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II.3 Cin´ ematique de Kirchhoff

II.3.1 D´ efinition du mod` ele

Isso parecia caro ao mesmo tempo que difícil ao povo donde vem o meu nome - o nome que é para mim caro ao mesmo tempo que difícil."424

No “Ecce Homo” (“Por que sou um destino”, 3), podemos saber como Nietzsche

explica, depois de [novamente]

425

se apresentar como “o primeiro imoralista”, por que

resolveu dar ao seu alter-ego profético o nome de Zaratustra

426

:

[a]427 (...) O que constitui a imensa singularidade deste persa na história é

precisamente o contrário disso [= desse “imoralismo”]. Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a verdadeira roda motriz na engrenagem das coisas, – a transposição da moral428 para o [plano] metafísico429 (die Übersetzung der Moral

in’s Metaphysische), como força, causa, e fim em si, é obra sua430. Mas essa

424 F. Nietzsche, “Assim Falava Zaratustra”, I, “Dos mil alvos e do único alvo”.

425 Cf., antes, o “Ecce Homo” (“As Extemporâneas”, 2, final): “Eu sou o primeiro imoralista”. A posteriori,

confira o “Ecce Homo” (“Por que sou um destino”, 6), sobre a razão da escolha da palavra imoralista “como distintivo”.

426 DELEUZE (1976: 25) fala de duas outras razões além daquela que se infere do “Ecce Homo”, IV, 3:

“Zaratustra como profeta do eterno retorno (Vontade de Poder, IV, 155)” e “a bela razão do acaso (Carta a Gast, 20 de maio [na verdade, abril] de 1883)”.

427 A divisão em sessões é nossa, e só pôde tornar-se esclarecedora a partir da leitura da sessão 4 do prólogo do

Ecce Homo: Podemos associar a “experiência mais longa e maior do que jamais teve pensador algum – a história inteira” com a “voz que passa por sobre milênios” e que se faz ouvir no Zaratustra de Nietzsche.

428 E, para Nietzsche, “o nosso sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os

sentimentos de dominação [sofrida] e submissão que imperaram na história de nossos antepassados”, “ (...) todas as forças e pulsões mediante as quais há vida e crescimento estão temperados com o fascínio da moral: moral como instinto de negação da vida. É preciso aniquilar a moral para libertar a vida. (...)” (Fragmentos póstumos, 1 [22] e 7 [6]; in: NIETZSCHE, 2002: 107, 112). Sobre a “moral como depreciação suprema”, “a hipótese-da-moral com a finalidade de justificar Deus”, e “moral, a mais maldosa forma de vontade de mentir”, cf. Fragmentos póstumos, 10 [150], 10 [151], e 23 [3] (NIETZSCHE, 2002: 124-26, 139). Toda a moral tem por fundamento o instinto de rebanho (contra os fortes e independentes, contra os felizes, contra os “raros homens superiores”), sendo uma expressão do medo e da vontade de vingança (cf. A Gaia Ciência, III, 116, e o Fragmento póstumo 5 [35]).

429 No pensamento zoroastriano, Asha é a forma ideal (semelhante, no Platonismo, à Idéia) da existência do

mundo, a Verdade suprema, conforme antevista pelo criador A.-Mazdâ (ou seja, é a forma que o mundo teria se não existisse o mal, é a forma que o mundo deveria ter). Vohu-manah, a boa mente (também uma criação divina), permite-nos apreender a Verdade suprema/ideal, e também permite-nos ver qualquer aspecto do mundo e reconhecê-lo pelo que ele é, ou seja, o modo e a medida de sua [im]perfeição, i.e, como ele se desvia do [seu] estado ideal, ou seja, como ele se desvia da Verdade. Dizendo isso de outro modo, as pessoas teriam a possibilidade de reconhecer e aceitar “verdades” particulares conforme uma pretensa semelhança delas com a forma universal da verdade.

430 Seções mais antigas dos Yashts de orações a outros seres divinais, e o estudo paralelo da religião védica,

questão431 já seria no fundo a resposta. Zaratustra criou este mais fatal [ou:

calamitoso] dos erros, a moral432 (Zarathustra, schuf diesen verhängnissvollsten

Irrthum [sic], die Moral); conseqüentemente, deve ser também o primeiro a reconhecê-lo. [b] Não só ele tem nisso experiência maior e mais longa que qualquer

outro pensador – pois, enfim, toda a história é a refutação experimental do princípio da dita “ordem moral do universal” (die ganze Geschichte ist ja die Experimental-

Widerlegung vom Satz der sogennanten “sittlichen Weltordnung”)433 -: o que é mais importante é que Zaratustra é mais veraz que qualquer outro pensador434. Sua

doutrina, e apenas ela, põe a veracidade (die Wahrhaftigkeit) como virtude maior435

– isso significa o contrário da covardia (Feigheit) dos “idealistas”436 que fogem da

realidade; Zaratustra tem mais valentia no corpo do que todos os outros pensadores

(ao menos com esse nome) quanto o deus Mithra, e que Angra-Mainyu talvez fosse um total desconhecido (cf. BOYCE, 1975: 255). Por outro lado, os conceitos de asha (“verdade; retidão; ordem”; vetero-persa arta) e drug (“falsidade/mentira; erro/desvio/engano; desordem”; vetero-persa drauga) estavam presentes na antiga religião. Zaratustra elevou Ahura-Mazdâ à posição de ser supremo, associando sua divindade com asha e assim fazendo A.-Mazdâ surgir como criador das coisas virtuosas. Como fonte da verdade, a natureza básica de A.-Mazdâ seria então representada nos hinos gáticos com Spenta-Mainyu, o “Espírito Benfeitor” (literalmente, a “Mentalidade Progressiva”), enquanto em polar oposição a este (embora em termos comparativos - cf., p. ex., a Yasna, 30.3 e 45.2 -, e não em termos absolutos), por associação com drug, aparece Angra-Mainyu, o “Espírito Hostil” (a “Mentalidade Retardativa”), como líder dos daevas (etimologicamente, os “celestiais”, deuses [indo-iraniano *daiva, iraniano *daywa, vetero-persa daiva; sânscrito deva] rebaixados à condição de espíritos maus [em uma revolução religiosa cuja data, causas e propriedades desconhecemos (J. Haudry, “Os Indo-Europeus”, op.cit., p. 94)]. Conforme Jean Kellens (“Encyclopædia Iranica”, vol. VII, fascículo 6, verbete Druj [vols. V-VII publicados em Costa Mesa (Califórnia): Mazda Publishers, 1992-2001]), a raiz índica correspondente a drug [pronuncia-se druj] - druh: dru, hyati - “parece ter o sentido básico de 'escurecer' (Manfred Mayrhofer, 'Kurzgefasstes etymologisches Wörterbuch des Altindischen/A Concise Etymological Sanskrit Dictionary', v. II, pp. 79 e ss.), talvez preservado em avéstico na Yasht, 5.90 e 8.5 (...). Considerando-se que o significado de 'falsidade' corresponde a um certo tipo de derivação [no neo-avéstico draoga-/vetero-persa drauga-, p. ex.], e que o significado de 'engano' [tb: confusão] resulta de um contexto específico de uso [cf. o verbo druj:/dru’a-, p. ex.], a oposição [original, entre Asha e Drug, sânscrito ritá e druh] era provavemente a da 'ordem real' à 'ordem ilusória, deceptiva', estando a primeira ligada às luzes do dia, e a segunda às sombras da noite (Kellens, 'Zoroastre et l'Avesta Ancien', Paris, 1991, pp. 46 e ss.)”.

431 Isto é, “o que precisamente em minha boca significa o nome Zaratustra”.

432 Em O Anticristo, 10, “o conceito da moral como essência do mundo” (der Begriff der Moral als Essenz der

Welt) e “o conceito de 'mundo real'” (der Begriff “wahre Welt”) são apresentados como “esses dois erros mais maldosos que existem” (diese zwei bösartigsten Irrtümer, die es gibt!).

433 Na tradução de José Mendes de Souza (Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d), “a história inteira é a

confutação experimental da assim chamada 'orientação moral do mundo'”.

434 Pierre Héber-Sufrin (“O 'Zaratustra' de Nietzsche”, trad. L. Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,

1991, pp. 33-34 pensa que a veracidade ao dizer as coisas e a coragem de pensá-las e vê-las teria caracterizado o Zaratustra iraniano (permitindo-o ver o fundamento moral de sua metafísica, e conceptualizá-lo em pensamentos/palavras), e que essa sinceridade/lucidez caracterizou ainda o próprio Nietzsche e o Zaratustra nietzschiano, convocado a inverter o que o iraniano foi.

435 No “Assim Falava Zaratustra”, II, “Dos virtuosos”, a veracidade aparece como a presença do nosso próprio

ser na ação, “como a mãe no filho”.

436 No “Ecce Homo” (“Por que escrevo livros tão bons”, 1), Nietzsche apresenta seu Zaratustra como

“aniquilador da moral”, como oposto dos valores representados por aquele “tipo ‘idealista’ de uma mais alta espécie de homem, meio ‘santo’, meio ‘gênio’...”.

reunidos. Falar a verdade437 e atirar bem com flechas, eis a virtude persa. -

Compreendem-me?... A auto-superação da moral pela veracidade, a auto-superação do moralista no seu contrário – em mim - isto é o que o nome de Zaratustra significa em minha boca (Ecce Homo, “Por que sou um destino”, 3)438.

No texto acima, entendemos que a sessão a diz respeito ao Zaratustra profeta iraniano [“mas