Corpus et m´ ethodologie
2.2 Transcription et annotation du corpus
2.2.3 Classification des gestes
I – Investigador V – Vinyl Disc 21 de junho de 2019
I: Então para começar, como é que começou a loja do Vinyl Disc?
V: É um conceito que tinha copiado numa outra loja em Espanha que é o conceito de casa-loja. E há de fazer coisa de doze, treze anos. Eu antes disso, eu sou um aficionado de vinil, gosto muito de vinil, e já comprava e vendia em online. Depois com a minha aposentação eu dediquei-me a tempo inteiro ao colecionismo e portanto na compra, venda e troca de discos de vinil.
I: E como é que descreve os negócios de discos de vinil em geral?
V: Tem momentos bons, momentos maus, pontos altos, pontos baixos. Cada vez nota-se que há mais procura de vinil, sobretudo a juventude que está a descobrir através dos discos (segmento de texto incompreensível). Só que o vinil que se procura e que se vende são discos específicos, são discos, digamos, os chamados discos místicos de várias bandas, dos Queen, dos Rolling Stones, dos Beatles, Joy Division, The Sisters of Mercy…
I: E na sua opinião porque é que acha que houve este crescimento na procura dos discos de vinil, mesmo com os CDs e os MP3s e afins?
V: Sim, pronto, o vinil tem uma carga mística em si e é o objeto do culto. E depois o vinil analógico, as primeiras edições, hoje são muito procuradas porque a qualidade de som é diferente da do CD, não é? Pronto, estando um disco em perfeitas condições é agradável ouvir porque é um som envolvente e depois aquela coisa de estar a manusear a capa do disco, ler toda a sua descrição referente ao disco. Porque para mim música é cultura, não é? E pronto, essa é a razão que encontro na procura de vinil. Por um lado a qualidade do som… Porque o CD também tem boa qualidade, só que é um som que, para mim, acho que o CD em relação ao vinil é um som frio onde sobressai os agudos, um som metálico… E pronto, o vinil já não. O vinil já é um som muito mais limpo. A gente ouve ali todos os sons muito bem definidos, os graves, os agudos, sem estar compactado… É essa a diferença.
significa para si? Porque diz isso?
V: Porque hoje há determinados- Hoje torna-se cada vez mais difícil adquirir determinadas cópias de primeiras edições de discos que há quarenta, cinquenta anos, sessenta anos, foram grandes sucessos e que hoje é difícil de adquirir e quando se adquire um discos desses é uma alegria imensa porque… por ter conseguido, por ser um objeto raro e de ter chegado às mãos. Porque hoje há várias edições dos tais discos místicos dessa época, mas não é a mesma coisa. Uma coisa é uma pessoa ter uma primeira edição original e dizer “Eu tenho este disco.” E outra coisa é ter uma reedição que é uma cópia de uma cópia, pode correr o risco de ser uma boa prensagem, mas pode acontecer o risco de ser uma péssima prensagem. Não têm grande valor simbólico.
I: É uma questão do valor, então, da simbologia?
V: Simbólico, simbólico.
I: Em termos de emoção também?
V: E de emoção também, exatamente, por ter conseguido um objeto que é raro. Mas isso em relação aos colecionadores. Porque o comprador de disco de vinil vulgar não está olhar isso, quer ouvir a música e pronto, compra mais por curiosidade. Mas os colecionadores mesmo que chegam a dar fortunas por um disco, esses dão valor a isso.
I: E a minha pergunta, por acaso, a seguir vinha de encontro com isso que é como é que descreve o público que consome os discos de vinil? Que tipos de público?
V: A diferença entre os potenciais compradores é grande, muito grande. E consiste no seguinte: há os colecionadores que estão informados e que procuram objetos raros e simbólicos e que não estão a olhar a custos. Adquiriu, custa x, pagou. Há outro comprador que é o comprador curioso que ouviu falar naquele disco e tal e vai ouvir, isso mais concretamente à juventude. Fundamentalmente é essa a diferença.
I: E em termos de gostos? O que é que as pessoas que procuram discos gostam?
V: É muito variado e tem também a ver com as faixas etárias. Por exemplo, a juventude que não é do tempo do vinil porque o vinil em Portugal terminou em 1992, quando apareceu em força o CD em Portugal, embora lá fora continuasse sempre a sair vinil e tal. E o vinil, houve uma fase aí que toda a gente queria se despachar do vinil, o vinil acabou, morreu.
Mas depois, com o ressurgimento do turismo, os turistas começaram a procurar vinil em Portugal e isso despertou a curiosidade… Começaram-se a abrir lojas de vinil usado, lojas específicas, não estou a falar em adeleiros e essas coisas, lojas específicas de vinil usado. Porquê? Porque tem mercado. E isso surge com o turismo. Porque depois lá fora, fábricas, concretamente em Espanha, no Brasil, que eu tenha conhecimento, fábricas que tinham fechado de vinil, reabriram e estão a laborar em grande intensidade na fabricação de discos de vinil porque ainda há bandas que preferem gravar em vinil.
Para as editoras é melhor ser o CD porque em termos econômicos é muito mais fácil para eles, mas para o artista e para a banda em si, preferem gravar em vinil porque é um objeto místico e culto e, portanto, preferem gravar em vinil.
I: E em termos demográficos, de idades e género, o seu público como é que é?
V: É também muito diversificado, porque eu tenho clientes específicos para um determinado grupo. Portanto, tenho clientes que vem aqui e procuram música funk, soul- funk. Tenho outros que procuram rock progressivo, tenho outros que procuram house e técnico e hip-hop e reggae. É muito variado. Depois, o que eu noto muito, e é mais assim na juventude, é o Hip-Hop e Rock alternativo que é o que eles procuram mais. Depois, a nível de DJs é mais House e Techno. Depois tenho alguns clientes que procuram música Funk e Soul mas é daqueles discos da Motown que é uma gravadora americana de referência na área do Soul-Funk. E depois também tenho clientes que procuram Jazz mas é uma faixa etária mais… de mais anos. Fundamentalmente o que se procura, o que se vende mais aqui na loja, é New Wave, Funk, Rock Alternativo. Fundamentalmente é isso.
I: Na sua opinião, de que forma os meios online, a internet, têm influenciado o negócio dos discos de vinil e o consumo dos mesmos?
V: É um meio de divulgação. É muito bom, não é? As pessoas começam a colocar os seus posts no Facebook com as músicas de determinadas bandas, que se não fosse assim as pessoas nem conheciam, e com áudio que começa a ser divulgado. E depois começa a haver procura: “Eu ouvi esta música assim e assim de tal fulano e tem esse disco aí?” É nessa base que é interessante.
I: E de que forma é que especificamente a sua loja procura atrair, se procura atrair de alguma forma, com alguma estratégia, publicidade?
V: Eu utilizo muito a internet para divulgar a loja e semanalmente, todas as segundas-feiras, é colocado na página da loja no Facebook a newsletter semanal. São trinta discos de géneros e estilos diferentes que, digamos assim, são as aquisições recentes que entraram na loja. E acontece que o que está na internet é para todo o mundo que tenha acesso à internet e eu tenho recebido contactos do Japão, por exemplo. Eu já recebi do Japão um médico japonês que me enviou uma lista: “Ah, eu estive a ver na sua newsletter e tal. Mas, tem lá pouca coisa de música clássica. Terá este disco assim e assim?” Então eu enviou-me uma lista e dessa lista eu tinha-os todos. E enviei para lá para o Japão.
I: Então considera que também existe esta parte da globalização? Já que pode enviar para outros países?
V: Exatamente. E também em função da Internet, têm vindo cá clientes da Ásia China, Japão… - que vêm cá por intermédio da internet. Portanto, em relação a essa área, é mais música clássica. Portanto, a China e o Japão procuram muito isso. E pronto realmente é isso que a publicação da newsletter permite chegar a um vasto público.
I: E a nível, por exemplo, fora do online, há alguma forma que procura atrair clientes?
V: Sim, todos os sábados eu estou no Mercado Porto Belo. O Mercado Porto Belo, digamos, é uma réplica do PortoBello Road em Notting Hill, em que é uma rua de antiquários que ao sábado fecham a rua ao trânsito e os lojistas vendem todos os seus artigos na rua e transformam a rua numa feira, uma feira muito importante, não sei se conhece. E portanto há um casal português que viveu lá quinze anos e quando chegaram ao Porto eles associaram Porto-PortoBello. Acharam a ideia interessante e apresentaram o projeto à câmara. Foram as primeiras feiras que se começaram a fazer na cidade do Porto. Ainda hoje se mantém, fez no sábado precisamente dez anos e eu sou, presentemente, o mais antigo lá na feira porque me mantive fiel à palavra de que eu faço a feira e estou lá. Então, eu faço esse mercado mais na perspetiva de divulgar a loja. Levo os cartões da loja, flyers, distribuo e tenho tido retorno, claro.
I: E considera que, por exemplo, nós falamos há bocado de emoção, considera que sentimentos como nostalgia e saudade influenciam a compra e motivam a compra?
V: Sim, também, também.
I: De que forma é que vê isso?
V: Aqui na loja não noto isso. Mas, por exemplo, lá no mercado eu tenho os discos expostos e as pessoas passam e dizem: “Ei, olha os Abba!”, pessoas já assim de meia idade, “É os Abba, eu gosto tanto dos Abba e tal!”. Param, veem o disco e compram só porque viram a capa e relembraram-se. Lá está a nostalgia. É um caso curioso.
Quando vêm aqui à loja, já vêm com uma ideia definida, já sabem o que é que querem, nem sequer se dão ao trabalho de procurar. “Têm aqui isto? Têm? Então pronto.”
I: Mas de alguma forma acha que é motivado por alguma memória? Ou de algo que sentem falta e por isso vêm cá especificamente para isso?
V: Sim, há clientes desses que gostavam de ter aquele disco daquela música que eles ouviram durante muitos anos e gostavam de o ter. E vêm cá a ver se têm se não têm. No mercado já não é assim. No mercado já é mais pela exposição. Por exemplo, um caso curioso, numa ocasião, já lá vão três, quatro anos… A minha banca lá no mercado está numa curva e quem vem de carro, ao fazer a curva, claro que reduz a velocidade e tem tendência a olhar. E acontece que eu tenho os discos expostos, o indivíduo parou mais à frente, estacionou o carro e veio comprar aqueles discos só porque viu as capas. Isso é um dado curioso. Outros vão a passar e veem e tal e é um pouco pelas capas a chamar a atenção. Isto no mercado, na loja já funciona diferente.
Na loja as pessoas vêm cá, já procuram o que é que há, ou então já trazem uma ideia pré-definida. Por exemplo, ontem apareceu-me cá um senhor de sessenta e poucos anos, trazia uma lista enorme e pergunta-me “Têm este? Este? Este?” e eu “Tenho sim, senhora.” e ele levou-me cinco discos.
Eu costumo contar sempre que me entrevistam eu faço sempre referência a isto porque acho uma piada. Há um realizador de cinema da cidade do Porto muito conceituado e estava a fazer umas filmagens, ia fazer uma curta-metragem sobre o cotidiano da cidade do Porto. E então acontece que, a menina não sabe, mas eu vou lhe dizer, que na cidade do Porto, assim em Lisboa também, há determinados cantores que por uma razão ou por outra tornaram-se simbólicos e nós tínhamos cá na cidade do Porto, embora eles vivessem em Gaia, um cantor humorista chamado Neca Rafael que cantava
com a boca de lado. E era um senhor assim já com uma idade já avançada…
E então esse senhor, queria filmar o que se passava no Porto e tal, e então queria uma música desse cantor Neca Rafael e essa música, essa canção, a letra da canção retrata muito bem o cotidiano do povo do Porto. E o senhor conhecia a música mas não sabia o nome da canção e sabia que era o Neca Rafael. E andou pelas lojas e, claro, ninguém sabia quem era o Neca Rafael, esta juventude não sabe quem é o Neca Rafael. E depois alguém lhe disse “Vá lá à Vinyl Disc que de certeza eles sabem.” E ele veio aqui, apresentou-se e disse-me “Olhe, eu procuro uma música assim, assim e assim, mas eu não sei o nome da canção.” Eu disse-lhe “O disco que o senhor quer é um disco que é de uma família do Porto que no domingo foram todos passear, a sogra, o genro, a filha, os netos… E foram ao Senhor da Pedra e depois a sogra foi para os rochedos, o genro aproveitou-se e fez com que a sogra caísse do rochedo. Ele disse “É isso!” e eu disse-lhe “Eu tenho aqui muita coisa do Neca Rafael, mas não tenho esse disco que você quer. Mas dentro de dois dias eu tenho já o disco comigo, porque eu tenho o armazém e tenho isso em armazém. E o homem ficou assim a olhar para mim “Olhe eu fui a… e ninguém nem sequer sabia quem era o Neca Rafael e o senhor diz que tem discos do Neca Rafael? Eu estou abismado. Passado dois dias, telefonei, ele veio cá buscar o disco, ouviu… O homem ficou encantado. Estive com ele, fui ouví-lo, confirmou que era isso que ele queria… E depois, passado uns tempos, estou a secar um regador de Lisboa e ele disse: “Foi este senhor que salvou o filme, porque não encontrávamos a música para a banda sonora e ele conseguiu.”
É um pequeno pormenor, não passa disso, mas é interessante, primeiro porque os conhecimentos que eu tenho são vastos na música e não sei tudo, mas sei uma quantia acima da média. E então acontece que presto-me para estas coisas. Mas tenho muitas histórias para contar do que se passa aqui.
Uma vez chegou um senhor que era sargento da GNR lá do Carmo e apareceu-me e disse-me: “Olhe, eu queria um disco assim que ouvi na rádio mas eu não sei quem é que canta.” e eu perguntei “E qual é a música?”, ele disse “É a Malagueña”. Mas a Malagueña têm muitas versões. E diz ele assim: “Olhe, mas é este assim e assim”, deu-me os pormenores e eu já sei quem é e disse: “Venha cá no dia tal que já tem o disco.” E eu fui
ao armazém e tinha lá o disco, a versão que ele queria, pus a tocar e ele disse: “Oh, é esse!”. São esse pormenores que são interessantes.
E tenho recebido muitos elogios nesse sentido porque as pessoas quando pensam que não é fácil de encontrar e acabam por encontrar aqui porque esta loja distingue-se de todas as outras porque esta loja é genérica, tem desde a música portuguesa, passando pela música anglo-saxónica, passando pela música da américa central, américa latina, têm de tudo. Até música do Japão tem aqui. E pronto, as pessoas vêm aqui e ficam satisfeitas e eu fico contente por saber que as pessoas ficam satisfeitas.
I: E acha que também muito da experiência da pessoa passa pela motivação de comprar vinil?
V: Sim, sim. Porque é muito importante, eu aprendi à minha custa e cheguei à conclusão de que é muito importante o diálogo. Porque se chegar um cliente e começar a mexer nos discos e está a mexer nos discos e está ali um certo tempo e não sai dali e vai- se embora e isso é mau. Eu aproximo-me dele e tento começar um diálogo com ele e muitas vezes ajudo porque ele quer algo mas não sabe o que é que quer. Quer comprar qualquer coisa mas não sabe o que é que quer. E muitas vezes a minha ajuda é importante. Por exemplo, uma vez vieram cá um casal de meia idade da África do Sul, estavam cá de passagem, eles são sul-africanos mas ela é de origem portuguesa, mas já nasceu na África de Sul, ela: “Ah, mas nós queríamos levar um disco de Fado, mas não conhecemos nada.” e eu disse-lhe assim: “Olhe, há duas referências no Fado, temos a Amália Rodrigues que é a queen of the Fado e temos Alfredo Marceneiro que é da mesma época mas são de estilos diferentes. Depois há outros fadistas contemporâneos que deram continuidade ao Fado.” E diz assim ela: “Não interessa se é a Amália, se é a Maria, não interessa. Escolha-me um disco de facto você goste que seja muito bonito.” Deu-me essa liberdade e um dos fadistas que eu admiro muito é o Fernando Farinha e pus-lhe a tocar Fernando Farinha e a senhora ficou encantada.
Quer dizer, e eu sinto-me realizado porque consigo ir de encontro ao que as pessoas querem. Se sugerisse aquilo e a pessoa dissesse “Ah não é isso que eu quero.”, afinal, assim não há sintonia, não é? Eu acabo por acertar… Por exemplo, uma vez tive… eram ingleses e queriam discos instrumental mas com a guitarra portuguesa e eu lembrei-me
de Carlos Paredes que é das melhores coisas que temos. Pus a tocar e eles ficaram: “É mesmo isso que nós queremos”. Podia por outros, eu fui tentar buscar o melhor. E pronto, eles ficaram encantados.
I: Então é muito relacional também?
V: Sim, acho que o bom relacionamento com os clientes é muito importante. Há clientes que não gostam de ser incomodados, mas eu estou aqui e apercebo-me como é que eu devo abordar, não é?
I: E para si, por exemplo, como é que tem sido a sua experiência, como uma pessoa que vende discos de vinil, como é que vê em relação aos outros meios de reprodução de música e assim, para si o que é que significa ser assim diferente em relação ao que existe por aí?
V: É ter uma coleção realmente eclética para que as pessoas saibam… Há aqui lojas no Porto, sem citar nomes, que são especificamente de uma determinada área. Há outras que são muito boas lojas, têm boa apresentação, as pessoas são super simpáticas, mas música portuguesa não têm quase nada e não têm grande oferta. E isso é mau. E esta loja, como acabei de dizer, é uma loja que tem tudo, desde música portuguesa, passando pelo rock, passando pelo fado, passando pelo jazz, entende? Passando pela música eletrónica, portanto, tem de tudo para todos os gostos e isso é que é importante.
I: Então é assim que se distingue em relação aos outros?
V: Exatamente, é pela diversidade do artigo que tenho exposto, isso é muito importante. Porque se tiver, por exemplo, só metal, quer dizer, quem não gosta de metal nem interessa ir.
Por exemplo, eu tenho clientes que me são indicados por outras lojas. Porque? Porque eles vão lá mas depois querem coisas mais genéricas e eles não têm então mandam-nos vir aqui. Eu não sei se a menina teve a ocasião de ir visitar a nossa página no Facebook. Tem lá uma série de pontos de vistas, de críticas, de clientes mas é o melhor que podia dizer da loja, não é?
I: Sim, pronto, são todas as perguntas que eu tinha, então queria agradecer, obrigada pelo seu tempo.