• Aucun résultat trouvé

Comparaison des fonctions objectifs

Torna-se agora necessário debater um pouco mais sobre a importância de Coimbra e do seu termo para o contexto da Península Ibérica. A expansão promovida por Fernando Magno permite a colocação de uma fronteira mais a sul baseada, marcada agora no Rio Mondego – em 1064. Esta é a zona de fronteira, sendo fundamental a sua manutenção para garantir futuros avanços sob o território islâmico92. Daí que uma das principais funções e preocupações de Sesnando fosse reabilitar alguns castelos que se encontravam junto a Coimbra, a sul do Mondego – encetando o processo normal de ocupação de território com a ocupação do lado contrário do vale do rio, neste caso o Mondego.

Só um líder capaz e que tivesse as gentes mais importantes da região sob seu controle poderia manter Coimbra salvo de ataques de caudilhos e de forças islâmicas. No doc. 677 DC, é referido na doação do conde de Coimbra à filha, Elvira Sesnandes, “et medietatem de illis castellis que ego populavi arauz et penella(…).” o que pode comprovar – em certa medida – a povoação e defesa de certos pontos desta região. A

92 Na questão dos avanços e recuos por parte dos Reinos Cristãos do Norte encontramos não só um problema mas dois. Enquanto as forças islâmicas são responsáveis por recuperações de território, como o caso de al-Mansur que em finais do séc. X recupera diversos territórios incluindo Coimbra. Realiza também constantes razzias, saqueando e destruindo a presença cristã na região do Douro. Contudo existe outro tipo de adversário, que causava outro tipo de problemas. Os caudilhos aproveitavam a pouca organização dos espaços condais e de Taifa para realizarem acções de saque e roubo destruindo na sua passagem diversas propriedades. Não são uma unidade que ponha a conquista de facto territorial, não têm capacidade militar para o fazer, mas para um condado que tenta estabelecer um mínimo de estabilidade para as suas gentes, estes caudilhos são sem dúvida um problema maior. Logo existem diferentes forças em despique durante o séc. IX, X, XI e XII, o que nos informa de uma dinâmica militar bastante ritmada. Vide Pedro Gomes Barbosa, A Reconquista Cristã, Ésquilo, Lisboa, 2008.

ideia dada pelos documentos de Coimbra em finais do séc. XI é de que repovoação é a reorganização de um poder local que permita consolidar essa posição estratégica para o condado.

Para outros casos, como o castelo de Montemor, castelo de S. Martinho de Mouros ou o castelo de Miranda do Corvo, não temos documentação que nos indique claramente se houve acção directa do alvazil na reestruturação dessas defesas, isto é, como foram reocupados, reconquistados ou reedificados. Todavia, verificamos que essas unidades militares são referidas na documentação sesnandina – caso do LP 49, onde é referido o Castelo no contexto da doação da Igreja de Santa Maria em Montemor à Sé de Coimbra -, o que nos permite especular que poderá ter havido pelo menos algum interesse por parte de Sesnando Davides.

Se Penela e Arouce são revelados no doc. 677 da DC, “(...) de illis castellis que ego populaui arauz et penella”93 já o castelo de Montemor-o-Velho e o castro de Antanhol são referidos no documento 49 do LP. De acordo com Bermudo, presbítero da Igreja de Santa Maria de Montemor, “(…)faço esta carta de testamento à Igreja de Santa Maria, sede de bispado em Coimbra, de metade da igreja de Santa Maria que eu edifiquei no castelo chamado de Monte Maior (…). O dito castelo pertenceu em tempos a sarracenos, durante muito tempo, e era um covil de feras e de mata, deu o rei D. Afonso, imperador de Toda a Espanha, o poder a D. Sisnando, cônsul de Coimbra de restaurar e povoar.”94, indica-nos isto que o castelo fora entregue a Sesnando para o “edificar e povoar”.

Mas não nos bastam as provas documentais, porque estas podem ter sofrido uma deturpação dos factos. Há também que apresentar resultados arqueológicos para perceber se houve realmente alguma modificação nas unidades castelares. Mário Jorge Barroca na sua obra Do Castelo da Reconquista ao Castelo Românico – séc. IX a XII, revela que o castelo de S. Martinho de Mouros “apresenta um aparelho que situaríamos dentro do proto-românico, devendo corresponder ao último quartel do século XI, pelo

93 Vide LP 78 (1087/03/15). 94

“(…) facio cartam testamenti ad ecclesiam Sante Marie episcopalis sedis Colimbriensis, de medietate ecclesie Sante Marie quam ego a fundamento edificavi, in castello quod vocatur Mons Maior (…). Supradictum autem castellum, cum esset funditus eversum a sarracenis, ex multis temporibus, et esset ibi cubile ferarum et silva ingens, dedit rex Adefonsus, imperator totius Hispanie, potestatem domno Sisnando, consuli Coimbrie ut restauraret illud et popularet.” (LP 49 (1095/12/24)).

que pode bem ser fruto da acção governativa de D. Sesnando.”95, sendo que este estaria situado perto de Lamego.

É interessante que na documentação analisada não há qualquer documento de Sesnando que refira os territórios a norte que lhe foram concedidos por Fernando I e depois por Afonso VI. Estariam os territórios de Santa Maria e Lamego entregues a um representante de Sesnando Davides? É possível que assim seja, pois essa região junto ao Douro teria outro tipo de estrutura social e outro género de elite, já que não era um território dominado pelas gentes moçárabes como acontecia com os territórios de Viseu, Montemor, Condeixa e Coimbra. Voltamos a relembrar, que Santa Maria e Lamego tinha sido entregues ao cônsul de Coimbra, como se pode comprovar pelo DC 677 e LP 345/307, o que era natural a entrega desses territórios a governadores locais – mais adiante iremos explorar esta questão com mais detalhe.

Por fim o castelo de Soure surge na Vida de São Martinho de Soure96 onde a sua

reedificação é atribuída ao alvazil de Coimbra “Ao verificar-se, porém, longos anos depois, por auxílio da graça divina, a restauração da cidade de Coimbra, realizada admiravelmente por Fernando, o mais valoroso rei das Espanhas, também o castelo de Soure foi libertado dos infiéis ismaelitas juntamente com outras povoações a si associadas nos confins das suas terras. A verdade é que só longos anos já decorridos, sob o poder do rei Afonso, através do governador, o alvazil Sesnando Abenaamir, que então governava com espírito industrioso a cidade de Coimbra e o municipio de Montemor, começou a ter lugar a reedificação.”97.

A diversidade de unidades defensivas do tempo de Sesnando Davides é muita e complexa e, através da leitura documental e do estudo arqueológico – mesmo que na maioria dos casos já se veja pouco do castelo ao tempo de Sesnando Davides, tendo

95 Mário Jorge Barroca, Do Castelo da Reconquista ao Castelo Românico (séc. IX a XII), “ A viragem dos meados do século XI. Os Castelos de D. Sesnando. A reforma de Fernando o Magno”, Lisboa, Comissão Portuguesa de História Militar, 1994, pp. 103-104.

96

Ver Aires de Nascimento, Hagiografia de Santa Cruz de Coimbra: vida de D. Telo, vida de D. Teotónio, vida de Martinho de Soure, Lisboa, Colibri, 1998 pp. 226-228. “Cum autem diuina gratia aminiculante longo tempore post urbis Colimbriensis restauratio, ab infidelissimis ismaelitarum gentibus, per Fernandum strenuissimum hispanorum regem mirabiliter entituit, prefactum quoque Saurii castrum, cum aliis municipiis sibi confinio telluris sociatis, libertatem accepit.Verum enimuero post longa annorum curricula, sub Adefonsi regis imperio, per prefectum suum aluazil Sesnandum Abenaamir, qui tunc temporis Colimbriensem urbem Montismaiorensiumque municipum suo sollerti pectore procurabat, rehedificationem habere cepit.”.

97

sofrido constantes modificações humanas e naturais - pode-se concluir que houve uma preocupação por parte da administração coimbrã em finais do séc. XI em recuperar e construir um sistema de defesa eficaz. Como já apurámos anteriormente, não há qualquer documento relativo a Sesnando e à sua administração antes de 1080, voltando à maior questão sobre a instituição e administração Coimbrã de Sesnando Davides.

No Mapa nº1 podemos observar a componente militar da administração de Sesnando Davides. Temos em consideração cinco “pontos” defensivos essenciais para manter a região segura. O Castelo de Santa Eulália perto do Castelo de Montemor, perfazendo uma cintura defensiva composta. O Castelo de Arouce “goza” da mesma particulariedade, mas neste caso com a Serra da Lousã – este localiza-se mais a sul perto do Castelo de Miranda do Corvo. O Castelo de Montemor localiza-se para oeste de Coimbra, tendo como função proteger o território de possiveis incursões de pirataria ou anfibias que possam acontecer junto à costa. O castelo de Miranda do Corvo serve de última defesa antes de chegar ao rio Mondego, e subsequentemente a Coimbra. A unidade militar situada em Penela faz essa “cinta” de defesa de Coimbra. Mais a sul está o Castelo de Soure que em 1116 foi alvo de conquista e destruição levado a cabo pelas forças almorávidas na sua tentativa de reconquistar a região de Coimbra.

Devemos então colocar a seguinte questão: Se a conquista de Coimbra fora em 1064 e desde logo a cidade foi entregue ao alvazil, porque é que temos um período de tempo tão longo sem qualquer promulgação de docucmentos por parte da Sé de Coimbra? Para responder a esta questão teremos que recuar no tempo.

Escolhido por Fernando I de Leão e Castela para a posição de governador de Coimbra em 1064 após a conquista da cidade encontramos diversos elementos importantes para análise do poder do conde, como relata o documento 578 do LP, “Não muito tempo depois veio com o seu exército a Coimbra, e o cônsul D. Sesnando estava presente, cujo conselho era muito importante, pois ele já tinha servido o rei com muita honra, sitiaram a cidade, e com uma suprema virtude a invadiram; Sesnando Cônsul arbítrio, foi lhe dado o poder de dar, conceder e julgar segundo a sua vontade (…).”98

Já no documento 28 do mesmo cartulário, podemos retirar uma passagem que relata essa transmissão de poder “Na era de 1102, entrou o rei Fernando – a quem o repouso seja feliz – na cidade de Coimbra – que Deus a proteja – não só tomou-a de tribos sarracenas mas também devolveu-a à gente dos cristãos, com o auxílio de Deus Omnipotente. Depois, naqueles dias, o próprio rei tendo exortado com honra, o grande príncipe naquele lugar, duque e cônsul fiel, D. Sisnando – que exalte o Senhor por toda a parte – sobre a própria cidade, para que a povoe e defenda da gente pagã, onde, debaixo do auxílio de Deus, salvasse a gente dos cristãos; e, Deus consentindo, o fez.”99 o que vai de encontro com as mesmas ideias do documento 578.

Coimbra fica assim entregue ao poder de Sesnando já com Fernando I, de acordo com os documentos analisados. Mas a morte precoce do rei de Leão e Castela pode ter impedido que Sesnando obtivesse liberdade total para operar no termo de Coimbra, doado pelo monarca do norte, pois, os reinos cristãos do norte entravam para uma época de conflitos entre irmão que alastraria para todos os pequenos senhores, governadores e outros. As guerras entre os filhos de Fernando, Sancho, Garcia e Afonso foram, pelo que percebemos, complexas para a história e a historiografia espanhola.

98 “Non post multum vero temporis, suo cum exercitu, ad Colimbriam venit et, domno Sesnando consule presente, cujus consílio satis pollente, jam dictus rex multa agebat et honorifice illum secum habebat, civitatem obsedit, et tandem, superna virtute, illam invasit; ex aribtrio Sesnandi consulis, totam conmisit, tribuens sibi potestatem et concedens dândi sive auferendi, judicandi et omnia, secundum suam

volumpatatem, ordinandi.” LP 578 (1087/05/s.dia).

99 “In era M.ª C.ª II.ª, intravit rex domnus Fredenandus – cui sit beata requies – in civitatem Colimbriam – custodiat illam Deus – et prrehendivit eam de tribubus hismahelitarum et tornavit eam ad gentem

christianorum, cum adjutório Omnipotentis Dei. Deinde, in diebus illis, erexit ipse honorificus rex predictus, principem ibi magnum, ducem et consulem fidelem, domnum Sisenandum – quem Dominus undique exaltet – super ipsam civitatem, ut eam popuçasset et deffendisset de gente paganorum, ubi, sub Dei adjutório, salvasset gentem christianorum; et, Deo annuente, fecit.” LP 28 (1080/04/25).

Observemos que entre 1065 e 1072 Afonso VI vai ganhando terreno aos irmãos relativamente à coroa – Afonso VI estaria em 1071 em apuros no combate contra o seu irmão Sancho, contudo a morte precoce do Rei de Leão possibilita que Afonso recupere para si a coroa de Leão – sendo que vão-se dar dois acontecimentos fulcrais para que Afonso atinja esse objectivo: a morte de Sancho e o aprisionamento de Garcia vão permitir, a Afonso, tornar-se Rei de Leão e Castela. Até aqui não temos qualquer informação sobre Sesnando – à excepção do documento nº71 do LT. Só em 1077 no doc. 549 do DC, Sesnando surgirá na documentação como senhor daqueles territórios. Nesse documento Afonso VI refere o seguinte: “no tempo em que D. Sesnando que era seu inimigo e era dono de toda a Santa Maria de Coimbra.”100, evidenciando desde aí a presença do alvazil como governador de Coimbra.

3.3) Sesnando Davides e a Política Externa: Participação e conselho em