O abastecimento de água ao domicílio, o saneamento e o aquecimento foram as infra-estruturas com maior influência na criação de um patamar mínimo do conforto doméstico operário. Esse estabelecimento foi facilitado pela expansão das redes urbanas e vulgarização de aparelhos e acessórios cuja difusão em escala provocou o seu embaratecimento. Na retaguarda esteve um processo generalizado de democratização das comodidades que conduzirá, por exemplo, o Institut National 116SAMBRÍCIO, Carlos – “Introducción”. In, SAMBRICIO, Carlos, coord. – Un siglo de vivienda social (1903-2003). Tomo I. Madrid: Editorial Nerea, 2003, p. 26
69 de la Statistique et des Études Économiques a parametrizar em 1946 algumas condições fundamentais para salvaguardar padrões mínimos de habitabilidade. Exigia-se que cada domicílio tivesse uma cozinha, um quarto de banho e um sanitário, devidamente ligados às redes de electricidade, gás, água e esgotos. 117 Essa necessidade de retirar alguma ambiguidade à noção de conforto, com a inerente reavaliação do significado do supérfluo ou luxuoso, não é alheia à reformulação da habitação das massas do pós-guerra.
Mas, antes de se constituir esse direito social do conforto, o progresso tecnológico das facilidades domésticas foi um exclusivo aristocrático e burguês que definia, a partir daí, uma “vision artistique, bon goût, propreté e distinction du corps, une valeur quasi morale”.118 Esse múltiplo sentido que a casa burguesa toma será alvo do desejo das classes inferiores, cumprido, em parte, pela aproximação que durante o princípio do século XX se desenvolve em direcção aos padrões médios da casa corrente burguesa de rendimento.
Conforme se reclamava em 1933 na revista Cerâmica e Edificação, os duvidosos acabamentos, os fracos materiais, a deficiente ventilação e iluminação das instalações sanitárias, “tudo isso é intolerável, e até as pessoas menos ricas devem pugnar por possuir luz e ar, nessas prosaicas mas indispensáveis divisões, pavimentos impermeáveis e peças de bom fabrico que sejam de facto sanitárias.”119 Neste caso, seria errado aplicar o critério de poupança pois a deficiência de tais instalações obrigava “a gastar contos de réis com doenças que uma boa higiene teria evitado”. O artigo, focado no “quarto de banho”, esboça algumas vantagens modernas como sejam: a aplicação de azulejos côncavos em cantos verticais e horizontais “onde possam refugiar-se poeiras, e que permitam limpeza fácil e radical, diária”; o uso de banheiras de louça “solidamente assentes sobre seu próprio rebordo”; as pinturas de cor branca “embora possa alternar, às vezes com cores 117 LE GOFF, Olivier – L’invention du confort. Naissance d’une forme sociale. Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 1994, p. 53
118 PINÇON-CHARLOT, Monique – “Olivier Le Goff. – L’invention du confort. Naissance d’une forme sociale”. In, Revue française de sociologie. Nº 37-1. Paris: Presses de Sciences Po, 1996, p.136
119 “Casas interiores e jardins. Casas de banho”. In, Revista Cerâmica e Edificação. Ano I, nº 7, Julho de 1933, p. 155
Fig. 9: Bairro da Fábrica de Cerâmica Lusitânia. Coimbra, 1933. [Revista Cerâmica e Edificação, nº 5, Maio 1933, p. 118]
Fig. 10: Solução para as últimas casas da Colónia Estevão de Vasconcelos. Rua da Carcereira, Porto, 1922. [AHMP]
71 claras, contando que o todo resulte harmonioso, e seja realçado pelo brilho alegre dos metais”; ou, a utilização de vidro em diversos acessórios. O autor concluiria o texto louvando “a transparência dos vidros reflectindo os encaixes vidrados, e placas niqueladas [que] deve completar, com espelhos bons [...] esse conjunto atraente e indispensável, que com tão justificado orgulho chamamos O Conforto Moderno”.120 Encontra-se aqui toda uma adjectivação brilhante e transparente cara à arquitectura diáfana perseguida pelos modernistas. Para o quotidiano doméstico das classes baixas a primeira melhoria introduzida foi a substituição das latrinas de madeira por retrete sifonada com autoclismo. Este progresso notável passou a proporcionar boa convivência entre as funções nobres, as de dejecção e o banho. Graças à tecnologia dos sifões acelerou-se uma reconfiguração do espaço doméstico tornando mais críticas as estratégias para reduzir ao mínimo a superfície útil da casa. Não seria o caso de um bairro mandado construir pela Fábrica de Cerâmica Lusitânia em Coimbra. A julgar pela grandeza da representação das louças e revestimentos, e a despropositada equiparação da área do quarto banho aos restantes espaços, conclui-se que a irracionalidade da proposta adviesse da generosidade da própria indústria promotora disponibilizando grande parte do seu catálogo de produtos. Na habitação económica promovida pela Administração Pública observa-se que, até aos anos de 1930, raras eram as situações de interioridade da sanita e autonomia do espaço dedicado ao banho. A latrina era um reduto exíguo e isolado para guarda exclusiva da sanita e a ablução do corpo era garantida por recipiente móvel, mais ou menos complexo, estacionado na cozinha, coração do quotidiano operário dentro de portas.121 Sucedeu que nas habitações construídas nas últimas fases de algumas Colónias Operárias do Porto essa tendência não se confirmou. Em particular, na Estevão de Vasconcelos [BHP_12], iniciada em 1916 e pensada ampliar em 1922, os dois tipos usados foram actualizados para que existisse um banho com
120 Ibidem
121 Para uma leitura mais avançada sobre a situação em Portugal consultar: PEREIRA, Ana Leonor, PITA, João Rui – “A higiene: da higiene das habitações ao asseio pessoal”. In, MATTOSO, José, dir.; VAQUINHAS, Irene, coord. – História da Vida Privada em Portugal. A Época Contemporânea. Lisboa: Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2011, pp. 92-116
lavatório e duche integrado na restante compartimentação. É um simples facto que prenunciou alterações significativas na organização espacial da casa pela necessidade de mediar zonas de água tendencialmente mais dispersas, compensar o agravamento das áreas de distribuição e reservar área de fachada para garantir ventilação directa. Paralelamente, nota-se um maior apetrechamento da cozinha para além das vulgares pia e chaminé. Em 1919, aquando da construção do Bairro Social da Arrábida [BHP_4], foram solicitados setenta e cinco fogões a carvão a uma serralharia da Rua do Bonjardim para equipar de base esse espaço e, provavelmente, completar o terminal aí instalado da rede de abastecimento de água.122 Este género de preocupação também se encontra no exemplo filantrópico do Bairro Operário do Monte Pedral [BHP_1] de 1899 ou na iniciativa camarária do Bloco do Duque de Saldanha [BHP_22] de 1937. Em ambos os casos, por vias distintas, as experiências foram criticadas com base na onerosidade do custo da construção.
Ao invés, perante a parafernália de dispositivos espaciais e técnicos, a casa burguesa revela maior espessura e densidade para a verificação da transformação da arquitectura da casa por via das novas condições culturais e materiais induzidas largamente pelos preceitos higienistas. Aí se reúnem os requisitos económicos e o interesse cultural para se emancipar em novas soluções espaciais o conjunto de inovações oriundas da engenharia sanitária. A produção industrializada de novos artefactos abreviou o esforço do corpo criando, a partir dessa ideia de progresso técnico, novos padrões de bem-estar material. Na descrição que Eça de Queiroz faz do nº 202 do Champs Elysées, da Paris da segunda metade de Oitocentos, pode ser encontrada essa casa repleta de maquinaria. Entre outros progressos, na habitação queirosiana existia elevador, calorífero regulado, vaporizadores aromatizados, telefone, dois ascensores de quente e frio que da copa iam à cozinha e à cave, iluminação eléctrica e todos os novos dispositivos espaciais dos modelos
122 Carta datada de 19 de Dezembro de 1919, dirigida por Manuel Teixeira Pinto Ribeiro ao Engenheiro Gaudêncio Pacheco, na sua qualidade de Comissário do Governo no Porto para a Construção de Casas Económicas, para regularização de facturação. [AFS]
73 divulgados por Robert Kerr para a Gentleman’s house123 na mesma época em que decorre o conto de Eça.
E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o 202! [...] Sim, há confortos... Mas ainda falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada. [A estas vantagens sacrificava o prazer de beber água porque estavam] as águas da Cidade, contaminadas, atulhadas de micróbios.124
Conforme se escreve, a ideia de civilização liga-se à imagem da grande cidade “com todos os seus vastos órgãos funcionando poderosamente”.125 Combina-se com as massas austeras dos bancos e das bibliotecas, dos armazéns e das fábricas, “fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fula atroante dos omnibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando”.126
Estabeleceu-se entre a cidade e a casa um canal de fluxos bidireccionais que supõem uma origem, um meio de transporte e um receptor: é o caso do tratamento de esgotos, da energia e da água. A chegada à casa dessas infra-estruturas, o consequente atravancamento espacial dessas redes, e a necessidade de instalação dos equipamentos terminais em espaços específicos, exigirá adequações significativas do funcionamento interior da habitação. O compartimento mais elaborado da habitação do nº 202 era o banho: “Nestes mármores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival”.127 O apetrechamento radical dependia de tecnologia que se estabilizaria mais tarde, por isso, na sequência do 123 KERR, John – The gentleman’s house. London: John Murray, 1871
124 QUEIROZ, Eça de – A cidade e as serras. Porto: Livraria Chardron, 1901, p. 57 125 Idem, p. 10
126 Idem, p. 11 127 Idem, p. 68
Fig. 11: Dispositivos técnicos do banho veiculados em 1890 em Paris. [La Construction Moderne. Decembre 1890, p.130]
75 aparatoso acidente com as canalizações, a personagem reclamava que ”[...] esta nossa indústria!... Que impotência, que impotência! Pela segunda vez este desastre! E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo”.128
A metáfora do canalizador usada pelo arquitecto Adolf Loos (1870-1933) ilustra esse novo universo de contradições à procura de uma nova racionalidade:
Era possível imaginar perfeitamente o nosso século sem marceneiros: usaríamos móveis metálicos. Do mesmo modo podíamos evitar o pedreiro: o técnico de betão tomaria a seu cargo esse trabalho. Mas, sem o canalizador não haveria século XIX.
Ele deixou a sua marca, tornou-se indispensável. E, contudo, temos que o designar em francês. Chamamos-lhe o ‘installateur’.129
Tomando o artigo de Loos, Ignasi de Solà- Morales remete-o para um processo mais abrangente no âmbito da leitura da cultura arquitectónica de transição de século: “The model of the plumber is, in this sense, symptomatic of a form of periphrastic approximation using mediations, indices, imprecise metaphors, elliptical protocols”.130 Ou seja, corresponde a uma apologia da estética funcional de artefactos do quotidiano tecnicamente actualizados, úteis e desornamentados, colocados em relação com as necessidades modernas do corpo. No caso da água, as redes de tubagens tomam o protagonismo do progresso, mais que as ostensivas fontes e cascatas que decoram as grandes exposições.131 Refere Solà-Morales: The Loosian plumber, but also the shoemaker or the tailor, do not reappear solely as figures of the Viennese fin-de-siècle crisis confronting ancients and moderns, but as
128 A essa falha somar-se-ia a da iluminação eléctrica que obrigaria Jacinto “a mandar buscar um engenheiro à Companhia Central de Electricidade Doméstica [...] No entanto, Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores – as torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos”. In, QUEIROZ, Eça de – A cidade e as serras. Porto: Livraria Chardron, 1901, p.100
129 LOO, Adolf – Dicho en el Vacio, 1897-1900. Valência: Colegio Oficial/ Aparejadores y Arquitectos Técnicos Murcia, 1984 [1921], p. 105 e 109
130 SOLÀ-MORALES, Ignasi de – “Incorporations”. In, LAHIJI, Nadir, FRIEDMAN, D. S., coord. – Plumbing. Sounding modern architecture. New York: Princeton Architectural Press, 1997, p. 5
131 Expressão retirada da critica efectuada por Le Corbusier à Exposição de Artes Decorativas de Paris, em 1925. Cf. LE CORBUSIER – The decorative art of today. Cambridge: MIT Press, 1987 [1925], p.134
referents of potential discourses on an architecture aiming at the subjects’ corporeal materiality and their way of interpreting reality.132
A chegada do canalizador representa o problema da adaptação de um organismo preexistente a mudanças de intensidade variável num processo conducente à racionalização do espaço e aos seus processos de construção. O problema implícito neste artigo de Loos publicado em 1898 remete, igualmente, para uma cultura do limpo e do sujo tripartida entre a tradição do conforto germânica, francesa e inglesa, identificável nos hábitos de higiene, na forma de habitar e no reportório técnico utilizado.
Na gama de habitação urbana referente ao espaço doméstico burguês, ávida de novidades tecnológicas e civilizacionais, eram verificáveis dois tipos de fenómenos, ambos entroncados na vaga higienista de Oitocentos: um, técnico, ligado à instalação e manipulação de novos dispositivos domésticos conectados à crescente diversidade de fluxos infra-estruturais urbanos, dominados pela engenharia sanitária; outro, social, baseado na cultura do limpo, identificável no apuramento das rotinas de limpeza doméstica, na disciplina relacional e no robustecimento físico do indivíduo, na ritualização de hábitos de higiene e na consagração dos seus espaços. No caso da habitação para a burguesia portuense pode ser confirmada parte destas novas condicionantes pelo estudo que Nelson Mota fez para alguns palacetes de transição de século.133 Não se trata da definição de uma moral constituída à volta da família, logo da concepção do espaço doméstico sob o efeito da protecção do lar e da intimidade. As mudanças operadas no desenho da casa estendem-se a outros domínios relacionados com a industrialização de elementos constructivos e equipamentos. Alguns espaços chamam a si as técnicas mais avançadas relativas ao controle dos odores nos water closet e nas cozinhas, ou absorvem sofisticadas redes
132 SOLÀ-MORALES, Ignasi de, op. cit, p. 5
133 MOTA, Nelson Jorge Amorim – A Arquitectura do Quotidiano - Público e privado no espaço doméstico da burguesia portuense nos finais do século XIX. Dissertação de Mestrado em Arquitectura, Território e Memória. Coimbra: Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, 2006, p. 71
77 de aquecimento e iluminação. A este propósito, Bento de Sousa Carqueja (1860- 1935), no seu livro A sciencia e a indústria em nossas casas, de 1912, expõe:
Em muitas habitações usa-se também, para aquecimento, a circulação de vapor ou água quente em canos especiais que circulam por toda a habitação, tendo, de onde a onde, uns aparelhos formados por uma série de tubos de larga superfície, nos quais o vapor ou a água quente se acumulam, chamados irradiadores, para espalharem o calor pelos diversos aposentos.134
Explica ainda que é na comparação com o anterior uso da iluminação com azeite que se percebe “a comodidade das nossas luzes de hoje, quer a luz incandescente do gás, quer a luz eléctrica, é que vemos a impertinência e a falta de asseio que tanto atormentavam os nossos avós, quando estudavam e liam com tal luz”.135
Outros aspectos são referidos no estudo, tais como a propensão da burguesia inglesa em se implantar a ocidente da cidade ao sabor das correntes de ar atlânticas e próxima dos banhos de mar, ou a sofisticação de compartimentos especializados para incorporar a ritualização da higiene do corpo. Neste último caso, o abastecimento pressurizado da água obrigará a uma gradual adequação tipológica de modo a incluir no interior das habitações as instalações dedicadas exclusivamente ao banho e à retrete. Sobre estes espaços da intimidade, Georges Vigarello observa:
[...] viene ostentato e si afferma un piacere. Quello di un’acqua fornita a volontà e condotta meccanicamente nei luoghi più ‘privati’, più dell’appartamento. È quello di un bagno divenuto esplicitamente luogo di intimità. Esso inscrive, nel quadro della vita, l’espressione borghese della sfera privata. 136
No livro Maneira de ter uma casa saudável, o autor-médico adverte para a forma como se deve considerar o papel do arquitecto em matéria de redes de esgoto e ventilação.
134 CARQUEJA, Bento – A sciencia e a indústria em nossas casas. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1912, p. 37
135 Idem, p. 51
136 VIGARELLO, Georges – “Lo spazio intimo della sala da bagno”. In, TEYSSOT, Georges, coord. – Il progetto domestico. Milano: Electa Editrice/ Triennale di Milano, 1986, p.160
Fig. 12: Dispositivos técnicos de banho comercializados em 1910 no Porto. [Catálogo Illustrado. Porto: Tipografia Santos, 1910]
79 Queixam-se frequentemente os canalizadores de serem obrigados a executar o que o arquitecto especifica que se deve fazer numa casa, e de que alguns arquitectos fazem planos de canalização, privadas e outros cómodos mal delineados e caídos em desuso, de tal ordem que merecem o desprezo dos canalizadores. [...] de maneira que quando a gente censura o canalizador, é preciso ter certeza de que o próprio arquitecto não merece igual ou ainda maior parte da censura por motivo de deficiente saneamento.137 Com a sofisticação dos acessórios e dos tubos, a banheira viaja pela casa afastando- se cada vez mais da cozinha – ponto estratégico de chegada dessas novas infra- estruturas. A água quente sobe até ao último reduto da privacidade estabelecendo, por fim, a complexa interdependência entre a área de dormir e, num último momento, as diversas funções especializadas ligadas à ablução.