Consistente com as predições de Jakobson (1941/68)5, múltiplas investigações demonstraram as primeiras produções infantis tendem a ser construções monossilábicas formadas pelo padrão canónico CV ou pela sua reduplicação em duas sílabas (Bernhardt & Stemberger, 1998; Fromkin et al., 2014; Fikkert, 1994; Guasti, 2002; entre outros).
Nas línguas naturais que legitimam a ocorrência de Ataques ramificados, a estabilização destes formatos sucede o domínio dos Ataques simples. A complexidade silábica que se encontra associada às combinatórias CCV, a par da imaturidade fonológica numa fase inicial da aquisição e o desenvolvimento gradual da anatomia oromuscular infantil, têm sido apontadas como causas possíveis para o domínio tardio dos Ataques ramificados, que é atestado em diversas línguas (Bernhardt & Stemberger, 1998; Fikkert, 1994; McLeod et al., 2001; Ribas, 2004, 2006). À semelhança de outros constituintes silábicos, quando emergem no sistema infantil, os Ataques ramificados não são produzidos em conformidade com o sistema-alvo (Bernhardt & Stemberger, 1998; Fikkert, 1994; Lleó & Prinz, 1996; McLeod et al., 2001; Jongstra, 2003; Ohala, 1999; entre outros). Contudo, ao longo do tempo, o recurso a estratégias de reconstrução torna-se menos produtivo, evidenciando, assim, a estabilização gradual do constituinte sob foco (Dodd et al., 2003; Roberts et al.,1990).
Da tentativa de enumerar os possíveis estádios ou percursos observados na aquisição dos Ataques ramificados têm sido obtidas propostas dispares (Greenlee, 1974; Ingram, 1981, citado por Guerreiro 2007; Fikkert, 1994; Dyson & Paden, 1993, citado por McLeod et al., 2001). Por exemplo, alguns estudos revelam que, numa etapa inicial, certas crianças omitem os dois segmentos presentes na configuração consonântica (C1C2 → ), substituindo, assim, um Ataque ramificado por um Ataque não ramificado vazio (Chervela, 1981, citado por McLeod et al., 2001; Greenlee, 1974; Ingram, 1981, 1989, citado por Bernhardt & Stemberger, 1998 e Guerreiro, 2007). No entanto, numa perspetiva global, o uso desta estratégia no desenvolvimento fonológico é marginal, não sendo sistematicamente atestado (Bernhardt & Stemberger, 1998; Fikkert, 1994).
5 É de notar que nem todas as predições do autor foram confirmadas em trabalhos subsequentes (Dunbar & Idsardi, 2013, citado por Amorim, 2014a; no PE: Freitas, 1997).
15
No início da produção dos Ataques ramificados6, as crianças tendem a eliminar uma das consoantes presentes na estrutura-alvo. Sendo um processo altamente produtivo nos enunciados de fala infantil, esta estratégia de apagamento permite a transformação da construção inicialmente ramificada numa sílaba de Ataque simples, que se encontra disponível desde cedo no sistema fonológico, conforme referido anteriormente (Bernhardt & Stemberger, 1998; Fikkert, 1994; Johnson & Reimers, 2010; Lleó & Prinz, 1996; McLeod et al., 2001; Ohala, 1999; Ribas 2002, 2006; entre outros). Aquando esta redução dos Ataques ramificados canónicos, observa-se uma preferência substancial pela manutenção da consoante que inicia a estrutura-alvo, isto é, a C1 obstruinte, e pela consequente omissão do segundo membro da combinatória, a C2 líquida (C1C2 → C1) (Bernhardt & Stemberger, 1998; Greenlee, 1974; Ohala, 1999). Sublinhe-se, contudo, que este padrão, que se encontra ilustrado seguidamente no Quadro 5, não é atestado em todas as línguas nem tampouco se mantém ao longo da aquisição7 (Fikkert, 1994; Jongstra, 2003; Lleó & Prinz, 1996).
Quadro 5: Apagamento da líquida (C1C2 → C1ø) durante a aquisição dos Ataques ramificados (Freitas, 2003: 34)
6 Embora seja tradicionalmente reportado em etapas iniciais do desenvolvimento fonológico, a redução consonântica pode persistir mesmo após a estabilização dos Ataques ramificados no sistema típico (McLeod et al., 2001).
7 Com efeito, em algumas construções consonânticas, as crianças optam por preservar o segundo elemento do Ataque ramificado, ou seja, a consoante líquida que sucede a obstruinte (cf. Quadro 6). No seu estudo sobre a aquisição silábica do holandês, Fikkert (1994) assume, aliás, a presença de um estádio em que as crianças holandesas reduzem sistematicamente estruturas-alvo ramificadas à líquida do Ataque (C1C2 → C2).
Língua-alvo Palavra Forma fonológica
Produção Criança
Holandês
(Fikkert, 1994)
trein /tɾɛi/ [tɛi] Leon (1;10)
klok /klɔk/ [koːk] Tom (1;5)
Alemão
(Grijzenhout & Joppen, 2002)
brot /bɾoːt/ [boː] Naomi (1;4)
frau /fɾau/ [bau] Naomi (1;6)
Inglês
(Gnanadesikan, 1995)
please /pliːz/ [piz] Gitanjali (2;3-2;9) clean /kliːn/ [kin] Gitanjali (2;3-2;9)
Espanhol
(Lleó, 1990)
truita /tɾujtə/ [tutja] Laura (3;10) bicicleta /bisiklɛta/ [bɛka] Laura (2;3)
Francês canadense
(Rose, 2000)
clé /kle/ [ke] Théo (2;4)
16
Diversas hipóteses têm sido avançadas para dar conta desta tendência de desenvolvimento na fala infantil. Para alguns investigadores, a preservação de C1 obstruinte em detrimento do apagamento da C2 líquida decorre do estatuto marcado dos segmentos líquidos (Greenlee, 1974; Fikkert, 2007; Ingram, 1989, citado por Chin & Dinnsen, 1992). Outros autores defendem que este comportamento é motivado pelo valor de sonoridade dos elementos presentes na construção consonântica. Sob esta perspetiva, Ohala (1999: 146) assume, por exemplo, que “the consonant omitted from a cluster is the one that least conforms to the shape of an optimal syllable”. Segundo a autora, aquando da redução do Ataque ramificado a uma só consoante, a criança opta pelo apagamento do segmento com maior valor de sonoridade, favorecendo, assim, a produção da sílaba não marcada CV que apresente o maior contraste de sonoridade possível entre segmentos adjacentes sob o domínio do nó silábico. Para Ohala (1999), sendo a distância de sonoridade entre uma líquida e uma vogal menor do que a distância entre uma obstruinte e uma vogal (cf. Escala de Sonoridade, Secção 1.2.), a produção da configuração C1V reflete a preferência pelo maior contraste de sonoridade silábico possível. Numa proposta mais recente, Goad & Rose (2004) defendem que os padrões de redução dos Ataques ramificados podem ser explicados apelando à representação fonológica destas construções no sistema fonológico infantil, não descartando, no entanto, a importância da sonoridade numa fase inicial da aquisição.
Para além da omissão da consoante líquida, outras estratégias de reconstrução são observadas no período que antecede a estabilização dos Ataques ramificados (cf. Quadro 6), não sendo o seu uso, contudo, universal e podendo ser episódico em algumas línguas.
Quadro 6: Estratégias de reconstrução menos produtivas na aquisição dos Ataques ramificados (Almeida, 2011: 121)
Forma fonológica
Produção Criança Língua-alvo Referências
Semivocalização de líquida
/trɛin/ [tjɛi] Catootje (2;01) holandês Fikkert, 1994
Omissão da C1
/klɔk/ [lɔk] Leonie (1;11) holandês Fikkert, 1994 /glis/ [lis] Marilyn (2;04) francês dos Santos, 2007
Epêntese vocálica
/klɔk/ [kə’lɔk] Tom (1;06) holandês Fikkert, 1994 /ply/ [pyly] Marilyn (2;05) francês dos Santos, 2007 Omissão do grupo
consonântico
17
Atualmente, um vasto conjunto de estudos atesta a existência de uma interação entre a ordem de aquisição dos Ataques ramificados e a qualidade segmental das consoantes que o constituem. Na verdade, os grupos consonânticos licenciados em Ataque ramificado tendem a estabilizar em diferentes etapas do desenvolvimento fonológico. Sabe-se, por exemplo, que as sequências oclusiva + líquida são dominadas antes das estruturas fricativa + líquida, uma ordem que é, aliás, consistente com as tendências reportadas para a aquisição destas duas classes naturais nos Ataques não ramificados simples (Almeida, 2011; Fikkert, 1994; Kappa, 2002, citado por Almeida, 2011; McLeod et al., 2011; dos Santos, 2007).
No que concerne o efeito da qualidade segmental da C2 líquida, os resultados obtidos até à data são divergentes entre si: alguns trabalhos atestam a precocidade das sequências obstruinte + lateral, comparativamente aos Ataques formados por obstruinte + vibrante, ao passo que outros revelam o padrão de estabilização inverso (Almeida, 2011; Kehoe et al., 2008, citado por Almeida, 2011 e Amorim, 2014a; dos Santos, 2007; Smit, 1993). Para o Português do Brasil (PB), Ribas (2002, 2004) sublinha a ausência de semelhante assimetria.