Para caracterizar os principais sujeitos da pesquisa, recorri a Lady Lina Traldi, Elcie Masini, Lev Vygotsky, Salustiano Silva e Robert Rothenberg. Vou da caracterização ampla do alunado que cursou a 4ª e a 5ª séries à identificação de quem são os meninos e as meninas na puberdade e na adolescência. Destaque para as quatro sínteses sobre fases do desenvolvimento humano, de Elcie Masini. Uma, interessou-me mais do que as outras. Complementada com o pensamento de Vygotsky e Rothenberg, tracei o perfil dos sujeitos da 5ª série. A opção por Masini foi porque o trabalho é uma síntese de J. Piaget. H. Wallon, R. Zazzo. J. M. Tanner, R. de Saussure e P. Osterreilh. Adiantou uma longa pesquisa que precisaria ser feita caso não a conhecesse...
9.2.1.1 Quem são os alunos e as alunas da 4ª e da 5 séries
Segundo Lady Lina Traldi (1984), o menino e a menina da 4ª série é alguém capaz de ser bastante responsável e digno de confiança. Está interessado em fazer bem as coisas e desenvolve o sentido de justiça e uma compreensão mais clara do certo e do errado. É capaz de levar avante seus planos e projetos com um mínimo de insistência dos adultos. Está ganhando independência. Turmas e clubes tornam-se importantes e, em geral, influenciam suas idéias sobre o que é certo e errado. Muitos meninos e meninas têm facilidade de leitura, o que torna possível ler para adquirir informações e também por prazer. É a época em que podem surgir defeitos de leitura que, se ignorados, poderão afetar o progresso e a felicidade da criança. Fisicamente, quase todas são semelhantes; contudo, cada uma delas é uma personalidade distinta. A coordenação visual e motora é boa e começa a se refletir na escrita.
Já entre os alunos e as alunas da 5ª série, haverá evidências de que algumas crianças estejam na pré-adolescência. O grupo de colegas e a turma são importantes nessa idade. A criança quer pertencer a um grupo e sente que deve ser tão semelhante às outras quando possível. Tanto os meninos quanto as meninas gostam de atividades ao ar livre, etc. Lendo independentemente, essas crianças tendem a se ressentir contra o professor ou a pessoa que lhe diz o que fazer, sem que participem da decisão a ser feita. A criança de 11 anos, ao demonstrar suas habilidades, quer estímulo, pois precisa de estímulo e orientação dos adultos, que devem ser dados na base “de igual para igual”. Embora haja grandes diferenças em
capacidade, a maioria delas já obteve proficiência em certos aspectos das habilidades cognitivas.
A meninada dessas duas séries está na idade evolutiva que favorece o estudo das coisas da natureza. Atraído por um objeto, o infante o analisa sensorialmente; já o jovem interessa-se pelo modo de ser dele. Quer conhecer a sua natureza, o como e o porquê de sua existência. Volta-se para a relação entre causa e efeito. Tende para o conhecimento concreto do mundo, interessa-se pelas ciências da natureza (SILVA, S., 1992). E não ignorei esse aspecto ao optar pela intervenção na 5ª série, com as unidades de ensino “Universo” e “Ambiente”.
9.2.1.2 Quem são os meninos e as meninas aos 10, 11, 12 anos...
Julgo o emprego de quadros referenciais sobre as características de cada fase, nos aspectos intelectual, afetivo e social, uma ferramenta indispensável à ação educacional. Possibilitam que não se perca de vista o conceito unitário dos estágios biopsicossociais da complexa formação da personalidade. Considerar cada aluno e cada aluna como unidade e, por essa via, orientar a sua educação, para compreendê-los e agir consigo, pressupõe, além de um conhecimento sobre o seu meio, um conhecimento sobre a psicologia do próprio aprendente (MASINI, 1981).
Os esquemas gerais sobre as fases do desenvolvimento serviram à orientação do trabalho pedagógico, em particular, à “saúde” da relação professor-aluno para garantir o desenvolvimento equilibrado e positivo do aprendente, no interior de práticas que buscavam um novo sentido. Não serviram de critérios à avaliação desse desenvolvimento. Não era o objetivo da investigação, ainda que pudesse ser da intervenção pedagógica que realizei. Fiel ao que propus, construí dados para outros horizontes de análise – a alteridade das práticas. Se não impossível, pelo menos não era sensato, muito menos recomendável, fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Como modelos, os esquemas sobre o desenvolvimento foram o suporte que utilizei para organizar o meu trabalho como professor de Ciências (que ao mesmo tempo pesquisava), em uma turma de adolescentes e pré-adolescentes na 5ª série. Antes de estabelecer as relações entre os esquemas e os meus alunos e alunas, caracterizareis os períodos conhecidos como adolescência e puberdade, com um destaque especial à maturação que ocorre no período evolutivo que vai dos 9 aos 13 anos de idade.
A adolescência compreende o período situado entre os 12 e os 20 anos de idade. A puberdade, o período em que as funções sexuais amadurecem, ocorre aproximadamente entre
12 e 15 anos nas meninas e entre 13 e 16 anos nos meninos. É quando a hipófise libera os hormônios que estimulam o desenvolvimento dos ovários e dos testículos e, juntas, essas glândulas secretam grandes quantidades de hormônios que produzem as mudanças observáveis nos meninos e nas meninas. As meninas amadurecem um a dois anos antes dos meninos, mas nem todas as meninas amadurecem na mesma idade. O fator hereditário e também o clima quente influem no amadurecimento sexual e no aparecimento da menarca.
Na adolescência, não aparece nenhuma função psicológica elementar que seja, em essência, diferente das já presentes. Entretanto, todas as funções são incorporadas em uma nova estrutura, formam uma nova síntese, tornam-se partes de um novo todo complexo. As leis que regem o todo também determinam o destino de cada uma das partes. Aprender a dirigir os próprios processos mentais com a ajuda das palavras ou signos é uma parte integrante do processo de formação de conceitos. A capacidade de regular as próprias ações com o uso de meios auxiliares atinge o seu pleno desenvolvimento somente na adolescência (VYGOTSKY, 1991b).
Em geral, o adolescente apresenta extraordinários progressos intelectuais e demonstra muito interesse pelo mundo que o rodeia. Desse período, os aspectos psicológicos mais expressivos são os desejos de tentar livrar-se da dependência paterna, de auto-afirmação e de preparação para a vida adulta. Fase de grandes conflitos entre pais e filhos, caracterizada por muita agressividade, inquietação, desrespeito, desobediência e inadaptação. Contudo pode haver também uma relação afetuosa e madura, caso o adulto saiba tratar os adolescentes de modo compreensivo e inteligente (ROTHENBERG, 1981).
A idade evolutiva dos 9 aos 13 anos é dividida, em geral, em dois períodos: a fase pré- púbere, dos 8 aos 11 anos, e a fase da puberdade, cujo período já foi identificado. Essa divisão deve ser aceita com reserva. Ainda que cada uma tenha características próprias, a passagem de uma para outra fase não é perceptível. A puberdade como transição da infância para a adolescência tem características de ambas as divisões. O caráter mais evidente do psiquismo pré-adolescente é a autoconsciência e a afirmação do próprio “eu”. Já da puberdade, o caráter de maior evidência é a descoberta do “eu”. Estabelece-se uma relação entre o “eu” e o meio, mais particularmente, entre os indivíduos. Até os 11 anos de idade, quando a maturação sexual já modifica as funções orgânicas mais ou menos paralelamente à modificação da vida psíquica, meninos e meninas vivem juntos como se não houvesse qualquer diferença. Não observei o estar junto entre o alunado de 9 e 10 anos da Turma 407 em nenhum momento da pré-intervenção. O que pode indicar que essa informação deva ser relativizada ao plano geral da caracterização do período evolutivo mencionado, em vez de tomada como lei do
desenvolvimento humano, como também uma puberdade em processo. A separação entre os sexos já estava instalada, gerando até conflitos pessoais em sala de aula, em geral provocados pelos meninos.
A maturação orgânica, como o aumento do peso e da estatura, exerce influência nas manifestações psíquicas intelectuais e afetivas. Aos 11 anos, em geral, as meninas são mais altas do que os meninos. A partir dessa idade, os meninos crescem mais rapidamente e, aos 15 anos, ultrapassam as meninas. Por causa da forte atividade biológica, meninos e meninas desenvolvem em comum jogos de movimento intenso até, pelo menos 11 anos de vida, quando se acentua a diferenciação de sexos, com divertimentos mais bem separados. Na puberdade, também porque o interesse pelo mundo exterior se deslocou para o “eu” pessoal, interior, os meninos, então, reúnem-se entre si. O mesmo acontece com as meninas. Os interesses em comum se diferenciam entre os participantes dos dois grupos (SILVA, S.,1992).
Foi assim que, um dia, na fase de pré-intervenção, quando observava a turma de 4ª série, percebi que havia uma linha divisória imaginária na sala. Em relação ao quadro-verde em frente, a maioria das meninas sentava à direita; à esquerda, mais meninos e, ocasionalmente, duas ou três meninas, que pendiam para a linha do centro. Isso acontecia tanto nas aulas como em festas, como mostram as imagens da Figura 7, uma das quais mereceu um registro em meu diário de campo, que reproduzo em seguida.
Figura 7 – Alunos e alunas da Turma 407 em atividade.
É terça-feira. No primeiro horário, tivemos a confraternização da turma, dirigida pela professora Isaura, da disciplina Português. Começou às 7h 40 min e terminou às 8h 30 min.
Obtive a autorização de Isaura para entrar assim que cheguei à porta. Estava atrasado dez minutos. Encontrei a turma já arrumada em círculo. Na mesa, bolo de chocolate, brigadeiros, pastéis, empada de carne, sanduíche de pão de forma, quatro ou cinco pets de refrigerante. Tudo trazido pela turma, como combinado entre si, que esteve o tempo todo alvoroçada. Falavam muito uns com os outros, em geral, com aqueles que estavam à direita e à esquerda. Ainda vi meninos e meninas mais ou menos separados, com raros meninos (dois) e meninas e (três) sentados entre seus opostos. (DIÁRIO DE CAMPO. 19 DE DEZEMBRO DE 2000)
9.2.1.3 A caracterização geral da Turma 507
No início de 2001, a Turma era constituída principalmente por pré-adolescentes, período que gira em torno de 10 e 11 anos de idade. Dos 30 estudantes matriculados, 80% tinham 11 anos completos ou incompletos; apenas uma aluna terminou aquele ano com 10 anos de idade; outra o começou com 16. Exatamente eram: uma aluna com 9 anos; cinco alunos e quatro alunas com 10 anos; quatro alunos e 9 alunas com 11 anos; quatro alunos e uma aluna com 12 anos; uma aluna com 13 anos; um aluno com 14 anos e uma aluna com 16 anos de idade.
Alguns indivíduos, por constituição ou efeito de agentes externos, como o clima e o ambiente social e moral, podem apresentar sinais de idade púbere com dois ou três anos de antecedência, ou retardamento. Pelo que observei – e pelo que me foi contado pelos próprios alunos e alunas – acerca dos aspectos físicos e psíquicos, identifiquei 53% dos alunos e alunas da Turma 507, no início de 2001 já podiam ser considerado na fase da puberdade. Era o caso dos precoces Daniel e Luah, de 10 anos; Breno Pereira, Adriany, Keila, Luana, Jamylle, João Victor, Joelma, Juliana e Nara, de 11 anos, e Tamara, França, Matheus, Edson e Paulo Henrique, de 12 anos. Os demais ainda eram infantes, como Janderson, Breno Caio, José Carlos, Thomas, Havana e Amanda, de 10 anos; Thaís, Arthur, Isabelle e Francisco, de 11 anos, e Pâmela, de 9 anos; ou adolescentes mesmo, como Adrielly, 13 anos; Thiago, 14 anos, e Natasha, 16 anos.
Na pré-adolescência, o ser humano passa por importantes transformações físicas que o prepara para a puberdade. Afasta-se da identidade pueril e, paulatinamente, constrói a sua maneira jovem de ser. É quando sente a necessidade de pertencer a um grupo e participar das decisões. Por conseguinte, é necessário que os educadores profissionais atentem às disposições de ânimo e sutilezas psicológicas peculiares para que não tomem certos comportamentos discentes, por exemplo, de contestação, agressividade e irritabilidade, como reações contra si. São, sim, contra a autoridade e os valores sociais que, impostos desde o
nascimento, parecem ameaçadores a uma liberdade a conquistar, e com mais veemência do que nas fases anteriores.
Acerca da síntese elaborada por Elcie Masini (1981) sobre a fases do desenvolvimento, para a orientação do trabalho orientador do psicólogo, dos pais e dos educadores profissionais, como professor, detive-me na terceira. A síntese relativa à fase de 11 a 14 anos, que marca o fim da infância ou a maturidade da infância e o início da puberdade, é aquela que abarcava a maior parte do alunado da Turma 507 no começo do período letivo. Além das características gerais da pré-adolescência, as características dos aspectos intelectual, afetivo e social do ser humano nessa fase da vida também são apresentadas nos parágrafos seguintes com o objetivo de explicitar a psicologia dos principais sujeitos de pesquisa que atuaram ao meu lado.
As características refletem com fidelidade o quadro com que me deparei ao longo do ano de 2001. Há a ausência de uma ou outra característica “típica”. É que, talvez mesmo presentes, não foram notadas pelo meu olhar. Por isso, não as cito. Para a função de apoio nesse período de transição, e nos demais subseqüentes, a mim cabia entender a criança ou o adolescente com quem trabalhava. Nesse sentido, as abordagens teóricas sobre o desenvolvimento humano ampliaram a minha visão do planejamento e execução à apreciação das ações educativas, de modo a tornar mais significativas as experiências escolares, um exercício constante no decurso da investigação.
Dos 11 a 14 anos de idade, há uma ampla gama de diferenças individuais e maiores são os saltos de desenvolvimento em todos os aspectos, como o desenvolvimento da autodeterminação e da vontade (agora com um paralelismo entre vontade e lógica) e como do distanciamento do imediato e do aumento das resistências às solicitações e proibições (que tanto perturbam o adulto). À inquietude e irritabilidade, seguem-se períodos de entusiasmo. As diferenças de interesses e comportamentos de natureza sexual se manifestam nesse período, que é o da afirmação do “eu” e dos primeiros contatos realmente interindividuais.
Aos 11 anos, o aspecto intelectual do ser humano está na fase de conclusão das operações concretas, coordenação das perspectivas e estabelecimento dos sistemas de conjuntos. A sujeição ao concreto desaparece por setores. Já alcança o estágio da formulação das leis, mas ainda sem a condição de estender-se a todos os contextos, embora o pensamento evolua para explicações racionais, sem traços do egocentrismo. É quando surge noção de causalidade: “os barcos flutuam porque são fortes” e não “porque tem que flutuar”. Elabora hipóteses e tenta prová-las, pois é intensa a sua curiosidade e a organização do conhecimento em redes mais complexas. Ainda são parceladas as suas atitudes, por isso, diante de conjuntos mais vastos, recai nas explicações morais e finalistas. Por volta dos 12 anos, a inteligência
toma o seu aspecto mais dinâmico e original. O funcionamento racional é mais evidente ao observador e mais consciente ao próprio aprendente. Suspende a “ação” e “pesa os pensamentos”. Tem prazer pela discussão e emprega noções gerais e termos abstratos. Já entre os 13 e 14 anos, o prazer pela leitura é mais acentuado. Deixa-se seduzir pelo utópico, longínquo, imaginário, o que indica capacidade de destacar-se do contexto concreto. Opera numa rede de ações abstratas e o real se transforma um caso particular do possível, além de ultrapassar as dimensões do real quando se trata de explicá-lo.
O desenvolvimento dos processos mentais que resultam na formação de conceitos começa na fase mais precoce da infância, porém, as funções intelectuais que formam a base psicológica dessa formação se configuram e amadurecem na puberdade. A verdadeira formação de conceitos excede a capacidade dos pré-adolescentes e tem início no final da puberdade, por volta dos 12 anos, quando se manifesta um aumento na capacidade humana de formar, sem auxílio, conceitos objetivos generalizados. O pensamento conceitual, emancipado da percepção, faz exigências que excedem as possibilidades mentais antes dessa idade (VYGOTSKY, 1991b).
Quanto ao aspecto afetivo, entre 11 e 14 anos, as transformações físicas influem no psíquico. Os pré-adolescentes são inquietos ou ensimesmados. Costumam assumir atitudes de negativismo ou teimosia e tem um humor irritadiço. A reprovação do adulto provoca reação mais intensa. Quanto aos interesses sobre o geral, são apáticos ou volúveis. Mas é o período de importante transformação: a transposição dos interesses do mundo externo para o do próprio “eu”. Exibem com insistência uma insatisfação com o mundo real, onde se dizem incompreendidos. O que faz com que o jovem se lance no mundo do fantástico, onde encontra o que precisa para satisfazer as próprias necessidades. O quadro mais agudo é por volta dos 13 anos, quando a consciência de si se torna mais acentuada e faz o já adolescente se sentir único, isolado e absorvido em si.
Quanto ao aspecto social, o período dos 11 aos 14 anos é social por excelência: o indivíduo vive em simbiose com os iguais, mais do que qualquer outro grupo. A vida social ganha maior intensidade; os grupos de amigos ou colegas de escola ganham homogeneidade; são eliminados aqueles de idades muito diferentes. Há homogeneidade também quanto ao sexo. Os grupos das meninas se opõem aos dos meninos com maior empenho da parte de ambos. Se o grupo tem um líder, ele cristaliza as aspirações dos membros. É um modelo. Que pode ser do tipo “integrativo”, se contribui para a auto-realização de cada um, ou “tirano”, se subjuga a vontade dos demais.
A turma, como expressão do coletivo grupal, possui um caráter antiadulto acentuado e é um refúgio com senhas e códigos que tratam de manter “afastado” o adulto. A reunião com outros jovens, uma necessidade da adolescência, ocorre também por causa da semelhança de problemas que vivem. “Esse agrupamento dá-lhes força para combater a autoridade paterna e para afirmar sua individualidade através da atividade em grupo” (ROTHENBERG, 1981, p. 44).