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De origem russa, viskázivanie significa ato de enunciar, exprimir, transmitir pensamentos, sentimentos etc. Esse termo utilizado por Bakhtin (2010a) já aponta para o ato concreto de uso da linguagem. Para ele, enunciado concreto se opõe à oração, pois esta é uma unidade abstrata, enquanto o enunciado é considerado a unidade real da comunicação. Por isso, existem diferenciações para o enunciado concreto e a oração. Para o autor, o enunciado pressupõe uma autoria, consiste em uma unidade real de comunicação; o enunciado pressupõe um acabamento mais específico como o gênero discursivo a ser utilizado; a atitude responsiva do outro; a alternância dos sujeitos; a posição valorativa em relação à realidade; enquanto a oração, não pressupõe autoria, é uma unidade significativa da língua, que possui acabamento gramatical. A oração é neutra.

Nesse contexto, percebemos que o enunciado concreto1 só se realiza na

interação verbal, comprometendo-se, assim, com uma visão que concebe o sujeito como historicamente situado e inacabado passível das influências dos diferentes contextos sociais. Isso se confirma quando pensamos ser o princípio constitutivo do enunciado concreto a contraposição entre a dicotomia eu/outro.

Existem três elementos caracterizadores do enunciado concreto, são eles: i) a alternância dos sujeitos da comunicação; ii) o acabamento específico do enunciado; e iii) a relação do enunciado com o enunciador e com os outros parceiros da comunicação. O primeiro faz menção a essa alternância por meio dos interlocutores, seja numa conversa informal, seja numa obra literária. Essa alternância é o grande impulsionador da réplica, cuja responsividade é condição para a concretização da cadeia dialógica, uma vez que a relação entre os sujeitos ocorre “face a face”, no interior do enunciado, disseminando discursos por meio do postulado da réplica. Assim, essas réplicas, são comumente chamadas de reações-respostas a enunciados anteriores que

[...] o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-la, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante (BAKHTIN, 2011, p. 271).

Todo “enunciado responde a um enunciado anterior, ou a uma realidade concreta” (CASADO ALVES, 2016, p. 167). Por isso, ao assumir um posicionamento diante de alguma situação comunicativa, o falante/ouvinte manifesta sua visão de mundo em detrimento de outros falantes. Por conseguinte, sem o postulado da réplica, não teríamos um enunciado concreto e, sim uma simples unidade da língua. Para Bakhtin (2011), a concepção dialógica pressupõe sempre o outro como parte integrante do discurso e, portanto, há sempre de considerar o discurso do outro em detrimento do discurso que produz em si mesmo.

O segundo elemento trata do acabamento específico do enunciado que, segundo Bakhtin, dá-se de três formas: exauribilidade do objeto e do sentido; um projeto de discurso ou vontade de discurso do falante; e as formas típicas composicionais e de gênero do acabamento. É importante pontuar que os três fatores definidores do acabamento específico serão instituídos em função do gênero discursivo e da esfera de comunicação. Além disso, esse acabamento diz respeito a não conclusão, a um processo de inacabamento em consonância com o projeto de dizer e com os gêneros discursivos.

Por último, a relação do enunciado com o enunciador e com os outros parceiros da comunicação verbal. Para Bakhtin (2011), o enunciado é sempre direcionado a alguém. Sob essa ótica, ele aponta que a composição e o estilo do enunciado não são os únicos responsáveis pela relação valorativa entre os aspectos semântico-objetal dos discursos. Nesse processo, estão em jogo as relações valorativas, não somente com o elemento semântico ou com os elementos linguísticos mas também temos de levar em consideração a relação do enunciador com os enunciados dos participantes da comunicação verbal.

O fato é que as relações sociais entre sujeitos ocorrem por meio da linguagem. Tal afirmação tem um papel fundamental para entender a concepção dialógica de linguagem, pois, para Bakhtin (2011), enunciado não é mera abstração linguística. Assim, os nossos enunciados ecoam e disseminam outros enunciados num processo

dialógico, no qual não apenas se faz presente o conteúdo temático mas também a forma composicional, o estilo e o estético.

Outro conceito relevante de Bakhtin e o Círculo faz referência à entonação, cuja importância para o estudo do enunciado concreto torna-se fundamental. Na obra, esse conceito aparece ainda com outros nomes: acento, tom, tonalidades dialógicas e entonação. A entonação aparece sempre vinculada ao aspecto valorativo e à posição axiológica do autor no enunciado concreto, uma vez que a entonação é social. Nessa perspectiva, Bakhtin afirma:

Ora, todo discurso concreto (enunciado) encontra o objeto para o qual se volta sempre, por assim dizer, já difamado, contestado, avaliado, envolvido ou por uma fumaça que o obscurece ou, ao contrário, pela luz de discursos alheios já externados a seu respeito. Ele está envolvido e penetrado por opiniões comuns, pontos de vista, avaliações alheias, acentos (BAKHTIN, 2015, p. 48).

Com isso, é necessário entender que o enunciado concreto é pleno de tonalidades dialógicas. O enunciado é a unidade real da comunicação discursiva, o qual abrange tonalidades dialógicas: tonalidade de sentido, da expressão, do estilo e da composição. Sem elas, não é possível pensar no estilo do enunciador, uma vez que “nascem e se formam no processo da interação e luta com os pensamentos dos outros, e isso não pode deixar de encontrar o seu reflexo também nas formas de expressão verbalizada do nosso pensamento” (BAKHTIN, 2011, p. 298).

No texto, Bakhtin (1999) confirma que a entonação é determinada pelo contexto social do qual o sujeito faz parte. A esse respeito, ele afirma que “a entonação sempre está na fronteira do verbal com o não-verbal, do dito com o não- dito. Na entonação, o discurso entra diretamente em contato com a vida” (BAKHTIN, 1999, p. 10).

Nesse sentido, a entoação2 apresenta instâncias diferentes e, por isso, é

orientada em duas direções: a primeira é a relação entre o interlocutor como aliado ou testemunha, enquanto a segunda diz respeito à relação do objeto como um terceiro participante vivo, a quem a entoação repreende ou agrada, denigre ou engrandece. Com isso, o termo enunciado concreto responde, em maior ou menor grau, a outro(s) enunciado(s) e não apenas à relação com os objetos do seu enunciado, uma vez que

2 Para Bakhtin (2011), a entoação cumpre a missão de impregnar sentidos às palavras, uma vez que,

na comunicação discursiva, é o próprio enunciado carregado de valor. Dessa forma, se uma palavra é pronunciada com entoação, já não é uma palavra, mas um enunciado acabado.

o sistema da língua é formado por elementos necessários para emitir expressão de acordo com a finalidade discursiva. Esses elementos, em conjunto com o estilo e composição, mantêm uma relação valorativa à medida que apresentam uma relação com o elemento semântico-objetal do enunciado. Nessa perspectiva, temos a seguinte constatação:

Desse modo, a entonação expressiva pertence aqui ao enunciado e não à palavra. E ainda assim é muito difícil abrir mão da convicção de que cada palavra da língua tem ou pode ter por si mesma “um tom emocional”, “um colorido emocional”, “um elemento axiológico”, uma “auréola estilística”, etc. e, por conseguinte, uma entonação expressiva inerente a ela enquanto palavra. Porque se pode pensar que quando escolhemos as palavras para o enunciado é como se nos guiássemos pelo tom emocional próprio de uma palavra isolada: selecionamos aquelas que pelo tom correspondem à expressão do nosso enunciado e rejeitamos as outras (BAKHTIN, 2011, p. 291).

Temos, assim, no enunciado, por um lado, um falante com sua visão de mundo, emitindo juízo de valor e emoções nas práticas discursivas; por outro lado, temos o objeto de seu discurso e os mecanismos linguísticos, determinando essa concepção de enunciado concreto. Ainda sobre a entonação no enunciado concreto, Bakhtin afirma:

Portanto, a emoção, o juízo de valor, a expressão são estranhos à palavra da língua e surgem unicamente no processo do seu emprego vivo em um enunciado concreto. Em si mesmo, o significado de uma palavra (sem referência à realidade concreta) é extraemocional. Há palavras que significam especialmente emoções, juízos de valor: “alegria”, “sofrimento”, “belo”, “alegre”, “triste”, etc. Mas também esses significados são igualmente neutros como todos os demais. O colorido expressivo só se obtém no enunciado, e esse colorido independe do significado de tais palavras [...] (BAKHTIN, 2011, p. 292)

Bakhtin (2010a) ainda afirma que cada enunciado comporta um sentido e um conteúdo. Tal sentido é determinado pelas circunstâncias, posto que, cada enunciado é proferido de acordo com a respectiva cena enunciativa. Nesse caso, ele já não é uma simples oração, mas sim um enunciado plenamente válido, emoldurado e delimitado pela alternância do discurso entre sujeitos, refletindo uma situação extraverbal. Assim, fica claro que

Os enunciados não são indiferentes entre si nem se bastam cada um a si mesmos; uns conhecem os outros e se refletem mutuamente uns nos outros. Esses reflexos mútuos lhe determinam caráter. Cada enunciado é pleno de

ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva (BAKHTIN, 2011, p. 297).

No que diz respeito à responsividade, temos, assim, os enunciados vistos como uma resposta a enunciados precedentes de um dado campo da comunicação. Consequentemente, ela se encontra inserida numa cadeia discursiva, na qual as vozes são plenas de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais estão ligados pela esfera de comunicação. Assim, a linguagem é organizada por sistemas aceitos e conhecidos pela sociedade que se utilizam deles.

No entanto, esse conhecimento sempre esteve mais atrelado apenas à linguagem verbal. A partir do advento da imprensa e de outros meios de comunicação, observamos um deslocamento e um aprofundamento dos estudos que antes eram mais direcionados ao meio auditivo (linguagem verbal) para os meios visuais (linguagem não verbal) da sintaxe.

Dentro desse contexto, o estudo do visual constitui um escopo de informações capaz de fazer compreender mensagens em diversos níveis, do básico até a mais alta capacidade de expressão artística. Por isso, para Dondis (2007), a experiência visual humana é fundamental no aprendizado a fim de que possamos compreender o meio ambiente e reagir a ele; a informação visual é o mais antigo registro da história humana.

Nessa direção, Aguiar (2004) afirma que, ao tratarmos de diversas linguagens, vamos nos defrontar com sistemas mistos que envolvem várias matérias (som e imagem, objeto e escrita, cor e movimento e assim por diante). Logo, nós nos defrontamos com um reforço visual necessário para interpretação e utilização dos dados responsáveis pela criação de sentido numa fração de segundos.

Nesse sentido, podemos atribuir esse conhecimento ao que Dondis (2007) postula sobre a tendência que o ser humano tem de privilegiar o aspecto visual, uma vez que o ser humano tem a necessidade de ver e observar o que é mais real. Sobre essa visão, a autora indaga:

Por que procuramos esse reforço visual? Ver é uma experiência direta, e a utilização de dados visuais para transmitir informações representa a máxima aproximação que podemos obter com relação à verdadeira natureza da realidade (DONDIS, 2007, p. 7).

Pensando nessa perspectiva, o estudo do verbo-visual da capa de revista intitulada Mundo Estranho permite perceber que as imagens trazidas na capa vão

além de uma mera ilustração, pois os textos verbais e não verbais coadunam-se com um projeto de “dizer” e com um “público-alvo”, diante dessa perspectiva em considerar a linguagem para além do verbal, considerando assim os aspectos visuais.

Nesse sentido, Dondis (2007) aponta para a necessidade de estudar a palavra “alfabetismo” em conjunto com a palavra “visual”, uma vez que essa orientação considera que “a visão é natural; criar e compreender mensagens visuais é natural até certo ponto, mas a eficácia, em ambos os níveis, só pode ser alcançada através do estudo” (DONDIS, 2007, p. 16).

Essa nova realidade de estudo do verbo-visual surge em um momento da sociedade em que somos bombardeados com imagens que viajam o mundo em fração de segundos. Além disso, segmentos como a publicidade não se contentam em construir imagens com as quais podem induzir o consumidor a se identificar, mas têm como objetivo desenvolver no cliente a necessidade de ter o produto como realização de um desejo que, muitas vezes, era desconhecido do consumidor.

Diante dessa realidade, faz-se necessário atentar para essa nova visão voltada para o estudo do verbo-visual, uma vez que, segundo Dondis (2007, p. 14), “a evolução da linguagem começou com imagens, avançou rumo aos pictogramas, cartuns auto autoexplicativo e unidades fonéticas, e chegou finalmente ao alfabeto[...]”.

Nessa progressão, a autora utilizou do sistema verbal o termo “alfabetismo” com o intuito de justificar a necessidade de se aprender de forma sistematizada o verbo-visual para que ele seja compreendido em sua totalidade e, assim poder associar a estrutura verbal e a estrutura visual de forma compreensível.

De maneira geral, além da relação que deve ser estabelecida entre o verbal e o visual, temos também de tornar perceptíveis os sentidos de elementos como cores, tipos de roupas, enquadramento da imagem e expressões-chave que são responsáveis pelas manifestações visuais do enunciado concreto. Todos esses elementos coadunam-se para a produção de sentido, pois possuem informações relevantes, que sozinhas não fariam sentido. Nesse sentido, Dondis (2007, p. 186) afirma:

Mas as implicações da natureza universal da informação visual não se esgotam em seu uso como substitutivo da informação verbal. Não há nenhum conflito entre os dois tipos de informação. Cada uma tem suas especificidades, mas o modo visual ainda não foi utilizado em sua plenitude.

A compreensão visual é um meio natural que não precisa ser aprendido, mas apenas através do alfabetismo visual.

Toda essa complexidade reflete e refrata a força cultural e universal com a qual a linguagem verbo-visual se difunde, por meio de diversos instrumentos de propagação da informação em massa, tais como: o cinema, a televisão, a internet, o jornal, a revista. Tais aspectos devem ser estabelecidos pensando na configuração da sociedade e, acima de tudo, nas relações entre as estratégias escolhidas pelo autor para a produção visual.

Pensando nesse aspecto, a leitura do visual abrange fatores que extrapolam a ilustração e os diversos acontecimentos inerentes à sociedade humana. Um dos elementos integradores na percepção da materialidade visual do enunciado concreto é a cor, como afirma Guimarães (2004, p. 86), “[...] assumirá, no seu papel de informação cultural, a função de texto, neste sentido carregado de simbolismo”, em que seu uso terá fundamental importância na categorização de um sistema, realçando os elementos de composição da imagem, e acima de tudo, exigindo uma maior atenção da leitura visual por parte do leitor na construção de sentido a partir da imagem. Segundo Guimarães (2004, p. 12) “a cor é uma informação visual, causada por um estímulo físico, percebida pelos olhos e decodificada pelo cérebro”. Por isso, a aplicação intencional da cor assume uma latente fonte de informação e um potencial mecanismo de transmissão de cultura.

Diante disso, o estudo do alfabetismo visual vislumbra a necessidade de apreensão, transmissão e armazenamento de todos os fatores, sejam artísticos ou não, e que podem ser usados em conjuntos com técnicas manipulativas na construção de um enunciado para ser propagado em grandes veículos de propagação em massa.

Nesse sentido, faz-se necessário atribuir esses acontecimentos ao que Dondis (2007) argumenta sobre as diversidades e as peculiaridades do texto visual atreladas à forma diferenciada exigida para a leitura.

Através da expressão visual, somos capazes de estruturar uma afirmação direta; através da percepção visual, vivenciamos uma interpretação direta daquilo que estamos vendo. Todas as unidades individuais dos estímulos visuais interagem, criando um mosaico de forças saturadas de significado, mas de um tipo especial de significado, exclusivo do alfabetismo visual e passível de ser diretamente absorvido com muito pouco esforço, se comparado à lenta decodificação da linguagem. A inteligência visual transmite informação a uma extraordinária velocidade, e, se os dados estiverem claramente organizados e formulados, essa informação não só é mais fácil de absorver, como também de reter e utilizar referencialmente (DONDIS, 2007, p. 187-188).

Com isso, todos os meios visuais interagem, dialogam e se misturam à linguagem verbal apresentando, assim, implicações para a concretização do sentido dos vários enunciados concretos que permeiam a nossa sociedade. Sabendo disso, neste tópico, finalizaremos com a voz mais uma vez da autora sobre o texto visual sobre o qual afirma:

Para compreender os meios de comunicação visuais, é preciso que nosso conhecimento sobre eles se fundamente num critério de grande amplitude. As respostas às indagações sobre os motivos que os levam a serem concebidos e produzidos são fluidas, e as perguntas, portanto, também devem sê-lo. Devem interrogar a natureza de cada meio de comunicação, sua função ou níveis de função, sua adequação, a clientela a que a se destina e, por último, sua história e sua maneira de servir às necessidades sociais (DONDIS, 2007, p. 184).

Por fim, por se tratar de um mecanismo natural, a compreensão visual não deve ser aprendida, mas sim refinada por meio do que Dondis (2007) intitula de “alfabetismo visual”. Tal compreensão pode ser construída por meio dos elementos visuais em sua totalidade, superando a finalidade comunicativa que originou a criação do enunciado concreto.