1. Revue bibliographique
1.3. Définition des bactériocines
Filho é para o mundo:
a criação do ponto de vista das mães
O terceiro filho nasceu: é homem Não, ainda é menino
Miguel bebeu por três dias de alegria Eu disse que ele viria, nasceu! E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia: filho é pro mundo Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida Buscava o amor das coisas desejadas Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada Me sentia como a terra: sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre, contente, e parecia dizer: É sábado, gente!
A freira que o amparou tentava reter Seus dois pezinhos sem conseguir E ela dizia: Mas que menino danado! Como vai chamar ele, mãe?
Leandro
(Música Mãe, Emicida)
De pequeno a gente ensina, depois a gente solta para
eles viverem, não é? O filho não é nosso, a gente cria eles, mas não é da gente, é do mundo. A gente tem que pôr na cabeça que os filhos não são nossos. A gente é mãe e pai, mas só que eles têm que viver. Mãe e pai um dia vai.
Neste capítulo, o leitor irá se deparar com várias conversas com as mães dos estudantes da Escola Vitória elaboradas em diversas situações de enunciação. Há conversas que foram gravadas durante as entrevistas que realizei, outras que tivemos em situações mais informais nas garagens, nas salas de estar e nas cozinhas de suas casas ou ainda na porta de entrada da escola. Em todas elas, quando os filhos estavam presentes, as conversas convertiam-se em momentos performáticos de educação, nos quais as mães repisavam temas que consideram importantes na criação dos filhos. A palavra era direcionada tanto ao antropólogo quanto à criança. Aqui, o que era dito, a palavra, não visava apenas comunicar, transmitir um significado, mas também produzir a pessoa de seus filhos. Veremos que as mães portam uma teoria da aprendizagem que concede centralidade justamente à palavra: aprende-se quando se quer e se sabe ouvir e conversar. Por isso, elas sentem a necessidade de mostrar o mundo aos filhos por meio de narrativas as mais diversas de meninos que se desencaminharam ou que se encaminharam na vida, com a intenção de ir ensinando à criança a distinguir o certo do errado. Como veremos, trata-se de uma educação de modos (saber como conversar, saber cumprimentar os outros, saber andar pelo mundo) e também de uma educação moral, mas que não parte de postulados e princípios universais do que seja o certo. Cada caso é um caso e por isso solicita que seja avaliado em sua particularidade. Veremos aqui, portanto, que nos cuidados cotidianos e nas conversas que cercam a criação dos filhos, que devem ser preparados para andar com as próprias pernas e, ao mesmo tempo, evitar uma circulação pelo mundo que os leve a caminhos tortos, há toda uma educação de uma “ética ordinária”, para empregar um termo utilizado por Lambek (2010). Claudia Fonseca, ao abordar como a fofoca é mobilizada pelos moradores da Vila do Cachorro Sentado em Porto Alegre, afirma que ela tem uma função educativa: “em vez dos adultos explicarem as normas morais a seus filhos, estes, ao ouvir as histórias de comadres, aprenderiam as nuances práticas dos princípios morais do grupo” (2004: 42). Também no Recanto, mais do que regras morais e valores codificados, é na prática cotidiana, nas conversas descompromissadas nas cozinhas, nas fofocas e nos comentários que essa educação dos filhos é realizada e que se aprende a julgar certas ações e relações como certas e erradas, aceitáveis e inaceitáveis, respeitosas ou desrespeitosas.
Para que a palavra seja eficaz na produção da pessoa, é necessária a repetição: uma história de menino desencaminhado nunca é contada apenas uma vez. Os meninos do Recanto, ao ouvir essas histórias, constantemente reclamam que suas mães já haviam repetido aquela narrativa diversas vezes. O meu entusiasmo e interesse ao ouvi-las pela
primeira vez contrastava com o enfado demonstrado pelas crianças, que muitas vezes acompanhavam nossas conversas envolvidas em outras atividades: assistindo televisão, brincando no chão da casa ou jogando games no celular. As mães não solicitavam uma atenção total da criança para aquela conversa, pois sabiam que elas estavam ouvindo, e ouvir é o que importa, pois, na teoria nativa da aprendizagem, a palavra passa a influenciar o modo da criança. No primeiro item deste capítulo, descreverei justamente o que as mães fazem quando mostram o mundo para as crianças por meio de certas narrativas, broncas e conselhos.
Essas conversas sobre o mundo tal como ele é e sobre os meninos desencaminhados resistem ao dispositivo etnográfico, na medida em que impedem uma análise totalizante e uma composição da escrita que deixe de lado a própria repetição ou ainda as conexões feitas pelas mães entre histórias distintas. Como em uma conversa, nessas narrativas um assunto puxa o outro e dá ensejo para digressões, comentários e avaliações sobre os atos e as circunstâncias. É assim que as mães conversam e, por meio da palavra, criam seus filhos. A escrita não poderia aqui deixar de ser afetada por essa teoria nativa da aprendizagem, que atribui à palavra, ao ouvir e à repetição uma potência na produção das pessoas. Por isso, o texto busca preservar os traços da oralidade e seguir algumas das conexões típicas de uma conversa, correndo o risco de soar como repetitivo aos olhos do leitor e como um texto que repisa certos temas. De toda forma, para conceder plausibilidade àquilo que as moradoras falam e fazem em relação à criação dos filhos, é preciso, por vezes, cortar o fluxo de uma conversa, recorrendo ao agenciamento característico da escrita etnográfica, a saber, uma digressão analítica que conecte aquilo que acabamos de ler com outras conversas, inclusive aquelas com a literatura antropológica, para que o leitor possa perceber todas as implicações do que é dito. Não se trata de ir além e dizer mais do que aquilo que as mulheres conversaram, hierarquizando assim o saber acadêmico e o saber nativo, mas de afrontar dois modos de criatividade, para empregarmos a definição de etnografia elaborada por Wagner (2009), o modo de criatividade das mães no Recanto na criação dos filhos e o da própria etnografia.
Essa centralidade das conversas e da palavra na criação dos filhos – muito mais do que os castigos físicos – tem implicações para a socialidade e as relações familiares no Recanto, que já explorei no capítulo anterior. Os novos estudos do parentesco têm destacado como as práticas de cuidado, sobretudo a alimentação, são capazes de produzir relações familiares em diversos grupos. Carsten, por exemplo, demonstra que em Pulau Langkawi, morar junto e compartilhar a comida é fundamental para a definição nativa do parentesco.
Nas palavras da autora: “A comida cria tanto as pessoas no sentido físico como a substância – o sangue – por meio da qual as pessoas se relacionam umas com as outras. Pessoa, relatedness e alimentação estão intimamente conectadas” (CARSTEN, 1995: 224, tradução
minha). Viveiros de Castro (2009) demonstrou como há na chamada abordagem construtivista dos estudos do parentesco uma obsessão com a discussão sobre a troca de substâncias e com as relações entre pais e filhos, deixando de lado as práticas de contrainvenção das relações entre afins. Por vias sinuosas, a primazia da discussão sobre as substâncias nos chamados novos estudos do parentesco reintroduz uma perseguição do pensamento ocidental por um substrato para o parentesco. No Recanto, não há uma proeminente teoria nativa sobre as substâncias. As moradoras elaboraram seus conceitos nativos de parentes e familiares por outras vias. Ainda que o alimento também ali produza certos efeitos nas relações, como veremos à frente, é sobretudo pela casa e pela palavra (conselhos, broncas, narrativas, memórias) que uma pessoa é produzida.
Se há, portanto, algo que se troca nas ruas e nas casas do Recanto e que ainda não foi completamente capturado pelo circuito da mercadoria, essa coisa é a palavra. Há dois principais circuitos da palavra na criação e produção de um filho, aquilo que se ouve em casa e o que se ouve na rua, a palavra da mãe (e mais raramente do pai, dos irmãos e outros familiares) e a palavra dos amigos. Aquilo que se ouve na rua compõe o mundo. Cabe aqui uma ressalva: a rua é tudo aquilo que escapa do olhar da mãe. Um filho criado na rua pode ser assim considerado porque vivia na casa de amigos, ou que batia perna para todo lado, ou ainda que ficava em sua própria casa sem o olhar vigilante e as palavras da mãe por perto. Nesse capítulo, pretendo demonstrar como, do ponto de vista das mães, a criação dos filhos envolve a disputa entre a influência desses circuitos característicos da amizade e da própria educação que elas lhes oferecem em casa. A palavra possui a característica de ser algo destacável das pessoas, mas seu valor depende da referência a quem a emitiu. Assim, sua influência será sempre associada à qualidade da relação entre duas pessoas. É a partir dessa influência exercida pela palavra do amigo sobre os filhos que as mães se preocupam tanto com suas amizades. Por isso, dedicaremos aqui um item específico à amizade e à influência das más companhias. Não abordarei a amizade como acessória ou metafórica em conexão com outras relações, como o parentesco, tal como geralmente ela é abordada pela antropologia. Do ponto de vista das mães, a amizade é uma força potente na produção da pessoa de seus filhos. Ainda nesse item, irei me deter nas implicações que a amizade efetua na teoria nativa da aprendizagem; veremos que é por meio da imitação que as crianças acabam por se deixar influenciar em suas interações com os pares.
Veremos que um filho, enquanto criança e adolescente, será produzido por um compósito de relações de influência; contudo, conforme vai adquirindo maturidade, o filho vai se tornando um ser autônomo, com vontade própria e capaz de escolher seu próprio destino. Na terminologia nativa, ele passa a ter a cabeça feita. Essa oscilação entre uma concepção mais relacional da pessoa e outra que enfatiza sua individualidade, mais próxima da concepção ocidental, é, como veremos, característica do processo de desenvolvimento dos filhos do ponto de vista das mães. Como Strathern (2005: 26) afirma, o parentesco é o terreno onde os ocidentais pensam sobre as conexões entre os corpos. O corpo é usado para pensar a unicidade do indivíduo e também como as pessoas são conectadas umas com as outras. No Recanto não é diferente: o corpo do filho e sua pessoa permitem às mães uma reflexão sobre o que faz com que seus filhos tenham autonomia, sejam capazes de discernir e tomar suas próprias decisões, enquanto indivíduos, e, ao mesmo tempo, lhes permite pensar as influências exercidas por outras pessoas na conformação dos corpos dos filhos. Na análise da concepção nativa sobre o que constitui um filho e uma pessoa, seguirei aqui a sugestão de Manuela Carneiro da Cunha (2009: 52) de que a concepção de pessoa deve ser procurada e não postulada pelo antropólogo.
Enquanto na etnologia há uma vasta discussão sobre as categorias de idade (ver, por ex., COHN, 2000; NUNES, 1999; FARIAS, 2015), na antropologia at home geralmente parte-se das definições psicológicas hegemônicas em nossa sociedade sobre o que diferencia a criança, o adolescente, o jovem, o adulto e o idoso, geralmente tratadas como categorias estanques de idade.39 Pouca atenção é dada, portanto, às próprias teorias nativas sobre o
processo de maturação e crescimento das pessoas. Neste capítulo, descreverei ainda como a teoria nativa da maturação conecta-se com a produção e circulação de conhecimento, afastando assim ideias a priori sobre o que constitui a infância, a adolescência e a juventude. Veremos que mais do que uma classificação rígida sobre as etapas da vida de uma pessoa, ao pensar sobre a idade de seus filhos as mães desenvolvem uma teoria que lida com intensidades e a segmentação da maturidade.
Por fim, se a palavra adquire tanta centralidade na criação das pessoas no Recanto, uma atenção especial em relação à forma das narrativas deve ser concedida no último item deste capítulo. Como veremos, certa arte poética se faz presente nas conversas entre as mães. Descreverei nesse item a narrativa de uma mãe que relata como descobriu o envolvimento de seu filho no mundo das drogas. Nessa história, que solicita a participação dos ouvintes
39 Podemos mencionar como exceções o trabalho de Alexandre Pereira (2010) sobre a categoria de juventude e o de Guita Debert (1999) sobre o envelhecimento.
com comentários e avaliações sobre as ações dos envolvidos, uma bronca é toda estruturada a partir do que Jakobson (2007) chama de paralelismos, característicos do que o autor definiu como a função poética da linguagem.
Mostrar o mundo para os filhos
No meio de uma tarde de quinta-feira, passei na casa de Paula para conversarmos e tomarmos um café. Ela me disse que esse é o melhor horário, pois as tarefas domésticas já haviam sido realizadas e o preparo da janta só começaria dali duas horas. Em sua cozinha, sentamos eu, ela e seu filho, Diego, de 13 anos e conversamos sobre os perigos de se viver no Recanto. Paula aproveitou aquela prosa para falar sobre o que mais teme em relação à criação do filho: que ele entre no mundo das drogas. Como seu filho também estava presente, ela direcionou nossa conversa para a narração de casos de meninos que se desencaminharam. Enquanto me dirigia a palavra, ela constantemente olhava para Diego como quem diz: está vendo o que acontece? Como pude perceber na conversa com outras mães, aquele tipo de narrativa era muito comum nas cozinhas. Com uma visita em casa, a mãe podia tocar em assuntos que lhe afligem, na presença do filho, mostrando para ele o mundo tal como ele é aí fora. Depois de servir o café e bolinhos de chuva, Paula contou dois casos de meninos desencaminhados. O primeiro episódio envolveu um colega de classe de seu filho, Tiago, que ela viu crescer no bairro. Essas crianças que cresceram no bairro, que eu vi nascer e crescer, que eu peguei no colo, que brincavam com o meu filho, que costumavam vir em casa são sempre lembradas nas narrativas contadas pelas mães. Ao estabelecer um forte e duradouro vínculo afetivo com a criança, cuja expressão mais potente ouvi certa vez de Inês – Tiago era como se fosse um filho -, as mães conquistam a atenção dos ouvintes, inclusive de seus filhos que, embora demonstrem não prestar tanta atenção ao que é dito, ouvem à história contada.
Tiago abandonou a escola no oitavo ano do ensino fundamental e hoje vive pelas ruas do Recanto. Paula conta que o encontrou ontem na praça, vendendo droga, todo sujo, e falando no celular em um tom bem violento: “E aí parça! E aquela fita das moto?”, Paula imitou a voz do menino e a gíria da quebrada, suscitando risos no filho que dificilmente escuta a mãe falando daquela forma. Ao vê-la subindo a rua principal, Tiago maneirou o tom agressivo em que falava ao celular e, um pouco envergonhado e de maneira respeitosa, cumprimentou Dona Paula: “Boa tarde, Dona Paula. Como tá o Diego?” “Muito bem,
estudando para o vestibulinho da ETEC.” Paula encenou esse diálogo na mesa de sua cozinha.
Logo em seguida, Paula passou a comentar a situação. Tiago era um menino bonito, conversador, que vivia em sua casa para jogar videogame com o filho. Seus pais moram em uma travessa bem próxima. O menino, contudo, vivia na rua, pois os pais trabalhavam durante todo o dia e não tinham com quem deixar os filhos. Segundo Paula, os vizinhos faziam tudo que era possível para olhar o menino, mas não era a mesma coisa que ter a mãe de olho.
Tiago fez amizade com uns meninos mais velhos que já estavam do outro lado. Pela influência das más companhias, ele se perdeu. Por sorte, prosseguiu Paula, seu filho acabou se afastando de Tiago, esfriando a amizade. Ao ver o amigo seguir por caminhos tortos, o filho de Paula deixou de convidá-lo para jogar videogame e visitar sua casa. Não obstante esse distanciamento, ainda hoje eles se cumprimentam e trocam algumas palavras rápidas quando se encontram na rua. Paula aproveitou essa oportunidade para passar mais um ensinamento para o filho: o mais importante na vida é saber viver e conviver. É preciso saber conviver, não adianta ignorar essas pessoas, é preciso ter o conhecimento de falar um oi, um bom dia, uma boa tarde, um boa noite, conversar, para não ter perigo para você, para eles não mexerem com você.
Como destacado por Claudia Fonseca (2004, p. 119-20), na narrativa desse encontro fortuito com Tiago, um menino que eu vi crescer, Paula não é apenas uma narradora, mas uma atriz que encena o diálogo, imita a voz e a gíria do menino, interpreta (no sentido dramatúrgico e não hermenêutico) os personagens. Não é somente a boca que fala, mas também o corpo da narradora. Como descrito por Fonseca, deparamo-nos aqui com uma “oralidade incorporada fruto da encenação teatral que tira as palavras de sua casca racionalista, a linguagem do corpo impondo-se a qualquer voz intelectual” (Idem, p. 120). Como veremos em várias narrativas ao longo deste capítulo, os diálogos não são reconstruídos na forma do discurso indireto. No lugar de expressar o diálogo com Tiago da seguinte forma: “ele me disse boa tarde e perguntou como estava o Diego”, Paula expressou sua interação por meio de uma citação direta, na voz de Tiago: “Boa tarde, Dona Paula! Como tá o Diego?”
Quando as mães empregam as expressões uma criança que eu vi crescer, que eu peguei no colo, há toda uma reflexão sobre as relações de intimidade entre os moradores do Recanto. Penglase (2014), em seu trabalho sobre a relação dos moradores de uma favela no Rio de Janeiro com os traficantes, discute a expressão “cria do morro” utilizada pelas
lideranças comunitárias que expressa como os moradores pensam a diferença entre eles mesmos, não vista apenas a partir da diferença de cor ou classe, mas também pelos laços que as pessoas têm com o local, valorizando mais aqueles com as pessoas “nascidas e criadas” no morro. A “cria do morro” é a criança que foi criada por todos no local, que todos “viram crescer”. Esse termo liga de maneira poderosa a identidade à residência, à vizinhança, às relações de parentesco e à materialidade do local (ver PENGLASE, 2014: 87). Contudo, tal
estratégia de associar os traficantes à localidade, identificando-os com as famílias do local e o morro como uma “família extensa”, não consegue “domesticar” a imprevisibilidade de suas ações violentas. Eles são vistos de forma ambivalente quer como parentes, quer como radicalmente outros, que “passaram para o outro lado” (idem: 89), e que representam o perigo e a imprevisibilidade. Os amigos de outrora que “passaram para o outro lado” se convertem em colegas, pessoas com quem se mantem um contato à distância, marcado, por exemplo, pelos cumprimentos e não mais por uma intimidade. No Recanto, ainda que a expressão “cria do bairro” não tenha sido utilizada, o sentido das constantes narrativas sobre esses jovens que eu vi crescer que passaram para o outro lado aproxima-se da ideia descrita por Penglase. Trata-se aqui também de lidar com graus distintos de intimidade implicados nas relações cultivadas na vizinhança. Um menino que eu vi crescer é um íntimo perigoso pois pode através da amizade com o filho influenciar sua criação e seu jeito.
Ainda comentando sobre o encontro com Tiago, Paula distinguiu dois tipos de malandros que circulam pelas ruas do Recanto. Há aqueles que respeitam a gente, que não fede nem cheira, que são quietos e na deles. Tiago é um desses, um malandro que sempre cumprimenta os moradores e não caça confusão. Outros malandros, contudo, são nojentos, desaforados, fazem uns cambalachos em frente das crianças na entrada da escola, não respeitam e ameaçam os moradores, e até mesmo brigam e batem boca com a mãe. Esses malandros que caçam confusão são minoria no bairro, e em relação a eles os moradores mantêm uma distância ainda maior: não mexem e nem conversam com eles, apenas dizem um bom dia e outros cumprimentos formais para mantê-los afastados. Um malandro da vizinhança não é condenado e criticado por fazer seus cambalachos. Afinal, como certa vez