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CHAPITRE I : RECENSION D’ÉCRITS

1.7 Cadre théorique : l’intersectionnalité

Os acontecimentos ao redor do adolescente geram a todo o momento sentidos que podem ser verbalizados, ventilados e simbolizados ou permanecer em uma espécie de mutismo mágico que não cessa de gerar enigmas.

As meninas estão sempre vivendo e provocando emoções, amores, ódios, atrações, repulsas, culpas, vacilações, tormentos, grandes e pequenos traumas. Tudo isso as leva, em geral, a mergulhar em um mundo de perplexidades e sinais enigmáticos. Com frequência, faltam palavras justas e algum esclarecimento que possam diminuir o silêncio envergonhado diante daquilo que ela não consegue decifrar: “o que ou quem me certifica como mulher?”.

30 Winnicott (1896-1971) define a teoria de objetos transicionais, sempre enfatizando que seu destino não é a

Na adolescência, a sexualidade se transforma. Renasce transfigurada, sob o primado da genitalidade, após um período dormente, em que esteve silenciosa. Bem antes de se tornar adolescente, porém, o corpo já experimentou, na primeira infância, excitações internas e sofreu o impacto das exigências de satisfação, como exposto no capítulo anterior.

A consolidação do complexo de Édipo, que culmina na adolescência com a fase genital, imprime novo modo de se relacionar com o mundo por meio do encontro com um olhar amoroso e prazeres sensoriais, experiências transformadoras que confrontam o desejo com os limites da realidade e propicia a jovem transformar sonhos em perspectivas de futuro.

Podemos refletir a respeito de uma obra cinematográfica que traz muito presente a temática da descoberta da sexualidade. “Lolita”, obra cinematográfica de Stanley Kubrick da década de 60, nos remete a questionarmos relativos ao como e quando realmente se inicia a genitalidade de uma adolescente. Para isso, devemos reconhecer a sexualidade como algo genuíno do ser humano, cientes de que este fator se ressignifica, subitamente, com a entrada na puberdade. As significativas mudanças psicológicas e fisiológicas que ocorrem nesta etapa da vida parecem constituir um esquema de raciocínio mais lógico do que a fronteira estabelecida socialmente entre a infância e a consumação da idade adulta.

Retomando a teoria psicanalítica freudiana, a fantasia edipiana das meninas é uma espécie de sustentação daquilo que encobre o pensar e agir consciente. Os desejos edípicos das crianças são verdades, mas verdades da estrutura mental humana que não buscam sua concretização fora da fantasia, exceto nas patologias. Lolita, contrapondo-se a sua mãe em vários aspectos e fazendo uso de sua inocência infantil como artifício de conquista, corresponde às fantasias de Humbert, seu padrasto. Ela o seduz como uma filha ao pai e, não como uma ninfeta, aos olhos do protagonista. Em diversas cenas mostra-se a menina atrevida exibindo seu corpo – um pedaço da calcinha, um decote mais ousado, um biquíni – sempre nas margens do enquadramento, como se a câmera fosse um olhar para a garota. Uma estratégia original que mescla sensualidade atrevida e ar ingênuo elevando “Lolita”, o filme, ao posto de uma das obras mais eróticas do cinema.

Após a estréia do filme, “Lolita” ganhou um status simbólico, não mais associado ao título da obra de Stanley Kubrick ou ao nome de uma personagem do filme, mas sim a um estilo e modo de agir, que foi e ainda é adotado por muitas adolescentes em busca da sua identidade como mulher. O ar ingênuo associado à imagem do corpo em formação, exibido com o adorno das peças íntimas, estabelece um fetiche nos pensamentos incestuosos masculinos e uma certeza na adolescente de ser desejada pelo outro.

A mesma estratégia foi utilizada em “Presença de Anita”, obra de Manoel Carlos, exibida na Rede Globo em 2002, onde Anita, uma adolescente, aparece em 80% das cenas de roupas íntimas e com o olhar ingênuo, mas seduzindo todos os homens que a cercam e principalmente Nando, um homem casado e com idade para ser seu pai.

Esta minissérie brasileira inicia com a seguinte pergunta: “Quem é Anita?” e o desenrolar da trama nos trás uma resposta a essa pergunta: Anita é Cintia, é Juliana, é

Figura 27 – Cena do Filme “Lolita”

Figura 28 – Material Publicitário do Filme “Lolita”

Monica, é Flavia, é Tereza, é Laura, é quem a imaginação do espectador quiser. Anita são todas, qualquer uma e nenhuma. Anita é a adolescente que se descobre mulher. Entretanto para responder com exatidão a esta pergunta, antes Manoel Carlos teria que ter respondido o enigma da feminilidade freudiano: “O que quer uma mulher?”.

Anita é a visão que uma adolescente tem do mundo e das pessoas que a cercam numa pequena cidade do interior de São Paulo. Para isso foi feita uma transposição da história, que originalmente se desenrola em 1948.

Um fato interessante é a personagem repetir por toda a trama a seguinte pergunta: “Existe alguma coisa mais parecida com o amor do que a morte?” – a adolescente busca a todo tempo a completude no amor de um homem mais velho e a trama se encerra com sua morte.

Aqui cabe uma observação: Anita nunca se satisfaz com o amor de nenhum dos homens que passam por sua vida, está sempre insatisfeita, infeliz e alucinada, morre ao final da trama em uma composição de suicídio e homicídio, implora ao homem que ama que a mate e se mate em seguida, o enlouquece provocando sua reação agressiva até que ele consume o fato com uma facada, demonstrando assim claramente uma estrutura histérica gravíssima, ao contrário de Lolita que se utiliza da sua sensualidade e sedução para conquistar seus objetivos, encerrando o filme casada e mãe.

Embora a saída feminina de Anita tenha sido por uma via diferente da de Lolita, o que vemos aqui são duas jovens, em épocas e contextos diferentes, mas com um único objetivo a busca do reconhecimento de sua condição “mulher” pelo Outro.