4 L’innovation par l’usager : les limites de l’omni-concepteur
4.4 Conclusion sur le paradigme de l’usager-concepteur
O Real Maravilhoso
Foi com o advento do romantismo, com Esteban Echeverría, por exemplo, que tivemos, na literatura hispano-americana, uma reviravolta em função da necessidade de se “pensar e sentir” uma nova literatura, pautada na singularidade e particularidade do hispano-americano, pensando uma nação. Tal fato se deu, principalmente, a partir da reflexão acerca do lugar impreciso da literatura hispano-americana, orientada pela produtividade e dominadas pelo discurso da modernização e do progresso. Mais do que isso, é com a consciência do lugar de inferioridade, ao qual estava sendo relegada a literatura desse “Novo Mundo”, que escritores e críticos literários do novo continente começam a repensar e a centrar a escrita não mais em modelos ou padrões europeus desgastados, mas naquilo que esse novo espaço lhes oferecia para ser explorado. Uso o termo “Novo Mundo”, por exemplo, assim como poderia usar os termos “quarta parte
do mundo” ou, ainda, “Índias Ocidentais” para fazer referência à América, porque só a partir do século XIX é que o novo continente será, mais assiduamente, denominado
“América”.
A tentativa de abarcar e refletir na e pela literatura algo que fosse próprio da América Latina resultou em uma literatura menos poética do que política, afinal, para se falar em uma literatura nacional, teria que se pensar uma nação que, ainda, não tinha suas próprias leis, filosofias e, tampouco, independência literária. Há, dessa forma, uma preocupação maior com normas de comportamento, cidadania, organização das novas sociedades, enfim, com a reestruturação e desejo de se desvincular não só da Espanha, país já em decadência na Europa, mas, também, de padrões que não se enquadravam à América Latina. Todo esse processo suscitou-se com maior força com a independência dos EUA e com a Revolução Francesa que, até o fracasso do slogan
“Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, direitos que vão sintetizar a natureza do novo cidadão, eram os modelos a serem seguidos. Um dos grandes pensadores e escritores que vai propor uma mudança na literatura hispano-americana é José Martí, escritor cubano. Em seu texto “Nuestra America”, notamos qual era a preocupação e o que
propunham os românticos e modernistas, como a renovação e independência literária hispano-americana. Para Martí (1891:01), a literatura latino-americana deveria se definir como crítica à zona dominante do progresso modernizador dos EUA e Europa, buscando novas e originais características para uma literatura independente e própria da América Latina:
Cree el soberbio que la tierra fue hecha para servirle de pedestal, porque tiene la pluma fácil o la palabra de colores, y acusa de incapaz e irremediable a su república nativa, porque no le dan sus selvas nuevas modo continuo de ir por el mundo de gamonal famoso, guiando jacas de Persia y derramando champaña. La incapacidad no está en el país naciente, que pide formas que se le acomoden y grandeza útil, sino en los que quieren regir pueblos originales, de composición singular y violenta, con leyes heredadas de cuatro siglos de práctica libre en los Estados Unidos, de diecinueve siglos de monarquía en Francia.
É a partir do romantismo, pensando uma nação, e do modernismo, pensando a renovação literária, que a literatura hispano-americana se empenhará em refletir não mais os anseios europeus, nem representar algo que não faça parte dos nativos do Novo Mundo, mas algo que “servia” para os latino-americanos, como a sua cultura local, por exemplo.
Refletir sobre tais fatos é importante para se começar a traçar a linha de raciocínio que culminou no boom latino-americano, responsável por, depois do Século de Ouro, representar um dos momentos mais frutíferos da literatura em língua espanhola. É no seio dessa busca por refletir na literatura uma cultura original e inovadora que o desenvolvimento e prática do real maravilhoso se dará.
Essa nova proposta de literatura, que se dava a partir da cultura e história latino- americana, será a marca registrada do real maravilhoso, que representa a ruptura com o esquema tradicional do discurso realista, o que corrobora a noção de romance moderno. Romance este que começa a experimentar outras soluções técnicas para construir uma imagem plurivalente do real com o intuito de ser capaz de absorver a
realidade que começa, no caso da América Latina, plural desde a colonização, onde tínhamos a convivência de criolos, mestiços, espanhóis e indígenas.
O realismo maravilhoso, segundo Chiampi, foi um conceito que veio a ser “um achado crítico interpretativo que cobria, de um golpe, a complexidade temática do novo romance e a necessidade de explicar a passagem da estética naturalista para a nova
visão (“maravilhosa”) da realidade. A obra de Irlemar Chiampi utilizada neste estudo é interessante porque trata de um conceito que, para ela, será definido e abordado como um tipo de discurso que permite determinar as coordenadas de uma cultura, de uma sociedade e de uma linguagem hispano-americana, o que está de acordo com as idéias oriundas da leitura da obra de Rulfo e do conceito de novo romance.
A cultura como motivo literário
A literatura de Rulfo, assim como suas fotografias, está feita por algo que é cultural, além de se apresentar fragmentada, como as fotos, por exemplo. Seu romance é constituído de partes e não capítulos ou subtítulos, os quais o leitor vai ordenando, construindo a narrativa que se apresenta fragmentada. Trata de uma cultura não só heterogênea, mas também fragmentada, o que começou a ser delineado e transposto para (e na) literatura a partir do romance moderno. Desse modo, entre as mudanças mais freqüentes, encontramos também, no real maravilhoso, segundo Chiampi (1990: 21):
a desintegração da lógica linear de consecução e de conseqüência do relato, através de cortes na cronologia fabular, da multiplicação e simultaneidade do espaço de ação; caracterização polissêmica dos personagens e atenuação da qualificação diferencial do herói, maior dinamismo nas relações entre narrador e o narratário, o relato e o discurso, através da diversidade das focalizações da auto- referencialidade e do questionamento da instância produtora da ficção.
Tais características aplicam-se à produção literária de Rulfo, autor consagrado pela literatura hispano-americana por romper todos os limites da literatura de até então,
criando uma espécie de teoria própria por meio de suas obras. Tanto Pedro Páramo quanto El llano en llamas representam o longo caminho da literatura latino-americana no que concerne à trajetória dessa literatura feita pelo e para o homem hispano- americano moderno. Nesse sentido, faz-se necessária a criação de uma “teoria” nova em função da constante indagação relativa à própria essência da linguagem, que se preocupa mais em se aproximar e expressar as novas formas de produção e percepção do mundo e, consequentemente, do texto literário. Tal fato será uma das preocupações norteadoras dos movimentos de Vanguarda.
Ademais, com relação ao real maravilhoso, este representa não mais um mundo de fantasia ou sobrenatural, mas a nossa própria realidade circundante, cheia de enigmas e mistérios que permeiam o mundo, as coisas, as ações humanas. O que interessa, aqui, é a descoberta da misteriosa relação que existe entre o homem e sua circunstância. Tal atributo está de acordo com o conceito de unheimlich de Freud que, em espanhol, é definido como o siniestro. Ainda que nenhuma outra língua tenha alcançado a tradução precisa do que essa palavra significa em alemão, a mais próxima que encontramos e usaremos neste trabalho é a de “estranho”, em português. De acordo com Freud, o que causa o estranho e o mágico é algo familiar:
[...] lo siniestro, no sería realmente nada nuevo, sino más bien algo que siempre fue familiar a la vida psíquica y que sólo se tornó extraño mediante el proceso de su represión. (FREUD, 1974: 2498)
Freud (1974) afirma que o animismo, a magia e os encantamentos, as atitudes diante da morte, a onipotência do pensamento e outros fatores fazem com que o angustioso se transforme em estranho, ou seja, siniestro. Assim, “la extrañeza es
asombro ante una realidad cotidiana que de pronto se revela como lo nunca visto e isso em função do processo de repressão (FREUD, apud PAZ, 1973: 128). À luz dessa leitura freudiana, vemos que em Chiampi (1990), à narrativa de ficção cabe atribuir a representatividade do real nos acontecimentos, para que destes surja a conotação do mágico.
Carpentier é quem conceitua, pela primeira vez, o Real Maravilhoso, na
introdução de sua obra intitulada “El Reino de este mundo” (1973: 07), cuja base e narrativa como um todo é norteada pela vertente do maravilhoso. Carpentier é importante não só por ter escrito obras que seguem essa abordagem, mas também enquanto sujeito histórico dessa forma, que propõe uma maneira de escrever que outros vão seguir, ou não, já que alguns a seguem apenas parcialmente. E
‘parcialmente’ porque em alguns lugares, como Europa, por exemplo, tal forma não se dá de modo pragmático. Tanto o destinatário de tal forma, como escritores e intelectuais europeus, não acreditam no que escrevem, no Real Maravilhoso, pois não têm a experiência que Carpentier tem em Cuba, por exemplo, onde tudo, segundo ele, era visto como maravilhoso, desde sua descoberta e colonização, assim como todo o continente hispano-americano. Dessa forma, o registro pragmático que se realiza em Cuba, já que o destinário que Carpentier imaginava de fato existia, também se dará de forma pragmática em outros lugares, como veremos no caso do México, por exemplo, com Juan Rulfo (1967:07):
Lo real maravilloso se encuentra a cada paso en las vidas de hombres que inscribieron fechas en la historia del Continente y dejaron apellidos aún llevados: desde los buscadores de la Fuente de la Eterna Juventud, de la áurea ciudad de Manoa, hasta ciertos rebeldes de la primera hora o ciertos héroes modernos de nuestras guerras de independencia de tan mitológica traza como la coronela Juana de Azurduy. Siempre me ha parecido significativo el hecho de que, en 1780, unos cuerdos españoles, salidos de Angostura, se lanzaran todavía a la busca de El Dorado […]
Nesse sentido, há o mistério, o inexplicável, o inverossímil, o imaginário, o encantamento e o estranho que são introduzidos no mundo real, na vida real, ou ainda, na nossa imutável vida cotidiana. Vale ressaltar que tal “encantamento” acontece em função das leituras desses cronistas que chegaram na América procurando e descrevendo aquilo que fazia parte de suas leituras, como, por exemplo, as novelas de cavalaria. Propp nos adverte de que é possível que as novelas de cavalaria tenham sua
origem no conto maravilhoso. No excerto que segue, temos as palavras do próprio Rulfo, ao comentar sobre o “realismo mágico” que, neste trabalho, podemos ler como o
“real maravilhoso”:
He leído casi todas las crónicas antiguas, escritos de frailes y viajeros, los epistolarios, las relaciones de la Nueva España; es el estilo del siglo XVI y del Siglo de Oro. Me gustan porque están escritas muy sencillamente, es una escritura fresca, espontánea... ahora no se aprecia lo que escribieron los cronistas y relatores de la conquista, la gente cree que se trata de una antigualla aburrida, pero conforma quizás lo más valioso de nuestra literatura. Yo creo que de allí arranca lo que se ha dado en llamar el realismo mágico, donde me involucran junto a mi amiga María Luisa Bombal, lo que es un halago si se trata de estar junto a ella. Hay dos cosas que amo: leer una crónica y escuchar música, particularmente la música de la Edad Media, del Renacimiento y del Barroco. Me gustan los cantos gregorianos, las misas, los réquiem... tengo tantos discos como libros. (FUENTES, sem data: 07)
Ou seja, a magia existe em função de uma cultura que já nasce por uma outra visão, a européia, à qual serão acrescidas as culturas e crenças dos povos nativos. Nesse sentido, voltar o olhar para a própria realidade passou a fazer parte dos escritores da época do boom latino-americano.
Muitos escritores, ao voltar à América, depois de irem estudar na Europa, influenciados pelo surrealismo daquela e valorização das fantasias nascidas no inconsciente, se davam conta de que tinham ido buscar fora o que se tinha aqui. Em matéria de exótico e de fantasia, a América Latina era um celeiro inesgotável. Tudo isso se tinha na raiz da cultura do latino-americano, desde a sua colonização e era pré- hispânica, na fé e crença dos nativos aqui encontrados. Como o próprio Carpentier (1967: 07- 08) nos adverte,
por la virginidad del paisaje, por la formación, por la ontología, por la presencia fáustica del indio y del negro, por la Revelación que constituyó su reciente descubrimiento, por los fecundos mestizajes que propició, América está muy lejos de haber agotado su caudal de mitologías […]
¿Pero qué es la historia de América toda sino una crónica de lo real- maravilloso?
Tal fato nos faz refletir sobre Juan Rulfo, pensar sobre onde este está ‘em pé’ e
se o seu leitor, seja ele mexicano, hispano-americano e/ou universal, tal qual pensou
Carpentier, existe, de modo que sua ‘intenção’ se concretize. Ou seja, ao estar tão
próximo dos EUA e tão longe do restante da América é possível que a leitura de sua obra se realize no âmbito do Real Maravilhoso ou o que temos é um conglomerado literário? Tal indagação provoca uma tensão sobre a qual, por meio dos estudos que seguem, pretendemos chegar a uma resposta.
O arcaico e o moderno em Pedro Páramo
Quanto à terminologia, o uso e preferência pelo ‘maravilhoso’ no presente trabalho para denotar a nova modalidade da narrativa hispano-americana deve-se ao fato de este, segundo Chiampi, apresentar vantagens de ordem lexical, poética e
histórica. Diferentemente do termo ‘mágico’, a definição lexical do ‘maravilhoso’ está
fundamentada na não contradição com o natural, sendo o ‘extraordinário’, o ‘insólito’, o que escapa ao mundo ordinário das coisas e do humano. Tal termo contém também a
‘maravilha’, isto é, aquilo que é admirável e vem de mirabilia, que significa ‘mirar’, olhar
com intensidade, ver com atenção ou, ainda, ver através. O verbo ‘mirare’ encontra-se também na etimologia de milagre, que se refere a um efeito óptico, que representa o engano dos sentidos e está relacionado às crenças religiosas de uma determinada sociedade, o que será bastante útil para o estudo deste trabalho.
Nesse sentido, o que temos é um projeto de leitura do real que, apesar de
controlado pela razão, é motivado pela fé. Ao conceituar o termo ‘maravilhoso’,
Carpentier invoca um compromisso para o escritor. Este deixa de escrever partindo da premissa da realidade como um produto de fantasia, como acontecia nos contos
maravilhosos’ mais antigos, para construir um terreno incorporado à realidade ordinária
lo maravilloso comienza a serlo de manera inequívoca cuando surge de una alteración de la realidad (el milagro), de una revelación privilegiada de la realidad, de una iluminación inhabitual o singularmente favorecedora de las inadvertidas riquezas de la realidad, de una ampliación de las escalas y categorías de la realidad, percibidas con particular intensidad en virtud de una exaltación del espíritu que lo conduce a un modo de "estado límite". Para empezar, la sensación de lo maravilloso presupone una fe. Los que no creen en santos no pueden curarse con milagros de santos, ni los que no son Quijotes pueden meterse, en cuerpo, alma y bienes, en el mundo de Amadís de Gaula o Tirante el Blanco. Prodigiosamente fidedignas resultan ciertas frases de Rutilio en Los trabajos de Persiles y Segismunda, acerca de hombres transformados en lobos, porque en tiempos de Cervantes se creía en gentes aquejadas de manía lupina. (CARPENTIER, 1967: 06)
Assim, há vantagens que nos interessam sobremaneira ao utilizarmos o termo
‘maravilhoso’, que
tradicionalmente [...] é, na criação literária, a intervenção de seres sobrenaturais, divinos ou lendários [...]. É identificado, muitas vezes, com o efeito que provocam tais intervenções no ouvinte ou no leitor (admiração, surpresa, espanto, arrebatamento [...] É no século XX, contudo, que se definem traços formais do maravilhoso, numa perspectiva ética com André Jolles [...] e morfológica com Vladimir Propp (Morfológuia Skazki, 1928). A partir deste trabalho inseminador sobre os contos populares russos, o maravilhoso é entendido como um tipo de relato, cuja estrutura permite distinguir outras modalidades narrativas, no âmbito de teorizações mais recentes (Todorov, Bellemin [...]) (CHIAMPI, 1980: 49)
Aqui, é possível perceber que o trajeto do estudo traçado a partir das considerações de Propp encontra, também em Chiampi, relevância. Agora, partiremos para o estudo da crença, que vem da religião e que podemos relacionar com o
‘milagre’, que vem do verbo ‘mirare’, como vimos anteriormente, bem como o estudo dos ritos e costumes que podemos considerar como os motivos do romance de Rulfo. Para a aplicação deste estudo à obra, vamos apresentando, concomitantemente, as teorias que elucidam melhor o que abordaremos.
Em Propp (2002), vemos que o que nos permite estudar o conto maravilhoso, e que aqui nos auxilia a estudar o romance de cunho maravilhoso, são as formas mais arcaicas da vida material e da organização social dos povos, mitos, concepções religiosas, práticas mágicas, rituais e outras formas de pensamento primitivo anteriores
que permitem rastrear e explicar, nesse caso, o ‘romance maravilhoso’.
Retomando a questão do leitor que Carpentier levanta ao defender que o
‘maravilhoso’ ‘exige’ de seu leitor ou ouvinte uma participação mais ativa na narrativa, uma vez que este precisa crer naquilo que está sendo narrado, ele propõe uma ampla observação da realidade latino-americana, o que inclui, necessariamente, a fé, a crença pelo povo no acontecimento insólito. Chiampi afirma, ainda, que no real maravilhoso (1990: 63),
o evento sobrenatural não gera jamais a incerteza, pela afirmação ou negação da natureza ou da sobrenatureza. O leitor lê o prodígio, reconhecendo na regência da supracausalidade descontínua (o narrador não aprecia tal regência), a probabilidade de uma explicação transcendente, que inscreve, no bojo real, a ordem da mitologia.
Assim, o efeito de encantamento do leitor é provocado pela percepção da contiguidade entre as esferas do real e do irreal – pela revelação de uma causalidade onipresente, por mais velada e difusa que esteja. Ainda, no maravilhoso, temos como uma das principais marcas da América Latina a coexistência de duas eras, a arcaica, de onde surgiram os mitos e ritos, e a moderna, que convivem com estes em conformidade.
O que vemos no romance de Rulfo é um encadeamento de acontecimentos e motivos que se articulam a partir dos mitos, ritos e costumes mais antigos, em sua relação com o folclore, ainda que tenham sofrido transformações, reinventando uma realidade objetiva, atribuindo-lhe todo o caráter de encantamento, confusão e questionamento provocados em sua personagem principal, o narrador-personagem, bem como no seu leitor. Quanto ao traço arcaico, relacionado aos costumes mais antigos, podemos reconhecê-lo na crença de pessoas vivas na vida além túmulo. Juan
Preciado, que ainda não sabe que está morto, conversa com uma morta sem saber que esta também está morta e ouve gritos que, segundo Damiana, pode ser de um homem que morreu enforcado no quarto onde Preciado dormia. Este, ao ouvir isso, não se espanta. Trata-se de um romance moderno, escrito na década de 50, e um leitor também moderno, mas com características que sugerem um retorno ao mito e aos ritos mais antigos que estão presentes não só na obra de Rulfo, mas na cultura do México, como a crença religiosa da vida após a morte, o que será abordado mais adiante:
[...] Allí me senté en el suelo a esperar el sueño. Dormí a pausas.
En una de esas pausas fue cuando oí un grito. Era un grito arrastrado
como el alarido de algún borracho: ‘Ay vida, no me mereces!’
Me enderecé de prisa porque casi lo oí junto a mis orejas; pudo haber sido en la calle, pero yo lo oí aquí, untado a las paredes de mi cuarto […]
No, no era posible calcular la hondura del silencio que produjo aquel grito. Como si la tierra hubiera vaciado de su aire. Ningún sonido; ni el del resuello, ni el de latir del corazón, como si se detuviera el mismo ruido de la consciencia. Y cuando terminó la pausa y volví a tranquilizarme, retornó el grito y se siguió oyendo por un largo rato […]