Diretamente relacionado com o “status social” possibilitado pela diáspora, é possível perceber a importância dessa possibilidade - migrar - para a comunidade haitiana, como alternativa de uma melhoria de vida. No relato exposto a seguir, o narrador Roberson cita os motivos da saída de seu pai do país, em 1995:
É a mesma fórmula, pra conseguir algo melhor às vezes tem que sair da sua zona de conforto, né, porque ele [pai de Roberson] tinha profissão, que é uma coisa que é bem rara. (...) Ele já tinha 4, 5 filhos, e minha mãe fazia comércio e costura. Mas pra se manter 5 filhos num país, digamos, não é pobre, é um país onde o governo não ajuda, porque se não tem emprego não tem condição.(...) Aí ele [pai] teve que escolher entre ficar no Haiti e os filhos passando fome ou sair do país, entendeu? Então ele saiu e durante esse tempo ele ficou 11 anos fora. Ele conseguiu construir, pelo que eu fiquei sabendo, deixa eu ver, uma, duas três, quatro, quatro casas. Comprar carro, terreno, tudo. (DAMIS, 2017)
Esse trecho da fala de Roberson explicita diversas das questões relacionadas com os motivos de migração já trabalhados, como a importância da família, do retorno financeiro e da construção de casas. No início da fala, o narrador cita a “fórmula” como a única possível “solução” para se obter “algo melhor”, nesse caso, a solução para a fome dos filhos no momento de dificuldade, é a mobilidade. Nesta circunstância, se percebe nitidamente como a mobilidade se insere no Haiti, como necessidade e realidade social:
O mundo da mobilidade possui lógicas próprias que ordenam a vida das pessoas e o seu mundo social. A mobilidade se desenvolve, ao mesmo tempo, como uma perspectiva econômica, mas também como um modelo social. De prática conjuntural, a mobilidade tende a se constituir, a partir de uma lógica estrutural. No Haiti, ela se impõe como uma realidade social de primeira ordem. (HANDERSON, 2015. p. 187)
A fórmula do sucesso direciona o indivíduo a sair, preferencialmente para as grandes potências econômicas com um dinheiro que pode valer muito no país de origem.
Essa fórmula, se faz presente em toda a construção dos indivíduos haitianos, como pôde ser percebido a partir das histórias de vida: as melhores condições de trabalho no Haiti ou melhores condições de vida para o/a diáspora e a família, são dependentes de uma
experiência de mobilidade exterior. Bernadel, que se demonstrava um pouco mais fechado em suas respostas, quando questionado sobre motivos de saída do país, nos diz que decidiu sair:
Porque falta serviço e a gente precisa ajudar. Meu filho tá crescendo de dia em dia. A gente sai de lá pra buscar uma vida melhor, buscar um serviço pra gente poder fazer e viver bem. Mas se você está no Haiti sem serviço, fica pesado de dia em dia… A gente sai pra buscar uma outra vida. (BERNADEL, 2018)
A mobilidade significa então, a possibilidade de encontrar aquilo que o Haiti, a partir de seu histórico político e econômico, não pode oferecer a toda a população. O estudo, público e gratuito é um grande marcador da mobilidade e os entrevistados relatam as grandes dificuldades que norteiam um estudo de qualidade no Haiti. Marie Divers (2018) acredita que seu sucesso profissional, e de muitos haitianos, será marcado pelo diploma brasileiro que está buscando: “eu queria estudar fora, porque aqui [Haiti], aqui também tem esse tipo de coisa, todo mundo quer estudar fora, todo mundo quer estudar numa universidade internacional, assim, quer um diploma internacional e depois volta pro país pra trabalhar.”
Dentro da formação social haitiana, estar no peyi etranje (país estrangeiro) é fórmula certeira para encontrar sucesso naquilo que se busca. Em diversos momentos e situações da vida dos haitianos e haitianas, a mobilidade se coloca como obrigatoriedade, como para Roberson, que nos diz que “não queria sair do país”, no entanto, sua mãe o fez optar por um país e viajar.
Algumas expressões marcam o mundo social haitiano: “Tenho de viajar um dia para
peyi etranje”, “Desde que nasci, meu sonho era partir um dia”, “Antes de morrer
com certeza vou partir”. Durante a pesquisa de campo no Brasil, no Suriname e na Guiana Francesa, notadamente no Haiti, era comum ouvir estas declarações vindas dos interlocutores. “Tenho que ... um dia”, “Desde que nasci...”, “Antes de morrer ...”, esses três verbos nascer, ter e morrer descrevem como a mobilidade se constitui numa “obrigação”, como “algo predestinado” e num “sonho” a ser realizado. (HANDERSON, 2015. p. 67)
Na formação do imaginário haitiano estar morando/trabalhando/estudando em outro país possivelmente significa uma construção de sonho de infância, uma necessidade básica e a oportunidade sonhada. Não é excesso afirmar que praticamente todas as famílias haitianas possuem um membro morando fora do Haiti, ou que partir, seja o sonho da maioria da população (HANDERSON, 2015), apesar de não ser generalizada. Como no caso de Roberson:
Porque ele [pai] saiu do país para que? Pra ter uma vida melhor, é uma fórmula né: pra crescer para ter uma boa oportunidade lá no Haiti às vezes tem que sair, infelizmente é uma coisa que eu estou tentando e lutar contra isso, eu acho que um
monte de pessoas é assim, porque, o país às vezes não dá oportunidade. (DAMIS, 2018)
Apesar de não possuir esse sonho, que envolve um status no Haiti, Roberson migrou. A relação da obrigatoriedade da mobilidade, de ser diáspora, se coloca em diversos momentos históricos no país por diversas condições que serão discutidas nas próximas páginas, mas para além, se torna um objetivo de vida, um sonho, pelo papel estrutural, pelo retorno e imaginário criado na sociedade haitiana.