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2 Matériau, méthodes expérimentales et tenue en fatigue de l’alliage de référence

4.1 Essais de fatigue à grand nombre de cycles (matériau avec défauts naturels / artificiels)

4.1.3 Défauts artificiels de surface avec une morphologie locale complexe

A multiplicidade de informação contida no Inquérito Industrial de 1890 permite traçar um retrato fabril e operário da capital portuguesa nessa época, lançando pistas sobre “o mundo dos que trabalha[va]m (…) [que] leva[vam] a vida na cidade ignorada, na

cidade obscura.”287 Sendo a sua heterogeneidade e a forte implantação nas áreas mais centrais da cidade os traços mais fortes da imagem que se obtém.

A distribuição dos estabelecimentos fabris e oficinais mostra que a proximidade ao Tejo era, ainda e em toda a área urbana, fundamental para a implantação industrial no final do século XIX, estando a grande maioria das fábricas concentradas na faixa litoral e junto a outras vias de acesso fluvial – como é o caso da forte densidade industrial localizada junto ao troço final da ribeira de Alcântara. Todavia, nos espaços onde a rede ferroviária estava estabelecida há mais tempo, nomeadamente junto às estações de Santa Apolónia, Xabregas e Braço de Prata, também este fator terá influído na localização industrial.

Ainda assim, era no coração urbano - na zona central da cidade - que se registava maior concentração de estabelecimentos industriais, constituindo um importante polo de dinamismo e produção industrial, que no período final do século XIX, foi marcado pela diversidade sectorial e tecnológica.Aqui existia um abundante e variado tecido produtivo de cariz fabril e oficinal, onde se concentravam os ramos de fabricação que sustentavam o comércio exclusivo da Baixa – como chapelarias, confeções de roupa e luvas, oficinas de calçado e tipografias –, setores ligados à transformação urbanística que a cidade vivenciava – como as oficinas de cantaria, de metalurgia e carpintarias – e às necessidades quotidianas da população – como a produção alimentar e a de canastras e cestos. Coexistiam estabelecimentos industriais de dimensão oficinal e fabril cuja produção se desenvolvia recorrendo a maquinaria moderna – incluindo a energia do vapor - com

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outros, em que os métodos de laboração eram reminiscências ancestrais. Esta redescoberta da importância da atividade industrial nesta zona central – tanto representada pelo «Arsenal da Marinha» e os seus mil trezentos e oitenta e cinco operários e cinco máquinas-a-vapor, como por um setor metalúrgico que agregava novecentos e dezoito trabalhadores que operavam máquinas que consumiam um total de cento e sessenta e quatro cavalos-vapor ou até mesmo pelas cento e oitenta e duas costureiras e noventa operários/as de chapelaria que nas ruas mais centrais da Baixa levavam a cabo uma produção essencialmente oficinal, mas onde a tecnologia moderna também tinha lugar - é, talvez, uma das surpresas desta investigação e um contributo da leitura espacial e da metodologia aplicada, que permite uma análise a diferentes escalas, desde nível rua, da zona até ao conjunto da cidade.

Os novos polos industriais em afirmação e crescimento neste período, nas zonas oriental e ocidental da cidade, apesar de menos relevantes em termos de concentração de estabelecimentos industriais, distinguiam-se por uma maior especialização produtiva e maior propensão para a inovação tecnológica. Na zona oriental, onde se instalavam fiações de algodãoe as unidades da Administração Geral dos Tabacos, a preponderância produtiva pertencia aos tabacos e dominavam os grandes estabelecimentos fabris - com a maior média de trabalhadores/as por fábrica - muitos usando máquinas a vapor. Mas a zona ocidental era o espaço urbano onde a inovação tecnológica era mais evidente - maior concentração de máquinas-a-vapor e energia produzida – especialmente fixada nos setores têxtil, metalúrgico e alimentar. Aqui as grandes e, tecnologicamente, avançadas fábricas de têxteis de algodão, estamparias e tinturarias de Alcântara tornaram-se a marca da modernidade tecnológica e energética da produção industrial lisboeta.

Apesar da maior percentagem de operários/as, averbada a cada setor de produção, ser dos têxteis e dos tabacos – essencialmente localizados nos polos industriais periféricos – a caracterização dos espaços de trabalho operário na Lisboa da última década de Oitocentos permite indicar que a maior concentração de mão-de-obra se registava na zona central. Era aqui que se verificava uma maior densidade de trabalhadores/as fabris e oficinais, tornando esta área urbana na zona mais relevante, também, em volume de mão- de-obra. A maior conglomeração de operários/as disseminados por mais espaços de trabalho, identificada na zona central, era também aquela onde se identificava uma propensão para o pagamento de jornas mínimas mais altas – tendência relacionada com a localização de muitas das oficinas e fábricas de chapelaria, de produção de luvas, de

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cantaria ou carpintarias cujas jornas dos/as trabalhadores/as que recebiam menos correspondiam à media mais alta registada desses «salários mínimos» pagos pela indústria em Lisboa.

O distanciamento geográfico para oriente e ocidente do centro estava associado, por sua vez, a uma tendência para o aumento da dimensão dos estabelecimentos industriais em número de operários/as. Ou seja, apesar de se identificarem menos fábricas e menor quantidade de mão-de-obra nas novas áreas de desenvolvimento industrial, era aqui que se localizavam a maior parte das fábricas com elevadas concentrações de trabalho operário sob o mesmo teto fabril, especialmente em Alcântara e em Xabregas. A implantação de estabelecimentos industriais de grandes dimensões e a dependência dos/as trabalhadores/as face a poucos patrões, nestas áreas com uma especialização setorial produtiva muito definida, coincidia com um menor valor médio auferido pelo trabalho fabril. De facto, nas zonas oriental e ocidental da cidade e, simultaneamente, nos grandes estabelecimentos têxteis, nas fábricas de fósforos e nos curtumes que aí se situavam, pagavam-se as mais baixas as jornas por dia de trabalho.

A dispersão do operariado feminino lisboeta tinha características especificas, que evidenciava “entre as classes operárias, o miserável emprego dado às mulheres.”288

Embora houvesse mulheres operárias trabalhando por toda a cidade, por ser uma mão-de- obra maioritariamente afeta às industrias tabaqueira e têxtil, elas tinham um peso bastante maior nos novos polos industriais da época. Serão, portanto, estes os espaços da afirmação feminina, em larga escala, no mundo laboral da indústria lisboeta. Ainda assim e apesar de em menor número, as operárias que trabalhavam na zona central davam visibilidade ao trabalho oficinal e fabril feminino, já que era das mãos destas operárias que saiam as luvas, os chapéus e as confeções que «alimentavam» a moda burguesa da Baixa da cidade.

Os dados fornecidos pelo Inquérito Industrial de 1890 possibilitam, também, esboçar uma imagem de vulgarização do emprego de crianças nas fábricas e oficinas de Lisboa. Tanto em termos de distribuição territorial do trabalho infantil como da sua divisão e espacialização por género correspondia, embora numa escala menor, à distribuição global da mão-de-obra adulta. Ou seja, “a creança aqui [era] um trabalhador (…), uma parte da tarefa, (…) uma actividade creadora e um lucro.”289

288 Ortigão, Queiroz, Novembro 1872, p.43 289 Ortigão, Queiroz, Março 1872, p.22

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Outro dos aspetos, relativos à caraterização do operariado lisboeta de final de Oitocentos, que o Inquérito Industrial de 1890 aclara, prende-se com o «saber ler». De facto, quando comparados estes dados com os apresentados no recenseamento geral da população do mesmo ano, «salta à vista» uma taxa de alfabetização operária pouco menor do que a registada para o geral da população lisboeta e muito superior à do conjunto da população portuguesa, o que é surpreendente. As diferenças, também neste aspeto, entre quem trabalhava na zona central – com uma taxa de alfabetização operária mais elevada – e nas zonas oriental e ocidental – onde menos operários/as, em valores absolutos e percentuais, sabiam ler -, revela a integração do operariado do centro no espetro social, muito heterogéneo, da cidade neste período. Sendo que a prevalência, nesta zona da cidade, dos setores de produção onde se registava uma maior taxa de alfabetização operária contribuiria certamente para tal.

Todavia, no conjunto da cidade, a diferença entre mulheres operárias que sabiam ler e o total das mulheres lisboetas alfabetizadas era muito acentuada, o que não ocorria com os homens, assim como muito elevada era a discrepância entre operariado feminino e masculino nas taxas de alfabetização. Fica sublinhado, também deste modo, não só o carácter pouco qualificado do trabalho fabril e oficinal desenvolvido nas zonas ocidental e oriental, onde a prevalência de mão-de-obra feminina era maior, mas também uma desvalorização pronunciada da generalidade do operariado feminino.

Desvendam-se, portanto, da análise feita com base no Inquérito Industrial de 1890, distintos contextos industriais e diferentes características da população operária. Identificam-se duas realidades industriais e operárias paralelas na cidade de Lisboa – uma, na zona central, com uma rede mais densa de estabelecimentos fabris e oficinais, caracterizada por uma indústria envolvida pelo tecido urbano, mais heterogénea em termos produtivos e tecnológicos, onde trabalhava a maioria da população operária; outra, nas periferias industriais em afirmação, onde despontava a «nova cidade industrial» povoada de fábricas, que concentravam grandes contingentes de mão-de-obra, tecnologicamente mais avançadas mas, ainda assim, menos alfabetizada e auferindo jornas em média mais baixas.

Foi na convivência entre estas «cidades» industriais e operárias que se operaram muitos dos processos de transição económica, laboral e social que a cidade de Lisboa viveu neste final de Oitocentos, sem esquecer a área norte, reintegrada

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administrativamente na cidade havia poucos anos, ainda largamente rural, mas para onde a cidade crescia também em termos populacionais.

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