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Compétences narratives, mimétiques et techniques

Durante a introdução e reflexão sobre os estudos acerca da organização do trabalho colaborativo no grupo disciplinar de EF como comunidade de aprendizagem profissional foi-se estabelecendo a clara negligência desse envolvimento ecológico, e especificamente no quadro apresentado, como o principal ponto de preocupação deste estudo. Partindo dessa preocupação e apesar da existência de tópicos mais concretos que foram sendo focados, deve-se agora situar os pontos específicos que irão delimitar o problema a apresentar no último capítulo.

Como ponto de entrada, importa estabelecer que as condições que conduzem ao sucesso do processo de ensino-aprendizagem não são exclusivas da relação pedagógica entre professor e aluno em sala de aula, e portanto não se iniciam apenas no momento e espaço de aula ou não houvesse evidências sólidas de que outros envolvimentos microssistémicos em que professores e alunos habitam individualmente influenciam direta e indiretamente o sucesso educativo (latus sensus). Mais concretamente, a investigação educacional sobre o trabalho colaborativo (e.g. Little, 1981; Rosenholtz, 1991), e em particular sobre as comunidades de aprendizagem profissional (e.g. Hord & Sommers, 2008; Kruse & Louis, 1993; Vescio, Ross, & Adams, 2008), evidencia a relação direta entre a organização colaborativa dos docentes (de educação física), especialmente ao nível dos coletivos disciplinares de uma mesma escola (e.g. Visscher & Witziers, 2004), e a sala de aula na forma como essa interação promove o sucesso curricular dos alunos. Essa interação sustenta intrinsecamente a visão bioecológica, podendo o reenquadramento concetual das comunidades de aprendizagem profissional ao nível do grupo disciplinar aqui proposto ser uma possível resposta às

dificuldades apontadas pela investigação relativamente aos professores se organizarem coletivamente e colaborativamente para melhorarem o seu ensino, e consequentemente o sucesso dos seus alunos, a partir da sala de aula (Vieluf, Kaplan, Klieme, & Bayer, 2012), sobretudo tendo em conta a sua raridade e valor científico (Bronfenbrenner & Morris, 2006; Lee, 2012). Assume-se por isso nesta visão o sentido mais lato da investigação sobre a extensão concetual das comunidades de aprendizagem profissional no âmbito dos grupos disciplinares ao modelo bioecológico do desenvolvimento humano.

Especificamente argumenta-se sobre a falta de regularidade e volume de estudos ecológicos a nível internacional, e em particular na temática identificada durante o presente capítulo, em que se sublinha que o modelo bioecológico acarreta potencialidades pouco exploradas sobre as caraterísticas e os processos que podem induzir e otimizar as dinâmicas colaborativas dos professores de educação física nos seus grupos disciplinares, no sentido melhorar a qualidade de ensino da EF e assim alcançar grandes finalidades na mesma área disciplinar. Esta irregularidade e inconsistência ampliam-se sobre a realidade nacional, e em especial da educação física, que se apresenta em contracorrente à tendência internacional de investimento científico sobre como melhorar as condições e o sucesso do trabalho docente para potenciar a aprendizagem e sucesso dos alunos. Nesta linha, com base nas evidências sobre como a adoção de modelos de trabalho pelos grupos disciplinares orientados pelas comunidades de aprendizagem profissional auxilia e melhora o trabalho coletivo e individual dos professores, pretende-se proporcionar a continuidade e robustez dos trabalhos ecológicos para uma caraterização atualizada e ecologicamente válida do trabalho coletivo e colaborativo dos grupos disciplinares de educação física em Portugal. Esta lógica articula-se com a premissa de que um diagnóstico contextualmente válido facilitará o desenho de soluções cientificamente suportadas e passíveis de serem experimentalmente testadas, tal como apontado pela perspetiva (bio)ecológica (Bronfenbrenner, 1976, 2005; Bronfenbrenner & Evans, 2000; Bronfenbrenner & Morris, 2006) sobre a necessária interação entre estudos de descoberta e estudos de verificação como fundamento de uma ciência desenvolvimental. A potencial implicação imediata desta dinâmica será o aumento do sucesso dos programas de desenvolvimento profissional para os professores de educação física que se têm revelado na sua generalidade infrutíferos e/ou excessivamente redutores na análise dos seus resultados, especialmente no que toca à melhoria pedagógica e à aprendizagem dos alunos. No entanto, até ao momento o diagnóstico efetuado tem-se orientado mais proximamente com lógicas de processo (organização do grupo) produto (efeitos nos professores e nos alunos), ou tendencialmente microssistémicas sobre o próprio grupo, onde a componente mesossistémica de alcance à gestão da aula não tende a ser objetivamente analisada. Nesta linha, acrescenta-se a necessidade de esclarecer de que modo a organização colaborativa pelo grupo disciplinar como comunidade de aprendizagem profissional se articula com os processos de gestão da aula.

Olhando de modo mais centrado nas questões do trabalho colaborativo dos docentes de EF, perceciona-se uma tendência reduzida para estudar os coletivos como uma unidade de análise, privilegiando-se a entrada investigativa por dimensões temporais restritas através de narrativas e perceções de agentes isolados e novos na carreira, alheando-se ainda a dimensão curricular no âmbito da estreita relação que apresenta enquanto conteúdo crítico do trabalho colaborativo do grupo disciplinar. Esta análise crítica revela diversos problemas dos quais apenas serão fixados aqueles que permitirão concretizar no quarto capítulo o(s) problema(s) em estudo. Primeiramente, é possível identificar um problema aqui interpretado como transversal à investigação das comunidades de aprendizagem profissional, e consequentemente mas de forma mais evidente sobre os grupos disciplinares de educação física, que é a ausência da dimensão curricular como conteúdo do trabalho colaborativo e a forma como essa dimensão é gerida no sentido de facilitar pedagogias favorecedoras da aprendizagem dos alunos. Com efeito, os diversos estudos não revelam, na sua maioria, uma consideração formal desta importante dimensão ao nível daquilo que representa para professores e alunos pois é a partir dela que se estabelecem os compromissos coletivos e pedagógicos e, porventura, arrisca-se a sustentar antecipadamente com uma base eminentemente empírica, que é o elemento-chave para explicitar e facilitar a articulação mesossistémica entre o grupo e a sala de aula. Então, este estudo apresenta como princípio formalmente estabelecido que o trabalho colaborativo dos grupos disciplinares de educação física como comunidades de aprendizagem profissional deve ser analisado e interpretado à luz das orientações e objetivos curriculares que os professores coletivamente assumem para uma caraterização efetivamente válida do ponto de vista ecológico e com implicações diretas na necessidade de analisar a gestão da aula em paralelo para uma articulação cabal com as questões mencionadas para o grupo.

Seguidamente, o facto de os estudos encontrados se dirigirem isoladamente aos docentes de educação física para fazer uma caraterização coletiva, o que também se revelou mais genericamente nalguns trabalhos da investigação educacional sobre esta temática, é identificado como incongruente pois, claramente, outros lados da estória e da história ficam bloqueados na análise e respetivas conclusões, implicando duas subquestões. Numa primeira instância, entende-se como fundamental enveredar por uma abordagem predominantemente coletiva para se alcançar uma caraterização efetiva e ecologicamente robusta dos grupos disciplinares dos docentes de educação física dadas as evidências reportadas de que a entidade coletiva exerce uma importante influência em cada um dos indivíduos bem como apresenta uma identidade coletiva com caraterísticas psicológicas, funcionais e sociais igualmente coletivas. Quer isto dizer que se assume a necessidade de adotar o grupo como unidade de análise por oposição à sua caraterização coletiva exclusivamente a partir de casos isolados. Em segunda instância, sobre o problema de olhar para os agentes de forma isolada, não se encontra uma orientação muito marcada de identificar elementos críticos com referência à entidade coletiva, nomeadamente os líderes do grupo disciplinar. A investigação educacional centrada nos grupos de professores estabeleceu

claramente a influência desses agentes, diferenciando-os em líderes formais e informais, mas no âmbito da EF não se consegue destrinçar nem as funções, desafios e sucessos dos líderes que são formalmente responsáveis pela dinamização do coletivo, nem de que forma se conseguem identificar ou quem são os líderes informais no seio dos seus grupos e por inerência o impacto que possam ter. Então, para este trabalho, parte-se do princípio de que os coordenadores dos grupos, enquanto líderes formais, precisam de ser formalmente reconhecidos relativamente às suas funções e resultados na investigação dos coletivos de professores, bem como se apresentam como agentes-chave de identificação de líderes informais e dos seus papéis na organização dos grupos.

Em terceiro lugar, a dimensão temporal é claramente a menos explorada contrapondo-se com as evidências de que qualquer grupo de professores (de educação física) como comunidade de aprendizagem profissional precisa de tempo para se (re)construir, maturar, e evoluir. Para além de uma expressão ínfima de estudos que identificam e/ou detalham a história passada e vivida pelos coletivos de professores de educação física numa determinada escola, não é possível definir concretamente a dinâmica colaborativa desses grupos a diferentes escalas temporais o que fragiliza à partida qualquer iniciativa científica de experimentação de um qualquer modelo de desenvolvimento profissional. Reconhece-se por isso um caráter determinante no estudo dos grupos disciplinares de educação física como comunidades de aprendizagem profissional a diferentes escalas temporais, valorizando as de dimensão maior pela reduzida expressão até ao momento.

Noutro ponto crítico de análise, ao identificar na literatura sobre os grupos disciplinares dos professores de educação física uma centralização concetual e metodológica nos professores novos, e especialmente novos na carreira, cujos problemas são claramente importantes para o desenvolvimento profissional no seu sentido mais geral, ignora-se o trabalho e respetivas caraterísticas e resultados dos professores que têm lidado, e que continuarão a lidar, com uma parte significativa da história coletiva e até profissional. Esta questão de direcionar a atenção para os professores “da casa” relaciona-se de modo muito estreito com os problemas salientados pela literatura relativamente à construção e sustentabilidade das comunidades de aprendizagem profissional e por isso mesmo se entende que, para compreender cabalmente a entidade coletiva dos grupos disciplinares de educação física, é crítico analisar e interpretar as perceções de todos os professores a partir das suas diferentes posições históricas e funcionais no grupo, e inerentemente das diferentes fases de carreira que vivem.

Entrando por um plano de ordem mais metodológica mas claramente determinante para a dimensão concetual, os estudos observacionais e globais sobre diversas fontes de trabalho colaborativo, i.e. sobre as diferentes propriedades e caraterísticas do modelo bioecológico, não se têm afirmado. Mais especificamente, fixar a análise dos coletivos dos docentes de EF fundamentalmente pelas suas narrativas não permite alcançar a consideração das condições

contextuais que mais objetivamente se apresentam e que a literatura revela como podem apoiar ou dificultar o estabelecimento e manutenção das comunidades de aprendizagem profissional, razão pela qual se considera determinante recolher elementos objetivos do envolvimento ecológico do trabalho colaborativo dos professores com recurso a estratégias observacionais e de recolha documental. Noutro plano identificado nesta questão, essas condições contextuais precisam de ser suficientemente específicas para se poder caraterizar em detalhe o microssistema em causa mas, igualmente, suficientemente abertas para identificar que aspetos da organização escolar interagem com o funcionamento coletivo e colaborativo dos grupos disciplinares de educação física, dada a perspetiva encontrada que as caraterísticas das exigências inerentes a cada coletivo são diferenciadas não só de escola para escola, mas fundamentalmente numa mesma escola.

Em suma, encarando a totalidade do microssistema do grupo disciplinar de EF, esta componente do estudo centrar-se-á na investigação da organização do seu trabalho colaborativo relativamente ao desenvolvimento curricular da educação física como facilitador de pedagogias potenciadoras da aprendizagem e do sucesso dos alunos, identificando e detalhando as suas propriedades processuais, coletivas, contextuais e temporais, subordinadas a um nível mesossistémico, e de escala tendencialmente macrocronológica.

2.4 Síntese

Neste capítulo, esclareceu-se a opção concetual de análise do microssistema do trabalho colaborativo entre os professores do grupo disciplinar de educação física pelo modelo das Comunidades de Aprendizagem Profissional como opção sustentada face a outros quadros concetuais. A importância particular de estudar a organização do departamento apresentou-se como crítica para o (in)sucesso dos alunos nos contextos escolares de base departamental devido às evidências de contrastes significativos entre departamentos de diferentes áreas disciplinares numa mesma escola e por isso mesmo apresentados como uma unidade transformadora negligenciada. Consequentemente, embora o ideal seja que a interação departamental numa mesma escola se desenvolva com base numa visão educativa valorizadora das diferentes áreas disciplinares, na verdade compreendeu-se que os departamentos/grupos disciplinares de educação física, não obstante as claras semelhanças com departamentos das diversas áreas disciplinares, vivem realidades e necessidades específicas influenciando a sua própria dinâmica coletiva e colaborativa e inerentemente as possibilidades de sucesso dos alunos. São essas realidades e necessidades que se apresentaram como lacuna evidente no estudo da organização dos grupos de educação física como comunidades de aprendizagem profissional e que enformam o foco deste estudo. Nesse sentido, independentemente das condições envolventes, aos grupos de educação física, é exigido e fundamental que se organizem colaborativamente para potenciar o sucesso curricular dos alunos por vias do desenvolvimento profissional dos seus docentes com efeitos imediatos nas suas práticas pedagógicas. Nessa organização colaborativa foi ainda apresentado o impacto do currículo e dos compromissos coletivos como parte integrante e crítica que pode facilitar os processos de gestão da aula, idealmente favorecendo a integração do sistema social dos alunos e assim alcançando a necessária dimensão mesossistémica de interação com as ecologias das aulas de educação física. Assim, foi possível definir o foco de análise do grupo disciplinar de educação física a uma dimensão mesossistémica de alcance anual.

3 Estudo Do Microssistema Da Aula De Educação Física