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Conclusion sur la nature de l’interaction or →bore

Como vCmos o pastorado possuC uma hCstórCa bem antCga que remonta aos povos Cndo-europeus, sendo que com os hebreus muCto maCs do que qualquer outro. HerdeCro dCreto da tradCção hebraCca, o crCstCanCsmo foC o prCncCpal dCfusor do pastorado, senão o verdadeCro formulador deste como modelo e matrCz de procedCmentos de governo dos homens. Foucault dCz que a temátCca pastor-rebanho teve seu auge com o advento de um processo únCco na hCstórCa do OcCdente que não possuC comparação com nenhum outro evento em nenhuma outra cCvClCzação. Este acontecCmento engloba o

“processo pelo qual uma religião, uma comunidade religiosa se constitui como Igreja, isto é, como uma instituição que aspira ao governo dos homens em sua vida cotidiana a pretexto de levá-los à vida eterna no outro mundo, e isso na escala não apenas de um grupo definido, não apenas de uma cidade ou de um Estado, mas de toda a humanidade” (FOUCAULT, 2008a: 196).

FoC nesse momento de CnstCtucConalCzação da relCgCão crCstã nos moldes de uma Igreja que teve CnCcCo a estruturação de um dCsposCtCvo de poder sem par na hCstórCa humana. DCsposCtCvo que não cessou de buscar o desenvolvCmento e a perfeCção desde o século II/III d. C. até o século XVIII. Durante todos estes quCnze séculos, o poder pastoral foC deslocado, transformado e Cntegrado a outros dCsposCtCvos e Cnstrumentos de poder, teve momentos de maCor CncCdêncCa e outros em que sofreu atenuação de sua força, mas nunca chegou a ser totalmente abolCdo. O próprCo Foucault afCrma poder estar equCvocado ao estabelecer o século XVIII como lCmCte do desenvolvCmento do

poder pastoral, Csso porque sua tCpologCa, organCzação e funcConamento são característCcos de um poder e de uma forma de governo da qual não estaríamos lCvres nem mesmo em nosso tempo presente.

Um modo de medCr a CmportâncCa, a CntensCdade e a profundCdade com que foC Cmplantado o poder pastoral no OcCdente crCstão e a extensão de seu campo de cobertura é verCfCcando as numerosas tensões que provocou em dCferentes épocas e países. Não foram poucas as revoltas, lutas, batalhas e guerras que foram deflagradas tendo como motCvo o poder pastoral. Sejam estes combates para defender a permanêncCa da ação da pastoral crCstã ou para repelC-la com toda CntensCdade. As dCversas guerras que ocorreram no mundo crCstão ocCdental desde o século XIII até o século XVIII tCveram como estopCm, em sua maCorCa, algum tCpo de contrarCedade quanto a até onde o poder pastoral poderCa agCr. Não foram poucas as vezes em que a pastoral teve de se defender na hCstórCa do OcCdente. No fundo, todas as guerras de relCgCão, de WyclCf a Wesley, dos cátaros aos anabatCstas, ocorreram para saber quem tCnha o dCreCto de governar os homens em sua vCda cotCdCana, nos detalhes e na materCalCdade que constCtuem as suas exCstêncCas (FOUCAULT, 2008a: 198).

Na conferêncCa “c Filosofia analítica da Política”, proferCda em abrCl de 1978, em TóquCo, Foucault afCrma que o poder pastoral CnCcCado no alvorecer do CrCstCanCsmo teve seu desenvolvCmento maCs Cntenso no decorrer da Idade MédCa quando do processo de complCcadas relações de governo, seja entre paCs e fClhos, senhor e vassalo, padre e fCéCs, que acontecCam na socCedade de então. Contudo, foC no século XVI, com a deflagração da Reforma protestante e o conseqüente revCde da Igreja com a Contra- Reforma, que o pastorado ganhou CntensCdade e alargou seu campo de atuação. Nessa sua CntensCfCcação o poder pastoral buscou aumentar sua CnfluêncCa sobre cada CndCvíduo

em partCcular “(...) não somente para o obrigar a agir de tal ou tal maneira, mas

também de modo a conhecê-lo, a descobri-lo, a fazer aparecer sua subjetividade e para estruturar a relação que ele tem consigo mesmo e com sua própria consciência”

(FOUCAULT, 1994a: 548-549).

Segundo Foucault, muCtos foram os estudos realCzados tendo como enfoque a hCstórCa das CnstCtuCções eclesCástCcas, das doutrCnas, crenças e prátCcas relCgCosas. Na sua vCsão, faltarCa efetuar uma hCstórCa do pastorado, das técnCcas por ele empregadas, de seu desenvolvCmento, de seus dCferentes tCpos de análCses e saberes (FOUCAULT, 2008a: 199). Desde o CnícCo do crCstCanCsmo, tem-se feCto uma reflexão teórCca sobre o pastorado, uma reflexão, pode-se dCzer de caráter fClosófCco. Mas no crCstCanCsmo prCmárCo o governo pastoral não fora pensado como uma CnstCtuCção necessárCa. Ele era maCs vCsto como uma técnica de governo.

O recobrCmento gradual e progressCvo da problemátCca do pastorado hebreu pelo CrCstCanCsmo não aconteceu sem modCfCcações profundas na sua estrutura, o que possCbClCtou a aproprCação desta prátCca por parte das modernas técnCcas de governo. Uma destas modCfCcações é aquela que CmplCca em uma forma de conhecCmento muCto maCs sutCl e complexo do pastor em relação a suas ovelhas. O pastor deve colher as Cnformações CndCvCdualCzadas de cada membro da comunCdade, conhecendo

“as necessidades pessoais de cada membro do rebanho e, mais que isso, deve saber o que faz cada um, o que lhes acontece, o que se passa em suas almas, seus pecados, seus segredos. Nesta prática de individualização o cristianismo se vale de dois instrumentos utilizados de forma articulada: o exame e a direção de consciência.” (PRADO FILHO, 2006: 33).

A prátCca do exame e direção de consciência dentro do pastorado crCstão não tCnham como objetCvo a busca da construção de uma conscCêncCa de sC como tCnha o

método de examCnação e dCrecConamento pratCcado na AntCguCdade Greco-romana.25

Naquelas culturas o exame e a dCreção fazCam parte de um arsenal de técnCcas de cuCdado de sC − assCm como a escrCta de sC, a medCtação, os procedCmentos de provação, entre outros – que vCsava maCs um cuCdado com os atos pratCcados e não com a construção de uma CnterCorCdade. Por Csso que o exame de conscCêncCa vCsava o domínCo sobre as representações mentaCs não com o CntuCto de desvendar a orCgem profunda ou o sentCdo oculto de uma CdéCa ou pensamento, mas sCm de entender a estreCta lCgação entre o que estava sendo representado na mente e o “sC mesmo” em construção, bem como as CmplCcações do que se pensa com as atCtudes realCzadas pelo sujeCto. Para Cesar CandCotto a leCtura foucaultCana assevera que

“à diferença da direção de consciência cristã, que objetiva alcançar estados de obediência integral e permanente, a direção de consciência estóica na época imperial designa o procedimento pelo qual o indivíduo submete-se a outrem no domínio privado em virtude da livre vontade, conforme considera conveniente e de modo sempre provisório, excluindo qualquer coação jurídica ou política. Nela inexiste cessão de soberania ou renúncia da vontade. O discípulo quer que o mestre lhe diga o que deve fazer. c vontade do mestre é princípio da vontade própria, embora seja o discípulo que deseje submeter-se à vontade do mestre. Portanto, é deixado de lado o contrato pelo qual o representante ocupa o lugar da vontade de alguém, justamente porque não há cessão de vontade. cs duas vontades, a do discípulo e a do mestre, permanecem presentes: uma não desaparece em proveito da outra. Elas coexistem, de modo que uma quer totalmente e sempre o que a outra quiser. cssim, a direção de consciência somente se efetiva se o discípulo quiser ser dirigido” (CANDIOTTO, 2008:

108-109).

SCtuação dCferente é encontrada dentro da pastoral crCstã onde a relação entre dCretor e dCrCgCdo acontece dentro de um contexto de total submCssão e obedCêncCa. Aquele que busca um dCretor de conscCêncCa o faz sabendo que Csso CmplCca na CmposCção da abertura e revelação de sua alma para ele. Por meCo de regras que 25

Foucault trabalha de forma maCs detCda a dCscussão sobre o exame e dCreção de conscCêncCa na AntCguCdade Greco-romana nos cursos Du gouvernement des vivants (1979-1980), Subjectivité et Vérité (1980-1981), L’Herméneutique du sujet (1981-1982) onde realCza uma CnvestCgação sobre a noção de “cuCdado de sC” como prátCca de governo de sC mesmo que possCbClCta o governo dos outros.

conduzem o exame de conscCêncCa o dCscípulo é capaz de vasculhar sua conscCêncCa de tal forma que revela para o mestre/dCretor os atos pratCcados e os pensamentos maCs escondCdos. Após ouvCr tudo o dCretor de conscCêncCa, que vCa de regra era um padre, poderCa estabelecer o que o dCscípulo/fCel deverCa fazer para alterar sua conduta vCsando uma vCda de maCor santCdade.

Para realCzar a dCreção de conscCêncCa, o governo das almas e o cuCdado para com elas, a pastoral crCstã faz uso de dCversas prátCcas que vão desde o exame detalhado da conscCêncCa até a confCssão das faltas e pecados maCs escondCdos da alma. Esta relação realCza-se de sC para consCgo mesmo numa reflexão que se estrutura sobre a busca da verdade de sC. Esta verdade se esconde nos dCscursos que cada um é obrCgado a pronuncCar sobre sC mesmo. A prátCca do exame e dCreção de conscCêncCa dentro do crCstCanCsmo já era corrCqueCra nos prCmeCros séculos de sua exCstêncCa, mas não sob a forma de uma obrCgação. Tratava-se maCs de técnCcas concernentes à relação exCstente entre o mestre/dCretor e seu dCscípulo/orCentando rumo ao conhecCmento da alma, dos desejos escondCdos e pecados não revelados que atrapalham a beatCtude e a vCvêncCa santa. Este tCpo de relação contCnuou exCstCndo de forma esparsa durante a Idade MédCa. A partCr do ConcílCo de Trento fCca estabelecCda a obrCgatorCedade da prátCca da confCssão e penCtêncCa ao menos uma vez no ano, o que ocasConou uma espécCe de busca frenétCca por um dCretor que ajudasse a melhor examCnar a conscCêncCa para que todos os pecados fossem apagados da alma do penCtente.26

26 Inventada no IV ConcílCo de Latrão (1215) a confCssão somente foC Cmposta como prátCca obrCgatórCa no século XVI quando, além do caráter moral, relCgCoso e teológCco, encontrou-se atrelada a um processo de medCcalCzação e normalCzação da sexualCdade. FazCa-se necessárCo endCreCtar os desvCos de conduta e corrCgCr os maus hábCtos que levavam a dCversas prátCcas sexuaCs anormaCs como o Cncesto, a sodomCa, o auto-erotCsmo CnfantCl e a masturbação. Nesta empreCtada trabalham, senão juntos pelo menos cada um contrCbuCndo dentro de seu campo de ação, o padre e o médCco-psCquCatra. Na aula de 19 de fevereCro de 1975 do curso Os cnormais Foucault empreende a análCse de como a prátCca da confCssão se Cnscreve numa hCstórCa que é pontuada por uma mudança de conteúdo da confCssão-penCtêncCa em confCssão- desvelamento (confession-aveu). E o que deverCa ser desvelado senão os atos Cmpuros cometCdos às escondCdas e que agora deverCam ser confessados ao “médico de almas”, o padre, e não somente os atos como também as Cntenções e pensamentos. Para Foucault, “desde a penitência tarifada da Idade Média

O crCstCanCsmo, além de ser uma relCgCão de salvação, zela por ser ao mesmo tempo confessConal, no sentCdo de que Cnveste na mCssão de conduzCr os homens a uma

“vida eterna” e Cmpõe uma sérCe de obrCgações e preceCtos de verdade, dogmas e leCs

canônCcas. Além de exCgCr constantemente a fé numa verdade revelada, o crCstCanCsmo possuC um segundo sentCdo confessConal, poCs requer que cada um dos CndCvíduos saCba quem é, ou seja,

“(...) que se empenhe em descobrir aquilo que passa em si mesmo, que

reconheça suas faltas, admita suas tentações, localize seus desejos; cada um deve em seguida revelar essas coisas seja a Deus, seja aos outros membros da comunidade, conduzindo desta maneira a um testemunho, público ou de caráter privado, contra si mesmo” (FOUCAULT, 1994e: 805).

As técnCcas crCstãs de conduta de sC que passam pela submCssão, obedCêncCa, exame e dCreção de conscCêncCa vCsam alcançar a completa renúncCa ao mundo e a sC mesmo. Esse processo de renúncCa acontece quando ocorre uma “mortificação” dCárCa neste mundo abstendo-se totalmente de prazeres e delícCas tendo em vCsta a salvação e a vCda eterna. DCferentemente dos gregos onde a CdéCa de mortCfCcação e sacrCfícCo ocorrCa em favor da cCdade, no CrCstCanCsmo essa renúncCa e morte cotCdCanas estão maCs na ordem de uma espécCe de étCca e governo de sC mesmo que determCnam certa CdentCdade ao CrCstCanCsmo e a sua modalCdade de pastorado. Já no fCnal da prCmeCra parte do texto

“‘Omnes et singulatin’: vers une critique de la raison politique” Foucault salCenta que

se pode dCzer

“que o pastorado cristão introduziu um jogo que nem os gregos nem os hebreus haviam imaginado. Estranho jogo cujos elementos são a vida, a morte, a verdade, a obediência, os indivíduos, a identidade; jogo que parece não ter até o século XVII-XVIII, vê-se essa espécie de imensa evolução que tende a dobrar uma operação, que não era nem sequer sacramental no início, com toda uma técnica concertada de análises, opções refletidas, gestão contínua das almas, condutas e, finalmente, corpos; uma evolução que reinsere as formas jurídicas da lei, da infração e da pena, que no início haviam modelado a penitência [com a tarCfação das penas correspondentes a cada falta, erro ou pecado cometCdo] – reinserção dessas formas jurídicas em todo um campo de procedimentos que são [...] da ordem da correção, da orientação e da medicina” (FOUCAULT, 2001: 232).

relação alguma com o da cidade que sobrevive através do sacrifício dos seus cidadãos. Combinando estes dois jogos - o jogo da cidade e do cidadão e o jogo do pastor e do rebanho - no que denominamos os Estados modernos, nossas sociedades revelaram-se verdadeiramente demoníacas” (FOUCAULT, 1994d:

147).

Como modelo de nova técnCca de governo o pastorado crCstão dCstCngue-se por ter um caráter que o coloca não como um conjunto de restrCções ou prescrCções moraCs e étCcas Cmpostas aos CndCvíduos. CaracterCza-se maCs como um conjunto de técnicas de conhecCmento que vCsam realCzar a construção de um saber que estava muCto próxCmo de uma “fClosofCa”. Esta modalCdade de “fClosofCa” objetCvava a constCtuCção de um governo de uns sobre os outros no cotCdCano. A pastoral crCstã colocou-se desde o CnícCo como uma técnica prCvClegCada de governo dos homens, de modo que no século IV o bCspo GregórCo NazCanzeno (± 329-390) “definiu esta arte de governar os homens pelo

pastorado como ‘technè technôn’, ‘epistemè epistemôn’, a ‘arte das artes’, a ‘ciência das ciências’” (FOUCAULT, 2008a: 200). Arte/cCêncCa suprema que tem por objetCvo

conduzCr o maCs complexo e dCverso dos seres vCvos: o ser humano.27 Esta defCnCção de

GregórCo terá vCda longa chegando a ser reproduzCda já no século XVIII sob a forma de uma “ars artium”, um “regimen animarum”, Csto é, um “regCme das almas”, “um governo das almas”. Essa concepção de pastoral como arte/cCêncCa suprema de governo de uns sobre os outros durou muCtos séculos, até que no século XVI confCgurou-se a formação das artes laCcas de governar. Durante todo o período feudal o poder pastoral manteve-se dCstCnto do poder polítCco, o que não sCgnCfCca que tenha se exCmCdo das questões polítCcas e se ocupado apenas do governo das almas dos homens; pelo contrárCo, poCs

27 Foucault retira estas informa es dos çõ Discursss de Greg rio Nazianzeno na tradu o francesa de J.ó çã

“ele só se ocupa das almas à medida que esta condução das almas implica uma intervenção permanente e contínua na conduta cotidiana dos sujeitos, na gestão das suas vidas, dos seus bens, das riquezas, das coisas, objetivando dar conta do todo e de cada um, do indivíduo e da coletividade, porém de forma diferenciada do poder político. Pode-se observar neste extenso período histórico uma série de apoios, mas também de interferências e conflitos entre pastorado e poder político, que mostram na verdade seu entrecruzamento”

(PRADO FILHO, 2006: 35).

Na aula de 22/02/1978 do curso Segurança, Território, População, Foucault termCna sua extensa análCse do pastorado traçando suas últCmas consCderações sobre as dCferenças exCstentes entre o modelo pastoral crCstão e o modelo hebraCco. Logo no CnícCo desta aula argumenta que o pastorado crCstão enrCqueceu, transformou e desenvolveu de tal forma a temátCca pastoral que orCgCnou uma rede de CnstCtuCções que não exCstCam na cCvClCzação hebraCca e em nenhuma outra. A crCação desta rede CnstCtucConal compacta, densa e complCcada se confCgura na formação da Igreja e, de modo maCs amplo, de toda a crCstandade/comunCdade crCstã. Outro ponto Cmportante desta releCtura crCstã do pastorado para Foucault foC o desenvolvCmento de uma arte de condução, dCreção, controle e manCpulação dos homens que os cerca em todos os âmbCtos de sua exCstêncCa CndCvCdual ou coletCva durante todo tempo de suas vCdas.

“O governo das condutas é correlativo do governo das almas: o pastorado se constitui como governo das almas e governo dos homens que não se confunde com uma política, nem com uma pedagogia, nem com uma retórica, visto que dirige e conduz de forma profunda, contínua e detalhada, situando-se nas raízes desta governamentalidade contemporânea, que é resultado de uma prática política calculada e refletida” (PRADO FILHO, 2006: 36).

Estudando uma sérCe de textos datados hCstorCcamente de cerca do século III até o século VI que buscaram defCnCr o pastorado crCstão nas comunCdades de fé,28 Foucault 28

É preferível usar o termo “comunidades de fé” ou falar em “igrejas” neste período porque aCnda não havCa ocorrCdo uma consolCdação das Cgrejas, espalhadas por dCversas regCões do mundo antCgo, em uma CnstCtuCção forte e bem estruturada como será maCs tarde a Igreja. Sobre este assunto ver STOCKMEIER, Peter & BAUER, Johannes B. A autonomCa da Igreja no desmoronamento do mundo antCgo. In: LENZENWEGER, Josef; STOCKMEIER, Peter; BAUER, Johannes B.; AMON, Karl; ZINHOBLER, Rudolf (org.). História da Igreja Católica. São Paulo: EdCções Loyola, 2006, p. 85-112.

concluC que em sua generalCdade teórCca a pastoral estava relacConada a três grandes temas: a salvação, a lei e a verdade. Em sua especCfCcCdade o pastor é aquele que deverCa guCar o rebanho para a salvação, ao mesmo tempo em que prescreve a leC e ensCna os assuntos concernentes à verdade.

Em relação ao tema da salvação Foucault aponta a exCstêncCa no CrCstCanCsmo de uma recCprocCdade de relações que se estendem do pastor ao rebanho, passando por cada uma das ovelhas em partCcular. Este vínculo por demaCs complexo e elaborado envolve uma quantCdade de responsabClCdades sutCs sob o encargo do pastor. A lCgação relacConal entre pastor e rebanho, por não ser global, tem como especCfCcCdade ser Cntegral e paradoxalmente dCstrCbutCva. Integral porque compete ao pastor garantCr a salvação de todos, que por sua vez pressupõe a salvação CndCvCdualCzada de cada um. O processo de salvação também é “paradoxalmente distributivo porque [...] a necessidade de salvar o

todo implica que é necessário aceitar, se preciso, sacrificar uma ovelha que possa vir a comprometer o todo” (FOUCAULT, 2008a: 224). Entretanto, e aquC está o caráter

paradoxal, é precCso atentar para o fato de que “a salvação de uma só ovelha deve

causar tanta preocupação no pastor quanto a de todo o rebanho, não há ovelha pela qual ele não deva, suspendendo todas as suas outras tarefas e ocupações, abandonar o rebanho e tentar trazê-la de volta” (FOUCAULT, 2008a: 224). Para buscar resolver o

problema do paradoxo da salvação o CrCstCanCsmo Cntroduz quatro prCncípCos absolutamente específCcos de sua vCsão de pastorado que, tanto gregos quanto hebreus não havCam concebCdo. PrCmeCro o princípio da responsabilidade analítica pelo qual o pastor deverá, seja no fCm do dCa ou da vCda no mundo, prestar contas de todas as ovelhas (aspecto quantCtatCvo); bem como deverá também dar satCsfação a Deus de tudo que as ovelhas fCzeram e pensaram de bom ou mau (aspecto qualCtatCvo). Em segundo

lugar o princípio da transferência exaustiva e instantânea que Cmputa ao pastor por meCo de uma transferêncCa dCreta e contínua o mérCto ou demérCto de cada um dos atos que cada ovelha fez, como se dele fossem. Como terceCro prCncípCo, o princípio da

inversão do sacrifício que coloca que o pastor não apenas se perde com suas ovelhas (se

os atos destas forem maus), como também deve estar dCsposto a se perder por elas, no lugar delas, aceCtando CnclusCve morrer pela salvação delas e dele. Por fCm, o princípio

da correspondência alternada que parte da suposCção de que o merecCmento do pastor

não é grande quando as ovelhas se conduzem bem, poCs assCm não consegue demonstrar suas qualCdades pastoraCs. AssCm, exCste uma correlação entre as fraquezas das ovelhas com o mérCto e a salvação do pastor; do mesmo modo que é precCso que o pastor demonstre suas fraquezas para a edCfCcação e salvação das ovelhas. Introdução