• Aucun résultat trouvé

An Approach to Bridging The Digital Divide

A narrativa dos participantes possibilitou diferenciar cinco significados atribuídos ao que é “ser pai/mãe social”. Um mesmo participante apresentou, muitas vezes, mais de um significado para sua profissão, como pode ser visto a seguir.

O primeiro significado refere-se a cuidar de crianças e adolescentes (1.1.1)4, como demonstram os relatos abaixo:

[...] você tem que cuidar da criança, você tem que cuidar da alimentação, cuidar da saúde, cuidar da higiene. (MS4)

Ser mãe social é uma pessoa que tá cuidando, se dedicando a eles ali. (MS5)

4 A numeração entre parênteses, disposta no decorrer do texto, corresponde aos elementos de análise propostos para discussão das subcategorias. Os grifos, em alguns trechos dos depoimentos desse trabalho, são de autoria da pesquisadora para facilitar a compreensão da análise.

Três participantes relataram que ser pai/mãe social é um trabalho, no sentido profissional (1.1.2), como ilustram as falas abaixo:

Olha, ser pai social eu considero como uma profissão, né? [...] um trabalho. Só que não é um trabalho igual você for trabalhar numa máquina... (risos). É trabalhar com criança. [...] um trabalho já bem mais, que tem que ter mais jogo de cintura. [...] que você vai trabalhar com vida, né? Então você tem que saber como é que você trabalha [...]. (PS1)

[...] ser pai social é também como uma profissão que você tem sua carteira de trabalho, tem suas atividades, é registrado como pai social... (PS2) Olha, pra mim, ser mãe social é um trabalho. É um trabalho que exige muita dedicação, muita paciência (risos) [...] Eu lido muito assim com o abrigo como uma empresa. Então eu sei o que eu tenho que fazer, eu sei assim das minhas obrigações e eu procuro cumprir assim na boa, como se fosse uma empresa mesmo. Porque tem gente que acha que é missão, tem gente que acha que é caridade. [...] eu encaro como um trabalho, como empresa, como funcionária, porque a gente tem todos os direitos de qualquer funcionário, né, registrado, tudo certinho. Mas é diferenciado, né? É diferenciado porque a gente lida com as crianças e a gente acaba se apegando... Então é complicado, é diferenciado. (MS4)

Verifica-se que PS1 e MS4 avaliaram algumas características peculiares do trabalho, destacando que ele é diferenciado pelo relacionamento com os acolhidos, ou seja, por trabalharem com vidas, e existir aí um envolvimento. Em relação a essa peculiaridade, que diz respeito ao envolvimento emocional e como os pais sociais lidavam com ele, realizou-se uma discussão pormenorizada adiante, na categoria que trata das dificuldades por eles enfrentadas.

De acordo com a maioria dos pais sociais, sua profissão representava cuidar das crianças e adolescentes como se fossem filhos biológicos (1.1.3). As declarações a seguir mostram tal compreensão:

É ser mãe dos meus filhos, mãe social. É tudo, é as mesmas coisas que eu faço na minha casa é fazer aqui. [...] A única diferença é que aqui eu tenho que ter mais responsabilidade, porque as criança elas precisam muito, dependem muito da gente. (MS1)

A palavra já diz tudo, né? Pai. Pai é pra tudo, né? Pai tem que tar na alegria, na tristeza. [...] eu acho que não importa que eu não seja o pai deles biológico [...], eu tenho que fazer o melhor de mim. Como se fosse pros meus filho. (PS3) Ser mãe social é ser mãe de coração, pra mim é assim uma, é algo que não saiu de você, mas é algo que você tem a responsabilidade de cuidar, de educar como se fosse filho. Não pode diferenciar de jeito nenhum, então pra mim é isso. (MS3) [...] a gente se torna uma família. Eu me sinto aqui dentro como uma família. (MS5)

Eu gosto de fazer, porque eu faço como se fosse pros meus filhos. Como se eu fosse uma mãe deles mesmo, né? (MS6)

Mãe social é quase que mãe, mãe biológica. Porque assim, eu penso assim, que a gente tem de cuidar, e acho que é uma obrigação nossa, se a gente tá aqui pra trabalhar no papel de mãe social, eu acho que tem mesmo que cuidar das crianças daqui como se fosse filho da gente, né. [...] Por exemplo aqui, conforme assim eu cuido da minha filha, eu ajo com as outras crianças. Tipo por igual, nenhum é melhor, nenhum é pior. [...] Então eu acho que é o papel de mãe mesmo. (MS7)

Um trecho do diário de campo demonstra também essa compreensão:

A mãe social dá orientações a um menino, que deve limpar o banheiro naquele dia. O tom de sua voz é firme, porém incentivador. Parece-me uma mãe biológica falando com seu filho. Conversando com ela, conta-me que considera que os acolhidos ‘enxergam’ os pais sociais como mãe e pai mesmo.

Relata situações que viveu com adolescentes acolhidos, demonstrando que procura estabelecer relações em que existe atenção, cuidado, diálogo e apego. Fala que só com amor e dedicação um casal permanece trabalhando como pai e mãe social. (Trecho das anotações de campo – Registro

de Campo e Registros do Pesquisador, 2009).5 Essas narrativas indicam uma percepção de que há igualdade ou uma semelhança muito grande entre ser pai/mãe social e ser pai/mãe na relação com os filhos biológicos. Vale lembrar que todos os participantes possuíam filhos, o que pode ter favorecido tal comparação. Destaca-se a ênfase dada pelos participantes ao termo cuidar, refletindo uma prática na relação com os acolhidos. A prática do educar é identificada no discurso de apenas uma mãe social, MS3.

Outra compreensão apresentada por alguns participantes foi a de que ser pai/mãe social é uma ação de doação para com a criança atendida (1.1.4).

Aqui como nós trabalhamos, é vinte e quatro horas... As pessoas às vezes acham que você fica folgado, que você... Mas não é não. É uma coisa, é constante. [...] Você fica aqui porque você se doa, faz por amor. É uma, igual a gente fala, é missão. (MS2)

É dar um pouco de mim, um pouco do meu amor, um pouco de tudo praquele que necessita no momento. Um carinho, né, um abraço... (MS5)

A mãe social MS2 percebeu seu papel como uma doação e, ainda, como uma missão (1.1.5), conforme o relato anterior. O pai social PS3 também apresentou ideia relacionada à missão, ao afirmar: “se Deus me

colocou aqui, eu tenho que fazer o melhor de mim.” A esposa de PS3, a

mãe social MS3, apresentou concepção ligada à missão, como o marido:

Ó Deus, a gente quer fazer um trabalho pra Ti, né? [...] Salvar todos a gente não pode, mas

5 Todos os trechos advindos do Diário de Campo, quando transcritos para esta análise, tiveram a identificação dos participantes omitida, assim como a data específica da observação, por um cuidado ético, pois o objetivo não era avaliar condutas individuais, mas captar a totalidade do cotidiano, comportamentos e opiniões dos pais sociais.

aqueles que a gente puder [...]. Eu acho que a gente faz a parte da gente, mas ainda tem muita criança, muitas pessoas... O nosso objetivo aqui é mesmo acreditar no ser humano e olhar pra eles e pensar que você pode fazer um pouquinho por eles também. (MS3)

Para a maioria dos participantes, coexistiram duas compreensões sobre ser pai/mãe social: um trabalho ligado ao cuidar e um ato de cuidar como se fossem filhos. Essa realidade sugere confusão de papéis e ambiguidade, no sentido de que haver a percepção de que pai/mãe social constitui um trabalho profissional, mas também se revela como exercício de um papel igual ou muito próximo ao desempenhado na relação com seus filhos biológicos. Nesse aspecto, tal compreensão se respalda nos achados de Pereira e Costa (2004), ao estudarem narrativas de mães sociais e identificarem a ausência de um papel profissional definido.

É válido discutir sobre que cuidado os pais sociais se referiram. Observou-se a predominância de um entendimento de que as crianças precisariam ser protegidas e cuidadas principalmente quanto às suas necessidades básicas, para que não sofressem as mesmas privações e maus tratos que marcaram sua vida pregressa. Cuidar bem de uma criança é o que dá sentido à tarefa da mãe social, segundo Snizek (2008). Já que os pais biológicos supostamente não cuidaram bem de seus filhos, os pais sociais entendem que cabe a eles essa tarefa, para garantir que a criança se desenvolva da forma que consideram adequada. Tal compreensão apresentada pelos pais sociais desta pesquisa vai ao encontro do que expõem Yunes; Miranda; Cuello (2004) e Cavalcante (2008) e traz à tona a necessidade de redimensionar a questão do cuidado nas instituições de acolhimento, já que cuidado e educação mesclam-se de forma complexa na interação adulto-criança.

Os resultados encontrados quanto ao modelo de pai/mãe biológicos usados pela maioria dos participantes no cuidar das crianças como se fossem seus próprios filhos podem ser relacionados aos estudos de Pereira e Costa (2004), Arruda (2006), Sousa (2006), Alves e Veríssimo (2007) e Vectore e Carvalho (2008). Cavalcante (2008), avaliando a percepção das educadoras acerca da dimensão afetiva do trabalho com as crianças de um abrigo, encontrou uma parcela de participantes que associou o apego a uma criança específica à relação maternal. A autora analisa que educadora e criança, juntas, experimentam os prazeres e as angústias que são próprias desse tipo de relacionamento sócio-afetivo.

Tal como Sousa (2006) constatou em sua pesquisa, na ideia de cumprir uma missão embutida na visão de alguns pais sociais, percebe-se um forte sentimento de responsabilidade e compaixão em relação às crianças abrigadas, como se precisassem suprir o que julgavam lhes faltar. Já o significado de doar-se às crianças pode ser relacionado ao ser pai e mãe no modelo familiar, pois culturalmente espera-se isso no desempenho desses papéis. Nesse aspecto, há uma visão idealizada do ser pai/mãe social, em que a identificação com o ser pai/mãe está presente, e os pais sociais buscam reproduzir a relação que possuem com seus próprios filhos. A própria Classificação Brasileira de Ocupações - CBO (MTE, 2002) apresenta a competência de doar-se como esperada da mãe social.

Assim se finaliza a primeira subcategoria, que buscou delinear a compreensão pessoal dos pais sociais a respeito de sua atuação profissional, do ser pai ou mãe social. Como foi possível perceber, o papel de educador aliado ao de cuidador foi citado em apenas um caso. Verificou-se a prevalência de uma compreensão intimamente relacionada ao cuidar materno ou paterno na relação pais e filhos, mas muito mais próximo do papel feminino, de nutrir e garantir o bem estar físico, assim como o cuidar do ambiente do lar, cumprindo as tarefas domésticas.

Encarar seu trabalho como um trabalho efetivo foi observado em poucos participantes e, ainda assim, associado ao modelo de família. Tal fato introduz as próximas subcategorias de análise, que discutem a compreensão das atribuições legais da profissão, as responsabilidades determinadas em contrato de trabalho e as habilidades para o exercício das atividades, mostrando o quanto e como os pais sociais compreendiam seu próprio trabalho no sentido profissional.