Dessa forma, primeiramente lançaremos olhar sobre a relação do ponto de centricidade com o eixo das macropolaridades, de modo a observar as associações e conexões possíveis entre o acontecimento da obra, a materialidade linguística da obra e as discursividades que se configuram nela.
Acontecimento - Denominação narrativa
Axioma - O enfoque é reconhecer como a materialidade linguística da obra, ou seja, a
conjuntura de sentidos que se estabelece a partir dos recursos linguísticos, estilísticos, semânticos, pragmáticos, semiológicos e sintáticos, incidem na constituição do acontecimento.
No acontecimento - Entendemos que a materialidade linguística de Espinhos e Alfinetes
se configura no batimento entre a contemplação das singelas minúcias da vida e as agruras da morte. Assim, por meio de um constante tom epifânico e memorialista, o conjunto de signos
ideológicos que compõe a superfície linguística da obra promove uma sinfonia discursiva entre os jogos léxicos, as flexões sintáticas, as representações semânticas, as imagens semióticas e as construções semiológicas.
Projeções para a episteme – A proposta é que o professor busque reconhecer na obra
em que pretende trabalhar traços linguísticos peculiares à construção dos sentidos que gravitam em torno do acontecimento. É questão talvez não seja esquadrinhar a materialidade linguística em busca de elementos singulares, mas buscar potencial o olhar curioso do aluno para todos os elementos que compõem o acontecimento, de modo que ele possa reconhecer as engrenagens da obra, bem como se reconhecer como parte constitutiva desse acontecimento, tomado enquanto um processo de interação verbal.
Se as práticas de letramento literário se engendram por situações que usam o discurso literário, “enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos”, buscar uma compreensão da amplitude sentidural que gravita em torno da materialidade linguística da obra é o primeiro passo para o empoderamento literário.
Acontecimento - Explicação enunciativa
Axioma - O enfoque é a decorrência de como o acontecimento da obra é revelado e
tecido no entrelaçamento da conjuntura interdiscursiva dos enredos, ou seja, por meio de uma conjuntura histórico-sócio-ideológica que provoca deslocamentos, revela ações dos sujeitos e potencializa sentidos.
No acontecimento - A obra Espinhos e Alfinetes é tecida por um conjunto de
discursividades relacionadas à morte (por exemplo, a morte na infância, a morte da infância, a morte que causa um luto eterno, a morte simbólica de sentimentos e relações). Essas discursividades provocam deslocamentos na historicidade das personagens, uma vez que são os episódios de morte que instauram tais rupturas nas narrativas, ou seja, fazem emergir uma necessidade iminente de reorganização da ordem discursiva (reaprender a viver, aprender a lidar com a dor, organizar-se frente ao luto) que constitui as instâncias-sujeito personagens.
Projeções para a episteme - Ao tomar a obra enquanto um acontecimento discursivo, o
professor de literatura deverá buscar os diversos discursos que constituem a narrativa (romance, conto, novela, entre outros). Esses discursos não representam, necessariamente, o tema principal da obra, mas os assuntos que revelam a conjuntura histórico-sócio-ideológica que constitui as personagens. Essa conjuntura está relacionada aos elementos de tempo, espaço e inscrições ideológicas que, indiscutivelmente, produzem sentidos no interior da obra.
Denominação narrativa - Acontecimento - Explicação enunciativa
Axioma - O enfoque dessa relação busca como a materialidade linguística da narrativa
produz sentidos do/no acontecimento da obra, de modo fazer emergir uma configuração de discursividades singular. Todos os sentidos da obra gravitam em torno dessa relação, uma vez que essa fronteira permite o esquadrinhamento da amplitude de sentidos do acontecimento.
No acontecimento - Na obra de Carrascoza, é a materialidade linguística engendrada
pela instância-sujeito autor que produz os sentidos relacionados à morte. Essa materialidade linguística é também reveladora das discursividades que determinam os episódios de morte que, quando analisados, revelam os sentidos que permitem a convergência de todos os contos em uma configuração estética da morte.
Projeções para a episteme - No trato com outras obras literárias tomadas enquanto um
acontecimento, o professor deverá promover práticas de letramento que visem reconhecer a linguagem utilizada pela instância-sujeito autor como foco na produção de sentido. O professor deve potencializar a reflexão acerca dessa linguagem, pois tal análise será responsável por desencadear o reconhecimento das discursividades (tempos, espaços, ideologias, talvez uma atmosfera cronotópica) que compõem o discurso literário por parte do aluno.
Explicação enunciativa - Acontecimento - Denominação narrativa
Axioma - O enfoque está na conjuntura de discursividades que se configura na obra é
responsável por revelar como a representação dos sentidos que se materializam tece o acontecimento instaurado.
No acontecimento – As discursividades (tempos, espaços e ideologias) que compõem e
configuram o acontecimento discursivo Espinhos e Alfinetes representam a materialização sentidural da morte a partir da linguagem do autor, ou seja, os sentidos que se estabelecem a partir de uma conexão intrínseca da interdiscursividade de cada narrativa (episódios de morte) configuram o acontecimento por meio da representação de um mundo que emerge da singularidade estética materializada pela instância-sujeito autor.
Projeções para a episteme - Essa associação permite que o professor de literatura
promova práticas de letramento literário em que as discursividades, ou seja, as construções de tempo, dos espaços e das ideologias que interpelam os personagens e o narrador, sejam tomadas como determinantes e essenciais na construção das leituras literárias por parte dos alunos. Assim, muito além do mero reconhecimento do tema principal da obra, o aluno poderá identificar, na materialidade da obra, as costuras discursivas empreendidas pela instância- sujeito autor, responsáveis por revelar a constitutividade do texto literário.