a sociedade dante alighieri em santa Maria. ela tinha por objetivo ensinar a língua italiana e também promover o conhecimento e expressão do canto e da dança italianas na região. posteriormente, após muitos conflitos, essa sociedade se converte na aisM (zanini, 2006).
há um processo contínuo de idas e vindas; essas experiências fin- dam, às vezes, por se tornarem motores do processo migratório, fato que ocorreu com três de nossos entrevistados.
Por Que miGraram os descendentes de imi- Grantes italianos da reGiÃo central do rio Grande do sul?
a pesquisa ainda está em andamento, contudo algo que me- rece ser problematizado neste artigo é a dificuldade que tivemos em chegar a alguns desses emigrados e também do pouco entu- siasmo de alguns deles em nos concederem entrevistas. isto nos levou a refletir acerca das representações históricas individuais, familiares e grupais que esses indivíduos tinham acerca do que seria uma boa trajetória migrantista ou mesmo do que seria a itália que encontrariam e das possíveis relações sociais que po- deriam nela estabelecer.
exemplo disso pode ser observado no seguinte relato de uma entrevistada, oriunda da região central do rio grande do sul, que, embora esteja em boas condições financeiras, ressente-se da falta de amizades no universo italiano:
para mim, ser uma brasileira na itália hoje, falando hoje, até tava conversando com uma guria no telefone antes no trem que é croata e fala português porque o marido dela é italiano mas fala português porque a mãe dele é brasileira e eu disse “eu me sinto muito sozinha aqui”, muito muito muito porque tu não conse- gue ter amizade, se eu preciso de alguma coisa eu vou no com- putador e falo com os meus amigos do brasil, talvez porque eu tenha crescido lá. talvez porque eu tenha todas as minhas ami- zades de infância lá, todo mundo me diz “ah porque as pessoas aqui agora são assim”, o meu marido me diz sempre, tu tem que ver que quando que uma vez aqui as pessoas tinha mais amizade e que agora com essa questão do bem-estar, eu espero que essa crise consiga trazer um pouco do olhar pra outra pessoa porque aqui” te ne frega” como eles dizem, eles não olham pra ninguém. (entrevista realizada em veneza, em 22/05/2012)
Como a imigração italiana no rio grande do sul é altamen- te comparativa em relação às suas colônias e aos desfechos desses processos colonizadores, pode-se supor que um percurso migra-
tório não tão bem-sucedido do ponto de vista econômico fosse algo a não ser partilhado, nem mesmo com pesquisadores, contu- do os maiores ressentimentos observados por meio das entrevistas estão centrados na falta de convívio social satisfatório e no modo como os brasileiros são tratados. também incluí em minhas possi- bilidades interpretativas, o fato de que o processo migrantista pode não ser totalmente prazeroso de ser dividido, não somente quanto aos aspectos econômicos envoltos nas trajetórias, mas, também, quanto aos processos psicológicos de ruptura e de estabelecimento de novas relações sociais, coisa que na itália não é fácil, segundo constatamos pelas entrevistas até então realizadas.
entre os entrevistados, muitos nos relataram que, apesar de possuírem dupla nacionalidade, eram percebidos e tratados como estrangeiros e extracomunitários. o fato de conhecerem a língua e poderem se expressar por meio dela não subtraía o fato de que o sotaque e a pronuncia denunciavam alteridade. a alcu- nha de brasileiros é algo que tem seu ponto negativo na itália, especialmente em relação às emigradas mulheres.
há todo um conjunto de representações com as quais os imi- grantes têm de dialogar ao chegarem ao mundo italiano. além disto, esse mundo não é mais o mundo das origens relatado pelos antepassados. trata-se de um mundo estranho, moderno e pro- vavelmente, mais individualista do que aquele narrado nas me- mórias familiares.
isso nos levou a refletir também acerca das redes de ingres- so entre esses emigrados que estabelecemos: entidades italianas, entidades religiosas, conhecidos, parentes, amigos e pessoas que possuíam os contatos dos emigrados. Como éramos alguém que chegou até eles por meio de fontes conhecidas, poderia haver a sensação de que poderíamos repassar informações àqueles.
um de nossos cuidados ao propor entrevistas foi esclarecer acerca do anonimato e das preocupações éticas que tínhamos com a pesquisa. nenhum nome seria divulgado e as entrevistas poderiam ser lidas e alteradas pelos entrevistados antes de se tor- narem fontes de pesquisa.
outro aspecto que nos instigava era acerca dos motivos para emigrar (objeto de artigo próximo) e também se havia redes de auxílio ou de incentivo à emigração do brasil para a itália. na re- gião central do estado, observou-se que as motivações para emi- grar foram variadas. sendo todos descendentes e alguns tendo dupla cidadania reconhecida, conhecer a itália e ter uma experi-
ência de vida no país era algo instigante.
da mesma forma, o fato de alguns serem membros de enti- dades italianas favoreceu na decisão de migrar. Contudo, não se observou uma rede organizada ou facilitadora do processo mi- gratório. alguns dos emigrados contaram com o apoio de entida- des ligadas à igreja Católica ou das regiões italianas de procedên- cia, mas sempre em caráter temporário e de recepção.
consideraÇÕes Finais
a região central do rio grande do sul, antes receptora de emigrados italianos, hoje tem descendentes que se tornam imi- grantes na itália, fazendo o percurso inverso de seus antepassa- dos. não há um processo massivo de emigração de descendentes de italianos para a itália. trata-se de uma migração continuada, mas de caráter quantitativo menor. não há redes organizadas com finalidades migratórias e nem um movimento expressivo de pessoas, trata-se, antes de um fluxo contínuo, mas sutil.
alguns desses emigrados possuem dupla cidadania (brasi- leira e italiana) reconhecida, outros não, contudo o vínculo com a itália como local de origem dos antepassados é algo comum. nesse aspecto, conhecer tais trajetórias individualizadas revela- se extremamente profícuo. Mapear os percursos e as trajetórias dos descendentes que decidem fazer a travessia era algo que nos impulsionava para a pesquisa, contudo sentimos necessidade de antes conhecer os pontos de partida desses indivíduos.
este artigo objetivou apresentar o contexto histórico-social do qual partiam os emigrados. procurou-se expor também como se processou a imigração italiana nas zonas de origem, como se en- contram esses lugares hoje e também por que migrar se torna uma alternativa viável e possível para alguns. para além de generaliza- ções, procuramos mapear esses pontos de partida e pensar mais amplamente no movimento migratório que deles se processa.
a região central do rio grande do sul não possui uma eco- nomia baseada no comércio e nos serviços, não tendo uma indús- tria consistente, o que faz com que as comparações com a imi- gração italiana para a região serrana do estado, industrializada e altamente competitiva, sejam constantes.
os Municípios membros da iv Colônia de imigração italia- na ainda são notadamente movidos pela agricultura familiar e têm tido uma constante perda de população jovem para os cen-
tros urbanos mais próximos, em especial a cidade de santa Maria, maior polo econômico da região. alguns dos descendentes entre- vistados eram filhos ou netos de moradores das colônias que mi- graram para regiões mais urbanas. a emigração do brasil para a itália, nesse contexto, faz parte também de um histórico familiar de mobilidade, elemento que sempre acompanhou as populações italianas de um modo geral.
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