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A educação é uma prática social, um campo de exercício. A investigação que a ela serve entra no movimento da realidade para gerar conhecimento a partir do “chão” que se pisa. Neste caso a Comunidade Quilombo Mesquita e seu movimento!

E desta forma partimos daquilo que dizem, fazem e produzem os sujeitos

com quem trabalhamos, nós pesquisadores “profissionais” ou em formação e

sujeitos-grupos vinculados à investigação participativa. Junção esta a que chamamos de pesquisador-coletivo.

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O “pesquisador-coletivo” representa uma entidade que não se reduz a soma de seus membros. Este grupo não tem posição e número de membros necessariamente fixados, podendo ocorrer um modo de organização do trabalho em que estes se substituem para garantir a continuidade dos processos iniciados. Como o é em nosso caso!

Barbier (2011) diz que se trata de encontrar na população investigada, as pessoas mobilizadas, os líderes de opinião, suficientemente interessados em uma ação ligada à reflexão. Na primeira fase deste trabalho, induzidos por uma interpretação disto a que nos refere René Barbier, acabamos por buscar “construir o pesquisador-coletivo” e isto se mostrou falho.

Pensamos que se tratava de encontrar determinadas pessoas e grupos e “formar” ou “construir” este “pesquisador coletivo” para refletir sobre ações e situações problemas-desafios específicos. O que “aparentou” formar algo paralelo, interpretado como uma atividade a mais diante das demandas do dia-a- dia da comunidade.

É certo que também nos faltou habilidades para comunicar da melhor forma possível esta intenção, afinal de contas pesquisar o que, pra quê, por quê, como, quando, onde? Isto não é fácil nem para nós que nos dedicamos “profissionalmente” a isto. Além do que, a primeira fase desta pesquisa foi nosso primeiro contato com a pesquisa-ação, refletindo nossa inexperiência.

Logo, com o decorrer da relação, ajustamos nosso olhar sobre a concepção do que viria a ser este “pesquisador coletivo”. Em nosso caso ele não é “instaurado”, “construído” pelo pesquisador profissional (como ocorre em “grupos focais” por exemplos). Talvez o possa ser mais facilmente numa relação institucional, afinal de contas Barbier propõe esta compreensão a partir de sua prática em análise institucional na perspectiva da educação. Nossos grupos e as situações a serem pesquisadas já estavam em curso pela própria dinâmica da realidade destes. Nós é que nos somamos a eles para propor a atribuição deste sentido ao trabalho do grupo: “pesquisador- coletivo” a medida que podemos compor o grupo.

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Existe aqui uma sutil diferença entre estas duas situações (institucional e não institucional), refletida em nossas estratégias didático-político-pedagógicas no desenvolvimento de nossa relação com os sujeitos-grupos.

Quanto a este aspecto relacionado à dinâmica e ao sentido do “pesquisador-coletivo”, sua compreensão, sua constituição e o caráter de seu trabalho, expressa mais uma vez a “descentração do pesquisador” neste tipo de pesquisa, que nos coloca diante do risco de “perder de vista o objeto de pesquisa”. Barbier qualifica a participação do pesquisador como “um engajamento pessoal e aberto para a atividade humana visando à autonomia”, extraindo as relações de dependência em que prevalece o diálogo nas relações de cooperação e colaboração.

A dimensão coletiva remete à presença ativa de um grupo envolvido numa práxis política, observada na pesquisa, considerando aqui todas as embaraçosas questões metodológicas decorrentes disto, afinal não é fácil trabalhar coletivamente. Assim, chamaremos aqui de “pesquisador coletivo” os sujeitos e grupos atuantes no âmbito da Associação Renovadora do Quilombo Mesquita - ARENQUIM ou relacionados a esta. Sujeitos e grupos com os quais nos encontramos e que nos acolhem em suas ações e reflexões políticas e comunitárias, das quais tomamos parte.

Vejamos adiante o diagrama que apresenta a composição do

pesquisador-coletivo em nossa pesquisa-ação:

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Temos ao centro do diagrama a Associação Renovadora do Quilombo Mesquita – ARENQUIM, presidida por Sandra Pereira Braga e composta por um coletivo efetivo de aproximadamente uma dezena de sujeitos. Os projetos “Som

de Quilombo”, “Viveiro de Mudas Comunitário” e “Espaço de Memória”, já

apresentados no capítulo 2, estão no âmbito da ARENQUIM, e são coordenados respectivamente por Manoel Barbosa Neres; José Roberto Pereira Braga e Divino Lisboa; e Célia Pereira Braga. Seus coordenadores compõe o coletivo da ARENQUIM que acaba por envolver outras duas dezenas de pessoas (crianças, jovens e adultos) com estes projetos, desdobrando três grupos ligados à ela. O último círculo referente ao “Coletivo ARTEIA” formado por jovens e adultos artistas, estudantes e trabalhadores da Cidade Ocidental, organizados pela construção de políticas culturais e educacionais, articulado com o Quilombo Mesquita na luta pelo desenvolvimento político do município.

Caracterizamos nosso pesquisador-coletivo na coparticipação de sujeitos iguais e criativos no ato de pensar e conhecer. Na comunicação – como relação social de dimensão política de sujeitos-grupos que criam conhecimento juntos, tendo a natureza dessa interação fundada no diálogo.

Estamos, assim, implicados em processos de ação e reflexão de nossa situação social no Quilombo e no município, que resultam em transformações expressas em mudanças de atitudes, de condições, de produtos e de discursos. No exercício coletivo de fazer da opressão e de suas causas objeto de reflexão, resultando em níveis de engajamento e de compreensão da luta por nossa emancipação política, social, cultural, etc.

E é nesta compatibilidade de leitura com Paulo Freire que realizamos o que se pode chamar de círculo de cultura. Neste diálogo entre pessoas que se propõem construírem juntas um saber solidário, a partir do qual cada um ensina e aprende.

Embora nós “pesquisadores profissionais” reconheçamos este processo em sua dimensão político-pedagógica, como método e técnica de ação grupal e como diretriz didática no ato do pesquisador-coletivo de aprender a dizer a “sua

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palavra”, este é um sentido que precisa ser ainda profundamente trabalhado e compreendido pelos sujeitos envolvidos na pesquisa. Para que, por um lado, se conscientizando geremos o engajamento necessário e espaços orgânicos de reflexão, e por outro, para assumirmos do ponto de vista coletivo um papel mais ativo na sistematização e teorização da pesquisa.

De forma que realizamos em nossa prática esta noção de “pesquisador-

coletivo” e de “círculo de cultura” ao nível que realizamos debates em grupo, na

busca de compreender problemáticas e de estabelecer ações decorrentes destas compreensões (assim o é em nossas reuniões na ARENQUIM sobre o Plano Municipal de Educação, o Plano Diretor de Ordenamento Territorial e o Plano de Regularização Fundiária municipais.). Porém precisamos elevar estas noções em nossa prática, tornando-as mais orgânicas para não limitar-nos ao ativismo, mas associada ao sério empenho de reflexão (práxis).

É evidente que esta dificuldade relacionada à “organicidade”, reside no processo de amadurecimento político, que revelam dificuldades de compreender a necessidade e as formas de aprofundamento das reflexões e da sistematização das ações. No entanto, o tempo necessário para o desenvolvimento desta ação orgânica esbarra nas condições da classe trabalhadora que, além de tudo, tem que “matar um leão por dia” para colocar a comida à mesa!

Logo a programação dos debates surge de acordo com as possibilidades do próprio agrupamento. Onde ocorrem a “negociação” e a “avaliação” dos processos de ação, resultando em dinâmicas de “autorização” (relativo à autoria) e de “mudanças”24

(atos decisórios). Desdobrando-se dos interesses e necessidades do próprio grupo.

E nesta “descentração do pesquisador” diante da programação dos debates e encontros do “pesquisador-coletivo”, a “técnica do banal e do

cotidiano”25 nos valeu como forma de escuta e observação que, embora, não

24 Os termos “negociação”, “avaliação”, “autorização” e “mudança” aqui referidos aos processos do “pesquisador- coletivo” pertencem às noções-entrecruzadas em pesquisa-ação (BARBIER, 2007.).

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estruturada, nos possibilitou um maior aproveitamento de todas as formas e lugares de encontros propícios à “escuta interessante” (café, lugares de culto, festividades, encontros de amigos, etc., ou ainda em reuniões e audiências públicas) onde o “lugar do acontecimento” era proveitoso para a pesquisa. Valeu- nos com frequência “relatos de vida”, conversas grupais (que valeriam e valeram entrevistas), aonde nos chegaram documentos oficiais e principalmente documentos pessoais (fotos, objetos, diários íntimos), assim como produções imaginárias dos membros do pesquisador-coletivo (músicas, fotografias e documentos em vídeo). No que viemos utilizando a “técnica do diário de

itinerância” para registrar estes encontros e o recebimento/contato com estes

“documentos”, representando nosso percurso tal qual ele foi se manifestando pouco a pouco, num emaranhado de encontros com pessoas e grupos.

Diante deste processo onde a centralidade foge ao largo do “pesquisador profissional”, valemo-nos de uma formação para a pesquisa que assume plenamente a ambivalência das práticas profissionais do trabalho social e educativo, não havendo separação entre militância e pesquisa, permanecendo no contexto dos fenômenos estudados para começar a captar suas significações, estando junto com quem trabalhamos, tentando junto a estes e com sua aprovação, depreender as estruturas significativas dos fenômenos percebidos e, existencialmente falando, atribuindo sentidos.