PS1:
PS1 tinha 49 anos e era pai social na instituição 1. Era separado e possuía dois filhos, uma moça de 26 anos e um rapaz de 20 anos, ambos casados. PS1 estudou durante três meses, não chegando a se alfabetizar e, segundo seu relato, o fato de morar em um sítio impediu que frequentasse a escola. Na época da pesquisa, morava em uma casa alugada, onde ficava nos dias de folga do trabalho. Sua experiência profissional anterior foi sempre ligada a atividades no meio rural. Trabalhou como agricultor e já foi cuidador de cavalos em um haras, e de porcos e ovelhas, em chácaras. Atuava há quatro anos como pai social e conseguiu o trabalho por meio de sua ex-esposa, pois ela era mãe social na instituição. PS1 iniciou com a responsabilidade de acompanhar um adolescente, tido como “problemático”, e limpar o quintal da casa lar, mas não para residir. Após seis meses, uma das mães sociais saiu e foi proposta a vaga de pai social a ele, para trabalhar junto com sua ex-esposa. PS1 relatou suas motivações para ingressar na instituição, na época:
Eu aceitei porque eu tava muito sofrido no meu serviço, sabe?... Tava trabalhando demais... Pra poder trocar um pouco a rotina. Daí quando eles falaram nessa oportunidade, eu ia ganhar bem mais pouco, mas [...] vai melhorar bastante, vou trabalhar mais pouco. Aceitei na hora pra ver se eu melhorava minha situação da minha saúde... Eu fui me apegando muito com os menino... Daí deu aquele negócio que nós não se acertamo mais, nós separamo (referindo-se à ex-esposa). Então, aqui na [...] eu tô junto com os menino, eu tô arejando minha cabeça, né? E trabalho por gostar, considero eles como meus filho.
MS1:
MS1, 59 anos, era mãe social na instituição 1 há um ano e dez meses. Possuía ensino médio incompleto, não tendo concluído o 1.o ano. Ela foi casada duas vezes e era viúva de seu último marido. Tinha dois filhos, um rapaz de 23 anos, casado, e uma menina de 14 anos, que residia com ela. MS1 tinha casa própria, que usava nos dias de folga. Quando estava na casa lar, a filha passava a noite com ela. Antes de ser mãe social, sua experiência profissional foi cuidar de crianças, em sua casa, ou como babá em casas de família. Também trabalhou como cuidadora de idosos. Certo dia, ouviu no rádio um anúncio de uma vaga de mãe social na instituição 1 e ligou marcando uma entrevista. O relato de MS1 expressou suas motivações para ingressar no campo das instituições de abrigo:
Primeira coisa, como todo ser humano, como eu, principalmente de família humilde, simples, é o orçamento familiar que faz falta que eu não estava trabalhando, né, e eu ganhava muito pouco [...]. A gente pensa primeiro no que vai entrar né? No lucro, no dinheiro... Aí depois que eu fui ver, digo: ‘Nossa, mas lá é com um monte de criança, que coisa boa.’ Então juntou o útil ao agradável, porque todo mundo... na minha área aqui que tem pouco estudo e não tem uma boa formação, [...] tem que trabalhar pra sobreviver. E eu, graças a Deus, vim trabalhar naquilo que eu gosto. Entendeu? Então dei sorte.
PS2:
PS2 tinha 56 anos e seu nível de escolaridade era o ensino médio incompleto. Era casado com MS2, mãe social da instituição 2, com a qual possuía uma filha de 23 anos, casada, e um filho de 21 anos, que passava os finais de semana com os pais. Não tinha residência na cidade, hospedando-se na cunhada ou na irmã em seus dias de folga. Já teve experiência profissional em um banco, trabalhando com empréstimo, e depois em lojas de móveis, desenhando projetos de cozinhas pré-moldadas. Durante um período, trabalhou como marceneiro autônomo. Sua experiência como pai social iniciou quando viu um anúncio de vaga para pai e mãe social na instituição 2, mantida pela igreja que frequentava.
Estava há um ano e seis meses trabalhando no abrigo. Sua fala descreveu suas motivações para assumir a atividade de pai social:
Quando eu olho uma criancinha, que a gente vê que é um ser indefeso, né? Então, aquilo cria dentro da gente algo que se você pudesse ser útil pra aquela criança... Isso aí eu não faço diferença do meu filho com o filho dos outros... Tinha a ver comigo e com a E. (esposa) e mais ainda a gratificação é que a gente tava tipo em família, esse costume de religião... O tempo da gente aqui na Terra é passageiro, se você não for útil para o ser humano, para o próximo, então fica tudo inútil... Então, esse é um lado positivo, assim, da fé, né? É a satisfação que a gente tá aqui, vivendo e convivendo aí.
MS2:
MS2 tinha 45 anos, era casada e tinha dois filhos, um rapaz de 20 anos e uma moça de 23. Na casa lar da instituição 2, residiam com ela o marido, que era pai social (PS2), e o filho passava os finais de semana com eles. A filha mais velha era casada. MS2 estudou até a 6.a série, relatando que parou para trabalhar. Antes de exercer a atividade de mãe social, tinha trabalhado com crianças como professora da escola dominical, em uma igreja em uma cidade do sudeste do país. Veio para o Paraná pela oportunidade de trabalho como mãe social, pois o marido já estava morando aqui e em busca de novas oportunidades de trabalho, e ficou sabendo da vaga como pai e mãe social na instituição, ligada à igreja que frequentavam. MS2 afirmou que, pelo motivo de estarem procurando um lugar para morar e por que gostava de trabalhar com criança, ela aceitou a proposta do marido de assumirem esse cargo no abrigo. “E a
gente veio, sabendo que se é a vontade de Deus a gente ia tá aqui, né.”
MS2 estava há um ano e meio na instituição e não possuía residência fora. Em seus dias de folga, ela e o marido ficavam na casa de sua irmã ou de sua cunhada.
PS3:
PS3 tinha 39 anos e era casado com MS3, mãe social na mesma instituição (2), na qual trabalhava há três meses. Possuía três filhos, um rapaz de 18, outro de 14 anos e uma menina de 10 anos de idade. Residia com ele apenas a filha mais nova, e os meninos moravam na casa que tinham e onde permaneciam nos dias de folga (era uma casa cedida pelo Estado, onde funcionava uma casa lar). PS3 estudou até a 8.a série do ensino fundamental. Sua experiência de trabalho foi maior como cuidador ou pai social em instituições que acolhiam crianças e/ou adolescentes. Há dez anos começou a trabalhar nessa área e já passou por três instituições diferentes, antes de ingressar na atual. Também já atuou como motorista da prefeitura, realizando o transporte de crianças deficientes mentais. Junto com sua esposa, iniciou como pai social na instituição 2 ao ser chamado pela diretora, que já tinha recebido indicações a respeito do casal. Ao expor seus motivos para ter aceitado a proposta de trabalhar neste local, PS3 afirmou:
É um desejo que a gente tem no coração de ajudar essas criança, né? Reintegrar elas à sociedade. Por um fato que eu passei na minha vida. O meu pai morreu quando eu tinha sete ano de idade. Minha mãe morreu quando eu tinha treze. As duas irmã minha viraram as costa pra mim. Eu fui criado na rua. E eu pedia sempre pra Deus: ‘Deus, me dá uma chance pra mim voltar à sociedade, pra mim ser alguém, ter uma identidade.’... E eu sofri muito na rua, né? E foi muito difícil pra mim essa trajetória até 25 anos... O desejo meu é passar pra essas criança o que eu não tive... Um amor, um carinho, pegar eles no colo... Eu não tinha ninguém pra me abraçar. Então um pouco o desejo mesmo, do meu coração, é retribuir o que eu não tive [...].
MS3:
A mãe social MS3, 42 anos, era casada com PS3, pai social na instituição 2. Ela tinha três filhos, dois meninos, um de 18 e outro de 14 anos, e uma menina de 10 anos de idade. Residia com seu esposo e com a filha na casa lar e, nos dias de folga, permaneciam em sua casa, que foi cedida pelo Estado, já que nesse local funcionava uma casa lar onde
trabalharam. MS3 iniciou o curso de Magistério, mas não concluiu, afirmando que o trabalho impossibilitou que continuasse a estudar. Suas atividades profissionais anteriores à atual foram: telefonista, supervisora em uma empresa de telefonia e atendente em uma clínica para deficientes mentais. Quando a filha tinha seis meses, MS3 e o marido iniciaram o trabalho em instituições de abrigo. Estavam nessa área há aproximadamente dez anos, sendo que na instituição 2 estavam há três meses. Em relação à escolha para iniciar o trabalho como mãe social, ela relatou: “Foi opção
mesmo de cuidar dos filhos também... Era um trabalho gratificante, que além de você tar fazendo outra coisa pelo ser humano era ficar com os filhos também, né. Eles cresceram perto de nós.” O casal ingressou na
instituição 2 a partir de uma proposta da diretora, que já possuía uma indicação sobre a experiência deles. Ao ser questionada sobre o que a levou a trabalhar na instituição atual, MS3 explicou:
Pra nós foi uma decisão, assim, que precisamo muito da direção de Deus mesmo, pra gente aceitar, até a gente topou de pensar assim: ‘Ó Deus, a gente quer fazer um trabalho pra Ti, né?’ O S. (marido) fazia um ano que estava trabalhando na prefeitura, como motorista. O salário dele lá cobria os dois nosso aqui, né? Se fosse olhar por vantagem a gente não teria vindo. Mas assim, bem por amor mesmo, né? E eu não consigo ficar fora, de jeito nenhum, eu acredito no ser humano... Salvar todos a gente não pode, mas aqueles que a gente puder [...]. Eu acho que a gente faz a parte da gente [...]. O nosso objetivo aqui é mesmo acreditar no ser humano e olhar pra eles e pensar que você pode fazer um pouquinho por eles também.
MS4:
MS4 era mãe social da instituição 3 há seis meses. Tinha 42 anos, era casada e tinha duas filhas, uma de 18 e a outra de 14 anos. Residia na casa lar com o marido e as filhas e não possuíam casa própria. O marido era voluntário na instituição e trabalhava com compra e venda de automóveis. O nível de escolaridade de MS4 era o ensino médio completo; formou- se em Técnico em Contabilidade. Antes de iniciar sua experiência como mãe social, havia trabalhado somente com contabilidade. Conheceu o trabalho de mãe social quando atuava na área administrativa de um abrigo.
MS4 atuava há um ano e nove meses como mãe social, possuindo experiência em outra instituição, antes da atual. Ficou sabendo da vaga na instituição 3 por meio de uma funcionária e sobre o fato de conseguir esse trabalho, ela comentou:
Eu tinha a intenção de trabalhar de mãe social de volta... Eu achava que ainda não tinha chegado no meu limite, ainda agüentava mais. Daí eu falei: vou procurar na mesma área... Não foi assim que eu escolhi aqui. É o que deu certo primeiro.
MS5:
A mãe social MS5 tinha 40 anos, era casada e tinha cinco filhos: quatro meninas (de 20, 18, 15 e 9 anos) e um menino de 7 anos. Moravam com ela o marido e os três filhos mais novos. As filhas mais velhas moravam em outra cidade e eram fruto de casamentos anteriores de MS5. A família não tinha casa própria e se hospedava na sogra ou em uma amiga de MS5 nos dias de folga. Ela era formada em Magistério e atuou alguns anos como educadora em creche e como professora de 1.a a 4.a série. Na sequência, trabalhou como recepcionista e cozinheira. Fez o curso de auxiliar de Enfermagem e atuou por bastante tempo em hospitais e postos de saúde. Parou devido à depressão, que afirmou ter sido decorrente de uma situação que a abalou muito a partir do atendimento de um paciente. Após esse período, MS5 mudou-se para essa cidade e trabalhou como diarista, garçonete e cozinheira em restaurantes, e ainda como educadora em uma creche. Nessa cidade, não regularizou sua documentação para poder trabalhar na área de saúde, pois era de outro Estado. Sua intenção era providenciar seus documentos para voltar a atender como auxiliar de Enfermagem. Como ela mesma afirmou: “Eu me vejo na área de saúde, cuidando das pessoas. E com
criança eu gosto também muito de trabalhar..., porque a minha vida inteira quase foi isso, né?”. MS5 nunca teve experiência como mãe
social antes de entrar na instituição 3, onde estava há oito meses. Soube da vaga por meio de uma amiga, que já trabalhava como mãe social. Ao ser questionada sobre o motivo que a levou a ingressar nessa área, explicou:
Ficar mais perto dos meus filhos, mais junto deles, porque a gente passou por muitos problemas muito sérios, problemas psicológicos, no caso, pela perda do pai... E outra, eu já trabalhei bastante
tempo com criança, então... Falei: Ah, vamo tentar! Quem sabe? Eu pensei que eu nem ia ficar tanto igual eu tô.
MS6:
MS6 tinha 40 anos, era casada e tinha três filhos, dois meninos, de 4 e 9 anos, e uma moça de 20 anos (do primeiro casamento). Toda a família morava na casa lar, embora possuísse casa própria em uma cidade vizinha. Ela tinha ensino médio completo, e seu primeiro emprego foi como auxiliar de escritório e administrativo. Também teve experiência como copeira em um hospital. Como não tinha com quem deixar os filhos pequenos, ingressou em uma instituição de abrigo como mãe social. Já trabalhou em duas instituições que mantinham casas lares. Ao todo, MS6 possuía quatro anos de experiência como mãe social. Seu interesse por essa área, segundo ela, era por gostar de criança. Por essa razão, inclusive, já prestou vestibular para Pedagogia duas vezes, mas não passou. Na instituição 3, onde trabalhava, estava há três meses. Foi chamada porque havia entregado o currículo em alguns abrigos da cidade. Justificou o interesse por trabalhar novamente como mãe social da seguinte forma:
Eu já sabia o que era o trabalho, trabalhar com as crianças, eu gostava... Cuidar, tudo, zelar por eles, né. [...]. Porque a gente gosta mesmo, senão não tava... Às vezes eu falo que eu sou meio criançona, porque eu fico no embalo deles, como criança.
MS7:
MS7 era mãe social da instituição 3, onde trabalhava há um ano e seis meses. Ela tinha 32 anos de idade e seu nível de escolaridade era o ensino médio completo. Era casada e tinha uma filha de 6 anos, sendo que a família toda residia na casa lar, embora tivesse casa própria. As atividades profissionais já exercidas por MS7 foram: diarista, auxiliar de cozinha, cozinheira, televendedora, recenseadora e frentista em posto de gasolina. Sua primeira experiência como mãe social era na instituição atual, onde iniciou pela indicação de suas irmãs que trabalhavam lá, na época. Perguntou-se o que a levou a trabalhar como mãe social e ela respondeu: “Ah, assim, acho que a primeira coisa é o emprego, né? Em
segundo, sei lá, por tipo assim, como se fosse ajudar as crianças. Não é bem ajudar porque eu tenho uma remuneração por isso, né?”