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COORDINATION AVEC LA DIRECTION GÉNÉRALE DES FINANCES PUBLIQUES

“Bom, tem um pequeno histórico pra explicar esta coisa do Griô. O Márcio Caires, que é lá do Grãos de Luz e Griô, desde o final dos anos 1990, é um rapaz que teve um contato com os griôs do Mali, da África do Oeste, e começou a pensar esta questão... Ele também discordava do termo Mestre pra Mestre, porque o Mestre não contempla todos os saberes da tradição oral... Você não vai chamar um babalorixá de Mestre porque você está diminuindo,

você não vai chamar a ialorixá de Mestre porque ela não vai aceitar, você não vai chamar um capitão de terno em qualquer congado de Mestre porque também não satisfaz!

Então, este rapaz começou a estudar, com a mulher dele, a Líllian Pacheco, esta questão do griô... Foi pra África, lá no Mali, andou lá nas comunidades, foi convidado por uma comunidade de griô lá da tradição oral e teve toda essa formação! Veio pra cá com toda essas informações e criou este grupo que chama Grãos de Luz e Griô, que é uma ONG deles que fica lá em Lençóis, na Chapada Diamantina, lá na Bahia. Esse é um pequeno resumo... Ele foi buscar esta história toda lá no Mali!

No começo dos anos 2000, ele também fez um edital pelo Itaú Unicef parece e eles ganharam esse prêmio... E, nos anos 2004 e 2005, esse grupo elaborou um projeto chamado Ação Griô que era pra dar entrada no Ministério da Cultura. Era um edital pra eles ganharem uma verba pra poder fomentar o projeto deles e foi sugerido pelo Célio Turino, que na época era Secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, que esse projeto deveria ser a nível nacional, um edital Ação Griô Nacional!

Pois bem, até aí eu não participava disso. Quando foi em 2008, teve um encontro em Brasília, a Teia Nacional - Encontro Nacional dos Pontos de Cultura do Brasil e nesse encontro eles organizaram uma produção, ou seja, uma tenda só com os Mestres da tradição oral pra tirar dali uma Comissão Nacional, porque a maioria dos Mestres não poderia... Se fosse chamar todo mundo não daria, tinha que ter um grupo pra representar isso. Entre nós, foi tirado 13 ou 14 representantes, 7 titulares e os demais suplentes, fui eleito como o presidente nacional da Ação Griô Nacional e fui representante desta comissão!

Nós tivemos toda uma preocupação, porque na época não tinha nenhuma mulher na comissão. Tem que ter uma mulher, tem que ter uma representante feminina! Aí foi a Mestra Doci, da Paraíba, da Escola Viva Olho do Tempo... Ah, mas tem que ter um indígena e não tinha. Aí saímos lá, porque, na Teia, os indígenas ficaram bem longe, aí fomos lá, convidamos um da Raposa Serra do Sul, o Macuxi, e ele entrou! Então essa foi a organização pra gente poder discutir esta questão do Mestre, do griô. Porque o griô, segundo os estudiosos, o nome veio do Mali, que foi colonizado pela França, lá é griot, e aí aportuguesou griô, que em criolo significa gritadores, que é o cara que é o Mestre, o griô, que sai falando das suas histórias de aldeia em aldeia e que esse nome griô é um nome que contempla todos os velhos de toda a diversidade das culturas africanas! E aí isso foi transportado pra cá pra gente escrever um projeto de lei...

Nesse projeto de Lei - nós lemos que no Brasil tem vários estados com as leis de Mestres estaduais, menos São Paulo - o que a gente fazia: nos reuníamos em algum lugar,

mais lá em Lençóis (BA), estas 7, 8 pessoas, com o apoio jurídico do Ministério da Cultura, tinha uma jurista do Minc dentro pra começar a escrever o esboço dessa lei!

Só que assim, primeiro, o projeto da Lei Griô, que hoje está em tramitação no Congresso Nacional, ele não faz ninguém griô, você tem que se reconhecer! A partir do momento que me reconheço, eu sou e isso foi reverberando... Quando a gente ia num lugar, como eu fui lá pra Roraima, lá com os Macuxis, que são os indígenas que cuidam da tradição do guaraná, da dança do gambá, tem as fazedeiras de panela, que são tradicionais deles... Tem griô porque isso que ele faz veio do bisavô, que veio do meu tataravô e hoje só eu que faço isso! A pessoa se reconhece, a lei vem pra reconhecer economicamente, não reconhecer com o nome... A pessoa que não se reconhece e quer entrar no edital, na lei, ela vai ser beneficiada, ela não vai ser excluída, mesmo que não se reconheça griô, mesmo que ela fale não, eu sou Mestre, mas ela vai entrar lá e quando sair a lei ela vai ser beneficiada!

O projeto de lei é importante, diferente do projeto da lei dos Mestres, é que nele tem que ter um aprendiz de griô, tem que ter um jovem que acompanhe esse Mestre, que conhece a história desse Mestre, conhece os costumes do Mestre, que está aprendendo a profissão com o Mestre, enfim, tem que ter esta figura! Uma outra coisa importante é que pro Mestre ter essa ajuda econômica, ele com a equipe dele, que são montadas de até cinco pessoas, tem que estar vinculada a uma instituição de ensino formal, ou seja, a uma escola porque este saber tem que ser transmitido, partilhado, na educação formal!

Agora, tem uma coisa que tem que se entender dentro disso: uma estrutura. Bem, a Ação Griô lá em cima, tipo um movimento onde esse povo tem condições desta ação ser orgânica, se encontrando, discutindo, fazendo! Tem a Lei Griô, que é outra coisa... A lei, que é esse grupo de 14 pessoas que se encontra, faz audiência pública em vários lugares do Brasil e que tinha capacidade de discutir essa lei... E tem a Pedagogia Griô, aquela escrita, metodologia, sistematização, construída por uma pessoa, só por ela, que trabalhou nisso, que é a Líllian. Então são estas três instâncias. Elas estão juntas, mas politicamente trabalham separado...

Já falei da Lei Griô, que acho que é um grande passo pra poder atender a política pública, porque hoje a política é de editais ou de fomento de Lei Rouanet e isso não garante a continuidade do trabalho dos projetos. E projeto a gente vê que é de um ano, seis meses, oito meses, e acho que um projeto de cultura tradicional, pra ter um resultado de avaliação, pra você pensar no resultado, ele tem que ser a longo prazo, de 10 anos pra cima... Aí dá pra você criar seus multiplicadores, seus agentes culturais, os aprendizes e essa pessoa já ter autonomia

pra entender o que a cultura quer, o que a cultura exige, a demanda e poder caminhar e estar reverberando este aprendizado pra todos os lugares: isso é política pública!”.

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