Aos licenciandos e supervisoras foi solicitado discorrer sobre a validade do PIBID e sua ação no processo de formação inicial do professor de Matemática (Questão 1), que deu origem a esta categoria através das seguintes respostas:
Licenciando BAO – Totalmente [positiva], porque você vê exemplos a seguir, ou não, na sala de aula e como os alunos se comportam [...]. Licenciando EOSB – Sim, porque a gente tem uma vivência já na sala de aula. [...] eu entrei mais confiante na sala de aula. O PIBID ajuda muito.
Licenciando JCM – Eu creio que sim, porque no PIBID, em um primeiro momento, todos nós fazemos uma observação na escola e podemos constatar as maiores dificuldades do aluno e, assim,
desenvolver um projeto que é focado exatamente nesta dificuldade específica que foi constatada. Então, acho muito positivo, porque a gente vai trabalhando uma dificuldade de cada vez.
Licenciando MLV – Sim, claro que sim. Para mim o PIBID foi uma forma de conhecer o olhar de um professor. [...] Então, sim, o PIBID me ajuda muito, na minha carreira também.
Licenciando TPF – Eu acho que sim, porque faz com que a gente vivencie a realidade escolar antes do término do curso. [...] o PIBID mostrou-me as metodologias diferenciadas. [...] fez com que eu aprendesse modos diferentes de ensinar Matemática [...].
Licenciando VAFV – Sim, eu considero uma medida positiva, porque possibilita que a gente vivencie o ambiente em que será inserido na prática, pois, muitas vezes, a dúvida do professor que está iniciando é como lidar com o seu ambiente de trabalho, e a gente, aqui, está vivenciando na prática um pouco desta experiência, então, considero uma medida importante na nossa formação inicial.
Supervisora CAHR – Ela é uma medida positiva com certeza. A ideia é de inserir os acadêmicos das licenciaturas no cotidiano das escolas, promovendo a troca de saberes e a integração entre a Educação Superior e a Educação Básica em uma perspectiva que privilegia ações interdisciplinares, [as quais] capazes de articular a teoria e a prática necessárias à formação dos docentes.
Supervisora NB – Sim, porque os alunos bolsistas do PIBID têm a oportunidade de vivenciar a realidade do professor, dos alunos, da escola no seu dia a dia e, com isso, esses bolsistas obtém um preparo positivo para sua provável atuação nesse mercado de trabalho.
Os sujeitos manifestaram massiva aprovação ao programa e alegam que se trata de uma medida positiva e uma importante experiência no processo e trajetória profissional pelas razões enunciadas.
As respostas evidenciam também aspectos sutis, de ordem psicológica e/ou emocional, relativos à autoconfiança e segurança pessoal para o exercício da profissão, que são propiciados pela experiência gradativa em sala de aula, que o PIBID proporciona, e a convivência no interior das instituições de ensino com professores e alunos, desde o início da sua formação, de modo a decifrar, conhecer, desmistificar e refletir sobre a complexidade inerente à docência.
Esses aspectos sutis devem ser considerados, pois segundo Franco, M.A.R.S. (2003), a análise também pode e deve partir da compreensão de vários sentidos presentes no discurso e que formam as hierarquias dos sentidos. Entre eles, o sentido em si; o sentido das palavras; o sentido expresso nas palavras,
imagens e símbolos; e o sentido das percepções e analogias das mensagens, pois todos constituem a base de todos os agrupamentos, reagrupamentos e classificações de sentido.
Franco e Gilberto (2010) analisam a questão emocional da insegurança e do medo dos professores iniciantes em relação à prática efetiva da profissão como um dado histórico e inúmeras vezes comprovado no contexto e dia a dia escolar:
[...] uma investigação com professores iniciantes pode identificar que essa disparidade entre uma formação inicial teorizante e fragmentada e a complexidade da prática docente revestem o professor de insegurança e medo e, na falta de melhor resposta, o professor iniciante utiliza-se de receitas oferecidas pelos professores mais antigos na profissão (Cancherini, 2009). (FRANCO; GILBERTO, 2010, p. 127)
Freire (1996) analisa, ainda, um outro aspecto a ser considerado para reflexão e conciliação com as respostas obtidas:
Como professor não devo poupar oportunidade para testemunhar aos alunos a segurança com que me comporto ao discutir um tema, ao analisar um fato, ao expor minha posição em face de uma decisão governamental. Minha segurança não repousa na falsa suposição de que sei tudo, de que sou o “maior”. (p. 50)
Alguns professores iniciantes apoiam-se no fazer pedagógico de professores mais experientes para amenizar a angústia do como fazer, do por onde começar, isto é tornar menos tenso o início da carreira docente. A ideia de que o ser humano é inacabado nos permite sentir a insegurança e buscar infinitamente, estudar e pesquisar, para que, fortalecido pelo conhecimento, possa sentir-se seguro do fazer pedagógico.
Com relação ao início de carreira, Tardif (2008) aponta:
[...] inicia-se através de tentativas e erros, sente a necessidade de ser aceito por seu circulo profissional (alunos, colegas, diretores de escolas, pais de alunos, etc.) e experimenta diferentes papéis. Essa fase, de acordo com os professores, pode ser fácil ou difícil, entusiasmadora ou decepcionante, e é condicionada pelas limitações da instituição. (p. 84)
Observa-se que o Projeto PIBID busca romper paradigmas, ao propor as observações em sala de sula e o contato dos licenciandos com as mais diversas metodologias de ensino, de forma que possam refletir sobre a práxis, adquirir
confiança e segurança para lecionar.
Sobre a formação inicial do professor D’Ambrósio (1996b) afirma:
Todo professor, ao iniciar sua carreira, vai fazer na sala de aula, basicamente, o que ele viu alguém, que o impressionou, fazendo. E vai deixar de fazer algo que viu e não aprovou. Essa memória de experiências é impregnada de emocional, mas aí entra o intuitivo – aqueles indivíduos que são considerados “o professor nato”. Mas sem dúvida o racional, isto é, aquilo que se aprendeu nos cursos, incorpora-se à prática docente. E à medida que a vamos exercendo, a crítica sobre ela, mesclada com observações e reflexões teóricas, vai nos dando elementos para aprimorá-la. Essa nossa prática, por sua vez, vai novamente solicitar e alimentar teorizações que vão, por sua vez, refletir em sua modificação. (p. 83)
A ideia de formar o professor, concomitante com a sua presença no cotidiano da escola, especialmente com o acompanhamento de um professor mais experiente (NÓVOA, 2009), possibilita a reflexão dos fazeres pedagógicos e das teorias que perpassam por estes fazeres, em um verdadeiro exercício de aproximação entre a teoria e a prática.
Não podemos deixar de enfatizar a ideia da escola ser um lócus legítimo para a formação docente e a esse respeito recorremos a Bahia (2015), quando afirma:
Sem dúvida, a formação de professores, desde o início, ‘dentro’ das escolas, poderia fazer muita diferença pela proximidade e vivência com o cotidiano, além de contar com a co-formação dos professores mais experientes destas escolas, no sentido de ultrapassarmos as barreiras entre a aprendizagem acadêmica e a realidade escolar que, na maioria dos casos, expressa-se pelo distanciamento entre a teoria e a prática. Devemos considerar que o cotidiano escolar favorece/realiza a profissionalidade docente, pela multiplicidade de saberes e fazeres do conjunto de professores que fazem parte dele, pela convivência e troca de experiências dos jeitos de ser professor. (p. 307)
O PIBID propõe, ainda, a elaboração de novas práticas com o objetivo de facilitar o ensino e a aprendizagem do aluno através de recursos lúdicos, como os jogos matemáticos, de forma a avaliar a prática docente, suas dificuldades, problemas e formas de solução.
Essas novas práticas, gradativamente, vão constituindo o futuro docente reflexivo, desde a sua formação inicial, à medida que este acompanha o cotidiano escolar e passa a verificar as práticas pedagógicas, as relações interpessoais, os procedimentos, as atitudes e aquilo que deu certo ou não:
Sendo a pesquisa o elo entre teoria e prática, parte-se para a prática, e, portanto, se fará pesquisa, fundamentando-se em uma teoria que, naturalmente, inclui princípios metodológicos que contemplam uma prática. Mas um princípio básico das teorias são resultados das práticas. Portanto, a prática resultante da pesquisa modificará ou aprimorará a teoria de partida. E assim modificada ou aprimorada essa teoria criará necessidade e dará condições de mais pesquisa, com maiores detalhes e profundidade. O que influenciará a teoria e a prática. Nenhuma teoria é final, assim como nenhuma prática é definitiva, e não há teoria e prática desvinculadas. A aceitação desses pressupostos conduz à dinâmica que caracteriza a geração e a organização do conhecimento: ...teoria-prática-teoria-prática- teoria... (D’AMBRÓSIO, 1996b, p. 81)
A observação das ações assertivas ou não assertivas geram exemplos do fazer e refazer, do pensar e do repensar, ou seja, levam os licenciandos à reflexão.
E, sobre isso, Pimenta e Lima (2010) apresentam importantes considerações quando o tema em pauta é a formação inicial para a docência:
O exercício de qualquer profissão é prático, no sentido de que se trata de aprender a fazer “algo” ou “ação”. A profissão de professor também é prática. E o modo de aprender a profissão, conforme a perspectiva da imitação, será a partir da observação, imitação, reprodução e, às vezes, reelaboração dos modelos existentes na prática, consagrados como bons. Muitas vezes nossos alunos aprendem conosco nos observando, imitando, mas também elaborando seu próprio modo de ser a partir da análise crítica do nosso modo de ser. Nesse processo escolhem, separam aquilo consideram adequado, acrescentam novos modos, adaptando-se aos contextos nos quais se encontram. Para isso, lançam mão de suas experiências e dos saberes que adquiriram. (p. 35)
Os licenciandos ao afirmarem que observaram exemplos a seguir e exemplos negativos que não devem ser seguidos, de postura e de comportamento profissional, demonstram a possibilidade encadeada pelo PIBID, ao aproximar teoria e prática, levando o futuro professor ao desenvolvimento de uma visão crítica e analítica sobre a sua profissão e sobre o desempenho e qualidade da performance a serem alcançados.