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“Um trabalho a ser feito que é feito no processo de fazê-lo”25. Retomo

tal citação que tantas vezes recorri para descrever meu processo artístico, mas agora sob outra ótica. Encontro-me no meio da pesquisa e, nesse momento, inicio um movimento de recuo, para refazer meu percurso até aqui. Volto-me, ao primeiro ensaio, quando ainda falava sobre intenções tateantes, de uma escrita que seria feita no presente, a partir do que o próprio tempo ofereceria no seu movimento. No entanto, embora tenha me colocado, nessa pesquisa, aberta ao tempo presente, ao trabalho que é feito no processo de fazê-lo, percebo agora que talvez não estivesse tão preparada como havia imaginado. Mas ainda, de alguma forma, sinto-me reconfortada pelo caminho assumido, pois é um caminho acolhedor, e embora tenha que retornar, não precisarei refazê-lo, mas apenas tomar alguns desvios26 para continuar

em direção ao objetivo traçado, com o cuidado de não perder-me nesse meio. Surge a insegurança e as dúvidas sobre os desvios a serem tomados e mesmo que façam-se necessários, eles só serão possíveis porque acredito ter chegado a algum lugar até aqui, pois “quando não

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Auster, 1982, p.92

26 Desvio por ainda ter um objetivo em vista, adiando assim, pelo menos nesse

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se vai a parte alguma não existe a possibilidade de desvio.”27 Abandonar

as expectativas iniciais de qualquer pesquisa, diminuir a intensidade e minimizar os desejos e intenções para torná-la possível. Assim, ainda que tenha que recuar para prosseguir, percebo que não é algo tão intimidante. O retorno não como negativo, assim como o conceito filosófico de Nietzsche do eterno retorno28

, defendido por muitos

através da ideia de “que não há o retorno do negativo [...] só pode voltar aquilo que tem força de voltar sempre”29. Assim, encontro-me no momento, em meio a um grande movimento de recuo, até mesmo nauseante, mas necessário, pois a pesquisa, assim como o conhecimento “aprendeu uma coisa sobre si mesmo: que é antes de tudo, movimento.”30

No primeiro ensaio, listei uma série de motivos que me levaram a escolha dessa forma de escrita. Nessas mesmas motivações indicadas no início da pesquisa também encontro, agora, os possíveis caminhos

27 Audouze-Cassé-Carriere, 1991, p.220.

28“O Eterno Retorno é um conceito não acabado em vida pelo próprio Nietzsche,

trabalhado em vários de seus textos, que diz respeito aos ciclos repetitivos da vida. O eterno retorno significa que o ser é seleção. [...] A partir daí é formulada a ideia de um eterno retorno do outro, concebido como ser do devir, um do múltiplo, necessidade do acaso, em suma, retorno da diferença. [...] Apenas subsiste e retorna aquilo que se dispõe a retornar sempre. Aquilo que se quer apenas uma vez, uma última vez e nunca mais, não passa de um meio-querer, de um querer fraco. Este é eliminado. Nesse sentido, é o tempo. [...] O pensamento do eterno retorno opera como uma prova. [...] não se trata apenas de uma seleção eliminatória, mas também transmutadora. Não só elimina o que não resiste, mas transmuta aquilo que resiste.” [...] A doutrina do eterno retorno como pensamento ético, onde o infinito do querer no tempo opera a seleção daquilo que volta – e só pode voltar aquilo que tem força de voltar sempre, com o que já volta transmutado.” (p.134). Sendo o ser seleção, o eterno retorno só faz entrar no ser aquilo que nele não pode entrar sem mudar de natureza.” PELBART, Peter Pál. O tempo não reconciliado: imagens de tempo em

Deleuze. São Paulo: Perspectiva, 2007.p.135) 29Pelbart, 2007, p.132-4.

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que tomarei para prosseguir. Motivos que refletem tal momento de minha pesquisa e também sinalizam possibilidades de contornos. Assim, entre tantos motivos que mencionei, reafirmo o ensaio como meio, porque acolhe o fracasso; porque recua; porque tropeça; porque abandona; porque é inseguro.

Nesse mesmo texto inicial, citava Larrosa (2004) ao descrever o ensaio como uma operação, sobre “o que acontece ao pensamento quando ensaia, e à escrita, e à vida; sobre porque, às vezes, o pensamento e a escrita e a vida ensaiam, se fazem ensaio” (p.32). Assim me sinto, abarcada por tal operação em pensamento, escrita e vida ensaiando-se ao mesmo tempo.

A descoberta de uma gravidez em meio a pesquisa, na qual me encontrava envolvida, em pleno processo de escrita, produção artística e ensaiando novos trabalhos. Por mais que pensasse que estava preparada para possíveis surpresas que esse tempo presente poderia oferecer-me, descobriria uma vulnerabilidade que me afetaria como um todo, em pensamento, vida e escrita.

Num primeiro momento, até imaginei que tal situação não afetaria diretamente meu processo de pesquisa, que seguiria seu fluxo e continuaria minha produção, apesar das possíveis transformações que seguiria na minha vida. No entanto, descobriria que atingiria diretamente meu processo de pesquisa quando percebi que não poderia dar continuidade ao meu objeto de estudo como havia vislumbrado, pois meus trabalhos exigiam do meu corpo um envolvimento que em tal situação não me permitiria. Todos os vídeos

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tratavam de ações que envolviam algum tipo de risco físico, como correr na série Ponto de Fuga ou asfixiar-se com a poeira na série Ensaio

sobre a Poeira, além de outras circunstâncias que envolvem tais ações

como insolação e desgaste físico sentido muitas vezes ao produzir esses trabalhos. Meu próprio corpo começava a modificar-se, e impedia qualquer tentativa devido ao esgotamento natural e principalmente à perda da agilidade.

A primeira sensação foi de impotência, por não poder dar continuidade com a produção das séries em vídeos, principalmente a série Ensaio

sobre a Poeira que acabara de iniciar. Passei a questionar-me como

prosseguiria minha pesquisa artística em tais circunstâncias. Que desvios deveria tomar e como acolher o fracasso a esse processo. Nesse sentido, a artista Aline Dias (2009) ao abordar o fracasso no processo artístico, descreve-o como potência, como um meio de recuperação do processo e da experiência, “o fracasso como uma espécie de licença para o novo e, sobretudo para a perda e o erro.” (p.278). Com o decorrer do tempo, comecei a aceitar a situação também como uma possibilidade para novos experimentos ainda que sentisse, nesse momento inicial, certa resistência.

Após esse primeiro momento de frustração, um momento de pausa. “Pausa para acolher; pausa para pensar; pausa para sentir com cuidado; pausa para suspender a velocidade; pausa para exercitar a lentidão, pausa para viver a experiência. Enfim, pausa para criar um espaço- tempo onde os fatos que nos acontecem possam ser experienciados”.31

31 Barcelos, 2008, p.23.

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Após a pausa, momento de ensaiar-me para o abandono. Aceitar que não poderia seguir da mesma forma e desistir de trabalhos e planos. Abandonar as séries em vídeos que estava produzindo e também abandonar novos projetos de séries que planejava produzir para próxima etapa da pesquisa e que também exigiriam um envolvimento e esforço físico, mesmo temporariamente, para que pudesse prosseguir. E assim, como o poeta Manoel de Barros versa em seus poemas, o processo de pesquisa passou a ser pertencido de abandono 32, mas pelo

abandono que protege.

Não apenas abandonar, mas recuar. Retomar antigos trabalhos e começar novos trabalhos que pudessem adaptar-se a tal situação e suas limitações. Um acontecimento que me fez experienciar de fato o que seria ensaiar a si próprio.

Um processo de adaptação e aprendizagem. Montaigne (2010), ao escrever sobre mudanças de percurso, escreve sobre esse processo: "Devo adaptar minha história ao momento. Breve poderei mudar, não só por acidente, mas também por intenção. É um registro de ocorrências diversas e mutáveis, de ideias indecisas, e se calhar, contrárias: seja que sou outro eu mesmo, seja que apreendo os assuntos por outras circunstâncias e considerações. Tanto assim que talvez me contradiga.” (p.346)

Inicialmente, resisti escrever este breve ensaio. Um ensaio sobre uma experiência particularmente pessoal, sem intenções e reflexões

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fundamentadas. Mas, a experiência, como Montaigne (2010) refere-se, também é um meio de “chegar ao conhecimento na falta da razão” (p.512). Assim me sinto, sem muita razão. Mas como ignorar uma situação que atinge diretamente este processo de pesquisa? Que me faz pausar, mesmo não querendo. Que me obriga desacelerar, pois meu corpo não permite qualquer tipo de aceleração, mesmo desejando o oposto. Que me desfoca, nauseia e invalida em muitos momentos. Que me impede de prosseguir, que me obriga interromper, ausentar-me do próprio processo, abandonar fluxos de pensamento e afastar-me do trabalho por longos períodos. Assim, sinto a necessidade de expor todas as fragilidades do processo, pois está “tarefa é a de pesquisar, descobrir, se possível, mas é, também, a tarefa de relatar essa busca.”33

Mesmo que essa busca seja cambaleante. Assim, nesse momento, “não posso ter certeza de meu objeto: ele segue confuso e cambaleante, com uma embriaguez natural.”34