A área de trabalho abrange a porção nordeste do estado de Minas Gerais e parte do sudeste do estado da Bahia, sendo limitada a sul e norte pelos paralelos das cidades de Vitória da Conquista e Araçuaí e pelos meridianos das cidades de Francisco Sá e Itapebi (Figura 1.2).
O acesso a estas cidades, a partir de Belo Horizonte, pode ser feito pelas BR 381 e BR 116 em direção à Vitória da Conquista (distância de 840 km). Para se chegar às outras cidades, tomam-se estradas a partir da BR 116: para Araçuaí, vira-se para a BR 367 (distância de 621 km); em direção a Janaúba, vira-se a BR 251 para oeste e, em seguida, a BR 122 (distância de 1042 km); para Encruzilhada, toma-se a BR 251 à leste (distância de 851 km). A partir de Araçuaí, chega-se a Salinas pela BR 342 (distância de 140 km). De Salinas chega-se a Francisco Sá pela BR 251 (distância de 198 km) e a São João do Paraíso pela MG 404 (distância de 149 km).
A área estudada encontra-se inserida na articulação de folhas 1:100.000 executadas pelos projetos de mapeamento “Espinhaço”, “Leste” e “Norte de Minas”, da CODEMIG em parceria com diversas universidades.
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Figura 1.2. Localização da área de estudo e principais vias de acesso a ela, apontando a articulação de folhas de
mapeamento realizadas sobre a região. A, Araçuaí; VL, Virgem da Lapa; RU, Rubelita; S, Salinas; FS, Francisco Sá; T, Taiobeiras; RPM, Rio Pardo de Minas; MO, Mortugaba; SJ, São João do Paraíso; C, Cordeiros; Tr, Tremedal; BC, Belo Campo; CS, Cândido Sales; IT, Itambé; E, Encruzilhada; IP, Itapetinga.
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CAPÍTULO 2
SALIÊNCIAS: ASPECTOS GEOMÉTRICOS E GENÉTICOS
2.1 – INTRODUÇÃO
Os primeiros trabalhos a respeito de curvas descritas por cadeias de montanhas remontam ao século XVIII e muitas das hipóteses levantadas servem de base para novos estudos até hoje (vide Dana 1866, Wegener 1929 apud Marshak 2004, Wilson 1949, 1950). Em meados do século XX, Carey (1955 apud Marshak 2004) sugeriu pela primeira vez que tais curvas poderiam se formar pela rotação de blocos crustais, um em relação ao outro, cunhando o termo “oroclíneo” para designar curvaturas de cinturões orogênicos geradas pelo dobramento de uma estrutura originalmente linear.
A partir de década de 80, quando os geólogos começaram, então, a estudar sistemas de subducção, foram realizados muitos trabalhos sobre curvas formadas em cinturões externos dos orógenos, a fim de entender aspectos cinemáticos da evolução do sistema orogênico como um todo ou solucionar várias outras questões (e.g. Schwartz & Van der Voo 1983, Marshak 1988, Macedo & Marshak 1999, Paulsen & Marshak 1999, Ribeiro 2001, Sparggins & Dunne 2002, Rolim & Alkmim 2004,Weil & Sussman 2004, Ghiglionee & Christallini 2007, Williams et al. 2009, Cawood et al. 2011, D’el-ReySilva et al. 2011, Pastor Galán et al. 2011, Li et al. 2012, Chatzaras et al. 2013, Weil et al. 2013, Mochales et al. 2014, Whisner et al. 2014, Reis & Alkmim 2015, Szaniawski et al. 2017, dentre outros). Em Macedo & Marhsak (1999) e Marshak (2004) é elaborada uma extensa revisão sobre curvas formadas em orógenos, com enfoque especial para as saliências. A terminologia estabelecida e os aspectos genéticos abordados por estes autores serão base para este e demais capítulos do presente trabalho.
Do ponto de vista morfológico, discriminam-se as seguintes categorias básicas de curvas descritas pelos cinturões: i) saliências ou curvas antitaxiais, cuja convexidade fica voltada para o antepaís; ii) recessos ou curvas sintaxiais, cuja concavidade fica voltada para o antepaís; iii) sintaxes, que correspondem a recessos extremamente pronunciados; e iv) protuberâncias, que correspondem a saliências igualmente muito proeminentes.
Do ponto de vista cinemático, as curvas dos cinturões orogenéticos são classificadas em rotacionais (ou oroclinais), e primitivas (ou irrotacionais) (Figura 2.1). As primeiras são curvas produzidas em segmentos originalmente retilíneos ou de baixa curvatura por novos processos atuantes no curso da evolução dos cinturões. Já as curvas primitivas são aquelas que assim já nascem e assim permanecem. Neste caso, a curvatura é na maioria das vezes controlada pela geometria da bacia na qual
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se desenvolve, pela espessura do pacote sedimentar envolvido, ou pelo coeficiente de fricção do descolamento basal que a limita (Macedo & Marshak 1999).
Em cinturões curvos, nos quais a rotação vertical reorienta as tramas estruturais, há uma complicação em termos de reconstrução de paleotensão e paleodeformação e, portanto, da evolução cinemática. Integrando-se um múltiplo conjunto de dados, como, por exemplo, padrões estruturais mesoscópicos, anisotropia de susceptibilidade magnética, análise de conjuntos de juntas, análise de geminação de calcita e paleomagnetismo, limitações de algumas metodologias podem ser minimizados e modelos robustos podem ser formulados (e.g. Weil et al. 2013).
Neste capítulo, apresenta-se uma síntese sobre os principais atributos geométricos e evolução dos setores curvilíneos das zonas externas dos orógenos, isto é, dos cinturões metamórficos e de antepaís. Esta abordagem engloba os principais padrões de deformação e cinemática no interior das curvas e os processos genéticos e fatores controladores.
Figura 2.1. Diferença entre curvas rotacionais e irrotacionais: a) partículas fazem trajetórias curvas, indicando
dobramento oroclinal, b) trajetória reta das partículas onde os empurrões no Tempo 1 já nascem curvos, seguindo assim. Modificado de Marshak (2004).
2.2 – TERMINOLOGIA
A fim de delimitar o significado dos principais termos utilizados para descrever as curvas que os cinturões orogênicos exibem em mapa, Marshak (2004) realizou uma revisão da terminologia usada na literatura até então. Termos e conceitos principais são apresentados na Tabela 2.1. Com relação à geometria geral das curvas antitaxiais, Macedo & Marshak (1999) e Marshak (2004) classificam-nas, de acordo com a morfologia da frente orogênica, como parabólicas, de frente reta ou irregular, simétricas ou assimétricas (Figura 2.2). Em função da forma dos seus traços estruturais internos, as curvas são
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classificadas em paralelas, convergentes nas terminações, convergentes em uma terminação, divergentes ou truncadas (Figura 2.3).
Tabela 2.1. Terminologia aplicada a curvas descritas em mapa pelos cinturões orogenéticos (cf. Macedo &
Marshak 1999, Marshak 2004). Termo Conceito Terminologia básica (Figura 2.4a,b) Saliência (ou curva antitaxial)
Curva cuja convexidade fica voltada no sentido do transporte tectônico.
Recesso (ou curva sintaxial)
Curva cuja convexidade fica voltada no sentido contrário ao do transporte tectônico.
Oroclinal ou curva rotacional
Curva formada através de uma rotação progressiva de um setor do cinturão cujo traçado era originalmente retilíneo.
Curva primitiva (ou irrotacional)
Segmento originalmente curvilíneo de um cinturão orogenético e que se mantém curvilíneo ao longo da sua evolução.
Terminologia relativa à profundidade da estrutura Curva epidérmica (“Thin-skinned”)
Curvas que envolvem apenas rochas localizadas acima de uma superfície de descolamento de referência.
Curva endodérmica ou que envolve o
embasamento (“Thick-skinned”)
Curvas que envolvem estruturas profundas enraizadas no embasamento reológico do cinturão e até mesmo toda a crosta.
Terminologia relativa às margens
continentais (Figura 2.4c)
Promontório Protrusão da margem continental em direção ao oceano. Reentrância
(ou embaiamento) Baía ou curvatura da margem cuja convexidade fica voltada para o
interior do continente. Termologia relativa à geometria da curva (Figura 2.4d) Frente orogênica ("leading edge")
Traço em mapa da linha mais avançada um cinturão orogenético.
Ápice Ponto no qual a frente orogênica possui o menor raio de curvatura. Terminações
(endpoints)
Pontos de referência que marcam os extremos da curva.
Linha de referência (RL)
Reta que une as terminações de uma curva.
Amplitude (A) Distância entre o centro da linha de referência e o ápice da frente
orogênica.
Charneira Setor que engloba menores raios de curvatura do arco descrito pela frente
orogênica.
Flancos ou limbos Setores dos menores raios de curvatura do arco. Ponto médio Ponto médio da distância entre as terminações. Linha medial Linha que une o ápice ao ponto médio.
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Figura 2.3. Padrões de linhas dentro das saliências: a) paralelo; b) convergente em ambos finais; c) convergente
em um dos pontos de terminação; d) divergente; e) truncado em um dos pontos de terminação; f) internamente caótico (Macedo & Marshak 1999).
Figura 2.4. Contraste entre: a) curvas rotacionais (oroclinais); e b) irrotacionais, em ambos mostrando a variação
das direções das curvas (segmentos pequenos de linha). c) Terminologia básica para descrever curvas em escala de mapa e diferença entre promontório e reentrância. Modificado de Marshak (2004). c) Elementos geométricos de uma curva (cf. Macedo & Marshak 1999).