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5.3 R´esultats num´eriques

5.3.3 Crit`ere de Drucker Prager

Em 20 anos de existência, é possível ver na trajetória do Grupo Cena 11 Cia. de Dança a busca por uma qualidade muito particular, uma estética específica atrelada a uma corporalidade específica, construída por meio de uma técnica própria. Ou seja, uma pesquisa que concomitantemente cria um design de movimento singular, constituinte estético que promove a identidade do grupo, mas que também se imbrica necessariamente num processo de formação técnica exclusivo. Segundo as pesquisadoras Isabelle Launay e Isabelle Ginot (2003a), aí está uma das especificidades da dança contemporânea, definir-se a partir de seu projeto estético, ou seja, no caso do Cena 11 a investigação de uma possibilidade do corpo precipitada em estética e técnica. Um corpo que elabora princípios de dança a partir de si, que abriga seus desejos de mover na capacidade de reconstituir suas tendências de mover, em seus aspectos culturais e biológicos.

São materiais propulsores de investigação para os espetáculos do Cena 11 as possibilidades de criar o corpo, seja no campo de suas qualidades imanentes de mover, concernentes à estrutura sensório- motora, ao peso e ao espaço, seja relacionando o corpo a outras mídias como vídeos, imagens, robôs e objetos que se tornam seu prolongamento. A partir da intensa investigação desses elementos, formou-se um modo de mover e operar informações com o corpo específico do grupo, assim como uma relação entre os corpos. Um exemplo desse modo específico vemos na Figura 2, foto com a bailarina Letícia Lamela no espetáculo Skennerbox (2005), a criação de um tipo

de queda33 do corpo, característica que percorre grande parte do

repertório de espetáculos da companhia de diferentes maneiras. Apesar de essas quedas serem movimentos visivelmente particulares que possivelmente deixam uma marca como “a cara do grupo” Cena 11, a evidência do modo de operar o corpo de forma singular está

                                                                                                               

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Movimento no qual o bailarino organiza seu corpo como um bloco e, deixando seu peso entregue completamente à gravidade, cai inteiramente ao chão. A organização corporal de bloco estabelece que as partes do corpo estejam todas envolvidas num único movimento de queda, sem usar qualquer um dos membros, antecipado ao resto do corpo para amortecer o impacto ao chão.

estreitamente ligada a uma movimentação regida pelo peso do corpo numa dinâmica que mistura precisão e falha, domínio e inevitabilidade, adaptação e risco. Essa movimentação é resultado de uma pesquisa constante de novos parâmetros de movimento que constituem uma estética e técnica específica, ou uma nova modalidade corporal, usando os termos de Launay e Ginot (2003a).

Figura 2 – Cena 11 Cia. de Dança

Fonte: CARMO; BELCHIOR, 2014. Foto: Gilson Camargo.

O grupo formado em 1986 em Florianópolis/SC e até hoje residente nessa cidade foi primeiramente liderado pelo bailarino

e coreógrafo residente Alejandro Ahmed,34 nascido em Montevidéu/Uruguai. O grupo recebeu diversas premiações como o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) – Trajetória de pesquisa em dança de 2012 para Carta de Amor ao Inimigo; o Prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia em 2007 e o Prêmio Bravo! Prime de Cultura – melhor espetáculo de dança de 2007 para Pequenas Frestas de

Ficção sobre Realidade Insistente (PFdFSRi); o Prêmio Mambembe de melhor coreógrafo em 1998 para A Carne dos Vencidos no Verbo dos

Anjos; o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor concepção cênica em 1997 para In´Perfeito; e o Prêmio Mérito Cultural

Cruz e Sousa de destaque na área cultural catarinense em 1997.35

Segundo a pesquisadora e crítica Helena Katz, o Grupo Cena 11 desde seu surgimento

[...] vem desenvolvendo uma trajetória de grande impacto e permanente reformulação. Dialogando com novas mídias, o grupo se tornou uma referência marcante no cenário das experiências que exploram os limites entre arte e tecnologia, tendo encontrado uma identidade própria numa síntese de linguagens coreográficas distintas. A violência física se evidencia pelos movimentos de quedas característicos da técnica do grupo, além de atos de auto-violação. Por meio de uma linguagem urbana, o grupo explora uma

                                                                                                               

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Dirigido artisticamente por Alejandro Ahmed. Atualmente, dezembro de 2013, é composto do seguinte elenco: Aline Blasius, Anderson do Carmo, Adilso Machado, Hedra Rockenbach, Jussara Belchior, Karin Serafin, Marcos Klann e Mariana Romagnani.

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Informações retiradas da tese de doutoramento de Jussara Xavier (2012) e do

web site do Grupo Cena 11 de Dança, disponível em:

<http://www.cena11.com.br/blog/companhia/>. Além da tese de Xavier (2012) – Acontecimentos de dança: corporeidades e teatralidades contemporâneas –, que contém rico material sobre o Cena 11, outras informações sobre o grupo, seu histórico e espetáculos podem ser encontrados no livro A dança dos

encéfalos acesos, de Maíra Sphangero (2003), assim como em outros artigos e

críticas sobre o grupo, como Cena 11 expande limites do corpo, de Inês Bogéa (2001); A dança de risco do Cena 11 (2000) e A investigação inédita e

surpreendente do Cena 11 (2008), Novo espetáculo do Cena 11 tenta demonstrar que a dança e coreografia não são sinônimos (2012), todos de

superposição de discursos vindos das variadas mídias com que trabalha. (ÁQIS, 2009).36

O Cena 11 é um grupo que vem contribuindo muito para o desenvolvimento da dança no Brasil, seja na excelência estética e técnica, seja participando de vários eventos, festivais no país e no exterior. Mas destaco que esse desenvolvimento inclui a área da

pesquisa em dança no nosso país. É característica do grupo a criação processual, não apenas compondo espetáculos, mas desenvolvendo estudos e pesquisas sobre o corpo e os modos de mover em horas de trabalho diário.

Durante a minha estada no grupo, que durou aproximadamente dois anos, foram cinco horas de trabalho diário, cinco dias por semana, geralmente divididos em duas partes: as aulas de dança ministradas pelo diretor Alejandro Ahmed e pela professora de balé clássico e assistente

de ensaios Malu Rabelo,37 que investigam a técnica do grupo formada ao

longo de sua existência, assim como suas novas necessidades criativas e desafios artísticos; e num segundo momento, os ensaios dos espetáculos que compõem o repertório da companhia e também a pesquisa da criação de novos espetáculos. Ambos os momentos me traziam uma série de aprendizados e criações das quais participava. As aulas de dança, primeiro momento do ensaio, apresentaram grande parte das informações que geravam para mim as primeiras dificuldades no corpo ao entrar em contato com as técnicas do grupo em exercícios e os conceitos operativos que circulavam para eles em sua história em constante construção e com os quais eu interagia pela primeira vez. As aulas eram voltadas para os modos de gerir o corpo nas coreografias dos espetáculos anteriores ao Carta, modos presentes, por exemplo, no espetáculo Guia de Ideias Correlatas, estreado em 2009, no qual estive

em cena em 2012.Na segunda parte dos ensaios na época (2010 e 2011)

estávamos no processo de criação de Carta de Amor ao Inimigo (apelidado Carta), que me trazia outro tipo de experiência, criando junto ao grupo parâmetros do que seria o novo espetáculo, mas que

                                                                                                               

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Disponível em: <http://aqis.ceart.udesc.br/imagetica_grotesca/wp- content/uploads/2009/09/8-Cena-11-Cia-de-Dança.pdf>.

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Malu Rabelo é natural de Belo Horizonte (MG), nascida em 1961, veio a residir em Florianópolis no ano de 1991. Começou a trabalhar com o Grupo Cena 11 Cia. de Dança como professora de balé e assistente de ensaios em 1994.

certamente traziam consigo a técnica anterior que ganhava novas perspectivas, o que se relacionou ao meu aprendizado das aulas. Minha experiência se deu então por meio de duas interações/construções: a primeira com a técnica que já existia anterior ao Carta, foco das próximas páginas, e a segunda com a técnica criada na pesquisa do

Carta, descrita de forma mais breve por meio do conceito operativo

corpo interdependente no item 2.4.

Muito estudado por pesquisadores de dança e arte contemporânea, o trabalho do grupo, segundo o próprio Cena 11 em seu

site/blog na internet,38 apresenta:

Três sólidos conceitos fazem parte da pesquisa do grupo:

- ética e estética sobre o corpo e o ambiente onde este corpo está inserido;

- produção unida à pesquisa artística, dança e tecnologia;

- e, mais recentemente, o intercâmbio de estudo e prática com outros grupos de arte e dança. Esses conceitos podem ser observados em seus espetáculos: Guia de Ideias Correlatas, Embodied Voodoo Game, SIM<Ações integradas de consentimento para ocupação e resistência.

A experiência técnica com o Cena 11 não é algo que se aprende como um a+b dentro de um vocabulário pronto. É fundamental a escuta constante do bailarino no seu corpo, de estar aberto a entender quais suas tendências de agir, suas escolhas entre qualidades e dificuldades. O bailarino deve também estar atento a não antecipar sua ação, colocando- se constantemente num estado de risco, num campo de novas escolhas, numa disponibilidade para o devir desconhecido, deixando-se ser guiado por seu corpo e sua dança. Seu trabalho técnico é elaborar ferramentas para estar sensível à escuta de si e do outro, às nuances de movimento que perpassam o corpo a todo instante.

Antes de continuar falando sobre técnica e coreografia, gostaria de esclarecer ao leitor minha história com o grupo para que fique mais clara minha escolha por determinados elementos para expor neste trabalho. Minha entrada no Grupo Cena 11 se deu por um workshop-

                                                                                                               

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audição. Previamente, enviei um vídeo com a minha coreografia solo e, posteriormente, após a seleção por vídeo, o grupo me convidou a participar das aulas do seu trabalho diário, assim me tornando estagiária do grupo por um ano e meio e, posteriormente, bailarina convidada por meio ano. Nesse período, participei de grande parte do processo de criação do Carta; contudo, no final do processo entrei para a companhia Peeping Tom e as constantes viagens inviabilizaram minha participação no término do processo e na estreia desse espetáculo com o grupo. Sendo assim, continuei participando do Cena 11, mas somente nas apresentações do repertório, enquanto se continuava a pesquisa para finalizar e estrear o Carta. Destaco novamente que, nesse primeiro momento, me refiro ao que aprendi nas aulas de Alejandro Ahmed, resultado dos anos de história do grupo, técnica que utilizei para dançar o espetáculo Guia de Ideias Correlatas.

Outra observação que quero colocar ao leitor é que a configuração da minha participação nos grupos gerou uma situação estrutural possível na contemporaneidade da dança. Após começar o trabalho com o Peeping Tom, mantive o vínculo com o Grupo Cena 11 de forma a participar somente das apresentações do repertório, com ensaios pontuais para tal durante meio ano, configurando uma interação como bailarina convidada. Para um grupo como o Cena 11, que historicamente se estruturou de maneira a ter um local fixo de trabalho, que possui um treinamento diário, aderindo também à forma mensal fixa em termos de organização e remuneração de seus bailarinos, fez-se uma adaptação estrutural, abrindo-se a possibilidade para uma participação sazonal de uma das bailarinas. Isso também foi possível porque o grupo Peeping Tom trabalha de forma a criar seus espetáculos condensadamente, por volta de cinco meses de criação diária, e quando começa a turnê de apresentações tem um plano anual de apresentações por mês que não prevê ensaios entre as apresentações. Como eu entrei no grupo fazendo uma substituição e, por isso, diretamente na sistemática da turnê, minha situação contratual foi estabelecida trabalhando periodicamente na Europa, indo apenas para fazer as apresentações em determinada cidade e voltar para o meu país de origem (momento em que pude realizar o mestrado e me apresentar com o Cena 11). Minha condição ocorreu pela primeira vez na companhia belga, igualmente uma maneira de adaptar-se ao seu contexto a partir de sua agenda de apresentações já estabelecida antes da minha entrada e que precisava ser cumprida, juntamente com as possibilidades políticas e financeiras da companhia, tendo em vista o fato de eu ser brasileira.

Penso que essas possibilidades são parte de um contexto de uma série de questões da situação atual de estruturas de financiamento, organizada por projetos que possibilitam criações de forma pontual, periódica, que fazem parte da nossa contemporaneidade da dança, da arte em geral.

Sem me aprofundar nessa questão,39 em suas potencialidades e

precariedades, apenas gostaria de levantar esse contexto que exige uma adaptação dos artistas, mas que ao mesmo tempo fornece possibilidades de sobrevivência.

2.1 DO ATRITO ENTRE NOVOS PARÂMETROS À AMPLIAÇÃO DA OPERACIONALIDADE NO CORPO QUE DANÇA

Volto a descrever minha experiência pessoal com os elementos da técnica do Grupo Cena 11, porém agora a partir da perspectiva que surgiu no contato entre os seus conceitos operativos e a minha formação em técnicas corporais na ginástica rítmica. Através de um treinamento rígido de oito anos enquanto atleta, nessa modalidade desportiva adquiri disciplina e domínio bastante ligados à precisão formal de movimentos do corpo. A técnica dessa ginástica é baseada nos princípios do balé clássico, ou seja, apropria-se de muitos movimentos já codificados pelo balé para o seu desdobramento e estética, assim como utiliza essa técnica como treinamento para as ginastas. É possível ver na Figura 3 a ginasta campeã mundial, Anna Bessonova, em ação na série com o

aparelho arco realizando um salto gran jeté,40apropriado do balé, isto é,

                                                                                                               

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Sobre a questão das estruturas contemporâneas de sobrevivência em arte, mesmo que focada nos solos de dança, Eugenia Casini Ropa (2009) faz um estudo utilizando três pontos de referência para traçar uma história do surgimento e da disseminação do solo de dança: a relação entre o solo e a mulher, o solo e o coro, e o solo hoje. Assim traz uma reflexão sobre essa “modalidade” artística, traço recorrente no século XX. Ela também mobiliza uma série de reflexões e inquietações do artista que elaboram um panorama que transpassa nosso sistema atual de estruturas de sobrevivência e interesses em arte contemporânea, como, por exemplo, “dançar solos quer dizer também fugir das lógicas quantitativas das subvenções públicas e autogerir além dos próprios instrumentos criativos a própria vida profissional” (ROPA, 2009, p. 69).

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O grand jeté é um movimento de salto no qual a bailarina pula com as pernas estendidas em sua abertura máxima no ar. Apesar de enfocar na dissertação o balé como baseado numa estrutura guiada por formas e códigos, devo destacar que não é ausente a presença de princípios de mover na dança clássica, ou seja, há também um aprendizado das relações da física no corpo que dança, da

 

a ginástica possui um repertório de códigos e passos geralmente aprendidos por um formato predeterminado do corpo, formas corporais em função de exigências técnicas a serem cumpridas, como duração de cada movimento, amplitude e relação com o espaço, e uma relação com os aparelhos utilizados nas séries (coreografias), visando à pontuação da ginasta.

Figura 3 – Ginástica rítmica

Fonte: GYM, 2009. Foto: Thomas Schreyer.

Certamente, esse modo de aprender movimento teve um impacto junto aos parâmetros de mover na dança do Cena 11, ora permitindo acesso, ora se apresentando como restrição, o que será

desenvolvido mais à frente no trabalho.41Minha carreira como ginasta