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As duas últimas décadas vêm se constituindo como marco de profundas transfor- mações no cenário geopolítico mundial. Os vários fenômenos políticos, econômicos, sociais e culturais, combinados com o rápido desenvolvimento científico e uma maior conscientização sobre a questão ambiental, colocam novos desafios para os diferentes contextos sócio-históricos e regionais neste início do século XXI. Esses eventos singu- lares introduziram mudanças profundas na ordem internacional, com a globalização econômica e tecnológica e a formação de blocos regionais, a redistribuição do perfil do crescimento econômico e o novo peso dos países emergentes ocasionando as mudanças democráticas em regiões como a América Latina e o Leste Europeu. Estes são alguns, entre tantos outros, dos acontecimentos marcantes que alteraram de forma decisiva a gramática das relações entre os Estados e demais atores em escala nacional, inter- nacional e transnacional. São acontecimentos que impuseram novos desafios para as relações internacionais e a cooperação internacional.

Nesta nova conjuntura, ganha relevância a questão da Cooperação Sul-Sul, um tema que adentra a agenda externa brasileira que, desde os anos 1990, tem renovado

1 Pesquisa desenvolvida com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, para o período de 22/07/2011 a 22/07/2014.

as relações internacionais do Brasil. A cooperação entre os Estados do hemisfério sul é explicada como uma forma de projetar a autonomia brasileira internacionalmente, assim como, enfatizar o seu papel de liderança na América do Sul. Tal cooperação é en- tendida, no âmbito dos regimes internacionais vigentes, como uma soberania comparti- lhada, focada na defesa de valores globais e na busca de autonomia pela participação. Assim sendo, o projeto supracitado, propõe-se a estudar e analisar as distintas faces da cooperação no continente sul-americano, para evidenciar as particularidades de estra- tégias adotadas em diversos âmbitos e o seu alcance, assim como, o caráter comple- mentar das mesmas em relação aos esforços lentos, porém cada vez mais persistentes, para consolidar o bloco regional no qual o Brasil tem tido um papel de ponta. O projeto integra pesquisadores de três universidades do Estado da Bahia, sendo elas, a Univer- sidade Federal da Bahia, enquanto instituição proponente, a Universidade Católica do Salvador e a Universidade do Estado da Bahia, desdobrando-se em torno de três eixos intercomplementares da investigação histórica, empírica e normativa contemporâneas, sendo que, o primeiro eixo analisa a relação entre território, cultura e meio ambiente, a partir da ação social coletiva e da ação governamental. O segundo eixo analisa a relação entre região, território, população, conhecimento e desenvolvimento institucional e da cidadania, e o terceiro eixo visa analisar o papel do capital financeiro em suas vertentes estatal e privada para a internacionalização das empresas e montagem da infraestrutura na perspectiva da integração sul-americana.

Entre as intenções no segundo eixo, que ocupam um lugar importante na pesquisa, destacam-se a educação e a equivalência de currículos na formação de professores do ensino básico no Brasil e na América Sul nos cursos de pedagogia, bem como, os cursos de formação continuada, principalmente, aqueles organizados na forma de pós- graduação. (COOPErAÇãO..., 2011) Objetiva-se, neste eixo, promover o intercâmbio institucional por meio de redes e a criação de políticas educativas para reverter o fracas- so escolar em nível regional, e ainda, identificar pontos de convergência e divergência como valores, estratégias e conteúdos nos currículos de formação de professores e gestores para o ensino básico, visando a mobilidade e a criação de redes de intercâmbio e a troca de experiências.

A educação formal, reconhecida oficialmente pelos países para fins de creditação e certificação, ocorre mediante a implementação e execução do currículo formal, currículo real e currículo oculto, esses termos são largamente definidos na literatura. Tradicional- mente, sofrem influências decisivas das culturas dominantes em cada país e da norma culta, sendo que, mais recentemente, os movimentos de educação popular têm mar- cado seu espaço de inovação nos currículos formais de países membros do Mercosul, a saber: Brasil, Argentina, Uruguai, Venezuela, e países membros associados: Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Grandes questões passaram a ser relevantes na pre- paração de professores do ensino básico, tais como: Quais conteúdos ensinar? Como ensinar? Que políticas estão voltadas para a formação dos professores? Estes e outros

questionamentos estruturam o tema desta pesquisa, em uma perspectiva relacional e contrastiva com outros países sul-americanos, tendo em vista a aproximação cultural regional e a integração social e política dessas sociedades latinas. Neste âmbito, três elementos são inseridos nos planos de integração, a saber: reconhecimento dos títulos, mobilidade entre os países de educadores, gestores e estudantes e cooperação com criação de redes de excelência.

Ao falar sobre a formação de professores para a educação básica no Mercosul, ob- jetiva-se uma investigação a partir das proposições de acordos entre os países membros cuja preocupação está voltada para, dentre outras questões, a gestão democrática da educação, a evasão, a reprovação, acesso e permanência no sistema educacional in- clusive de crianças portadoras de necessidades especiais e demais grupos vulneráveis. (COOPErAÇãO..., 2011)

Garcia Canclini (2008), ao analisar a possibilidade de situar a integração econômi- ca e cultural das sociedades latino-americanas, em um mundo de mercados globaliza- dos, refere-se à dificuldade de se falar em uma identidade comum homogênea. Enfatiza que, há uma heterogeneidade nas comunidades sociais e políticas da região, mas, ao mesmo tempo, ele afirma que há uma herança comum latina, as formas diferenciadas pelas quais a cultura europeia e a estadunidense se imbricaram com as diferentes ex- periências coloniais e nacionais. Para Della Porta e Caiani (2004), a democratização da sociedade demanda a consolidação da(s) esfera(s) pública(s), que é uma instância importante para produzir accountability democrática. Isto é, além de um sistema re- presentativo, a democracia necessita de arenas de discussão para decisões abertas e participativas.

Assim, foram definidos dois grandes blocos temáticos, um referente à aprendi- zagem e outro relativo à melhoria da qualidade educacional para todos envolvendo a gestão participativa e a flexibilidade curricular. Destaca-se, aqui, o bloco referente ao melhoramento da qualidade da educação para todos, dando ênfase na aprendizagem e gestão participativa contextualizada. Esse processo está ligado à flexibilidade e perti- nência curricular e a participação está vinculada à autonomia dos atores na construção das aprendizagens, questões estas pontuadas na proposta de criação do Mercosul.