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Aquele encontro havia sido marcado alguns dias antes por telefone cujo número consegui com Inácio. Conversaria com Rondinelle Mendes, responsável pelo programa Rondinelle em ação por um mundo melhor, na época, veiculado nas manhãs de sábados pela Costa Oeste 87,9 FM. Soubera deste comunicador, através de pesquisas que fiz na internet – há

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vídeos dele no youtube apresentando seu programa – e também por Inácio. Depois, percebi que quando eu falava na rádio com outros moradores do Antônio Bezerra, aqueles que a conheciam quase sempre davam como referência o “programa do Rondinelle”.

Desci do carro no lado direito da avenida Mister Hull, para quem vai em direção à cidade de Caucaia; o “lado B (de Bezerra)”, como o próprio Rondinelle chamaria. Havia aproveitado uma carona do meu irmão, mas já pensava que deveria ir ao bairro de ônibus para poder “saborear” o campo. Atravessei a larga e movimentada avenida, cujas margens, povoadas por estabelecimentos comerciais, não transmitiam nenhum indício de ambiente residencial. Pelo contrário, atravessando aquela grande pista, sentia-me como invariavelmente me sinto nas ruas das grandes cidades: um minúsculo grão de mostarda.

A Costa Oeste fica em um dos pequenos centros comerciais que formam a paisagem daquele trecho do Antônio Bezerra, o Shopping Pinheiro. Divisei a placa entre os diversos letreiros de propaganda e de outros pontos comerciais. Mas, antes de encontrá-la, lembrando o relato de Cristina Matos (2011) sobre sua entrada em campo, perguntei a alguns transeuntes se sabiam onde era a rádio. Todos prontamente explicaram onde ficava, muito embora, esse resultado não tenha se repetido quando perguntei pela emissora em outros locais do bairro. Deduzi que aqueles que me indicaram onde era a Costa Oeste teriam feito a mesma coisa se eu tivesse perguntado por qualquer outro comércio nas imediações, familiarizados que estavam com aquele ambiente.

Agora, enquanto recordo minha sensação ao caminhar em busca do endereço da rádio Costa Oeste, penso na cidade como um lugar de passagem. Como seu ritmo é ditado pelo ritmo de uma sociedade industrial quando não há tempo a perder... onde o mundo do trabalho se alarga e se mecaniza, adaptado à lógica das mercadorias. Tal pensamento só ampliou minha vontade de encontrar as nervuras dessa cidade Fortaleza, mais precisamente, encontrar o que resvala na lógica do capital e se apresenta como potencial criativo, pulsante e vivo. E a vontade de chegar perto das pessoas se tornou imperativa na tentativa de encontrar as brechas nas estrias sociais...

No andar térreo do prédio comercial número 5073, na avenida Mister Hull, a rádio ocupa uma sala simples que serve de recepção, embora haja apenas uma mesa e duas cadeiras de plástico. Ao fundo, uma divisória separa a cabine da recepcionista e a escada em espiral que leva ao estúdio da emissora no andar de cima. Ali embaixo, fiquei ouvindo – de uma caixa de som que transmitia baixinho – o programa católico A Palavra que a Costa Oeste transmitia. Enquanto esperava Rondinelle, já havia identificado a programação da emissora, colada em

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uma parede, bem como, os valores para arrendamento de horários (que variavam entre 100 e 250 reais); e tentado, sem muito êxito, puxar conversa com a recepcionista.

Rondinelle, que não tardou a chegar, é um cara simpático e me pareceu acostumado a falar em público ou com desconhecidos. Alguns meses depois quando conheci seu avô vi a mesma simplicidade e o jeito manso de falar, embora Seu Didi seja mais expansivo no tom da fala e nos gestos. O jeito simples de Rondinelle me deixou-me à vontade. Ele foi logo apresentando Francisco Tavares, o administrador da rádio. Explicou para ele o que eu viera fazer ali: “ela é da universidade e tá fazendo uma pesquisa sobre a rádio. Veio falar comigo.”, disse, acrescentando que eu deveria também falar com “o Chico”. Tínhamos exatos 30 minutos para nossa entrevista, tempo que restava para o programa Rondinelle em ação por um mundo melhor entrar no ar; e não tardamos a começá-la.

Findada a entrevista, Rondinelle subiu ao estúdio e eu fiquei conversando com Francisco Tavares. Bem mais sério e tímido, Chico Tavares (como é conhecido) lembrou-me da imagem que tenho de homem do interior: de chapéu, óculos de grau, camisa quadriculada e de botão por dentro da calça jeans um tanto justa. Falava sempre de forma respeitadora dando ênfase a algumas frases que soavam como expressões feitas, como slogans para enaltecer a rádio. Em outros momentos, quando defendia sua opinião do que deve ser uma rádio comunitária, acelerava o ritmo da fala; ou ralentava para lembrar fatos antigos. Ao encontrar Seu Chico em outros dois momentos, ele estava mais solto e até engraçado, apesar da aparência séria permanecer.

Saí da rádio, depois das conversas com Rondinelle e Chico Tavares – e da entrevista que também fiz com Marcos Gonçalves que fazia a locução do A Palavra –, informada que havia também no bairro uma webradio (na verdade, a versão on line da Costa Oeste). Ganhei também um exemplar do Jornal Popular. Antônio Bezerra em destaque, fundado por Totonho Carneiro (dono da Max Ótica, a um quarteirão dali; e candidato a vereador, derrotado na eleição do ano anterior, 2012). Da rádio, fui até a ótica com a esperança de encontrar Totonho. Interessante que cheguei até a Max, perguntando onde “ficava o Totonho”, porque as pessoas não souberam informar o endereço pelo nome da loja.

Em outro prédio comercial, semelhante ao da Costa Oeste, mas já numa travessa perpendicular à rua Martins Neto (a um quarteirão da Mister Hull), encontrei Totonho bem ocupado ao telefone, negociando a compra e entrega de alguma mercadoria. Sentei-me e fiquei esperando. Enquanto isso, uma vendedora atendia uma senhora de aparência simples, que comprava óculos de grau e negociava timidamente a forma de pagamento: “Vou dar 100 agora

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e segunda meu filho passa o resto no cartão.”. Totonho acenou que sim e a vendedora consentiu, entregando os óculos que já estavam prontos.

Surpreendi-me com aquela cena. Encontrar um estabelecimento que venda fiado, sem garantia alguma, era raro em Fortaleza e acontecer isso em uma loja, eu nunca presenciara algo semelhante. Óbvio que o fato de Totonho ter sido candidato e ser envolvido com política me deixou cismada; fiquei curiosa e guardei essa informação, mas confesso que não pude enveredar por esse campo, já que minha pesquisa me levava a outros rumos. Registrei, porém, em outras visitas práticas semelhantes no comércio (a venda fiado sem garantias), como na bodega do Seu Cordeiro... Hoje, acalento estudar essas práticas; quem sabe no doutorado?

No dia em que fui à Ótica, acabei sem conversar com Totonho. Precisei ir embora, não sem antes observar que várias pessoas, a maioria homens, alguns de bicicleta e outros em motos estacionadas, papeavam embaixo das árvores que havia em frente à ótica. Alguns eram mototaxistas, havia um flanelinha, limpando os carros, mas grande parte só conversava. A cena me pareceu corriqueira. Ali, também divisei certa movimentação entre o caixa eletrônico do banco Bradesco e os pontos comerciais. Ao que parece, as pessoas aproveitavam a manhã daquele sábado para fazer compras e conversar com amigos.