A coleta de dados, que ocorreu dos meses de março a junho de 2009, foi empreendida por meio das técnicas de observação participante com registro em diário de campo e de entrevista semiestruturada. A escolha das mesmas se justificou pelo entendimento de que havia a necessidade de contextualizar e conhecer em profundidade o meio a ser pesquisado e pelos próprios objetivos da pesquisa. Desde a entrada em campo, as técnicas adotadas foram facilitadas pelo fato de a pesquisadora fazer parte da equipe do programa socioeducacional que atendia as instituições participantes da pesquisa.
O primeiro contato da pesquisadora dentro do campo de pesquisa em cada instituição se deu com uma assistente social, que forneceu dados sobre o histórico e funcionamento da organização, bem como sobre as crianças e adolescentes acolhidos naquele período. Em seguida, as visitas para a observação participante foram realizadas, as quais haviam sido previamente agendadas. Solicitava-se que ocorressem em um dia em que o pai e/ou a mãe social e o maior número de acolhidos possível estivessem presentes na casa lar. Além disso, a pesquisadora pediu que fosse avisado aos pais sociais que o objetivo dessa visita era conhecer a rotina de funcionamento de uma casa lar, sem que soubessem que alguns deles participariam posteriormente das entrevistas.
Conhecer o cotidiano dos pais sociais e o contexto onde estavam inseridos foi possível por meio da técnica da observação participante, pois ela consiste na presença do pesquisador nas atividades habituais do campo da pesquisa (MARCONI; LAKATOS, 2007). Em relação a isso, Minayo (2006) enfatiza que a coleta de dados no próprio contexto de atuação ou de vida dos participantes permite ao observador estar em uma relação face a face com eles, participando de seu cenário cultural, modificando e sendo modificado por esse contexto.
Outro objetivo da observação participante foi descrever comportamentos, interações, dinâmicas relacionais e particularidades específicas da atuação desses profissionais no campo de pesquisa. A rotina deles no interior das casas lares e também no espaço externo da instituição, como no caso da instituição 2, foi devidamente acompanhada. Interações dos pais sociais com as crianças e adolescentes e com outros profissionais da instituição, técnicos e cuidadores, foram observadas.
A pesquisadora participou de almoços e lanches da tarde, acompanhou a realização de tarefas domésticas pelas mães sociais – como cozinhar, lavar e passar roupas – e de manutenção da casa, por um dos pais sociais
participantes, que lavava uma parede. Momentos de interação e de brincadeira entre as crianças foram observados, as quais convidavam a pesquisadora para participar, como em jogos de bola e de dominó. A leitura de histórias em uma das casas também aconteceu a pedido de um grupo de crianças. Em alguns momentos, a pesquisadora solicitava informações aos pais sociais sobre o funcionamento da casa e de sua rotina de atividades, ou eles mesmos iniciavam a conversa, demonstrando interesse por relatar sua vivência na instituição.
A descrição do que era observado ocorreu pelo registro cursivo em diário de campo, o que possibilitou um maior detalhamento dos eventos, além da apreensão de elementos implícitos no contexto da pesquisa (MORÉ; CREPALDI, 2004). O diário de campo utilizado foi composto por Registros de Campo e Registros do Pesquisador. O primeiro contemplou descrições sobre as situações e os eventos observados, identificando o contexto em que aconteceram, quem estava presente, como as pessoas envolvidas agiram. Os contextos físico e social, bem como aspectos de comunicação verbal e não-verbal, comportamentos e emoções percebidos nas pessoas presentes foram apontados. Os Registros de Campo ocorreram durante as visitas às instituições, em momentos em que a pesquisadora não estava em interação com os presentes, ou logo após as visitas.
Os Registros do Pesquisador, que se constituíam por reflexões, sensações e impressões sobre o contexto observado, foram realizados após a observação propriamente dita. Conforme afirma González Rey (2002), o pesquisador como sujeito produz ideias ao longo da pesquisa e serão fundamentais na construção de sentidos que sustentarão as análises posteriores.
A técnica da observação participante aconteceu entre os meses de março a maio de 2009, e a intenção inicial era realizá-la em todas as casas lares das três instituições participantes. Na instituição 1, ambas as casas lares foram visitadas. Na 2, as quatro casas foram visitadas, e a pesquisadora participou de um almoço com as crianças, adolescentes e funcionários do abrigo. Já na instituição 3, que possuía quatro casas lares em funcionamento, foi possível fazer a observação em duas delas. A razão exposta pela instituição para a impossibilidade de visitar as outras duas casas foi a entrada de uma mãe social nova, o que alterava a organização e a rotina da instituição como um todo.
Logo após o encerramento das observações em cada instituição, a pesquisadora iniciou os contatos para agendar as entrevistas com os pais sociais que atendiam o critério de participação referente ao tempo mínimo de seis meses de atuação. As entrevistas ocorreram no período de maio a
junho de 2009. A assistente social com a qual a pesquisadora havia feito contato ou o coordenador do abrigo foi quem indicou os participantes e determinou o horário mais adequado para a realização da entrevista. A pesquisadora pediu ao profissional de contato que convidasse previamente os pais sociais para esse momento e informou que explicaria os objetivos do estudo e solicitaria o consentimento do participante, antes de iniciar a entrevista.
Na ocasião das entrevistas, por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE (Apêndice B), a pesquisadora apresentou os objetivos da pesquisa, garantiu a responsabilidade pelo sigilo dos dados e afirmou que a pessoa teria o direito de desistir da participação. O TCLE foi lido e comentado para cada participante, a fim de garantir o pleno entendimento. Todos os pais sociais indicados nas instituições aceitaram participar e, após a assinatura do TCLE, a entrevista foi iniciada. A mesma foi gravada e depois transcrita, na íntegra, para que os relatos dos entrevistados fossem preservados. Ao término da entrevista foi feito o agradecimento pela participação, bem como se informou sobre a possibilidade da entrega de uma cópia da entrevista transcrita, caso fosse do interesse do participante. Da mesma forma, foi explicado que os resultados seriam apresentados à instituição, através da entrega da Dissertação de Mestrado da pesquisadora e da exposição do trabalho em momento que seria programado, caso fosse considerado interessante.
O tipo de entrevista utilizada foi a semiestruturada, a qual orienta a organização de pensamento e a expressão de sentimentos pelo entrevistado, ao mesmo tempo em que permite que ele aborde espontaneamente conteúdos relacionados aos temas propostos pelo entrevistador. Esperava-se, com isso, suscitar uma verbalização que expressasse o modo de pensar e agir dos participantes sobre os temas em foco (GHIGLIONE; MATALON, 1993).
O roteiro elaborado para a condução das entrevistas (Apêndice C) conteve questões norteadas pelos objetivos da pesquisa, bem como pelo referencial teórico adotado. O roteiro da entrevista foi composto inicialmente por questões a respeito dos dados básicos de identificação e do histórico profissional até a obtenção do emprego atual. Na sequência do roteiro, os seguintes focos temáticos organizaram a elaboração das perguntas:
- Conhecimento sobre as atividades profissionais do ponto de vista legal e de acordo com o funcionamento da instituição; - Práticas realizadas pelos pais sociais;
- Resultados percebidos pelos participantes para o desenvolvimento da criança e do adolescente a partir de suas práticas;
Especificamente sobre a temática das práticas realizadas, cabe lembrar que elas emergiram da descrição de cenas observadas e de relatos dos participantes. No roteiro da entrevista semiestruturada, existiam perguntas que buscavam investigar de modo dirigido as práticas realizadas (por exemplo, “Vocês brincam juntos? De quê?”) ou de forma tal que o discurso explicitasse as práticas utilizadas (como por exemplo, “O que vocês costumam fazer juntos?” e “Quando uma criança/adolescente faz algo positivo, como ajudar na casa, como você reage?”). Os questionamentos feitos sobre as responsabilidades dos pais sociais na instituição, na parte que investigava o conhecimento sobre a profissão, também foram úteis para a caracterização de suas práticas.
Realizaram-se as duas primeiras entrevistas com o objetivo inicial de ser um estudo piloto, possibilitando a avaliação do instrumento de coleta de dados. A partir dessa avaliação, alterou-se a ordem de algumas perguntas e se acrescentou a pergunta 49 (Quando uma criança ou adolescente
sai, porque retorna pra família ou é adotado, como você se sente?).
Cabe apontar que essas duas entrevistas foram incluídas na pesquisa pela riqueza dos dados e ainda porque o conteúdo da referida pergunta foi trazido pelos entrevistados. Como essa pergunta suscitava informações consideradas relevantes para os objetivos do estudo, ela foi acrescentada ao roteiro da entrevista.