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A primeira página do livro (13) já expõe o que será seu tom principal: um misto de narrativa e reflexão que se intercalam no correr das vivências dos personagens. O livro se inicia por uma vírgula, a que se segue um relato de atividades corriqueiras, como aquelas da empregada ou a arrumação das frutas. A narrativa irrompe no seio da vida cotidiana de Lóri. Esta primeira página já revela, também, o fio condutor da narrativa, qual seja a relação entre Lóri e Ulisses, caracterizada pelo fato de este esperar que Lóri “aprenda” alguma coisa para que esteja pronta para ser sua mulher. Ao final desta página inicial, Lóri, ao se perguntar sobre o que ele espera que ela saiba, além de viver a “possibilidade futura de por exemplo embelezar uma fruteira” (13), pensa que ele “queria ensinar-lhe a viver sem dor apenas” (13), e se lembra de que “ele dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome, não respondesse ‘Lóri’ mas que pudesse responder ‘meu nome é eu’, pois teu nome, dissera ele, é um eu” (13).

Uma outra face da aprendizagem é a liberdade: Lóri pensa que Ulisses espera dela que “aprendesse a andar com as próprias pernas e só então, preparada para a liberdade por Ulisses, ela fosse dele” (16). A liberdade, então, é o outro lado do que Lóri deve aprender; deve encontrar-se como um eu próprio, mas isto deve ser feito em liberdade.

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O caráter mais explícito da aprendizagem, todavia, como já diz o título da obra, é a descoberta do prazer. Entretanto, como já apontava uma das epígrafes do livro – “Provo.../Que a mais alta expressão da dor.../Consiste essencialmente na alegria...202” (5) – o prazer e a dor são inerentes um ao outro; ou melhor, se a dor é evitada, evita-se também o prazer. É assim que podemos entender que Lóri, antes de conhecer Ulisses, “havia por medo cortado a dor” (40) e que, conseqüentemente, aceitar a dor faça parte de sua aprendizagem. Ela, que “vivia de um estreitamento no peito: a vida” (40), para plenamente viver e amar deverá abrir-se à alegria através da dor, esta já conhecida e negada. O medo surge, então, como força que se opõe à aprendizagem. A vivência plena do amor exige que se permita à sensibilidade sua expressão também plena, o que se dá no risco da dor. E também no risco imposto pela intimidade: Lóri chegava a desejar se entregar logo a Ulisses, apenas com o corpo, para assim evitar a “intimidade de alma” (41) que se anunciava e que seria também intimidade com a própria alma. Desta forma, Lóri “estaria na verdade lutando contra a sua própria vontade intensa de aproximar-se do impossível de um outro ser humano” (41). Abrir- se ao outro é, então, um abrir-se a si mesma e à própria experiência sensível, o que amedronta e atrai. É ainda, abrir-se ao mundo, pois, ao cortar a dor, havia estabelecido uma ruptura em relação ao mundo: “Sem a dor, ficara sem nada, perdida no seu próprio mundo e no alheio sem forma de contato” (40). O medo que retarda o processo, entretanto, não é apenas o medo

202 Versos de Augusto dos Anjos, tal como citados por Clarice. Os versos fazem parte do poema “Monólogo de

uma sombra” (ANJOS, Augusto dos. Poesia. Org. de Antônio Houaiss – Coleção “Nossos clássicos”. Rio de Janeiro: Agir, 1968, pp. 13-32; os versos citados se encontram na página 30); reproduzo aqui sua forma completa, reduzida por Clarice: “Provo desta maneira ao mundo odiento/Pelas grande razões do sentimento,/Sem os métodos da abstrusa ciência fria/E os trovões gritadores da dialética,/Que a mais alta expressão de dor estética/Consiste essencialmente na alegria.”. Ver NOLASCO, Edgar Cézar. “Quando a moeda literária vale 1,99 no mercado clandestino de Clarice Lispector”. In: Revista brasileira de literatura comparada, n° 6, Belo Horizonte, 2002, pp. 99-107, para um comentário a respeito dos métodos de Clarice ao incluir passagens de outros autores em suas obras. Ver também seção 1.4 acima.

da dor, é também um vago receio de “ir longe demais” (41). Vejamos um trecho um pouco mais longo:

Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe onde. Ela se guardava. (...) Era um certo medo da própria capacidade, pequena ou grande, talvez por não conhecer os próprios limites. Os limites de um ser humano eram divinos? Eram. Mas parecia-lhe que, assim como uma mulher às vezes se guardava intocada para dar-se um dia ao amor, que ela queria morrer talvez ainda toda inteira para a eternidade tê-la toda (41-42).

Algumas idéias ressaltam deste trecho. Em primeiro lugar, a imagem do cavalo: é a força primitiva203, animal, que surge como condutora de Lóri em seu percurso. Ela não se conduz, ou pelo menos não se vê como condutora. E, mais, o destino também não foi traçado por ela, nem mesmo pelo cavalo: este a conduzirá para “Deus sabe onde”. Sem desconsiderar que se trata de uma expressão popular, é impossível aqui não refletir sobre seu sentido literal. Deus é quem sabe o destino, ou seja, Lóri se vê como quem tenta segurar as rédeas de um cavalo que, se galopasse livre, a levaria para um destino conhecido apenas por Deus204. Tal interpretação se confirma na seqüência do trecho citado, em que aparece a referência aos limites do humano: é o divino que configura estes limites; ou seja, Lóri teme a aprendizagem porque esta pode levá-la para além de si mesma, para um defrontar-se com o que a ultrapassa radicalmente. E, por fim, temos a associação entre o amor ao homem e a entrega à eternidade,

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Imagens de animais são constantes na obra de Clarice Lispector como um todo, aparecendo como uma das faces da alteridade na dinâmica do humano. Associadas à idéia do “selvagem coração”, parecem personificar a origem natural da força primeva que movimenta o humano.

204 Esta imagem configura as duas pontas do terreno da alteridade por onde transitam os personagens de Clarice:

que trabalharei com mais cuidado na seção 3.4, dedicada à sacralização do corpo. Cabe aqui adiantar que o percurso de Lóri permitirá que ela se entregue à eternidade no seio mesmo de sua vida comum, e não, apenas na morte, além da vida, como ela parece pressupor neste ponto.

Um outro momento de explicitação do caráter da aprendizagem pretendida se dá logo após a oração205 (56) de Lóri, quando o narrador aponta que o que ela buscava era “o seu melhor modo de ser, o seu atalho” (56-57) e que sabia “que quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria a salvo e pensaria: eis o meu porto de chegada. (...) Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar no mundo” (57). O caminho de Lóri, portanto, se apresenta como uma busca de si que, entretanto, não é um fim em si mesma; de si deverá passar ao outro.

Podemos então pensar que o que se promete com a anunciada aprendizagem de Lóri é um projeto ético/antropológico de realização de si em meio ao mundo. Lóri está diante da tarefa de se tornar um “eu”, isto é, de encontrar sua própria identidade, assim como de fazer isso em liberdade e em relação para com o mundo e para com o outro, para só assim ter a chance de entregar-se em amor a Ulisses. Trata-se de um percurso difícil e doloroso, pois marcado pela presença do medo; medo este que aponta para o imprevisto encontro com o sagrado e com o que este contém de mistério e enigma.

Veremos, deste modo, como esta tarefa será cumprida, ao longo do romance, através de uma relação estabelecida com o absolutamente outro, que é a divindade, e como isto se dá no comum da “vida-a-vida”206 de Lóri.

205 Esta oração, que aparece duas vezes ao longo do romance, será explorada na seção 3.2. 206