A massificação contemporânea do consumo atinge de igual modo o turismo, causando uma sobrecarga na infraestrutura básica urbana, e alterando o meio ambiente. Essa situação representa um grande desafio para os lugares e destinações turísticas, pois a visitação turística leva a um contato direto com o meio ambiente das áreas visitadas. A massificação da atividade turística acelera o processo de turistificação2, que produz vários impactos socioambientais nas externalidades da ampla cadeia que constitui a atividade turística: os meios de hospedagem, os serviços de transporte, alimentação, recreação e outros setores associados (CRUZ, 2002), como, por exemplo, o mercado imobiliário (SANSOLO, 2004). Esse efeito é preocupante para aqueles responsáveis pelo planejamento e gestão do turismo pois como destaca Krippendorf (2006, p. 20), “[...] o turismo de massa constitui uma das formas de lazer mais marcantes, de maiores consequências e de impactos menos controláveis”.
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Embora nos últimos anos tenham sido verificadas ações positivas das empresas privadas em relação aos aspectos socioambientais, como apresentado neste capítulo, ainda é insuficiente o número de turistas que realmente opta por produtos ecologicamente corretos, meios de transportes limpos, e que exerçam atitudes responsáveis com relação à comunidade receptora (BUDEANU, 2007), o que é uma contradição, e pode ser considerado um obstáculo ao pleno avanço na construção do desenvolvimento do turismo sustentável. O antagonismo formado pela simultânea degradação e dependência do meio ambiente pelo turismo, coloca em evidência o desafio do turismo sustentável. Nesta perspectiva, elementos da sustentabilidade estão sendo inseridos nas empresas que compõem a cadeia do turismo, contribuindo para o desenvolvimento de novos segmentos para a atividade, como o ecoturismo, o turismo de aventura, e o turismo rural, todos alinhados com o chamado turismo alternativo, o que tem provocado mudanças na concepção dos produtos e serviços que são ofertados, a fim de atender as novas demandas.
Os fatores econômicos, sociais e ambientais têm exercido influência no desenvolvimento da hotelaria no mundo, incluindo o Brasil. No início do crescimento da atividade no país, de forma semelhante a outros países, o lucro era o principal e único objetivo e preocupação dos empresários. Isso porque os impactos causados pelas atividades turísticas, particularmente pela hotelaria, foram pouco estudados. Na realidade, para muitos a atividade de acomodação não era considerado ou visto como sendo causador de degradação ambiental, talvez por fazer parte da hospitalidade. Entretanto, essa postura vem sendo modificada, tendo em vista que estudos recentes evidenciam a necessidade da gestão sustentável da atividade de acomodação. Com o passar dos anos, e com as alterações socioculturais, ambientais e políticas que vem ocorrendo mundialmente, principalmente na maneira de pensar do homem em relação aos problemas ambientais, o aspecto socioambiental começou a ser inserido nos meios de hospedagem através da RSA. Castelli (2005) ressalta a necessidade de transformar os meios de hospedagem em referências de hospitalidade e de comprometimento socioambiental, como elemento básico da oferta turística, provavelmente devido a sua centralidade na experiência dos turistas. Desse modo, o turista estaria empenhado no que diz respeito à proteção do patrimônio natural, cultural e histórico dos destinos visitados, e exigente em relação à qualidade dos serviços oferecidos, instituindo uma nova cultura da hospitalidade. Essa nova cultura associada ao lazer
estaria hipoteticamente baseada em uma relação consequente do turismo com a conservação ambiental.
Para que essa nova cultura se torne realidade, é necessário o envolvimento efetivo dos agentes e atores sociais que compõem a cadeia produtiva do turismo, para que cheguem a um denominador comum na busca por estratégias de redução dos impactos do turismo sobre o meio ambiente, de forma a garantir a continuidade da atividade, propiciando o desenvolvimento sustentável para as comunidades receptoras. Neste sentido, é importante a participação dos empreendedores do setor de hospitalidade, cuja relevância e interferência sobre a cadeia produtiva do turismo implicam tanto responsabilidades quanto oportunidades para o desenvolvimento socioeconômico (TOMAZZONI; ZANETTE; LAIDENS, 2009).
Como consequência, têm surgido diversas tipologias de meios de hospedagem que buscam menor interferência no meio ambiente; aproximação e envolvimento da população autóctone; o atendimento a turistas que demonstram interesse por práticas sustentáveis; número reduzido e limitado de hóspedes; enfim, com o objetivo de diminuir a massificação da atividade turística e, em consequência disso, reduzir também os impactos sobre os recursos naturais e a população local, vivenciando-se, ainda, uma experiência única, diferente do turismo de massa.
A mudança na oferta de produtos e serviços na atividade turística, incluindo, portanto, novas formas de se fazer a hotelaria, se configura como aspecto importante para o mercado, como mostra Krippendorf (2006, p. 156)
A teoria nos ensina que os produtos de mais sucesso no mercado são aqueles que apresentam uma característica única, que possuem aquilo que se chama de unique selling proposition, isto é, um trunfo de venda específico, enfim, aqueles que se distinguem dos outros. No mercado internacional do turismo, em que todas as ofertas são formuladas da mesma maneira, uma singularidade assim torna-se cada vez mais necessária.
As empresas do ramo da hotelaria que têm procurado se adequar às exigências da sustentabilidade, além de contribuírem para a diminuição dos impactos socioambientais, têm adquirido benefícios que vão desde a venda da imagem, até o aumento dos lucros. Ações voltadas para a preservação da natureza, colocadas como alternativas de lazer e atrativo turístico agregam valor aos produtos e serviços, além de reforçarem os diferenciais que contribuem para aumentar sua
capacidade de competição frente à concorrência (TOMAZZONI; ZANETTE; LAIDENS, 2009).
Entre os desdobramentos que têm surgido, relacionados aos meios de hospedagem, um tem se destacado internacionalmente, tendo sido introduzido no Brasil, já tendo experimentado um processo de expansão – trata-se do que tem sido denominado de Pousadas ou Hotéis de Charme. Uma das características centrais dos meios de hospedagem que se alinham a essa forma de hospedagem é o “charme”, o que será explicado no Capítulo 2. Dentre outras coisas, os meios de hospedagem que adotam a noção de charme buscam alinhamento com a adoção de práticas sustentáveis associadas à RSA, através do uso de um Código de Ética e de Conduta Ambiental. No capítulo a seguir será realizado um breve histórico dos meios de hospedagem no Brasil e no estado de Alagoas, bem como a caracterização do surgimento das pousadas e hotéis de charme, sua ocorrência no Brasil e em Alagoas, mais especificamente na Rota Ecológica, objeto de estudo deste trabalho.