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No texto programático ―Arte e Responsabilidade‖ (1919), o jovem Bakhtin não se refere diretamente à arquitetônica, mas já esboça uma relação de dualidade entre uma postura mecânica do homem em relação à arte e uma postura responsável, que tornaria a relação entre a arte e a vida uma unidade. Segundo Irene Machado (apud PAULA; STAFUZZA, 2010, p. 203), ―o conceito de mecânica se situa no extremo oposto ao de relação e de diálogo‖. Bakhtin teria partido, segundo a autora, ―deste conceito de mecânica para introduzir suas formulações sobre o funcionamento, não mecânico, mas sim dialógico da criação estética no contexto do ato ético‖ (2010, p. 204). O ato ético e essa unidade de responsabilidade e culpa contêm em gérmen o pensamento desenvolvido em Para uma filosofia do ato responsável e apontam, no segundo texto, para uma superação da postura mecânica do homem na arte com a construção da noção de arquitetônica.

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―That systems ought to be constructed architectonically has been preached since Kant, but I do not think the full import of the maxim has by any means been apprehended. What I would recommend is that every person who wishes to form an opinion concerning fundamental problems, should first of all make a complete survey of human knowledge, should take note of all the valuable ideas in each branch of science, should observe in just what respect each has been successful and where it has failed, in order that in the light of the thorough acquaintance so attained of the available materials for philosophical theory and of the nature and strength of each, he may proceed to the study of what the problem of philosophy consists in, and of the proper way of solving it.‖

A complexidade de Para uma filosofia do ato responsável (2010), escrito entre 1920 e 1924, está, principalmente, no caráter inacabado do texto. Entretanto, o conceito de arquitetônica é bem desenvolvido e demonstra uma profunda relação com outras categorias importantes para uma compreensão da obra de arte como um momento, um produto do mundo da visão estética. Bakhtin entende que há uma cisão, no estado em que as relações entre o homem e o pensamento a respeito dos homens estavam (estão?) no momento da produção do seu texto, entre o mundo da vida (onde realizamos nossas atividades, pensamos, sentimos, vivemos, morremos) e o mundo da cultura (o mundo do pensamento teórico-discursivo, da descrição-exposição histórica e da intuição estética). A cisão entre esses dois mundos só poderia ser superada com o ato responsável (uma dupla responsabilidade, voltada tanto para o conteúdo do ato como para o próprio ser) do sujeito que age no mundo em devir. Aqui percebemos a disposição de Bakhtin em contrapor-se diretamente às ideias de Kant. Depois de discutir a fragilidade de alguns pensadores em relação ao ato-processo, único e irrepetível da vida, Bakhtin entende que a filosofia moral deve ter como objeto ―o mundo no qual o ato se orienta fundado na sua participação singular no existir‖ (2010, p. 114) e continua:

Uma descrição <?> exemplificativa do mundo da vida-ato singular do interior do ato, fundada no seu não-álibi no existir, seria uma espécie de confissão, entendida como um relato no sentido de uma prestação de contas individual e única. Mas estes mundos concreto-individuais, irrepetíveis, de consciências que realmente agem [...] – dos quais, como componentes reais, se compõem também o existir-evento unitário e singular – têm alguns componentes comuns: não no sentido de conceitos ou de leis gerais, mas no sentido de momentos comuns das suas arquitetônicas concretas. É esta arquitetônica do mundo real do ato que a filosofia moral deve descrever, não como um esquema abstrato, mas como o plano concreto do mundo do ato unitário singular, os momentos concretos fundamentais da sua construção e da sua disposição recíproca. Estes momentos fundamentais são: eu-para-mim, o outro-para-mim e eu-para-o-outro; todos os valores da vida real e da cultura se dispõem ao redor destes pontos arquitetônicos fundamentais do mundo real do ato: valores científicos, estéticos, políticos (incluídos também os éticos e sociais) e, finalmente, religiosos. Todos os valores e as relações espaço-temporais e de conteúdo-sentido tendem a estes momentos emotivo- volitivos centrais: eu, o outro, e eu-para-o-outro. (2010, p. 114-115)

Nessa passagem, observamos vários pontos de entendimento que vão desdobrar-se ao longo do pensamento de Bakhtin (e do Círculo) em suas obras (dialogismo, polifonia, heteroglossia, entonação, cronotopo, exotopia, avaliação social) e todas elas apresentam relação com o conceito de arquitetônica58, ―que se compõe de

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Marilia Amorim não faz alusão ao conceito de arquitetônica no texto ―Cronotopo e exotopia‖, relação imprescindível na nossa compreensão. Cf. BRAIT, Beth. Bakhtin: outros conceitos-chave., 2010, pp. 95- 114. A relação entre arquitetônica e exotopia como compreendemos pode ser observada, por exemplo, em

objetos reais em inter-relação real, que se dispõem ao redor de um centro concreto de valores‖ (2010, p. 124), e, na literatura, esse conceito pode ser plenamente observado, pois ―o mundo da visão estética, o mundo da arte – que com sua concretude e impregnação de tons emotivo-volitivos é, de todos os mundos [...] o mais próximo ao mundo unitário e único do ato‖ (2010, p.124). Para Irene Machado, segundo Michael Holquist e Caryl Emerson, Bakhtin teria a intenção de ―transformar seus escritos num tratado geral de ética e epistemologia, que provavelmente receberia o título de Arquitetônica da respondibilidade‖ (1995, p. 29). A ideia de arquitetônica é central no pensamento de Bakhtin.

O terceiro texto que nos serve como gatilho para pensarmos a arquitetônica em Bakhtin é ―O autor e a personagem na atividade estética‖ (1924-1927 [1979]). Nesse texto temos um exame fenomenológico dos elementos que constituem a forma arquitetônica: o tempo (como corpo interior), o espaço (como corpo exterior) e o sentido na relação axiológica entre o autor59 e a personagem. A análise exaustiva dos aspectos que envolvem ou enformam as condições de construção do mundo da visão estética serve-nos como um fundamento para pensarmos de maneira sistemática o que é a arquitetônica para Bakhtin e, a partir daí, proceder com nossos desdobramentos sobre essa categoria. Ainda na esteira dessa abordagem sistemática, é-nos igualmente fundamental o texto ―O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária‖ (1924), no qual Bakhtin trata a forma arquitetônica e sua relação com a forma composicional de maneira mais técnica e teleológica na obra de arte literária. As definições de forma arquitetônica são mais diretivas nesse texto, por exemplo:

As formas arquitetônicas são as formas da natureza enquanto ambiente, as formas do acontecimento no seu aspecto de vida particular, social, histórica etc.; todas elas são aquisições, realizações, não servem a nada, mas se auto- satisfazem tranquilamente; são formas da existência estética na sua singularidade (2010, p. 25); A forma artística é a forma de um conteúdo, mas inteiramente realizada no material, como que ligada a ele. Por isso a forma deve ser compreendida e estudada em duas direções: 1. A partir do interior do objeto estético puro, como forma arquitetônica, axiologicamente voltada para o conteúdo (um acontecimento possível), relativa a ele; 2. A partir do interior do todo composicional e material da obra: este é o estudo da técnica da forma. (2010, p. 57); a forma [arquitetônica] é a expressão da relação axiológica ativa do autor-criador e do indivíduo que percebe (co-criador da forma) como conteúdo; todos os momentos da obra, nos quais podemos sentir a nossa presença, a nossa atividade relacionada axiologicamente com o TEZZA, Cristóvão. ―A Construção das vozes no romance‖. In: BRAIT, Beth (org). Bakhtin: dialogismo e construção do sentido, 2005, pp.209-217.

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Autor-criador, nos termos de Bakhtin. Cf. FARACO, Carlos Alberto. ―Autor e Autoria‖. In: BRAIT, Beth. Bakhtin: conceitos-chave, 2009, pp. 37-60.

conteúdo, e que são superados na sua materialidade por essa atividade, devem ser relacionados com a forma [arquitetônica] (2010, p. 59)

É importante a noção do contemplador/leitor da obra de arte como cocriador, pois a ação de ler/contemplar reveste-se de uma responsabilidade e só assim a obra pode alcançar sua totalidade e sua força criativa no mundo real, no mundo da vida. Um quarto e quinto textos oferecem-nos ainda observações profícuas para a compreensão dessa categoria: ―Formas de tempo e cronotopo no romance: ensaios de poética histórica‖60 (1937-1938). Com uma análise cronotópica, que é a base funcional e de estruturação da forma arquitetônica (mas que não se separa em absoluto do teor axiológico), Bakhtin explora a história do romance europeu dando-nos exemplos concretos de análise da arquitetônica na narrativa. Na última parte desse texto (escrita em 1973), o russo nos apresenta duas observações:

1) Nos limites de uma única obra e da criação de um único autor, observamos uma grande quantidade de cronotopo e as suas inter-relações complexas e específicas da obra e do autor, sendo que um deles é frequentemente englobador e dominante. (...) Os cronotopos podem se incorporar um ao outro, coexistirem se entrelaçar, permutar, confrontar- se, se opor ou se encontrar nas inter-relações mais complexas. Estas inter-relações entre os cronotopos já não podem surgir em nenhum dos cronotopos isolados que se inter-relacionam. O seu caráter geral é dialógico (na concepção ampla do termo). Mas esse diálogo não pode penetrar no mundo representado da obra nem em nenhum dos seus cronotopos: ele está fora do mundo representado, embora não esteja fora da obra no seu todo. Esse diálogo ingressa no mundo do autor, do intérprete e no mundo dos ouvintes e dos leitores. E esses mundos também são cronotópicos. (2010, p. 357)

2) [...] entre o mundo real representante e o mundo representado na obra, passa uma fronteira rigorosa e intransponível. Isto nunca se pode esquecer; não se pode confundir, como se fez e até hoje ainda se faz, o mundo representado com o mundo representante (realismo ingênuo), o autor-criador da obra com o autor-indivíduo (biografismo ingênuo), o ouvinte-leitor de diversas (e muitas) épocas, que reconstitui e renova, com o ouvinte-leitor passivo seu contemporâneo (dogmatismo de concepção e avaliação). Confusões deste gênero são totalmente inadmissíveis do ponto de vista metodológico. Porém, é igualmente inadmissível a concepção dessa fronteira como absoluta e intransponível (especificação dogmática e simplista). (2010, p. 358)

A partir desses textos, podemos inferir pelo menos dois sentidos de aplicação do conceito de arquitetônica em Bakhtin. Um primeiro que é compreendido de forma semelhante ao aristotélico e até de Leibniz, que corresponderia a uma maneira específica de observar tanto o mundo da vida como o mundo da cultura. Nesse sentido,

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Op. cit. e tratamos aqui também do texto já citado no capítulo dois deste trabalho ―O Romance de Educação e sua importância na história do realismo‖.

estamos diante de uma compreensão global de arquitetônica como complementar às ideias de dialogismo, inacabamento e sabedoria prosaica que compreende a relação entre o eu e o outro como observadas acima. Um segundo sentido de aplicação do conceito de arquitetônica em Bakhtin não invalida nem se opõe ao primeiro, mas estaria limitado à forma literária ou a uma relação complementar entre a forma composicional de um texto e sua forma arquitetônica, que só pode ser observada em relação inextricável com aquela. Nesse mesmo sentido, Sobral (2010) e Machado (2010)61 compreendem que os conceitos de Bakhtin se complementam e se desdobram de várias maneiras ao longo de sua obra. Também Morson e Emerson (2008) têm esse mesmo entendimento, mas, em relação à ideia de arquitetônica em Bakhtin, os norte-americanos defendem que o russo, ao perceber a aproximação do conceito de arquitetônica com a ideia kantiana de sistema, ou seja, de caráter abstrato teorético, teria abandonado esse termo em suas obras seguintes. Entretanto, ao entendermos junto com Sobral (2010) e Machado (2010) que há uma confluência entre a ideia de arquitetônica, de ato-atividade responsável/responsivo e, naturalmente, com a ideia de dialogismo, inacabamento e sabedoria prosaica – e ainda cronotopo, gênero literário, entonação etc –, não acreditamos no sentido kantiano abstrato do conceito e o tratamos como uma categoria fundamental e global no pensamento bakhtiniano. Mas, é importante dizer, nós partimos para uma nova formulação do conceito de arquitetônica a partir da bakhtiniana.

Para nós, a ideia de arquitetônica em Pierce, por exemplo, que envolve a criatividade e a inovação, ou em Aristóteles e Leibniz, que contém em si os fins, as ações e os produtos menores ou primeiros num todo ou totalidade última, fornece um sentido atribuível à narrativa literária como a encontramos realizada na obra ficcional de João Guimarães Rosa. Quando, no início deste capítulo, brincamos com o encontro fictício entre Bakhtin e Rosa, procuramos colocar na mesa a ideia de que a maneira como a linguagem, o tema, a Weltanschauung e a forma literária narrativa de Guimarães Rosa estão conjunta e inextrincavelmente engendradas em cada conto, novela ou romance, desde Sagarana até Ave, Palavra. Compreendemos essa inextrincabilidade como uma arquitetônica, e, portanto, nossa formulação desse conceito sugere a descoberta de um novo gênero literário inventado por João Guimarães Rosa: o romance arquitetônico. Esse gênero estaria numa esteira de criação que pressupõe o conhecimento do romance polifônico e só pode existir a partir dele. Ora, nos capítulos

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anteriores desta tese e na fortuna crítica rosiana em geral, é mencionada uma relação de aproximação entre Rosa e o criador do romance polifônico, Dostoiévski. Nós entendemos essa relação não apenas como aproximação, mas como de superação formal efetivada por Guimarães Rosa, aproveitando seu conhecimento não apenas da tradição narrativa europeia, mas da latino-americana e, principalmente, brasileira – tanto literária como popular. Além da reelaboração de gêneros primários em seus gêneros secundários, que são índices de renovação da forma, como tratado no capítulo III desta tese. Portanto, é essa superação formal e a criação de um novo gênero literário, o romance arquitetônico, em Guimarães Rosa, que procuraremos demonstrar nas próximas páginas e capítulos deste trabalho. Começando, pois, com nossa argumentação de superação do romance polifônico para o romance arquitetônico.