiva de uma compreensão gestáltica, é possível abordar a dinâmica subjetiva dos efeitos do racismo e da exclusão, isto é, é possível verificar as sequelas psicológicas causadas devido à apreensão de uma representação
social de símbolos estéticos hegemônicos, de ausência de autocontato pleno, de experiências corporais e sociais limitadas e de substituição das próprias necessidades por determinantes sociais.
A vivência do conjunto destes indicadores reduz a capacidade das jovens em reconhecer figuras nutridoras para o estabelecimento de contato pleno com o outro e consigo mesmo.