Eu acho que estar no HU é uma experiência muito intensa, você está lá para fazer plantão, mas ninguém te manda para lugar algum, então você tem que estar ali atento a tudo que está acontecendo. Acho que isso mexe muito com tudo que você sente tudo que você observa.
Eu acho que era diferente também porque aqui [clínica-escola35] a gente
tem um ambiente mais protegido. Lá a gente estava indo em uma instituição que tem todas as suas regras. Eu me sentia muito mais insegura lá dentro do que eu me sinto aqui.
Estar em plantão abrindo-se e voltando-se para a própria afetabilidade no espaço da instituição é percebido inicialmente como desalojamento. O plantonista reconhece os limites dos referenciais construídos por meio do de conceituações teóricas, práticas e discursos ocorridos em outros contextos da formação acadêmica, que não contemplam a experiência em questão (BRAGA e CUSTÓDIO, 2009) nem podem oferecer sustentação para transitar por ela. Tomado pela sensação intensa, metaforizada no início como oceânica, o plantonista encontra- se desalojado.
Então, lá o supervisor acho que servia como um apoio que se eu soubesse que não ia conseguir seguir em alguma coisa eu teria a quem recorrer, sabe? Acho que era importante também assim nesse sentido, é diferente dentro de uma instituição e que a gente levava às vezes uns sopapos de pessoas que estão lá, então para mim foi crucial nesse sentido também.
O supervisor através de sua autoridade oferece sustentação para possibilitar a vivência deste poder-ser que se apresenta. Por esse caminho, frente às possibilidades de ser em situação, o plantonista assume a responsabilidade por sua prática: o cuidado como modo de estar em plantão. Empreendendo uma busca por sentido para esta experiência, desvela-se a si um modo próprio de ser: cuidando de se estando ali.
Minha experiência lá era o plantão mesmo, de verdade. Não tinha nada, nenhuma fantasia, nem setting, nada que dava outra coisa, era o contato puro ali mesmo. Se você se pensasse em outra coisa, me distraí, viajei, acabou, a pessoa podia ir embora ou virava para o outro lado da maca e não quero
falar com você mais. Aqui36 por exemplo a pessoa vem, mesmo que você
esteja o mais decolado possível tem todo um “trono” do psicólogo que está ali, a pessoa vai te ouvir ou vai querer ficar ali...
Ele vem para ser atendido, né...
Lá você tem que estar o tempo todo prestando atenção tem que estar ali mesmo. Teve uma vez que atendi em dupla com a Beatriz e a mulher dava muita atenção para ela e eu comecei a me distrair, comecei a olhara para o pingo de sangue no chão que a Beatriz quase pisou. E eu não estava no plantão, eu não estava ali... Tanto que no final do atendimento ela estava morta e cansada e eu estava muito bem... Então é o contato em si, tem que estar ali, atento, tem que estar entregue. Eu fiquei porque foi uma escola muito grande para mim dessa coisa de atender e não estar se segurando em bengala de setting, de trono de psicólogo nada. Tanto que às vezes eles nem sabem que você é psicólogo...
O plantão é, em sua raiz mais profunda, a atitude do plantonista em circulação: contato imediato, original e criativo. Diz do setting no corpo, na disponibilidade, sem “proteção”, enquadre que acontece pela presença junto ao outro e que dura pelo tempo que o encontro perdurar.
O fato do plantão não se instalar em uma sala concreta do hospital abre a possibilidade para libertarem-se do aprisionamento de técnicas aprendidas, chamando o plantonista a ser o plantão por sua atitude, por seu modo de se estando ali. Diz de uma transformação radical, por uma prática fundamentada no desalojamento, na angústia, na afetabilidade e no cuidado, condições humanas vividas no limite de sua radicalidade no sentido de desvelar uma atitude no exercício de um ofício (MORATO, 2009; OLIVEIRA2006).
Na prática, os plantonistas não se apresentam inicialmente como psicólogos, mas se dispõe à, colocam sua atenção e sua escuta disponíveis como apresentação do plantão. Livres de “bengalas” que apoiam e limitam o movimento e “tronos” que cristalizam o lugar e distanciam o contato, plantonistas se veem diante de cuidarem de ser psicólogos no modo de se mostrarem, de existirem37 no hospital.
No começo é muito estranho, pelo menos nas primeiras vezes que você chega e: “E aí como você está? E a pessoa fala: “Bem!” ou então “Ah, tô com dor de barriga” e começa a falar... Aí você fala: “Ah, eu sou da Psicologia” e não vai... Nas primeiras vezes, dá uma sensação meio esquisita, não sei nem explicar como, meio de “Ih, não foi um atendimento”, “Ah, errei” sabe?! “ah acho que eu olhei errado, achei que era e não era”.
36 Refere-se aos atendimentos na clínica escola do IPUSP, onde aconteceu o grupo.
O certo e o errado, como duas únicas e antagônicas possibilidades de classificar o vivido apontam uma representação do aprendizado da prática psicológica como um fazer em que se erra ou se acerta e o objetivo é sempre acertar. É a marca tanto do modelo cientificista moderno assentado na relação causa-efeito e no positivismo, quanto do senso comum, em que a capacidade de fazer resume-se a aprender uma técnica para aplicação das teorias psicológicas. A prática psicológica concebida como técnica, nesse sentido, é consonante à noção de verdade que se tornou hegemônica para a tradição filosófica ocidental, como adequação entre a representação e a coisa representada. (NOVAES, 2009).
Cabe considerar neste momento a questão da técnica, já que estou colocando-a em evidência como contraponto à descoberta da atitude clínica como fundamental na construção do plantão psicológico. Técnica, como compreendemos usualmente, é atividade humana de aplicação de um conhecimento teórico-cientifico como meio para alcançar um fim ou um resultado esperado. Deriva da palavra grega tékhne, da qual desgarrou-se do seu sentido original. Para os gregos tékhne significava deixar-aparecer algo que já está lá, através de uma pro-dução – movimento de des-encobrimento. Um técnico, nesse sentido, conduz um des- encobrimento (pro-dução) através de um deixar-aparecer. A esse des-encobrimento os gregos chamavam alethéia, palavra traduzida pelos romanos por veritas, para nós “verdade” (HEIDEGGER, 2002).
Partindo desta aprendizagem engessada, os alunos necessitavam passar pela experiência em plantão a fim de compreenderem a possibilidade de produção de conhecimento e verdade também como desvelamento de algo vigente. Sendo assim, fazia-se possível empreender outro olhar para o fenômeno da aprendizagem da prática clínica. Nesse sentido, a sensação de “errar” ou “levar um fora” constituía-se o movimento de deixar-ver o que se desvela, o que já está lá: a atitude clínica. Só é possível seu des-encobrimento pela realização da possibilidade de experimentar-se sendo clínico. Assim, as sensações experienciadas aparecem como caminho de des-encobrir um modo próprio que pro-cura mostrar-se.
Depois você começa a ver que é natural, e isso também te dá uma segurança de que quando fluir é porque a pessoa precisava que fluísse. Ao mesmo tempo, possibilitavam que o sentido do plantão pudesse também desvelar-se no fluir de um atendimento. Desse modo a verdade na relação clínica não é a verdade pronta da representação do correto ou do errado, mas os modos de desvelamento de sentido que a existência realiza enquanto abertura e suas restrições. (NOVAES, 2009, p.63)