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Ebauche d’un programme d’analyse à l’attention des musiques diffusées dans les lieux publics

DE L’ANALYSE MUSICALE

C. Ebauche d’un programme d’analyse à l’attention des musiques diffusées dans les lieux publics

Na contemporaneidade, uma das questões com maior destaque social, face ao seu incremento e consequências negativas é a solidão humana. Há notícias, estudos, reportagens, encontros, livros e até filmes que se concentram em analisar e demonstrar aspectos da sociedade do presente e futuro, onde é sentido e previsto um isolamento – mesmo em grandes aglomerados populacionais – que afectará cada vez mais pessoas. Segundo Marc Augé, o não-lugar é o contrário da utopia: existe e não alberga sociedade orgânica nenhuma. 79 No presente que nos encontramos, existem vários momentos que nos levam a pensar que os espaços que percorremos são não-lugares – segundo a afirmação de Augé – e isto porque parte da sociedade está estática, inerte e robotizada, para além de que é cada vez mais sentida uma falta de propósito geral.

A globalização, que desencadeou um desenvolvimento e crescimento colossais, “erradicou” o diferente carácter e tradições sentido outrora em muitas cidades, homogeneizando e atenuando as diferenças das experiências. Ao não ser criada nenhuma acção que contrarie ou pacifique esta situação, poderá ser provável um crescimento de não-lugares, que não criam nem identidade singular, nem relação, mas solidão e semelhança.80Quanto mais uma cidade cresce, menos se a conhece, tornando-se apenas num amontoado de indivíduos.

Esta realidade poderá ser sentida em maior escala nas grandes cidades e metrópoles, onde a dupla de arquitectos japoneses que compõem o Atelier Bow-Wow iniciaram um estudo, de forma a perceberem de que forma a solidão e individualismo estaria presente na sociedade japonesa. Foi revelada a sua preocupação quando analisaram que a população de algumas cidades nipónicas se sente triste e desmotivada, sem saber bem a razão, por melhor estabilidade económica e financeira apresentada.81Esta é uma realidade que

79 Marc Augé in Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, p.94. 80 Idem, p.87.

poderá ser mantida no futuro, através de laços cada vez mais fortes criados entre as gerações humanas e as tecnologias. Desta forma, e tendo em conta as consequências do natural desenvolvimento tecnológico, social e

antropomórfico, talvez seja mais vantajoso pensar e elaborar estratégias de forma a moderar os impactos negativos que esta realidade poderá trazer para o ser humano, sem com isto esquecer a arquitectura e o seu importante papel nesta realidade, pois sendo um dos motores da modernização, é da

responsabilidade dos mesmos profissionais alterar o que outrora os seus antepassados criaram e que, consciente ou inconscientemente, levaram à presença desta individualização sentida em vários locais do globo.

O Atelier Bow-Wow sente que a arquitectura contemporânea industrializada e os grandes espaços urbanos são exemplos de alguma fraqueza sentida na sociedade, o que os leva a concluir que é neste tipo de situações, onde o individualismo é mais sentido, que se persente uma maior necessidade da utilização e projecção da palavra “comum” e do que ela poderá incitar na sociedade. A cidade depende também e não menos essencialmente das relações (…) directas entre as pessoas e grupos que compõem a sociedade.82 Existem trabalhos de procura, pesquisa e desenvolvimento de plataformas e estruturas, de forma a criar situações que possibilitem estabilidade, conforto, desenvolvimento de relações e companhia dos e entre seres humanos. Com estas iniciativas elaboram-se pensamentos, argumentos e propostas, de forma a tentar entender contextos e dinamizar formas como, perante o contexto actual, poderá ser possível (sobre)viver diariamente em melhores condições sociais.

CARTA | Filme Her O filme Her 1retrata um romance de um humano com um sistema operacional de inteligência artificial. Todavia, o filme projecta outras situações que exigem a reflexão sobre um possível futuro humano, a partir de questões tecnológicas e sociais e também do modo de estar e viver a cidade.

A história passa-se num futuro não específico, onde se observa um centro urbano de arranha-céus, onde a interacção social é um factor quase que alheio, nos planos apresentados. As pessoas caminham, maioritariamente sozinhas, falando “sozinhas”, pouco interagindo com os da mesma espécie, mesmo em contextos como o local de trabalho. |1 |2

1 Título em português: Uma História de Amor. Escrito e realizado por Spike Jonze e teve a sua estreia em 2013. |1

Todavia, de observado, compreende-se que todas elas, inclusive a personagem principal, interagem com o seu sistema operativo a partir de um pequeno auricular |5 e outro aparelho com câmara fotográfica. |3 Depois de haver um grande interesse em experimentar um sistema operativo de inteligência artificial que prometia criar relações, designando ser uma consciência, denota-se uma maior dependência diária entre o utilizador humano e os dois aparelhos. Esta nova realidade acaba por funcionar como um assistente virtual, organizando todo o dia-a-dia dos seus utilizadores. Desde a leitura e resposta de e-mails, marcação de encontros pessoais, procura dos mais ínfimos assuntos, perceber o estado de espírito do humano, este sistema operativo convive com o usuário, sendo crianda uma “relação” humano-virtual. |4 As pessoas vão, assim, perdendo ainda mais a espontaneidade e interacção humana, não se apercebendo da solidão em que vivem diariamente.

Theodore (personagem principal):

–Tu pareces uma pessoa, mas és apenas uma voz no computador. Samantha (sistema operativo de inteligência artificial):

– Eu consigo perceber como a perspectiva limitada de uma mente não-artificial pode entender isto desta forma. Tu vais acostumar-te.2

2 Diálogo do filme Her.

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No entanto, e uma vez que a maioria da sociedade aderiu a este sistema operativo, a solidão que o espectador observa acaba por não ser sentido, da mesma forma, pelos intervenientes na história e isto porque, estando esta sociedade ultra-moderna a viver a mesma situação, a situação acaba por ser normalizada perante todos (existem convívios entre humanos e os respectivos sistemas operativos, como se de uma comunidade igualitária se tratasse).3

Samantha:

– Será que os sentimentos são reais ou só programados?

Theodore:

– Tu és real para mim Samantha.4

De forma a evitar a solidão, Theodore vive uma relação como a que nunca conseguiu ter com um ser humano e isto porque, ao contrário do homem, um sistema operativo não tem ou implica pressão social, problemas com idade, confiança ou comprometimento.

Em perspectiva, é possível perceber algumas das “chamadas de atenção” que o escritor e realizador Spike Jonze pretende dar a conhecer, ao mostrar ao público geral a percepção das possíveis implicações que uma inteligência artificial poderá ter na vida humana. Por maiores e melhores que sejam os aspectos positivos descritos actualmente, haverá sempre confrontações com a verdadeira imagem e comportamento humano, principalmente quando é visível uma inversão de papeis, onde o humano age com maior espontaneidade, curiosidade, calma e naturalidade com um aparelho móvel e inerte, do que com um ser humano, sendo que este objecto com uma voz associada acaba por se tornar a parte viva de todo o enredo e história.

3 É curioso que durante todo o filme, apenas tenha havido um momento de interrogação, face à realidade apresentada pela personagem principal: uma criança que considera estranho, mas também engraçado, que exista a possibilidade de haver uma relação entre humanos e uma voz, que se encontra dentro de um pequeno aparelho tecnológico.

CARTA |The People Walker Qual o preço para se ter companhia?

A empresa The People Walker 1criada em 2016 em Los Angeles, Estados Unidos da América, idealizou um serviço que, com o pagamento de cerca de vinte e cinco euros, é possível ter companhia por uma hora de passeio em diferentes zonas da cidade norte-americana. Segundo a empresa, são cada vez mais as pessoas que procuram esta experiência, devido à incompatibilidade de horários e poucos momentos disponíveis para se fazer uma actividade de carácter espontâneo com colegas e amigos, por mais que estes se traduzam às centenas ou milhares nas redes sociais. Como explicou um dos trabalhadores, é como se usássemos um cobertor, mas mesmo assim nos sentíssemos frios,2 uma vez que a realidade tecnológica de contacto entre pessoas através das redes sociais e aparelhos tecnológicos levam a um cada vez maior distanciamento da relação física entre as mesmas. A realidade da virtualidade – que está a aumentar face à cultura global do individualismo – poderá tornar-se num fruto imaginativo e especulativo social de aparente conexão pessoal.

1 https://www.thepeoplewalker.com/ 2 Ibidem.

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A imagem apresentada exibe um elemento visual publicitário, onde são visíveis questões que interrogam a realidade do comportamento humano actual, como “não quer ser visto a caminha sozinho, de forma a não ser entendido que não tem amigos?” Com apenas uma marcação, é possível arranjar uma “companhia”, que neutralizará a imagem real associada a cada vez mais indivíduos.