A Internet revolucionou o modus operandi da sociedade e, não obstante, o fazer jornalístico também foi atingido por essa avalanche de novas formas de fazer e distribuir notícias. Essa integração dos recursos digitais incorporados modificaram as maneiras de acessar, processar e difundir informações, onde o conteúdo é o foco central dessa discussão.
Rocha (2006, p. 178) descreve em sua tese de doutorado que não há consenso tampouco um termo ―específico para o jornalismo praticado na Internet‖. São várias as
terminologias: Jornalismo Online, Webjornalismo, Jornalismo na Internet, Jornalismo Digital, Ciberjornalismo. Dentro do conceito de Jornalismo Online, Moherdaui (2000, p. 33-34) revela duas formas de edição de notícias na Internet: na primeira, as informações são puramente Online, atualizadas em tempo real (como o site G1) e, no segundo exemplo, estão os sites de mídia impressa que transportam suas edições para a versão digital.
Já Ferrari (2006, p. 40) considera o contrário, que a atuação jornalística na transposição da mídia impressa para a Web como Jornalismo Online e o segundo modelo, onde estão os noticiários e sites que nasceram no ambiente virtual, como Jornalismo digital. Atualmente, os portais de grandes jornais, como Folha de São Paulo, O Estado de S.Paulo, entre outros, possuem os dois serviços, ou seja, mantém o menu de notícias Online e disponibilizam suas versões digitais (geralmente em formato PDF) dos veículos impressos. Mielniczuk (apud PRIMO; TRÄSEL, 2006, p.2) assume o conceito ―webjornalismo‖ como o adequado para designar ―publicações veiculadas na World Wide Web‖, pois o termo é ―mais específico do que Jornalismo Online, [...] desenvolvido utilizando tecnologias de transmissão de dados em rede e em tempo real‖. E ainda tem o ciberjornalista, aquele que media chats, escreve em fóruns, e está envolvido na criação de textos para os produtos do meio cibercultural (FERRARI, 2006, p. 41).
Independente da denominação, Ferrari (2006, p. 39) aborda os elementos componentes do conteúdo dito Online, a partir do amplo potencial da Internet, que são os textos, fotos, gráficos, adicionados a seqüências de vídeos, áudio e ilustrações animadas. Cabe destacar que o texto, depois de postado na Internet, não tem seu fim, pois o jornalismo digital não tem a noção de fechamento da edição. A qualquer hora, em qualquer lugar, é possível trazer informações mais detalhadas e atualizadas do tema, deixando de lado o caráter definitivo do texto. Dessa forma, o Jornalismo Online não possui periodicidade, pois a dinâmica segue o rumo dos acontecimentos, dando ao veículo a noção de atualizado em tempo real (MOHERDAUI, 2000, p.34)
A partir dos novos recursos possibilitados na Internet, há um novo planejar na redação jornalística, onde o ―desafio é organizar e apresentar de forma atraente o conteúdo [...]‖ e a ―notícia na Internet pode ser mais bem contextualizada‖ (MOHERDAUI, 2000, p. 34). As informações do passado podem ser resgatadas, outros dados complementares para melhor compreensão podem ser apresentados a partir de links e outras reportagens sobre o tema em questão.
Essa possibilidade não-linear proporcionada pelo mundo digital refere-se ao hipertexto, recurso em que pode-se ligar a documentos em formato de texto, imagem, som ou
vídeo. Antes de tendência ou de modismo, os recursos hipertextuais ampliam a capacidade comunicacional de uma matéria, pois permite-se que outros elementos informacionais sejam disponibilizados ao internauta para melhor elucidação e interpretação da notícia. Isto reflete no modo de pensar e de construir a matéria.
Como mostra Martins (apud MOHERDAUI, 2000, p. 36), o jornalista precisa habituar-se a ―pensar de maneira mais abrangente‖ e principalmente, que construa a matéria com navegação fácil, para não confundir o leitor. De acordo com Moherdaui (2000, p.56), existem três tipos de leitores na Internet: os chamados scanners, que fazem a leitura por uma passada de olhos no texto; os que preferem os recursos multimídia; e os que procuram dados mais detalhados sobre um tema. E para cada um desse perfil, existe uma concepção de texto e possibilidades de recursos, de forma a atrair a atenção.
Além de permitir a navegação não-linear pela notícia, o hipertexto confere ao usuário a alteração do estado de passividade para um estado de atividade, a partir da interatividade.
O hipertexto é um meio de organização de informações no qual o centro de atenção depende do leitor, que se converte assim em um leitor ativo, em um novo sentido para esse termo. Uma das principais características do hipertexto é ser composto por partes de textos conectados, embora sem barra primária de organização. Os leitores não só podem escolher vários pontos em que queiram concluir sua leitura, mas também podem ampliar o texto inicial. Como disse Ted Nelson, um dos criadores do hipertexto: ―Não há última palavra. Não pode haver uma versão definitiva, um último pensamento. Sempre haverá uma nova versão, uma nova idéia, uma nova interpretação (LANDOW apud MOHERDAUI, 2000, p. 39-40).
Por outro lado, Palácios (2005), em um ensaio sobre as promessas e limites no desenvolvimento do jornalismo Online, considera que a leitura jornalística já era hipertextual antes mesmo da Internet. O jornal moderno não é concebido para ser lido palavra por palavra, e cabe ao leitor definir qual caminho será percorrido para a absorção da notícia.
A idéia principal que lançamos para discussão [...] é de que ao migrar para a Internet, o jornalismo tinha no impresso uma metáfora facilmente utilizável (McAdams, 1995), debaixo da qual tem se desenvolvido nos últimos dez anos. O ―jornal enquanto metáfora‖ presta-se, por sua própria natureza, à construção hipertextual. O que é uma chamada de primeira página senão um processo de linkagem para um texto localizado em outro(s) arquivo(s)? O leitor do jornal impresso já estava acostumado a ler hipertextualmente muito antes da existência do hipertexto. Ninguém lê um jornal como se lê um romance, da primeira à última linha. (PALÁCIOS, 2005, p.9-10)
A ampliação das potencialidades da notícia a partir do uso de recursos multimídia também não é novidade na reflexão de Palácios. O jornalismo pré-web já convivia com outras formas comunicacionais, ―como gravuras, charges, fotos, infográficos, vinhetas etc.‖, sendo que a multimidialidade, a partir da Internet,
muito mais que uma ruptura [...] representa uma continuidade e uma potencialização de uma característica já estabelecida em suportes anteriores de produção e veiculação jornalística (PALÁCIOS, 2005, p.8).
Nas redações Online, o profissional, na produção de reportagens, adquiriu um novo formato: o de empacotador de notícias, ou seja, aquele que, a partir das informações produzidas por agências de notícias e assessorias de imprensa, modifica títulos, parágrafos são transformados em links, adicionam fotos ou vídeo, ou seja, uma função de codificador da informação, traduzindo a matéria para a linguagem da Web (FERRARI, 2006, p. 44).
Pereira (2003, p.78) remete ao conceito de ‗jornalista sentado‘ (journaliste assis) em contraponto ao ‗jornalista de pé‘ (journaliste debout), que realiza a apuração convencional de dados para a notícia. Este conceito, na verdade, remonta aos tempos iniciais do telefo ne que, segundo Harold Innis (apud PEREIRA, 2003, p. 78), ―suplantou o telégrafo na [cobertura de] informações locais e o repórter viu seu trabalho dividido entre ‗the leg man‘ que visitava as fontes de notícias e o ‗rewrite man‘ que recebia a informação via telefone e a preparava para a publicação‖. O autor complementa que a Internet não é responsável por este jornalismo ‗sentado‘, em que as informações chegam prontas ou semi-publicáveis, mas sim ―radicalizou este tipo de produção ao centrar-se na publicação de informações provenientes, sobretudo, de fontes externas‖.
Com relação ao desenvolvimento do webjornalismo (produção de notícias em e para o meio digital), Primo; Träsel (2006, p. 7).recorrem a Mielniczuk e Silva Junior para definir três etapas pela qual passaram os veículos noticiosos na web. A primeira etapa é ―a da transposição do modelo impresso para as redes digitais‖, onde as ―notícias seguem o padrão de texto e diagramação do jornal tradicional‖. Na segunda fase, ―alguns elementos específicos da Web passam a ser agregados à notícia Online‖ como ―recursos de hipermídia, listas de últimas notícias e matérias relacionadas, bem como material exclusivo para a versão Online‖. A terceira geração ocorre a partir do momento em que ―as publicações Online incorporaram a hipermídia à produção do texto, aprofundando a hipertextualidade e a multimodalidade permitidas pela convergência das mídias digitais‖. Outras possibilidades de ―distribuição do
conteúdo para outras plataformas‖ são aplicadas, ―como telefones celulares [...]‖ (PRIMO; TRÄSEL, 2006, p. 7).