• Aucun résultat trouvé

I.5 Et les ondes ´ evanescentes ? Une premi` ere exp´ erience de focalisation sub-longueur

I.5.2 Champ proche, champ lointain et information spatiale

A procissão (do latim processio, “ação de avançar, de ir para adiante”, “marcha para adiante”) significa um desfile de caráter civil ou religioso. Na Roma Antiga, havia a procissão consular e eram famosas as procissões triunfais. Na Grécia, chamavam-na teorias, referindo-se aos comandantes que passavam a tropa em revista, palavra que mais tarde ganharia a acepção de contemplação (CARVALHO, 1941, p. 145).

Elemento dos mais importantes da chamada “devoção popular” brasileira, as procissões são, ao mesmo tempo, expressão de devoção, manifestação social e fator de sociabilidade. Das várias cerimônias a que a Igreja recorria para atrair o povo para a religião, eram as procissões as mais populares e concorridas.

De fato, elas eram um importante fator de sociabilidade. Participando apenas como espectador das festividades públicas de caráter oficial, nas quais era sempre colocado à margem, vai ser nas solenidades religiosas, principalmente nas procissões, que a gente comum das vilas e cidades coloniais encontrará oportunidade de figurar como personagem ativa desde o século XVI.

O processo de inserção destas camadas em tais cerimônias se deu graças à herança medieval do Cristianismo Ocidental que, desde cedo, adotara a dramatização de episódios da história sagrada com fins de propagação às maiorias, dos princípios do Evangelho, por meio de exemplos. O movimento no sentido de transbordamento das festividades, da área limitada do interior dos templos para o céu aberto do espaço público, provocaria um deslocamento da diretriz religiosa de tais manifestações (baseado no estímulo à fé e à devoção) para objetivos profanos (cujo maior interesse era a afirmação do poder secular e a busca de diversão).

O modelo maior foi sempre a procissão de Corpus Christi. Segundo Jacob Burkhardt, nas cidades renascentistas italianas, de “ruas largas, planas e bem pavimentadas” (algo bem diverso das cidades coloniais brasileiras237),

a procissão logo se transformou no trionfo ou seja, o desfile de figuras mascaradas a pé e em carruagens, cujo caráter eclesiástico foi gradualmente cedendo lugar ao secular. As procissões no carnaval e no feriado de Corpus Christi eram semelhantes em pompa e brilho, criando o padrão mais tarde seguido pelos avanços reais ou principescos (BURCKHARDT, 1991, p. 246).

A Festa de Corpus Christi teria se iniciado em 1264, por meio da bula transituro de Urbano IV.238 Todavia, se a bula prescrevia missa e ofício, o mesmo não fazia com relação à procissão (SILVA, 1993, p. 197-8). Esta viria a se tornar, na Europa do século XIV, a forma por excelência de celebração da festa da Eucaristia (RUBIN, 1994, p. 243). Apenas no pontificado seguinte, de João XXII, a festa passaria a ser efetivamente celebrada. O papa João XXII parecia condensar características interessantes: tinha uma visão original sobre a política, a religião e a sociedade; buscava preservar os poderes, os privilégios clericais e enxergou razões pastorais para a criação, ou divulgação, de um espetáculo ortodoxo eucarístico num contexto de maiores desafios, questionamentos e explorações sobre o ofício sacramental e clerical (RUBIN, 1994, p. 243). Não à toa, este foi o papa responsável pela canonização de São Tomás de Aquino, a quem se atribui a liturgia de Corpus Christi (RUBIN, 1994, p. 184-5).239 Por meio destas indicações, pode-se sublinhar a visão do pontífice que considerava as festas e seus ofícios uma maneira de fortalecer a fé, como também destacar o lugar das práticas religiosas e, em particular, da festa de Corpus Christi na instituição da Igreja e desta no mundo, no domínio secular.240 Lembremos que, desde o século XII,

a [própria] noção de corpus mysticum, até então empregada para definir a hóstia, estava se transferindo gradualmente – a partir de 1150 – para a Igreja como corpo organizado da sociedade cristã unida no Sacramento do Altar. Em suma a expressão ‘corpo místico’, que

237 Em 1727, nos festejos pelos casamentos dos príncipes de Portugal e de Castela, o Bispo de Salvador determinou uma mudança no percurso da procissão, que, nesse ano, seria maior e constaria de muitos e grandes carros alegóricos, “para evitar uma ladeira dificultosa aos carros”. MATOS. 1729, p. 37

238 Cf. KANTOROWICZ, 1985, p. 127; GENRO, 1959, p. 10; ARAUJO, 1990, p. 48.

239 Segundo a autora, foi provavelmente no material de canonização, onde o papa João XXII deve ter encontrado a composição litúrgica de Tomás de Aquino. A autoria da liturgia é discutível (idem, ibidem), porém a Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado (1933) confirma a autoria.

240 Pode-se consultar as referências de Georges Duby sobre o mistério da Encarnação como centro tanto dos debates teológicos, quanto da criação artística no século XII. A valorização do Cristo dos evangelhos sinópticos significava a celebração da própria vida dos homens e do mundo. Cf. DUBY, 1993, p. 103- 136.

originalmente tivera um significado litúrgico ou sacramental, assumiu uma conotação de conteúdo sociológico.

Kantorowicz assinala um ponto de mutação no século XII, quando se dá uma inversão do uso das expressões Corpus Christi e corpus mysticum. Este passara a designar a instituição, mas vinculava o organismo visível da Igreja a uma ordem litúrgica anterior, e, ao mesmo tempo, assemelhava-a aos órgãos políticos (KANTOROWICZ, 1998, p. 127). Vale acrescentar algumas indicações do autor: no mesmo momento em que Corpus Mysticum começa a designar a corporação eclesiológica, teólogos e canonistas começaram a distinguir os “dois corpos do Senhor” – um o Corpus Verum individual no altar, a hóstia; e, o outro o Corpus Mysticum coletivo, a Igreja (KANTOROWICZ, 1998, p. 127-8).

Sem pretender uma discussão do contexto medieval, salientamos estas passagens porque, de um lado, elas informam sobre a estreita relação que se estabelece entre a eucaristia e a organização eclesiástica; de outro lado, permite marcar o processo de secularização da igreja medieval. É este dado de experiência da Igreja que os Estados Nacionais tomarão de empréstimo. Finalmente, consideramos importante distinguir os sentidos identificados pelo autor para os “dois corpos do Senhor”, a fim de identificar um sentido preciso, no contexto moderno.241

Dois séculos mais tarde, segundo Hans Gumbrecht, Lutero transformou a celebração da eucaristia em ato de comemoração.

A definição de pão e vinho como significantes do corpo e do sangue de Cristo (e a transformação subseqüente da celebração da eucaristia em ato de comemoração) tem origem na teologia da Reforma. Um passo decisivo nesse processo de reorientação foi a tradução das palavras de Cristo na última ceia “Hoc est enim corpus meum” (pelo equivalente de) “This means my body” [em português, “Este é o meu corpo”] (GUMBRECHT, 1998, p. 523).242

241 Alguns autores identificam a relação entre a festa do Corpo de Deus e os dois corpos. William de Souza Martins, que analisa a festa no rio de Janeiro, no início do século XIX, fornece ricas referências sobre a relação entre Corpus e a Câmara. Indica a relação entre a festa e a representação do poder pela via dos “dois Corpus do rei”, mas a análise não avança nesse sentido. Cf. MARTINS, 1997; em trabalho sobre a procissão na antiga Capitania de São Paulo, Maria Aparecida Gaeta identificou na procissão um momento de representação dos “dois corpos do rei”. Para a autora o “duplo corpo” se diferencia em “um corpo político, público e perecível e o seu eterno, sacralizado e imaginado”. Cf. GAETA, 1994, p. 115. 242 Vale lembrar que Lutero se diferencia dos chefes da Reforma alemã e renana, pois continua a afirmar a doutrina da presença real. Sobre seu posicionamento há algumas indicações de Lucien Febvre, dentre elas: “aos fiéis de Estrasburgo, em 1524, [quando] lhes fala sobre as tentações que teve ao princípio, de suas veleidades de adotar a tese de que, ‘no Santo Sacramento, não há mais que pão e vinho. Me resolvi, lutei (...)” e “discutindo a opinião de Carlsttadt de que não se podia razoavelmente conceber que o corpo de Jesus Cristo se reduzisse a um espaço tão pequeno [Lutero] razoavelmente exclamava: ‘Mas se se consulta a razão, não se acreditará mais em nenhum mistério’”. Cf. FEBVRE, 1983, p. 237.

É também munido desta referência que Gumbrecht procura firmar posição pela idéia de “produção de presença” em lugar da idéia de representação para pensar determinados fenômenos. O entendimento da eucaristia gerando uma “presença real” é, segundo ele, uma referência óbvia da cultura ocidental para a “produção de presença” (GUMBRECHT, 1998, p. 522-23). A transformação da celebração da eucaristia em ato de comemoração permite não apenas compreender a visão e o posicionamento de agentes das reformas protestante e católica diante da procissão de Corpus Christi, como também permite ampliar as reflexões sobre estas comemorações, que se tornaram mais solenes no Portugal do século XVIII.

A partir das distinções entre celebração/comemoração, “produção de presença”/ representação, respectivamente inventariadas e formuladas por Gumbrecht, pode-se afirmar que ora estejamos nos referindo à celebração, ora à comemoração da eucaristia, e que este capítulo versa principalmente sobre a última, ou seja, sobre as procissões criadas e ampliadas para solenizar o divino sacramento, mas que se superpunham à “produção de presença”.

Em Lisboa dos fins da Idade Média, há um grande número de procissões anuais, e procissões novas são instituídas.243 Na América portuguesa, tal como no Reino, a procissão era uma prática religiosa e uma manifestação da cultura barroca.244 Havia procissões por ocasião da construção de um novo templo, durante os festejos de eventos que envolviam a família real ou o reino, como a aclamação de um novo rei, nascimentos, casamentos ou outras datas, nas festas dos Santos e nas demais festas ordinárias e extraordinárias245 previstas pelo calendário religioso. Talvez constituíssem a cerimônia mais recorrente246 nos momentos em que a sociedade buscava festejar. E, vale relembrar, as procissões tinham um caráter compulsório. Segundo os regimentos que regulavam a procissão de Corpus Christi, desde o primeiro conhecido, de 1517247, ninguém podia negar-se a participar da solenidade quando convocado. Também as

243 Cf. os quadros apresentados por Renata de Araújo sobre procissões anuais (séculos XV-XVI). Festas e procissões instituídas em Lisboa. ARAÚJO, 1990, p. 73-4.

244 Consideramos as procissões, neste trabalho, como cerimônias do Antigo Regime e da cultura barroca. Cf. MARAVALL, op. cit.

245 A distinção entre ritos extraordinários e ordinários pode ser encontrada em Roberto da Matta, 1983, p. 37.

246 Cf. Serafim Leite, 1950, vol. 3, tomo III.

247 Cf. Regimento de Coimbra de 1517: Título do Regimento da festa do Corpo de Deus, e de como hande

ir os Officios cada um em seu lugar. Apud João Pedro Ribeiro (1758-1839). Dissertações cronológicas e críticas sobre a história e jurisprudencia eclesiástica e civil de Portugal. Lisboa: Typografia da Academia Real de Ciências de Lisboa. 1867, tomo IV, parte I, p. 240-5.

Ordenações Filipinas, em seu livro Primeiro, capítulo LXVI, parágrafo 48, determinava que

Item, mandamos aos Juizes e Vereadores, que em cada um ano aos dois dias do mês de julho ordenem uma Procissão solene à honra da Visitação de Nossa Senhora. E assim mesmo farão em cada um ano no terceiro domingo do mês de julho outra Procissão, solene por comemoração do Anjo da Guarda, que tem cuidado de nos guardar e defender, para que sempre seja em nossa defensão. As quais procissões se ordenarão e farão com aquela festa e solenidade, com que se faz a do Corpo de Deus. Para as quais, e para quaisquer outras, que Nós mandarmos fazer, ou forem ordenadas dos Prelados, ou Concelhos e Câmaras, não serão constrangidos a vir a elas nenhum moradores (sic) do termo de alguma Cidade, ou Vila, salvo os que morarem ao redor uma légua.

Cabia à Câmara arcar com as despesas de material e com o pagamento das propinas. A procissão de Corpus Christi era definida nas Constituições Primeiras como festa real e inserida no conjunto das procissões a que os moradores eram obrigados e comparecer.

A principal de todas as Procissões é a grande, e festival procissão do Corpo de Deus, que em cada ano se faz na Quinta-Feira depois do Domingo da Trindade, tão encomendada pelos Sagrados Cânones, e Concílio Tridentino, e ainda pelas leis do Reino. Foi ordenada pela Igreja para exaltação do Divino Sacramento, manjar sagrado em que se nos dá o mesmo Cristo nosso Senhor, para honra de Deus, glória dos católicos, confusão dos hereges, e para que os fiéis lembrados deste imenso benefício, com fervoroso afeto se movam a render o obséquio devido a tão Divina Majestade, e dar as graças a Christo nosso Senhor, tão liberalíssimo benfeitor, que se nos dá a si mesmo em iguaria da vida espiritual (VIDE, Tit. XVI, n. 496).

Nesse discurso eclesiástico, destacamos o fato de serem mencionados o Concílio de Trento, os Cânones e indicar as semelhanças entre seus argumentos e os textos antecessores. Todos apontam para o lugar da festividade, na pastoral cristã, posteriormente católica.

Destacaríamos ainda que a procissão de Corpus sofreu “dupla ordenação”, ou seja, teria sido encomendada tanto pela Igreja quanto pela Monarquia. É justamente como uma cerimônia na confluência desta “dupla” e mesma ordem que nos interessa refletir sobre a festa de Corpus Christi.

Por outro lado, não devemos perder de vista a importância atribuída à procissão de Corpus pelas Constituições do Arcebispado da Bahia, o seu papel de exemplo na

sociedade colonial.248 Entendemos que, é como prática na confluência da Igreja e da Monarquia, que se pode compreender a expectativa das Constituições em relação aos fiéis (que incluem os súditos do Reino) de que “se movam a render o obséquio devido”. A linguagem utilizada neste texto não seria assemelhada à expressão utilizada na pregação religiosa – “mover os ouvintes a uma ação”, e empregada na pedagogia e na arte da cultura barroca?249

Essa procissão, também conhecida como Triunfo Eucarístico, pois se revestia de tal solenidade, se transformou num verdadeiro cortejo triunfal, modelo para todas as outras procissões e cerimônias públicas, como as entradas régias, entradas de Bispos em suas dioceses, governadores ou Vice-reis, dentre outras autoridades civis e eclesiásticas, tornando-se logo, também, momento privilegiado para a exibição de poder e prestígio e de manifestações da hierarquia social.

Em Portugal, a tradição da procissão de Corpus Christi era a mais concorrida, sendo acompanhada pelo maior número possível de devotos. Segundo Câmara Cascudo, “contava com o máximo esplendor de tropas, fidalgos, cavaleiros, andores, danças e cantos. Todas as Corporações eram obrigadas a uma apresentação, e esta consistia num grupo que dançava, simbolizando povos vencidos e gente bíblica” (CÂMARA CASCUDO, 1972, vol. 2, p. 381).

Esse clima religioso-festivo da procissão de Corpus Christi, em Portugal, coincidindo o início da sua prática no século XIV250, respectivamente, com as lutas contra Castela até o advento da dinastia de Avís e a organização dos trabalhadores urbanos em confrarias ligadas a santos patronos, iria conferir ao ato um claro simbolismo teológico-político. De uma festa que servia à afirmação do poder espiritual da Igreja, enquanto resposta a heresias que negavam a presença de Cristo no Sacramento, na América portuguesa passa a servir também à afirmação da Coroa, à autoridade das Câmaras, pelo controle sobre os mesteres, às autoridades régias, como Chanceleres da Relação e Governadores ou Vice-reis sobre o conjunto da sociedade e,

248 A forma como é objetivada a procissão de Corpus Christi, nas Constituições pode significar outras coisas. Porém, quis destacar o lugar de modelo da procissão em relação a outras práticas na sociedade colonial. Ela é reveladora da festividade como acontecimento social, e em Portugal já exercia este papel, como mostra o trecho citado das Ordenações. A procissão funcionava como um reservatório de imagens para todas as festas. Os ofícios eram proprietários de carros alegóricos e vestimentas que adaptavam segundo as necessidades das festividades religiosas ou reais. (Cf. ALVES. s.d, p. 50) O que aponta para a relação entre a festa e troca, comércio.

249 Para algumas formulações desta pedagogia, que atribui um papel ativo ao receptor, e da arte na cultura barroca, cf. MARAVALL. Op. cit.

principalmente, aos interesses do rei, pela glorificação pública de seus feitos. A passeata solene do Corpo de Deus ganha, assim, a dimensão de ato oficial.

A partir de 1387, quando São Jorge foi elevado por d. João I à condição de Defensor Perpétuo do Reino, a imagem do santo, montada num cavalo rodeado de oficiais em grande gala, o chamado “Estado de São Jorge”, passou a integrar a procissão. O poder real reservava-se o direito de fazer-se representar simbolicamente pela inclusão de São Jorge em posição de destaque, para lembrar sua ajuda nas vitórias das armas portuguesas sobre os castelhanos, desde a batalha de Aljubarrota.251 Acompanhavam o séquito do santo, animais de diversas espécies, figuras de dragões e serpentes etc., que provocavam assombro entre os espectadores.

Transformada, assim, em manifestação profano-religiosa com caráter de instituição representativa da identidade nacional de Portugal, a procissão do Corpo de Deus passou a configurar, a partir do século XVI, a síntese perfeita da sociedade que era chamada a refletir. Esse papel de projeção virtual da realidade de um país e de um povo se tornou possível, exatamente, pelo caráter de representação teatral determinado pela própria sugestão do tema inspirador da procissão afirmadora do mistério do Deus sacramentado.

Como o próprio texto da Bíblia impunha à procissão encenar episódios registrados tanto no Velho quanto no Novo Testamento, era possível, inclusive a certas categorias profissionais convocadas a participar da marcha, procurar na história sagrada alguma identificação com seu mester.252 No geral, porém, era tal a liberdade de criação na escolha da forma de apresentação dos autos – como eram chamadas as encenações253 – que se chegaria, com o passar dos tempos, a ultrapassar todas as conveniências. E assim, ao lado de “Davi dançando, com seus pajens, que serão doze, ricamente vestidos”, da procissão do Porto de 1621, já figuravam também “tratantes do vinho com

251 Os reis portugueses costumavam, desde os tempos das lutas contra os mouros, lançar-se às batalhas invocando o nome de Santiago, o apóstolo de Compostela. Com o advento das guerras contra Castela, porém, tornava-se uma contradição pedir favores ao santo do inimigo, o que levou à troca por São Jorge, popularizado em Portugal pelos cruzados ingleses que ajudaram na campanha do território. “A imagem de São Jorge começou a figurar na procissão do Corpo de Deus, no ano de 1387. El-Rei, d. João I, na famosa batalha, a 14 de agosto de 1385, d’Aljubarrota, invocou como grito de guerra o santo bradando: ‘Avante, á vante S. Jorge. Portugal – São Jorge, Portugal, que eu sou o rei de Portugal”. Ribeiro Guimarães. Sumário de Vária História. Vol. IV, p. 28. Uma outra versão para a presença de São Jorge nas procissões diz que ela tem sua origem numa lenda medieval segundo a qual esse santo, partindo para uma batalha, encontra-se no caminho com o santo viático e o acompanha com suas tropas. Esta segunda versão, porém, é menos aceita.

252 “irá o oficio dos ferreiros, com seu Rei, Imperador e bandeira, com dança de espadas”, estabelecia o Regimento da festa do Corpo de Deus de 1517.

a figura de Baco que costumam dar”. Costumavam dar, como acontecera em Coimbra em 1577, com um “Baco, gordo e rubro, sentado numa pipa no meio dos seus sequazes”, conforme descreve Ernesto Veiga de Oliveira (1988, p. 276).

A transformação do desfile teatral do Corpo de Deus (precedido, na véspera, por solenidades no interior das catedrais das cidades onde se realizava, com a presença dos personagens dos autos e entremezes programados) em espetáculo de grande agrado popular estava destinada a tornar a procissão de Corpus Christi em Portugal não apenas num ato religioso-profano de caráter nacional e oficial, mas num paradigma para outras procissões. Com seu espírito de solenidade acima da mera invocação de santos determinados, por força da presença maior de Deus no Santo Sacramento, ela serviria de modelo para outras procissões, sob a indicação precisa de se constituírem “pelo estilo da do Corpo de Deus”, como expressa nas Ordenações Filipinas e na portaria de 1642 do Governador geral do Brasil.

De todas essas procissões subordinadas ao modelo das alusões simbólico- dramatizadas na história do Cristianismo (incluindo a ligação do sagrado com feitos heróicos nacionais e episódios da vida local), a mais ampla pelos temas, e mais festiva pelo espírito, continuaria sendo a mais antiga, de Corpus Christi.254

O Corpo de Deus na Bahia de todos os Santos.

As procissões de Corpus Christi são realizadas na Bahia desde os tempos da fundação da cidade do Salvador. O padre Manuel da Nóbrega relata duas grandes