Na supervisão de campo não era todo mundo que falava, ela era mais estilo
plantão, só acontecia quando tinha que acontecer mesmo. Nas outras supervisões “tem que fazer”. Você tem que falar na supervisão é meio que a regra do jogo, você faz o atendimento e tal. No HU, como ia ter a supervisão de projeto depois, aquela supervisão no campos acontecia quando tinha alguma emergência, quando precisava ser dito alguma coisa, ela acontecia quando precisava mesmo. Eu geralmente precisava, eu sempre falava.
Um plantão para plantonistas parece tentativa de enlaçar esse fazer em uma compreensão significativa que acontece ao mesmo tempo em duas vias: encontra o sentido em seu fazer de plantonista, ao reconhecer no supervisor a atitude clínica de solicitude no cuidado com alunos, ou seja, consigo mesmo. Ao dizer da supervisão como plantão revela sua compreensão da prática clínica do plantonista e apresenta um sentido para seu próprio fazer. Experiencialmente, o plantonista encontra caminho de compreensão para seu fazer no fazer plantão do supervisor de campo junto a ele.
A supervisão de campo, assim como o plantão, rompe com regras instituídas em técnicas naturalizadas como procedimentos “obrigatórios” para a formação clínica: as “regras do jogo”.
Subverte uma concepção tradicional de supervisão como obrigação ou condição para o controle da prática em aprendizado. A supervisão de campo acontece a partir de algo que “emerge” no
plantonista em seu experimentar-se clínico, e que pede por encaminhar-se, por encontrar sentido.
Urgência e emergência são palavras usadas no hospital, muitas vezes, quase como sinônimos. Elas fazem parte do discurso dos profissionais que trabalham, em seu dia-a-dia, com
os mais inesperados acontecimentos, tendo esses termos relação próxima a esta condição. No Plantão Psicológico, urgência e emergência dizem de diferentes momentos: emergência é o emerge em forma de queixa ou pedido inicial, com foco no sofrimento ou interrogação que é enunciado ao plantonista, no hospital geralmente relaciona-se ao motivo de estar ali; já a
urgência é o que urge solicitando cuidado; é a demanda que se mostra e se constrói na
investigação dialógica do plantão (MORATO e NUNES, 2009; BRAGA, 2009).
Nos atendimentos na clínica-escola, aos quais está relacionado o “tem que fazer”
supervisão, a presença do cliente no serviço já marca o acontecimento de um atendimento psicológico. A procura do cliente pela instituição e sua presença e do plantonista entre as quatro paredes da sala de atendimento delimitam o fato de existir um pedido e um atendimento a esse pedido.
Diferentemente, no plantão no HU é a emergência de uma situação, muitas vezes não direcionada especificamente para o plantonista, que esbarra em sua atenção e pode vir a configurar o atendimento. É por esse encontro do emergente com a abertura que se conduzirá o plantão. Logo, é preciso um outro modo de estar atento, de dispor-se aos esbarrões. O Plantão como a supervisão de campo diferenciam-se de uma estrutura de atendimento tradicional por atender e orientar-se à demandas com caráter estritamente emergencial (OLIVEIRA, 2006)
O plantão configura-se pela atitude clínica do plantonista e não por uma estruturação técnico-burocrática (BRAGA, 2009), assim como a supervisão de campo: a solicitude expressa na presença atenta do supervisor no campo encontra a emergência do plantonista e uma supervisão acontece. Plantão e supervisão de campo se configuram pelo encontro da atitude clínica com uma emergência.
Nesse sentido, o plantão psicológico no HU abre a possibilidade de uma forma distinta de prática psicológica em hospital ao mesmo tempo em que marca um lugar diferenciado do psicólogo como profissional de saúde através da ação clínica realizada. A ação clínica em hospital pode ser pensada como um espaço aberto, condição de possibilidade para emergência de uma transformação (BARRETO e MORATO, 2009). O plantonista no hospital proporciona uma possibilidade de elaboração do evento que levou à hospitalização em seu momento mais agudo e o supervisor de campo, por sua vez, abre possibilidade para a elaboração da experiência clínica no momento de seu acontecimento.
Principalmente no começo, pensando nessas diferenças de ritmo, da velocidade que nós plantonistas andávamos e o resto da equipe. Acho que independente da ala né, cada ala do hospital tem seu próprio ritmo, mas a gente era diferente de todos, mesmo que tivesse uma ala que fosse um pouco mais tranquila
loucura: mil macas, vários enfermeiros, vários médicos passando, e a gente meio passando pela sala
olhando para as pessoas e as pessoas viravam olhando para gente e aquele olhar muitas vezes era... Aquele olhar convocava muito!
Revela-se um sentido para atenção psicológica no HU: um olhar atento, que caminha curioso livre no espaço e no tempo. É mais que o sentido único da visão: é abertura em que se deixa esbarrar, e que procura esbarrar, encontrar emergências. Olhar com intensão e movimento ativo é mais que observar: é inclinar-se se colocando disponível, com atitude de busca e solicitude; é atitude clínica.
No plantão do HU, plantonistas caminham pelo hospital, nas diferentes alas e oferecem sua escuta, inclinam-se disponibilizando-se para cuidar no sentido mais original de ser clínico. Nesse contexto, o olhar ganha nova significação; muitas vezes é através dele que o esbarrão- plantão acontece: olhares-cuidadosos se oferecem e esbarram em olhares-pedidos.
Eu olho e aquilo me chama a atenção, e não tem fala, você vê de longe e se aproxima por algum motivo. Eu acho que isso eu aprendi no HU, e acho que principalmente nas primeiras vezes a presença do supervisor de campo foi muito importante para estimular este olhar. Para mim o plantão no HU serviu muito como um treino para o olhar (...). Essa
sensibilização de olhar de perceber o que está emergindo.
A supervisão de campo coloca a possibilidade de “treinar” o olhar, pela experiência de
re-conhecê-lo justamente no exercício de olhar, olhando e sustentando olhares e do dizer como é olhar emergências em olhares. Ao mesmo tempo, é um olhar que se orienta ao outro e para si. É preciso estar atento para o modo como aquele olhar reverbera no próprio corpo, como ele chama a minha atenção. Como ele me toca? Ao mesmo tempo, tenta, assim, para o que emerge também em si mesmo.
Mas como aprender a linguagem do olhar, como se deixar tocar pelo olhar?