A cultura familiar pode ser entendida como a responsável por dotar seus membros de uma matriz de identidade e reconhecimento, o que não exclui que ela seja também um espaço de crises, conflitos e tensões. Essa cultura é construída por meio da integração entre os seus membros e do grupo familiar com os grupos com os quais convive na sociedade. Além disso, o cotidiano familiar pode ser entendido como uma categoria abrangente, na qual são expressas as relações do público e do privado. Em uma sociedade capitalista, cujo comércio global produz relações sociais cada vez mais privatizadas e uma esfera pública cada vez menor, é na família que se vai encontrar o desenvolvimento de relações para a formação tanto de consumidores quanto de cidadãos (CANCLINI, 2005).
O consumo está na vida diária do cidadão e implica produção. Comprar, usar, ler, cozinhar, assistir televisão são atos de produção, de cultura. É na cultura da vida cotidiana que os cidadãos desenvolvem táticas e técnicas de resistência e descobrem formas de ressignificar as mensagens recebidas.
Neste estudo, entende-se a família como um espaço social, cultural e de mediação das mensagens do programa Tempo Quente. Nesta perspectiva, adotou-se a concepção operacional de família que contempla múltiplas dimensões. Como Lopes, Borelli e Resende (2002), considerou-se para esta análise do cotidiano familiar: família como comunidade de consumo inserida no mercado de trabalho e de consumo, na qual se gera o sentido do que se tem e do que falta; comunidade estética em que se acomodam as sensações, impulsos e
desejos; comunidade afetiva, local em que se constrói a primeira experiência de alteridade; comunidade de poder, em que autoridade e papéis estão em constante disputa; comunidade de interpretação que funda valores e juízos para as práticas sociais.
Na outra ponta da relação está a televisão, que hoje é parte integrante da vida familiar, pois está presente na rotina diária das famílias. A leitura que a família faz do programa é uma experiência cultural ativa e complexa e produto dos hábitos da família e das experiências de cada um de seus membros.
No tratamento da mediação cotidiano familiar foram analisados: o consumo dos meios; a assistência da programação da televisão e do programa Tempo Quente. Quanto ao consumo dos meios pode-se observar que além do televisor, o rádio é presença constante. No caso da mãe ele é utilizado como acompanhamento das tarefas diárias, logo pela manhã ela já liga o aparelho para ouvir o programa que o apresentador do Tempo Quente, tem na rádio. Assim ela acompanha as notícias policiais primeiro pelo rádio e, na hora do almoço, assiste ao programa pela televisão que apresenta, basicamente, as mesmas notícias, porém acompanhada das imagens. Ela relata: “Gosto de ouvir o Camargo, por isso ligo na Paiquerê para escutar as notícias, depois na hora do almoço a gente vê o programa também”. Nos outros momentos que está em casa ouve programas musicais. Não lê jornais ou revistas, mas relata que gosta muito de ler a bíblia.
Os filhos preferem programas musicais. O mais velho gosta, principalmente, de músicas sertanejas, a filha do meio diz apreciar música internacionais e a mais nova diz que gosta de ouvir de tudo um pouco. Eles também não costumam ler jornais, mas as meninas gostam de revistas que falam sobre os artistas de televisão e o rapaz de gibis. Os poucos CDs que possuem contemplam os gostos musicais dos filhos, mas há também CDs de música Gospel (religiosa) que a mãe gosta. O consumo de música e do rádio ocupa um tempo significativo do lazer da família. A mãe diz preferir que os filhos fiquem em casa ouvindo música do que pelas ruas do bairro, que considera perigoso.
A assistência da televisão faz parte dos hábitos diários da família. A mãe, além do programa Tempo Quente, assiste também às telenovelas. O filho mais velho gosta de filmes e programas de música, mas quando está em casa à noite prefere ouvir música a ver as novelas. As meninas costumam acompanhar a mãe na assistência das novelas, mas gostam também de filmes e programas femininos. Na família quase não se assiste a telejornais sejam locais ou nacionais.
Apesar das diferenças de idade entre seus membros, a família costuma assistir o programa Tempo Quente todos os dias no horário do almoço. Nem sempre todos conseguem
acompanhar o programa inteiro, por causa dos horários de entrada no trabalho, mas quem assiste acaba contando para o outro as notícias. A família na maioria das vezes concorda com as opiniões do apresentador. A mãe diz concordar que bandido tem que ficar na cadeia e que muitas vezes o apresentador diz aquilo ela gostaria de falar, inclusive para as autoridades (polícia e políticos), mas quando Camargo fala do bairro não concorda, porque ele não conhece a realidade deles e, por isso, acaba dizendo bobagens.
O filho mais velho diz que, às vezes, tem a impressão que o apresentador defende mais as ações da polícia, justificando algumas ações que ele acredita tenham sido exageradas. Quando por exemplo a polícia erra e prende um inocente. Também concorda com a mãe que, sobre o bairro, ele fala com preconceito. Para filha do meio, algumas vezes, o apresentador emite opinião sem saber direito os fatos, julgando as pessoas sem saber direito quem elas são e isso é muito ruim. Segundo a mais nova, os comentários e explicações do apresentador ajudam a compreender melhor as notícias e esclarecer as dúvidas que, às vezes, “ficam no ar”.
No momento em que estavam assistindo ao programa, foi possível observar por meio dos gestos e acenos quando concordavam ou discordavam dos comentários do apresentador. Os comentários e a emissão da opinião sobre as notícias, geralmente, ocorriam no momento dos comerciais, as manifestações de discordância aconteciam somente quando o fato se referia ao bairro onde moram.
Como o programa é exibido no horário do almoço a sua assistência se dava juntamente com a refeição. Cada um dos membros da família sentava-se em sua poltrona e equilibrava o prato sobre as pernas para poder comer e ao mesmo tempo assistir ao programa, por isso os comentários também eram poucos, mas a família conversava basicamente sobre as notícias e muito pouco sobre o dia de cada um. As notícias servem também para que a mãe reforce valores, entre eles, que somente com trabalho e comportamento ético se pode vencer na vida. Serve também para reforçar o alerta sobre o perigo das drogas e como elas acabam com a vida das pessoas. Algumas vezes, era possível perceber que os filhos não concordavam inteiramente com a mãe, mas poucas vezes se manifestavam abertamente.
A família também trazia informações complementares às notícias dos dias anteriores, demonstrando que conversavam sobre o programa e suas informações com colegas de trabalho e na escola. Isso demonstra que a recepção se dá ao longo do tempo e nos diversos espaços freqüentados pelos receptores, fazendo, assim, que a mediação ocorra em vários locais. Pôde-se observar que o programa atrai a família que o utiliza como forma de saber o que acontece na cidade, mas por outro lado não assistem aos telejornais locais demonstrando uma preferência pelas notícias do meio policial. A mãe acredita que por meio do programa é
possível também se proteger, saber de que forma os bandidos agem e assim estar melhor preparado para se defender de um eventual assalto ou evitar lugares mostrados como perigosos. Durante o período acompanhado pelo pesquisador, pôde-se perceber também que é constante o medo de emitir opinião sobre a questão da violência e que por meio de olhares os integrantes da família se comunicavam e estabeleciam os limites da fala. Em alguns momentos, pôde-se notar que algumas respostas eram apenas padrão sem refletir mais profundamente o pensamento, parecendo ter sido construída considerando-se o que interlocutor deseja ouvir.
A família, nos momentos em que diz discordar do apresentador, quando ele fala do bairro onde moram, concordando com ele nas outras opiniões, parece desconsiderar que, se ele não conhece a realidade do bairro onde eles moram pode também desconhecer a realidade das outras comunidades sobre as quais fala. O pesquisador pôde observar que, em algumas das vezes em que apareceu a fala sobre o apresentador não conhecer o bairro ou quando ele opina sobre moradores presos, a família concorda com ele, mas se sente como que na obrigação de discordar para manter o sentimento de pertencimento à comunidade. A auto- estima precisa ser preservada mostrando-se que naquela comunidade a maioria das pessoas são trabalhadoras, honestas e dignas. Assim parece ser resgatado e mantido o sentimento de pertença.