démonétisation de l’engagement civique au sein du théâtre public français
I. 3.2 - Critères d’intégration institutionnelle
Ao nível da política cultural externa, o ano de 1933 não significou uma rutura abrupta. Houve, antes, uma enorme continuidade. Mas houve também alterações determinantes, já que o regime transformou o nacionalismo radical e o antissemitismo em pedras angulares da política interna e externa. Apesar da “perversão da ciência” 1
, e da cultura, pela ideologia racista e nacionalista, manteve-se a necessidade de internacionalizar. Terão estas duas tendências - nacionalismo/internacionalismo - constituído uma contradição durante o regime nazi? Sem dúvida que a política externa nazi, incluindo a de cariz cultural e científico, foi profundamente antinómica e sujeita a inúmeras pressões. A “Gesetz zur Wiederherstellung des Berufsbeamtentums” (Lei para a Restauração da Função Pública), de 7 de Abril de 1933, levou ao afastamento de comunistas, de sociais-democratas e de judeus das universidades alemãs, das escolas e das bibliotecas2
. Perderam-se, assim, cerca de 15% dos investigadores e professores, incluindo vários prémios Nobel3. Ainda o ano de 1934 não tinha começado e já 26% dos físicos, 20% dos matemáticos e 13% dos químicos haviam sido arredados dos seus postos de trabalho4. A maioria optou por sair da Alemanha, sobretudo para os EUA. Este fluxo de exilados continuou e foi aumentando ao longo dos anos. Nos EUA foi mesmo criado um Comité de Emergência para ajudar os cientistas estrangeiros que aí procuraram refúgio. Esta “diáspora científica” teve duas consequências contraditórias: ajudou a disseminar por vários países a ciência produzida na Alemanha, aumentando a sua reputação, mas fez também recuar a reputação internacional de algumas instituições científicas que viram os seus principais cientistas partir.
1 P. S Richards, “The movement of scientific knowledge from and to Germany under National Socialism”, Minerva, vol. 28, n. 4, 1990, p. 406.
2 É importante sublinhar que o regime nazi constitui uma rutura total, nem mesmo no que diz respeito ao antissemitismo e ao ultra-nacionalismo, uma vez que há muito que ambos faziam parte do discurso político. A exclusão de todos os judeus do funcionalismo público que esta lei- elaborada por Wilhelm Frick, Ministro do Interior do Reich- veio consumar, havia já sido proposta por Frick ao Reichstag, em 1925, quando era deputado do Nationalsozialistische Freiheitspartei (Partido Nacional-Socialista da Liberdade) (Fernando Clara, “A “questão da raça”, as redes internacionais do Instituto Ibero-Americano de Berlim e as suas relações com Portugal (1939-1945)”, in Fernando Clara e Cláudia Ninhos [eds.], A Angústia da Influência. Política, Cultura e Ciência nas relações da Alemanha com a Europa do Sul, 1933-1945, Frankfurt am Main, Peter Lang, 2014, p. 120).
3
Pamela S Richards, Scientific Information in Wartime, p. 50. 4 Ibid.
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Depois da ascensão de Hitler ao poder verificou-se, também, uma redução do número de estudantes estrangeiros nas universidades alemãs, apesar do Ministro da Educação da Prússia, Bernhard Rust, logo em Abril de 1933, ter garantido que seriam bem recebidos na Alemanha, onde encontrariam incentivo e hospitalidade se demonstrassem compreensão e interesse pela política e pela ciência alemã5. No entanto, até ao semestre de Verão de 1934, o número de estudantes americanos e húngaros desceu cerca de 53%, de polacos 46,4% e dos países bálticos 40,6%. O número de estudantes búlgaros, gregos e turcos também sofreu uma quebra, embora menos acentuada. Pelo contrário, os estudantes oriundos da Noruega, da Áustria, da China e de alguns países da América Latina aumentaram. Como explicar então estas variações? É claro que a regressão no número de estudantes dos EUA, da Hungria, da Polónia e dos países do Báltico se deveu ao facto de muitos deles serem judeus. Para as autoridades alemãs, que desde o primeiro momento adotaram uma política racial segregadora, tratou-se de uma “limpeza” que permitiu esvaziar as universidades alemãs de estudantes estrangeiros que, política e culturalmente, eram considerados indesejados. Nem as autoridades nazis os queriam no Reich, nem os próprios estudantes se sentiam bem na
Alemanha6
. Há que ter em conta que se verificou, também, uma certa animosidade em relação ao regime nazi, já que alguns cientistas estrangeiros denunciaram publicamente o novo regime em reputadas revistas como a Nature e a Science7
. A par disto, não podemos esquecer que a crise e a Depressão que se viveu no início da década de 1930 afetou, de igual forma, a mobilidade.
Tudo isto levou a Alemanha a experienciar um novo isolamento cultural, que colidiu com a necessidade de o regime demonstrar, ao exterior, que a vida no interior do país decorria em plena normalidade depois da subida ao poder de Hitler. Enquanto a Alemanha se isolava, outros países registavam enormes sucessos ao nível da política cultural. As missões alemãs no estrangeiro remetiam ao Auswärtiges Amt relatórios alarmantes, sublinhando a possibilidade de se pôr em perigo o intercâmbio cultural8.
5 Holger Impekoven, Die Alexander von Humboldt-Stiftung und das Ausländerstudium in Deutschland
1925-1945, pp. 166–167.
6 Ibid., p. 164.
7 Veja-se, a título de exemplo: “Science and the Nazis”, Nature, vol. 133, n. 3373, 23 June 1934; “The Aryan Doctrine”, Nature, vol. 134, n. 3381, 18 August 1934; “The Situation of Jewish Scientific Men and Physicians in Germany”, Science, 19 May 1933; C. Thomalla, “The Sterilization Law in Germany”, Scientific American, vol. 151, n. 3, September 1934.
8
Holger Impekoven, Die Alexander von Humboldt-Stiftung und das Ausländerstudium in Deutschland 1925-1945, p. 166.
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Nos primeiros anos, os dirigentes nazis estiveram ocupados em consolidar o regime, afastando qualquer oposição. Reforçaram e centralizaram ainda a política cultural no interior do Reich, através da criação do Ministério da Propaganda. Na Europa, deram início a um processo de expansão marcado por um discurso revanchista, contra o Tratado de Versalhes, procurando conquistar o que afirmavam ser o Lebensraum (Espaço Vital) da Alemanha. Essa agressividade, que aumentou de intensidade até desembocar na II Guerra Mundial, foi acompanhada por uma crescente animosidade internacional face à política expansionista do regime nacional-socialista e que explica, em parte, a necessidade de apostar numa política externa cultural que promovesse no estrangeiro um clima de compreensão pela Alemanha e pelas suas reivindicações. Procurava-se propagar a ideia de que a Alemanha havia sido menorizada e ultrajada depois da guerra e que os vencedores lhe amputaram o território. É à luz desta conjuntura que tem de ser compreendida a referência à “cultura” no discurso de Hitler em 1937, que parecia vir confirmar o que Napoleão Bonaparte - alegadamente - afirmara um século antes:
Este Estado não deve ser um poder sem cultura, nem uma força sem beleza. O armamento de um povo apenas é moralmente justificável quando a espada e o escudo têm uma missão maior. Portanto, não aspiramos à força bruta de um Genghis Khan, mas sim a um império de força que seja instrumental na formação de uma comunidade nacional forte e protegida, como o suporte e guardiã de uma alta cultura!9
Em 1937 o termo “cultura” surgia assim, pela primeira vez, no discurso do Führer, embora já fosse muito instrumentalizada no seio de vários organismos, em especial pelo Ministério da Propaganda e pelo Auswärtiges Amt. O discurso construído em relação à cultura europeia aspirava a criar uma base de entendimento entre a Alemanha e os outros países, qualquer que fosse o seu estatuto, procurando cimentar um alegado projeto comum. A propaganda nazi, sobretudo durante a guerra, pretendeu difundir a ideia de que o III Reich tinha uma missão histórica a cumprir na Europa, que passava por salvar a “civilização ocidental”. O seu principal objetivo era, obviamente, criar um clima de simpatia pelo regime nazi, sobretudo num momento em que a sua política externa se radicalizava. Através da cultura reforçava-se também a influência militar, a política e a económica. O domínio militar, per si, não seria suficiente para
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Max Domarus, The Essential Hitler. Speeches and Commentary, Wauconda, Illinois, Bolchazy- Carducci Publishers, 2007, p. 503.
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dominar, daí que o papel da cultura para a construção de uma Nova Europa tivesse sido tão importante, uma vez que vinha dar fundamento histórico à presença alemã.