gradação também possui características do subsistema de engajamento, pois quando o produtor textual institui uma escala gradual de elementos e eventos no enunciado, também se utiliza da gradação para apresentar e/ou argumentar a proposição apresentada.
Nesse sentido, os autores acrescentam que
A semântica da graduação, portanto, é central para o sistema da avaliatividade. Pode-se dizer que a atitude e o engajamento são domínios de gradação que diferem de acordo com a natureza dos significados que estão sendo escalados. Esta seção fornece um esboço dos recursos lexicogramaticais porque a gradação é realizada e uma discussão a partir de alguns dos efeitos dialógicos centrais, associados com aumento ou diminuição (MARTIN; WHITE, 2005, p. 136). 24
A gradação, como se pode perceber, está inscrita nos dois principais estratos da linguagem propostos por Halliday e Matthiessen (2004): lexicogramatical e semântico- discursivo, sendo esse último o responsável pelo significado escalar e semântico do enunciado produzido.
O sistema de gradação possui duas subdivisões: força e foco. Esses subsistemas servem para graduar a partir de escalas de intensidade, quantificação, aumento ou diminuição, qualidades, processos e categorias semânticas, conforme observamos na figura 10:
Fonte: Traduzido e adaptado de Martin; White (2005, p. 138)
A partir da figura 10, podemos visualizar a divisão que se tem da gradação, como já dito, em seus outros dois subsistemas que, também, tem suas subdivisões, utilizados para
24 The semantics of graduation, therefore, is central to the appraisal system. It might be said that attitude and
engagement are domains of graduation which differ according to the nature of the meanings being scaled. This section provides an outline of the lexicogrammatical resources by which graduation is realised and a discussion of some of the key dialogistic effects associated with this up-scaling/down-scaling (MARTIN; WHITE, 2005, p. 136).
graduarmos ou intensificarmos as avaliações presentes em nossas produções. Nesse sentido, é importante detalhar cada um desses subsistemas.
O foco, de acordo com Martin e White (2005, p. 137) é aplicável a partir de uma perspectiva experiencial perceptível a partir da acentuação ou atenuação de algo menos “autêntico” na categoria. Essas categorias menos autênticas são delimitadas a partir de experiências, combinadas a partir das condições e necessidades de cada ser; é impossível, nesse subsistema, dizer que algo é “mais ou menos” graduável, pois vem de uma característica semântico-taxonômica experiencial. Vejamos o exemplo:
(11) Essa postura é contraditória porque o documento menciona a importância de tratar a norma-padrão, dentro de uma perspectiva de diversidade linguística. OK, ninguém está propondo que a norma-padrão seja considerada o único uso possível da língua e o único “correto”. Contudo, fica difícil você ensinar a norma-padrão sem entrar em certos conteúdos básicos, como acentuação, ortografia, pontuação, crase, flexão dos nomes (por exemplo, saber que o plural de cidadão é cidadãos, de acordo com a norma), concordância verbal (por exemplo, saber que, de acordo com a norma, deve-se dizer “Houve problemas”, em vez de “Houveram problemas”), entre outros casos (TEINF032_20161013, grifo nosso).
No exemplo 11, vemos que em “certos conteúdos básicos”, o termo “menos” representa a categoria semântica a ser graduada como foco - atenuação daquilo que já é apresentado como prototípico, sem possibilidade de escala, com pouca autenticidade, por isso é dado como foco. Dessa forma, se é difícil de ensinar a norma padrão sem entrar em alguns conteúdos básicos importantes, seria impossível ensiná-la, experiencialmente falando, de qualquer forma.
Entretanto, ainda é possível, a partir do foco, atenuar ou acentuar os graus da forma experiencial presente em nossas produções. Cada uma delas têm características de autenticidade para que, na nossa comunicação, a linguagem seja utilizada de forma que transpareça credibilidade aos nossos interlocutores.
A gradação foco do tipo acentuação, de acordo Martin e White (2005), indicam uma categoria semântica essencialmente verdadeira, acentuada com elevado grau de autenticidade. Para isso, segundo Souza (2010, p. 201), algumas locuções são utilizadas, tais como: puro, verdade, de verdade, legítimo, genuíno, real, dentre outros com o mesmo caráter de verdade. Já a atenuação tenta reduzir o grau “de pertencimento de um item lexical à certa categoria experiencial” (SOUZA, 2010, p. 202), ou seja, o grau de autenticidade, a partir de marcas lexicogramaticais, possuem um grau menor de autenticidade.
Em consonância com o exposto, a gradação também pode graduar como força, isto é, possibilita graduar qualidades através de outras duas subdivisões: intensificação e
quantificação. Vejamos o exemplo 12:
(12) Para os especialistas, a BNC assume um forte campo estratégico nas ações de todos os educadores, bem como gestores de educação do Brasil, embora sua elaboração não seja uma especificidade brasileira (TEINF031_20151105, grifo nosso).
No exemplo 12, vemos a gradação intensificadora ao utilizar o elemento lexicogramatical “forte”, para indicar um grau alto de intensidade. No contexto do enunciado, é graduada a força que a BNC exerce no campo da educação, haja vista que se busca uma estratégia capaz de ter grande força e, consequentemente, de grande impacto para que a nova proposta da BNCC atinja e colabora com as lacunas que a educação brasileira tem, propondo- a a partir das especificidades de cada estado brasileiro, porém com um currículo, em alguns componentes curriculares, unificado.
A primeira busca definir o grau de intensidade utilizado para que os elementos lexicogramaticais indicativos de qualidade cresçam ou diminuam a partir do processo desempenhado na oração. A partir desses recursos avaliativos, ainda podem subdividir-se em fusão, isolamento e repetição.
Entretanto, a quantificação gradua entidades concretas (normalmente, marcadas por substantivos em geral) ou abstratas (substantivos abstratos), subdividindo-se em quantificação, volume/presença (denominada por Marin e White, 2005), extensão, distribuição espacial e proximidade espacial.
Neste trabalho, portanto, buscaremos evidenciar o grau de intensidade presente nos textos do corpus de estudo, bem como podem-se associar às circunstâncias de ângulo e os outros elementos do Sistema de Avaliatividade e quais são as interpretações passíveis dessa análise a respeito da construção de uma BNCC que norteie e ampare toda a educação brasileira.
Na próxima subseção, apresentaremos uma discussão sobre a presença da Linguística de Corpus nas pesquisas de descrição linguística.
Iniciamos esta seção com a seguinte citação, de Berber Sardinha (2004, p. 41), para justificar o trabalho com corpus: