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No final dos anos 80 do século, os dirigentes – os pais e mães-de-santo - e os participantes dos vários Terreiros existentes na cidade, estabeleceram um princípio de cumplicidade firmando uma rede de solidariedade e de interdependência entre si. Interpretamos essa iniciativa como um marco que revela a necessidade de existir e coexistir enquanto sujeito participante, respaldado por uma instituição de reconhecimento não só interno, mas também social, cultural e político-religioso. Dessa forma, os pais e mães-de-santo fundaram a Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré, por incentivo da Federação Umbandista de Cultos Afro do Maranhão e para “organizar melhor nossa religião”, como afirmou um pai-de-santo.

O conjunto de motivações – históricas, políticas, religiosas, sócio, culturais - que amparam essa Comunidade nos impeliu a usar as análises de Mauss (1974) sobre as três obrigações: dar, receber, retribuir. Com base em suas discussões encontramos no contexto dessa Comunidade o papel dessas três obrigações na produção e reprodução daquilo que constitui o laço social dessa Comunidade.

No “Ensaio sobre a dádiva”, Mauss aponta que a troca nas sociedades consideradas primitivas são dons recíprocos, mais que simples transações. Para o autor, esses dons recíprocos ocupam nelas lugar mais importante que nas nossas sociedades. Sua discussão é que essa forma primitiva de troca não tem somente caráter econômico, são fatos sociais totais. Isto é, carregam múltiplos significados ao mesmo tempo: social, religioso, mágico, econômico, utilitário, sentimental, jurídico e moral. Assim podemos ler em suas páginas:

Há aqui um enorme conjunto de fatos. E que são por si mesmos muito complexos. Tudo neles se mistura, tudo que constitui a vida propriamente social das sociedades que precederam as nossas. [...] Nesses fenômenos sociais ‘totais’, exprimem-se ao mesmo tempo e de uma só vez, toda espécie de instituição: religiosas, jurídicas e morais (MAUSS, 1974 p. 41)

Partindo dessa perspectiva, percebemos nas análises de Mauss que a realidade social é algo inerente ao humano. Entendemos que o homem cria categorias para se organizar e viver em sociedade e, dessa forma, alimenta a

exigência fundamental de que faça parte de um coletivo. Assim, Mauss aponta a respeito das trocas naquelas sociedades: “[...] não são simples trocas de bens, de riquezas [...]. Em primeiro lugar, não são indivíduos, e sim coletividades que se obrigam mutuamente, trocam e contratam” (Mauss, 1974 p. 44). Para Mauss, o pressuposto da troca é o grupo constituído, é o coletivo. Suas análises apontam que a troca é o tecido conjuntivo e só se efetua dentro de uma estrutura muito organizada. Na Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré há uma forte organização e uma intensa programação que em geral é observada rigorosamente, pois seu não cumprimento pode acarretar em males para a própria comunidade.

Como citamos anteriormente a instituição que oficialmente aglutina esses Terreiros Espíritas denomina-se Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré. Cada Terreiro é filiada à Comunidade e essa, por sua vez, é filiada à Federação Umbandista e Culto Afro do Maranhão, com sede em São Luis66. Essa ligação tanto com a Federação quanto com a Comunidade, do ponto de vista dos participantes, não significa uma mera subordinação à uma ordem de cima, mas se lhes exige a observação de alguns princípios que regem e orientam a Comunidade na região do Vale e na cidade de Pindaré. No entanto, pode-se perceber um espaço que lhes assegura determinada autonomia. De acordo com o relato de uma mãe-de- santo, podemos confirmar essa proposição. Ao se referir à Comunidade essa mãe- de-santo assim se expressa:

Nós aqui somos só uma comunidade unida, cada Terreiro tem suas coisas próprias, mas aqui somos um só espírito. Assim também é lá em São Luis. Nós temos que estar ligados lá, senão não funciona. Temos que cumprir nossas obrigações. E tudo é por Deus. Deus deixou as coisas organizadas assim. Temos que ter um chefe maior, a quem nós devemos obedecer. Senão vira bagunça. Mas aqui cada um de nós tem seu ritmo, obedecendo, claro, o que vem também lá de cima. Eu sou feliz porque tenho alguém, embaixo de Deus a quem eu estou ligada. A gente se sente mais segura. Mas muitas coisas aqui eu crio e vou fazendo é do meu jeito (Depoimento de uma mãe-de-santo, de 67 anos. 09.01.2005).

A fala dessa mãe-de-santo nos ajuda a compreender que, estar ligado à Comunidade Espírita Umbandista e à Federação constitui-se em algo maior que uma vinculação por meios oficiais. Antes de tudo, essa vinculação que precisa ser

mantida, está repleta de sentidos e significados religiosos, morais e sociais. Há trocas de benefícios para além do institucional. Dessa forma, se aplica a visão de Mauss sobre os fatos sociais totais com múltiplos significados. A partir de seus estudos o autor define que naquelas sociedades “o que trocam não são exclusivamente bens e riquezas, móveis e imóveis, coisas economicamente úteis. Trata-se antes de tudo, de gentilezas, banquetes, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças, festas [...]” (MAUSS, 1974, p. 75)

Em sua estrutura organizacional a Comunidade se reúne mensalmente e a cada biênio uma dessas reuniões é para eleger um novo presidente e uma nova diretoria. Atualmente a diretoria tem a seguinte composição: presidente67, vice- presidente, tesoureiro, secretário, diretor de eventos e diretor espiritual.

Essa organização revela que os laços estabelecidos entre os Terreiros Espíritas têm um sentido de pertença, um sentimento do não estar sozinho. Reforça a crença da grande e única comunidade através das reuniões, da dinâmica do ir-e- vir entre esses Terreiros, da obrigação e da gratuidade das visitas. Pertencer à Comunidade é tê-la como guardiã e protetora, por isso é preciso, até certo ponto, prestar contas68. Além do que, essa pertença e união, do ponto de vista dos pindareenses e dos participantes da Comunidade, é algo que os diferencia e que lhes confere uma singularidade em relação a outras casas de Cultos afro-brasileiros no Estado do Maranhão.

O depoimento que segue mostra que para este filho-de-santo o sentido de irmandade e de grande união tem uma força vital na Comunidade e, no seu entender, é isso o grande diferencial da Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré. Ele chega a comparar a relação que existe entre as casas de Culto afro- brasileiros de Pindaré com a existente em outras cidades, inclusive da cidade considerada no Maranhão como a de maior número dessa manifestação no Estado.

67 O atual presidente é João Bata Cutrim.

68 As reuniões da Comunidade são realizadas mensalmente em um das Casas Religiosas de Pindaré e as reuniões

da Federação Umbandista e Culto Afro do Maranhão são feitas em S. Luis a cada três meses. Tanto na Comunidade como na Federação as Casas Religiosas ou as Terreiros, além de outros, prestam contas de suas atividades ou visitas a outras casas e celebrações festivas com relatórios oral e/ou escrito.

Nem em Codó69, existe uma união assim como aqui em Pindaré. Essa

união bonita é só aqui mesmo, porque Pindaré é especial, brinca por brincar, reza por rezar, festeja por festejar. Aqui ninguém está querendo ser mais do que o outro. É uma só irmandade. Somos muito unidos.É uma grande alegria que a gente sente, pois sabemos que pertecemos a um grupo bonito, organizado e com muita unão. Isso é só aqui em Pindaré mesmo. Não aquela competição de outras cidades. “Brincamos” em outros salões e vamos alegrar a festa do outro. Pindaré é bonito assim (Filho-de- santo de 42 anos – depoimento aos 06.01.2005).

Esta fala revela que para os participantes das religiões afro-brasileiras em Pindaré, ser membro da Comunidade constitui motivo de orgulho e confere um determinado status, da mesma forma que continuar unido na Comunidade reforça o senso de estar contribuindo para a elevação e visibilidade da cidade e de sua população. Por isso é preciso reunir-se, encontrar-se, visitar e ser visitado, em suma, é preciso trocar os bens simbólicos ou materiais.

A troca na Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré se dá por meio da circulação entre um Terreiro e outra, entre uma festa e outra e essa dinâmica tem um sentido místico, religioso para seus participantes. Para Mauss a dimensão mística é essencial, é operante. A partir de suas análises entendemos que a magia está em tudo e une o humano a todos e tudo – coisas, pessoas, espírito. Assim, concebemos que há um sentido de pertença a um coletivo que se dá através da troca e que essa forma de entendimento não se deu só no passado nas sociedades arcaicas, mas permeia o universo simbólico dos participantes da Comunidade atual em Pindaré. A troca, a partilha, o sentido de irmandade são pilares que a mantém em existência.

A comunidade reúne-se mensalmente e nos primeiros anos as reuniões eram feitas em locais variados, porém sempre em um Salão, em um Terreiro determinada. Nos últimos anos as reuniões passaram a ser sempre em um dos Terreiros – no Terreiro Umbanda Espírita Três Reis Magos, cuja mãe-de-santo chama-se Mãe Zuíla, nome muito considerado no Vale do Pindaré e em toda a Comunidade Espírita Umbandista. Quando perguntados por que não fazem mais rodízio dos locais das

69 Codó – Cidade maranhense muito conhecida, até mesmo em nível nacional por concentrar, segundo vários

pesquisadores, o maior número de Terreiros ou de casas de cultos afro-brasileiros no Maranhão. Alguns falam que atualmente pode-se contar 149 Terreiros nessa cidade. Sua tradição religiosa típica é o Terecô ou Tambor da Mata (Ferretti, Mundicarmo, 2001).

reuniões, em geral respondem que “na casa de mãe Zuíla (ou Dona Zuíla, como é carinhosamente conhecida), tem mais espaço, pra todo mundo e aqui tudo é muito sério, com ordem e amor”. (Filho-de-santo. 28.08.2006). Ao término de cada reunião mensal da Comunidade é servida sempre uma merenda para todos, trazida por vários dos que participam.

Participa das reuniões da Comunidade a diretoria de cada Terreiro, no entanto, a reunião é aberta também para qualquer outro filho ou filha-de-santo que queira participar. Um critério a ser observado é ele estar ligado a algum Terreiro, a algum pai ou mãe-de-santo e por ele ser reconhecido.

Nas reuniões, em geral, há uma pauta muito extensa. Após o momento longo de oração, que geralmente é conduzido pelo presidente ou pela dona da casa, é feita a chamada pelo nome do Terreiro e do pai ou mãe-de-santo, prestam-se contas do caixa comum, que em geral tem pouca reserva, os líderes de cada casa religiosa apresentam o relatório das atividades do mês que passou, acolhem-se novos membros – Terreiros novos, ou um novo filho ou filha-de-santo -, comunicam-se as próximas festas, renova-se o convite oficial para participar das festas. Há também um espaço aberto para quem tem alguma comunicação ou convite, canta-se parabéns aos aniversariantes do mês, lê-se a ata da reunião anterior, que é sempre aprovada com uma salva de palmas.

A maior parte do tempo da reunião é dedicada a falar nas festas e sobre as festas. Quem foi, quem deixou de ir e por quê. Quem se comportou bem, quem transgrediu alguma orientação – isso vale para os Terreiros e para as pessoas individuais. São feitas admoestações, lembranças dos compromissos e das obrigações. Pedidos de desculpas e perdão são externados – dá-se e recebe-se mutuamente. Ao mesmo tempo, expressam os agradecimentos pelas visitas que foram realizadas nos Terreiros por ocasião das festas. Expressam-se orgulhosamente e muito gratos por terem ido visitar algum Terreiro e por terem recebido alguma visita, ressaltam o senso de união e de coesão através dessas visitas. Pela minha convivência com os Terreiros, constatei que esse sentimento está expresso no dia a dia de seus participantes, bem como, escutei repetidas vezes

na palavra de vários pais e mães-de-santo durante as entrevistas. Ao serem perguntados por que visitam os Terreiros, as respostas assim foram sintetizadas:

“Visitamos pela amizade e união que existe entre os Terreiros”. “O objetivo é para aproximar mais os irmãos”. “Para fortalecer a união da religião umbanda”. “Para estreitar e reforçar os laços de amizade, pela obrigação de visitar”. “Quando se visita uma casa temos que reverenciar com as danças”. “Porque somos uma irmandade”. “Porque os terreiros em Pindaré são de corrente ligadas pela própria natureza e há uma união entre eles”. “Porque é uma obrigação. Porque os outros terreiros nos visitam e temos que agradecer e porque há uma união entre as casas de Pindaré”. “Visitamos pela obrigação” é bom depois saber se nos comportamos bem ou não e isso é depois em nossas reuniões. (Vários pais e mães-de-santo)70.

A partir desses depoimentos, inferimos que a Comunidade não só é lugar de revelar e de colocar em comum os benefícios recebidos ou praticados, mas é também espaço para externar publicamente os desvios dos compromissos assumidos, sejam eles sociais ou morais. Ali são reparados os males, é reforçado o bem e renovado o compromisso para novas práticas. Dentre os momentos fortes do estar em Comunidade, constitui-se ponto alto a partilha das visitas às casas ou Terreiros. As pessoas se orgulham de ter ido visitar e de ter recebido visitas de outros. Oferece-se a visita, recebe-se e se retribui como uma obrigação e como uma gratuidade ao mesmo tempo. Mauss descobriu que nas relações estabelecidas nas sociedades arcaicas:

Há uma série de direitos e deveres de consumir e de retribuir, correspondendo a direitos e deveres de presentear e de receber. [...] Pois, essas instituições exprimem unicamente um fato, um regime social, uma mentalidade definida: é que tudo vai-e-vem como se houvesse uma troca constante de uma matéria espiritual (MAUSS, 1974, p. 59).

A inter-relação mantida entre os Terreiros de Pindaré é permeada de direitos e deveres que são avaliados e reforçados na Comunidade. A dinâmica de circulação entre essas casas religiosas é um dom gratuito e obrigatório, pois o Terreiro que é visitado sente-se homenageado, ao mesmo tempo em que se sente na obrigação de receber bem e retribuir de forma melhor. Para cada visita e retribuição há uma intensa preparação que inclui também os comportamentos morais. Nesse contexto, o “dar-receber-retribuir” acarreta benefícios que incidem na área do espiritual e do material, confirmando a afirmação de Mauss:

Misturam-se as almas nas coisas; misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas, e é assim que as pessoas e as coisas misturadas saem cada qual de sua esfera e se misturam: o que é precisamente o contrato e a troca (MAUSS, 1974, p. 71).

A idealização da Comunidade Espírita Umbandista do Vale do Pindaré reúne um universo repleto de simbolismos que emana de uma população que, se sentindo à margem da sociedade brasileira e maranhense, recriou formas de resistência e de existência. Dessa forma, essa Comunidade é um espaço de recriação de algo que ajudasse a manter a cidade em seu sentido de festa, de união, de solidariedade, enfim de apoio e sustentação de uma visibilidade boa, festiva. Os participantes da Comunidade procuram manter uma imagem de que “tudo está bem”, e sentem-se responsáveis para que a cidade esteja bem e apareça bem.

A Comunidade é formada majoritariamente por pessoas provenientes da classe popular. Nesse sentido, ali é cultivada uma cultura e um saber oral. Grande parte dos membros tem apenas o Ensino Fundamental e, às vezes, incompleto. São em geral trabalhadores pobres que lutam por sua sobrevivência71.

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