Terry Eagleton, no início do livro Ideologia (1997), apresenta dezesseis definições que circulam sobre esse conceito. Compreender, então, a relação entre Weltanschauung e Ideologia é tão complexo quanto qualquer outra relação que tentamos estabelecer até aqui. Mas, se partirmos do princípio de que os dois conceitos apresentam uma dupla orientação, podemos seguir um caminho mais ou menos seguro. Entretanto, primeiramente, precisamos definir nossa compressão de Weltanschauung como uma dupla orientação (mundo da vida e mundo da cultura) que parte do indivíduo, sua consciência, e que é materializada nas formas de representação históricas – como a literatura. Já a ideologia, vista como um conjunto de representações históricas e sociais, partiria de uma superestrutura para o indivíduo. Mas, mesmo que estejamos abstraindo os dois conceitos, não é possível medir até que ponto uma visão de mundo está reconfigurando uma ideologia ou uma ideologia está configurando uma visão de mundo45. A essência desse entendimento está exatamente no caráter dialógico que é inerente a ele. Se a Weltanschauung é a maneira de uma consciência perceber o mundo
45
e essa percepção está ligada a um conjunto de valores históricos e sociais, então a ideologia é um aspecto da Weltanschauung que não a circunscreve completamente, mas que a complementa. É justamente aqui que está o dialogismo desses dois conceitos. Não é possível ver um sem o outro. Haverá sempre a pressuposição de uma alteridade, de uma exotopia diante do indivíduo que enuncia ou materializa sua visão de mundo. Seguindo com o exemplo de Guimarães Rosa, observamos então que não há possibilidade de uma visão de mundo sem uma ideologia. Portanto, seja qual for a Weltanschauung rosiana, ela pressupõe uma ideologia histórica e socialmente materializada na forma literária de Rosa. Mais: ao fazermos um levantamento da história do conceito de Weltanschauung, acima, notamos a ausência das contribuições de Marx e dos marxistas para esse conceito. Naugle trata das contribuições de Marx e Engels em outra parte do seu trabalho, quando fala de disciplinas específicas – como as ciências sociais. Para ele, a concepção de Weltanschauung em Marx está diretamente associada a sua noção de ideologia. Destacamos três momentos da secção dedicada por Naugle às ideias de Marx:
Embora as referências abundem sobre a "visão de mundo marxista", ou a "Weltanschauung marxista-leninista", tecnicamente falando, era Friedrich Engels (1820-95), mais do que Karl Marx (1818-83), quem estava preocupado com a visão de mundo, a versão materialista em particular, nas suas reflexões sobre a metafísica da "revolução". Engels argumenta que a hipótese filosófica básica diz respeito à relação da mente e da matéria. A mente é uma função da matéria tanto em termos ontológicos como epistêmicos. Natureza, em outras palavras, é o todo. Esta visão de mundo "geral" e "simples" do materialismo dialético, como Engels o chama, é a verdadeira filosofia científica. É caracterizada pelas reivindicações tradicionais da ciência objetividade, racionalidade, universalidade e certeza. Devido à influência de Engels no mundo comunista, a maioria dos que ocupam essa esfera geopolítica aceita sua declaração de que o materialismo científico e dialético é a maneira normativa de conceber a realidade. (1998, p. 324)46
A noção marxista de ideologia pode ser entendida em relação a uma questão que ocupava a filosofia francesa, mas que não tinha sido capaz de responder satisfatoriamente: "Por que houve tantas falsas crenças sobre a sociedade e a natureza humana?" Limitações intelectuais ou a retórica dos propagandistas foram os motivos, disseram os teóricos do Iluminismo, mas, para Marx, esses
46
Though references abound to the ―Marxist worldview‖, or the ―Marxist-Leninist Weltanschauung‖, technically speaking it was Friedrich Engels (1820-95), more so than Karl Marx (1818-83), who was concerned about worldview, the materialist version in particular in his reflections on the metaphysic of the ―revolution‖, Engels argues that the basic philosophical hypothesis concerns the relationship of mind and matter. Mind is a function of matter in both ontological and epistemic ways. Nature, in other words, is the ―whole show‖. This ―general‖ and ―simple‖ worldview of dialectical materialism, as Engels calls it, is the truly scientific philosophy. It is characterized by science‘s traditional claims objectivity, rationality, universality, and certainty. Because of the influence of Engels in the Communist world, most of those occupying this geo-political sphere accept his declaration that scientific, dialectical materialism is the normative way of conceiving reality. (p. 324)
fatores eram insuficientes para explicar tais diferenças. Marx propôs uma explicação alternativa que destacava o tema da ideologia: "No que diz respeito às sociedades divididas em classes, a principal resposta de Marx é que muita ideologia é inevitável em uma sociedade de classes, porque a classe economicamente dominante exige a existência de falsas crenças para a continuidade da dominação e tem recursos para perpetuar crenças que são de seu interesse". Em uma sociedade que consiste na burguesia e no proletariado, além de uma divisão do trabalho dos tipos mental e manual, é provável que os membros da maioria da classe trabalhadora experimentem uma espécie de alienação de seu trabalho, criando assim uma sensação de desumanização e agitação. No entanto, aqueles que possuem os meios de produção não podem perder o controle de sua situação lucrativa. Para preservar a sua propriedade de preeminência e privilégio, a classe dominante deve construir sistemas de crença sobre preocupações finais (Deus, o universo, a humanidade, a moralidade, etc.) e se comunicar de maneira persuasiva com as massas para manter a subjugação. Estupefatos diante destas reificações, a classe trabalhadora desenvolve uma falsa consciência, convencida de que a atual ordem socioeconômica é sancionada pelo mundo natural ou eterno. Assim, na “guerra” de classes em curso, os capitalistas burgueses planejam uma superestrutura ideológica que mantém o proletariado sob controle. [...] Marx acredita que os seres humanos são os arquitetos de suas próprias ideias e concepções, especialmente porque estas são geradas a partir das condições materiais e sociais da vida. Ele é claro em sua proposição central sobre as origens da consciência humana: "a vida não é determinada pela consciência, mas a consciência pela vida". Por isso, o paradigma intelectual reinante não é senão uma expressão da consciência da classe dominante, tal como foi gerada pelas condições materiais existentes.
Essas ideias centrais são recebidas como leis eternas e atemporais, feitas na própria constituição do universo. Assim, as noções da classe dominante
determinam os contornos intelectuais das épocas que dominam (1998, p. 326- 7, grifos nossos)47
Para resumir, Marx e Engels fizeram contribuições importantes para a ideologia e a visão de mundo, respectivamente. Marx não identificou as
47
The Marxist notion of ideology may be understood in relation to a question that occupied the French philosophies, but which they had not been able to answer satisfactorly: ―Why have there been so many false beliefs about society and human nature?‖ Intellectual limitations or the rhetoric of propagandists were the reasons, said the Enlightenment theorists, but for Marx these factors were insufficient to account for such differences. Marx proposed an alternative explanation highlighting the theme of ideology: ―As far as societies divided into classes are concerned, Marx‘s main answer is that much ideology is inevitable in a class society, because the economically dominant class requires the existence of false beliefs for its continued dominance and has resources for perpetuating beliefs that are in its interests‖. In a society consisting of the Bourgeoisis and Proletariat, plus a division of labor of the mental and manual kinds, there is every likelihood that the members of the majority working class will experience a kind of alienation from their work, thereby creating a sense of dehumanization and unrest. However, those who own the means of production cannot afford to lose control of their profitable situation. In order to preserve their estate of preeminence and privilege, the dominant class must construct systems of belief about ultimate concerns (God, the universe, humanity, morality, etc), and communicate the persuasively to the masses to keep the subdued. Stuptified by these reifications, the working class develops a false consciousness, convinced that the present socio-economic order is sanctioned by the natural or eternal world. Thus, in the ongoing class warfare, Bourgeois capitalists devise an ideological superstructure that keeps the Proletariat in check. […] Marx believes that human beings are the architects of their own ideas and conceptions, especially as these are generated out of the material and social conditions of life. He is clear in his central proposition regarding the origins of human consciousness: ―life is not determined by consciousness, but consciousness by life‖. Hence, the reigning intellectual paradigm is nothing other than an expression of the consciousness of the ruling class as it has been spawned by the existing material conditions. These governing ideas are received as timeless, universal laws, wrought into the very constitution of the universe. Hence, the notions of the ruling class determine the intellectual contours of the epochs they dominate (pp. 326-7)
implicações teóricas de sua própria Weltanschauung, mas ele derivou de suas proposições centrais uma poderosa concepção de ideologia pela qual explicou a dinâmica da desilusão cultural e da dominação. As ideologias são descendentes da produtividade material e das relações sociais, e sempre dão suporte a uma classe. Elas são instrumentos de poder que servem aos interesses do partido mais forte como interpretações mistificantes da ordem das coisas. Engels tomou a metafísica do materialismo dialético, casou com o marxismo e ampliou sua aplicação a todas as disciplinas relevantes. Em suas mãos, o marxismo tornou-se uma abrangente Weltanschauung que afeta a totalidade da vida. Embora possam ser tecnicamente distinguíveis no pensamento marxista, as visões de mundo e as ideologias são formas fundamentais de conceber a natureza das coisas, e estas últimas certamente podem ser pressionadas para garantir a hegemonia da classe econômica dominante. (1998, p. 329)48
Já que não é nossa intenção fazer um tratado sobre cosmovisão, acreditamos interessante fazer um comentário sobre a concepção de mundo passível de ser analisada no texto do norte-americano David Keith Naugle, quando trata do pensamento marxista. O tom dos enunciados do autor ao usar a expressão ―guerra de classes‖ (class warfare) em vez de ―luta de classes‖ (class conflict ou class struggle), a noção de que, para os marxistas, as ideias de Marx são leis atemporais, eternas etc., é carregado de ironia e certo sarcasmo. A própria exclusão das contribuições de Marx e dos marxistas na secção dedicada à história do conceito de visão de mundo é um índice de que Naugle parece estar bem afinado à propaganda anticomunista iniciada nas políticas de Ronald Regan em todo o território norte-americano e além, carregando seu texto de uma velada ―ideologia‖ ou cosmovisão anticomunista. Mas, mesmo assim, a relação entre Weltanschauung e ideologia no pensamento de Marx e marxista oferece um argumento para reiteramos a compreensão de os dois conceitos possuírem uma dupla orientação e, portanto, estarem proximamente relacionados um ao outro. Retomando nossas reflexões da visão de mundo rosiana materializada em suas obras, vemos que a sua visão de mundo está distante da Weltanschauung em Marx, já que para Marx os seres humanos são os principais arquitetos do mundo e em Rosa há vários fatores místicos e religiosos envolvidos em sua obra. A visão de mundo em Rosa, para usarmos o clichê marxista de
48
To sum up, Marx and Engels made important contributions to ideology and worldview respectively. Marx did not trace out the theoretical implications of his own Weltanschauung, but he did derive from its central propositions a powerful conception of ideology by which he explained the dynamics of cultural deception and domination. Ideologies are the offspring of material productivity and social relations, and are always class-supportive. They are instruments of power serving interests of the stronger party as mystifying interpretations of the order of things. Engels took the metaphysic of dialectical materialism, wed it to Marxism, and extended its application to all the relevant disciplines. In his hands, Marxism became an all-encompassing Weltanschauung affecting the totality of life. While they may be technically distinguishable in Marxist thought, worldviews and ideologies are fundamental ways of conceiving of the nature of things, and the latter can certainly be pressed into service to insure the hegemony of the dominant economic class. (p. 329)
que a religião é o ópio do povo, seria opiácea no limite. Para fecharmos a ideia da relação entre Weltanschauung e Ideologia, colocamos algumas reflexões de Lukács, do texto ―Marx e o problema da decadência ideológica‖, que parecem se aproximar da reflexão de Naugle – sem o tom irônico do anticomunista, mas sim com um pesado tom marxista próprio ao Lukács da segunda fase:
Mais minucioso e aprofundado deve ser o exame daqueles escritores que não capitularam diante da apologética [da deformação da realidade sob a égide do capitalismo no século XIX] e que, portanto, esforçam-se por impor às próprias obras sua pessoal concepção de mundo, sem se preocuparem com os aplausos ou a repulsa que receberão. (2010, p. 76)
Sabemos que a relação entre concepção de mundo e atividade literária é extremamente complexa. Existem casos no quais uma concepção de mundo política e socialmente reacionária não é capaz de impedir o nascimento de grandes obras-primas realistas; e existem outros no quais precisamente a posição política avançada de um escritor burguês assume formas que obstaculizam seu realismo artístico. Trata-se, em suma, de ver se a elaboração da realidade que se expressa na concepção de mundo do escritor abre-lhe o caminho para uma consideração sem preconceitos da realidade, ou se interpõe entre o escritor e a realidade uma barreira que impede sua plena entrega às riquezas da vida social. (2010, p. 76)
É evidente que toda concepção de mundo própria da época da decadência – com sua fixação na superfície das coisas, com sua tendência à evasão diante dos grandes problemas sociais, com seu torvo ecletismo – parece feita propositadamente para dificultar ao escritor o acesso a uma visão profunda e sem preconceitos da realidade. (2010, p. 76-77)
A noção de visão de mundo em Lukács a partir da leitura desses excertos está diretamente relacionada à ideologia e ao lugar, ao posicionamento político e social do escritor diante da realidade ou diante das instituições. Mas lembramos: a literatura é coisa representante e tal posicionamento está materializado de forma estética e não determinista, na voz monológica do escritor. Essa noção marca a inextrincabilidade da relação entre Weltanschauung e Ideologia da qual tratamos.
***
Precisamos fazer ainda uma última observação. Depois dessa exposição e reflexão sobre o conceito de Weltanschauung, é difícil não pensarmos na proliferação rasteira desse conceito marcando as relações interpessoais hoje tanto no Brasil quanto no mundo. Determinados grupos têm se armado de uma ―concepção-de-mundo‖ que lhes serve como escudo para realizar os mais diversos e assombrosos tipos de violência, como manifestações neonazistas ou a manutenção no cargo de um ―presidente‖ investigado por corrupção e formação de quadrilha. Portando o tal escudo, parece haver um salvo conduto para uma onda de retrocessos que destrói qualquer crença na da
humanidade do homem. A Weltanschauung se estabelece no século XXI como uma poderosa ferramenta de poder que se interpõe a uma sociedade apática e despojada de praticamente todas as conquistas feitas ao longo do tempo. Acreditando, mesmo assim, na possibilidade de transformação a partir da ação responsável que transpõe as barreiras entre o mundo da cultura e o mundo da vida que se materializa na literatura, é que este trabalho continua sendo desenvolvido. Acreditando, apesar de.
***
Então, as quatro correlações que fizemos até aqui não representam quatro momentos diferentes de abordagem de uma visão de mundo, mas, a partir do momento em que a visão de mundo é utilizada como parâmetro de compreensão de uma determinada obra literária, ela não pode prescindir de nenhum desses quatro momentos, que coexistem simultaneamente. Ao compreendermos as ideias de Wittgenstein, Kierkegaard, Dilthey, Hegel, Lukács e outros sobre a importância desse conceito para a abordagem da obra de arte, a ideia de visão de mundo torna-se um mecanismo abrangente de compreensão da forma literária a partir do momento em que ideologia, mímesis, filosofia e linguagem são consideradas de forma integrada, arquitetônica e não mecânica. Nesse sentido, passaremos a pensar o sertão e o sertanejo como elementos configuradores de uma visão de mundo sob os quatro aspectos discutidos até aqui, mas, principalmente, na história literária brasileira.