Vários estudos foram realizados sobre a vida e a obra de poetas populares que, segundo Ângela Grillo, quando inserida em um contexto histórico e compreendida a partir de
referenciais analíticos, contribui para preservar a memória social.84 A autora se propõe a fazer um levantamento de importantes poetas que representaram a história nos folhetos de cordel, tomando, como exemplo, as biografias de Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista, João Melchíades Ferreira da Silva, João Bernardo da Silva, João Camelo de Melo Rezende, José Gomes, José Pacheco da Rocha, Manuel Cabloco e Silva e Silvino Pirauá de Lima.85 Mas nenhum estudo chegou a ser tão completo como o de Átila Almeida e José Alves Sobrinho, que durante anos de pesquisas e em contato com poetas e seus leitores em andanças pelo país, conseguiram montar um dicionário Bio-bibliográfico reunindo poetas de A a Z e suas respectivas obras.86
Em estudo recente, José Alves Sobrinho apresenta, em sua obra intitulada
Cantadores, Repentistas e Poetas populares, um estudo, uma síntese dos principais poetas populares que foram cantadores, poetas populares que não foram cantadores, poetas eruditos que escreveram cordéis, poetas populares editores, que possuíram impressoras, bem como apresenta uma lista de mulheres que se destacaram como poetisas e cantadoras repentistas.87 Outros autores, já mencionados ao longo do texto, em suas pesquisas apresentaram listas de poetas que nos presentearam com seus versos, a saber: Joseph Luyten , Márcia Abreu, Ruht Terra e Marinalva Lima.
A maioria desses poetas nasceu na zona rural, pertencentes a famílias de pequenos proprietários ou de trabalhadores assalariados. São geralmente semi-analfabetos, podendo ler e escrever. Alguns não tiveram instrução formal, outros aprenderam a ler com parentes, amigos e desconhecidos. Lessa, conforme citado por Márcia Abreu, nos relata que
84 GRILLO, Maria Ângela de Faria. A arte do povo: Histórias na Literatura de cordel (1900-1940). Op. Cit. p.41. 85 Idem, p. 41-74.
86 Cf. ALMEIDA, Átila de e ALVES SOBRINHO, José. Dicionário Bio-bibliográfico de poetas populares. 2.
ed., ampl., e reform. Campina Grande PB:UFPB-Campus II, 1990.
Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde produziram versos sem saber ler. Muitos tentaram a vida profissional, mas assim que produziam e vendiam seus folhetos acabavam abandonando o emprego para dedicar-se à poesia. E, dessa forma, deixavam o campo e passavam a morar na cidade, onde, segundo Márcia Abreu, compunham, editavam e vendiam suas obras.88
É muito comum encontrarmos estudos que apresentam o poeta como a “voz do povo”89 ou como cita Cascudo:
Essa Literatura Popular é reflexo poderoso da mentalidade coletiva em cujo meio nasce e vive, retrato do seu temperamento, predileções, antipatias, fixando o processo de compreensão, do raciocínio e do julgamento que se tornará uma atitude mental inabalável.90
Acerca deste tema, Marinalva Lima nos traz uma contribuição ímpar na sua tese
Loas que carpem: A morte na Literatura de Cordel quando nos chama à atenção para o fato de que se propagou uma visão simplista do poeta e sua produção, na qual se transmite, por meio de seus versos, as idéias das camadas populares. A autora nos alerta que é preciso levar em conta a comunidade na qual o poeta está inserido, a visão deste em relação à sociedade e sua produção.91 Não é simplesmente pelo fato de estar ligado ao povo que se deve ter uma visão genuína do fato; muitos poetas consideram-se diferentes dos demais membros sociais, por terem um “dom” especial, afirma Lima. Esta também nos apresenta uma discussão em torno da idéia de “popular”, visando entender a maneira como, nas práticas, nas representações ou nas produções, se cruzam e se imbricam diferentes formas culturais.
Candance Slater92 faz sua análise para este caso mencionado anteriormente, mostrando que o poeta produz versos visando também ao dinheiro, até porque é um meio de ganhar a própria vida e sustentar a família. Outros afirmam que os versos, muitas vezes, são ajustados de acordo com o que o cliente quer, atendendo às necessidades e aos desejos de seu público. Contudo, afirma Slater, o fato de fazer verso agradando o povo não o torna uma pessoa mentirosa ou falsa, muito pelo contrário: é preciso saber ter clareza no que se está fazendo.
Estas análises são importantes, pois desmistificam a idéia de que tudo é produzido para o povo, como se os versos cordelianos expusessem a cosmovisão popular,
88 ABREU, Márcia. História de cordéis e folhetos. Op. Cit. 93-94. 89 MACHADO, Franklin. O que é Literatura de Cordel ? Op. Cit. p. 124. 90 CASCUDO, Luís da Câmara. Cinco Livros do povo. Op. Cit, p.12-13.
91 LIMA, Marinalva Vilar de. Loas que carpem: a morte na literatura de cordel. Op. Cit. p.39. 92 SLATER, Candance. A vida no barbante: a literatura de cordel no Brasil. Op. Cit. p. 181-206.
quando, na verdade, o que se percebe é que precisamos ter uma compreensão mais aprofundada do tema, levando-se em conta uma relação mais detalhada entre autor, obra e público. As próprias histórias são válidas dentro de uma esfera especial, limitada e identificável, conclui Slater.
Em relação aos leitores/ouvintes, Luyten, em sua obra A notícia na literatura de
cordel93 nos traz uma contribuição no tocante à percepção da importância que os folhetos noticiosos, ou folhetos de época, assumem diante de seu público. Ressalta o folheto e seu papel jornalístico na medida em que as notícias que são veiculadas em jornais, rádio ou na televisão, são versificadas, tornando-as melhor compreendidas por aqueles que utilizam o cordel como meio de informação.
Curran, por sua vez, nos chama a atenção para o público que compra este folheto, pois geralmente é formado por pessoas que gostam de ler as histórias versificadas ou solicitam que alguém realize a leitura, geralmente nas horas vagas. Na feira, nas casas, nos engenhos, nos saraus, nos grupos de amigos, ler o cordel é algo prazeroso, principalmente se for em voz alta, pois ajuda a memorizar as histórias.94
Ainda neste aspecto, Ana Maria Galvão95 desenvolveu uma pesquisa analisando a relação leitor/ouvinte enfocando a importância que estes folhetos desempenham em sua relação com o processo de aprendizagem e suas práticas culturais. Segundo Galvão, a leitura
e a audição de folhetos também cumpria, assim, um “pape”’ educativo, em relação a uma
sociedade caracterizada pelas altas taxas de analfabetismo, levando muitos a aprender e desenvolver suas habilidades de leituras.
Em síntese, é preciso considerar que os folhetos estão relacionados com o seu tempo e seu ambiente sócio-cultural, onde, por sua vez, os consumidores indicam as temáticas que mais lhe interessam, mantendo, assim, sua produção no mercado consumidor. Afirma Marinalva Lima que o poeta fala ou escreve para um público determinado, buscando
recursos de linguagens a ele adequado, bem como versejando sobre temas que mais lhe convém.96
93 LUYTEN, Joseph M. A noticia na literatura de cordel. São Paulo. Estação Liberdade, 1992. 94 CURRAN, Mark J. A literatura de cordel. Op. Cit. p. 19-20.
95 GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. Cordel: leitores e ouvintes. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, p.109. 96 LIMA, Marinalva Vilar de. Loas que carpem: a morte na literatura de cordel. O. Cit. p. 61.