Na última década, encontramos inúmeros trabalhos que defenderam o uso do gênero textual HQs nos contextos de ensino-aprendizagem de língua materna e de língua estrangeira. Dentre eles, podemos mencionar: Ramos (2004; 2009; 2010), Vergueiro e Rama (2004) e Alonso (2012). Esses autores destacam e comprovam a importância da inserção de HQs no contexto de ensino-aprendizagem, avaliando-a de forma muito positiva e salientando as inúmeras contribuições didáticas e pedagógicas decorrentes da exploração deste gênero.
Vergueiro e Rama (2007), no livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula, destacam algumas razões para a utilização das HQs no ensino:
i. Os estudantes querem ler os quadrinhos;
ii. As palavras e as imagens, juntas, ensinam de forma mais eficiente;
iii. Os quadrinhos possuem alto nível de informação; iv. As possibilidades de comunicação são enriquecidas pe-
la familiaridade com as HQs;
v. Os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento do hábito de leitura e enriquecem o vocabulário dos estudantes; vi. O caráter elíptico da linguagem dos quadrinhos obriga o
leitor a pensar e imaginar;
vii. Os quadrinhos têm caráter global, podendo ser utiliza- dos em qualquer nível escolar e tratar de qualquer te- ma.
Em consonância com as autoras, entendemos que a leitura das HQs faz parte da bagagem histórico-cultural do aluno, pois, desde a infância, esse gênero esteve presente em seu cotidiano de forma muito lúdica, o que justifica seu interesse pela leitura desse tipo de arte sequencial. Em outras palavras, a probabilidade de identificação com esse tipo de gênero é bastante significativa e, portanto, contribui para fomentar experiências de leituras prazerosas dentro da sala de aula.
Na perspectiva de leitura, por exemplo, por articularem uma linguagem verbal e visual, as narrativas das HQs chamam a atenção dos alunos e, por isso, contribuem significativamente para ativar e facilitar a compreensão leitora e a construção de sentidos pelo aprendiz. O estímulo à leitura desse gênero, portanto, pode ampliar as possibilidades cognitivas de interpretação e compreensão textual por parte dos alunos, de forma a contribuir para um aprendizado mais produtivo.
Além disso, por existir atualmente uma grande diversificação na indústria editorial desse gênero, o professor pode contar com a oferta de um enorme leque de HQs com diferentes temáticas, o permite adaptá-las e utilizá-las com diferentes objetivos pedagógicos. Essa diversificação de temáticas presente nas HQs, acreditamos, pode propiciar a ampliação do referencial linguístico e cultural dos alunos, fazendo com que eles transitem, por meio desse tipo de leitura,
por diferentes conteúdos referentes a diversas disciplinas, como língua estrangeira, língua materna, história, geografia, sociologia etc. Outro aspecto importante, de acordo com as autoras, é que a variedade de possibilidades de abordagem de diferentes conteúdos, relativos a diferentes matérias, permite de forma maleável a aplicabilidade das HQs em diferentes níveis de escolarização. (VERGUEIRO; RAMA, 2004)
Alonso (2012), em seu livro El cómic en la clase de ELE: una propuesta didáctica, também argumenta a favor da utilização das HQs no ensino. A autora elenca os diversos benefícios do uso das HQs no ensino de língua espanhola e assinala diferentes fatores presentes nesse gênero, os quais podem contribuir de forma significativa para o processo de ensino-aprendizagem de LE: lúdico, afetivo, humorístico, criativo e intercultural. Para a autora, esses fatores representam a potencialidade desse gênero textual, cuja utilização como ferramenta pedagógica é considerada perfeitamente adequada. (ALONSO, 2012)
Sendo assim, em seu trabalho de pesquisa, Alonso (2012) fornece orientações para a construção de sequências didáticas, com diferentes objetivos pedagógicos, adaptados a diferentes níveis de ensino nas aulas de ELE. A autora ainda ressalta que o professor de língua estrangeira que pretende desenvolver sequências didáticas pautadas no enfoque intercultural, deverá recorrer, sobretudo, a ferramentas de ensino que permitam que os alunos despertem seus sentidos para a observação, a análise, a interpretação e a compreensão das diferenças culturais existentes entre LM e LE. Em outras palavras, Alonso salienta que adotar essa postura em sala de aula implica o comprometimento do professor para com o desenvolvimento da competência intercultural dos alunos.
Nesse sentido, ela comenta que tais orientações sobre o diálogo intercultural podem ser colocadas em prática "[...] através de atividades nas quais se integrem tanto os aspectos formais da língua como também, os culturais". (ALONSO, 2012, p. 36) Por esses motivos, a autora defende que as HQs, no contexto de ensino-aprendizagem de LE, se revelam como um recurso didático muito valioso e significativo, pois cumprem com o papel de manifestar diversas situações enunciativas a partir de contextos plurais do uso real da língua.
Por fim, inferimos que o uso das HQs no processo de ensino-aprendizagem tem recebido cada vez mais atenção e relevância nas discussões dos estudiosos da área de didática de ensino de LE e LM (entre outras), pois sua legitimidade como prática social vem sendo reconhecida com mais intensidade. Por esse motivo, nesta pesquisa, defendemos a utilização das HQs da autora argentina Maitena Burundarena, aplicadas ao ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (ELE) no contexto de formação de professores em ELE.
No próximo item, iremos expor brevemente informações sobre essa autora e as caraterísticas do gênero em questão. 2.2.1 A cartunista Maitena Burundarena e os seus
quadrinhos
Maitena Inés Burundarena, mais conhecida como Maitena, é uma cartunista e escritora argentina nascida na cidade de Buenos Aires. Sua produção artística como humorista na indústria dos quadrinhos começou em 1984, quando desenhava e publicava em diferentes meios de comunicação suas narrativas gráficas: Flo (publicada semanalmente na revista argentina Para Ti e destinada ao público feminino. Foi a que lhe abriu espaço para o reconhecimento nacional e fama), El langa, Barrio Chino e Histórias por metro.
Posteriormente, entre os anos de 1998 e 2005, Maitena publicou suas tiras cômicas mais conhecidas: Mulheres Alteradas, Superadas e Curvas Perigosas. Em 1998, Maitena recebeu um convite para publicar diariamente suas tiras cómicas Superadas no jornal argentino La Nación. Devido a todo o êxito alcançado na Argentina, em 2003 a autora começou a publicar as tiras Curvas Perigosas na seção dominical do jornal La Nación. A publicação de Curvas Perigosas foi a última produção gráfica de Maitena, no ano de 2005. Burundarena (2006) reconhece que a enorme repercussão das obras Mulheres Alteradas, Superadas e Curvas Perigosas se deveu ao fato de terem sido traduzidas para quinze línguas e publicadas em trinta países em diferentes meios de comunicação (revistas, jornais, coletâneas etc.). Após essa fase, a autora se dedicou na escrita da sua primeira novela, Rumble, publicada na Argentina em 2011, pela mesma editora que publicou seus quadrinhos: a editorial Sudamericana.
Para a sequência didática selecionada para esta dissertação, extraímos os textos da coletânea Mulheres Alteradas, publicada na Argentina e na Espanha17 e segundo Balda (2004) possui diversas temáticas, como
i) A escravidão para manter um corpo jovem e perfeito ou as tiranias do mundo moda e beleza; ii) as relações conflitivas com os homens; iii) a dupla jornada de trabalho das amas de casa; iv) os relacionamentos com mãe, sogra, filhos, amigas; v) a gravidez e a maternidade; vi) as atitudes dos homens; vii) os comportamentos de algumas mulheres. (BALDA, 2004, p. 18-20, tradução nossa)18
As diversidades de temas abordados por Maitena nos seus quadrinhos sobre o universo feminino representam as inúmeras possibilidades de discussão em sala de aula, pois são temas cotidianos e atuais; por isso escolhemos e julgamos interessante trabalhar com tal gênero nesta pesquisa.
A partir do nosso contato por intermédio da editora Sudamericana, foi possível contatar a autora Maitena, que em e- mail pessoal responde ao nosso questionamento (se houve efetivamente uma tradução intralingual da coletânea Mulheres Alteradas destinadas ao público espanhol):
Em livro, as únicas duas versões são: espanhol da Argentina e espanhol da Espanha. Mas em meios de comunicação existe uma versão neutra (feita por mim) para
17
Explicaremos este item com mais detalhes no capítulo que trata da metodolo- gia. Selecionamos para este trabalho as tiras Mulheres Alteradas que foram publicadas semanalmente na revista argentina Para Ti e depois organizadas em uma coletânea recompilatória, organizada em cinco volumes de um mesmo livro. Essas tiras foram publicadas (na versão original em espanhol rioplatense) na Argentina pela editora Sudamericana. Consideramos interessante o fato de que na Espanha houve uma publicação diferente daquela coletânea, a cargo da editora Random House Mondadori, localizada em Barcelona.
18
Texto original: "1) La exclavitud para mantener el cuerpo joven y perfecto o las tiranías de la moda y la belleza; 2) Las relaciones conflictivas con ellos. 3) El doble trabajo del ama de casa. 4) Las relaciones con la propia madre. 5) Las relaciones con la suegra, con los hijos, con las amigas. 6) La maternidad, el embarazo. 7) Las actitudes de los hombres. 8) Las actitudes de las mujeres". (BALDA, 2004, p. 18-20)
os países de América Latina que tem um espanhol muito diferente ao espanhol falado pelos argentinos e que também não é o mesmo espanhol falado na Espanha. Essa versão publica-se na Venezuela, Chile, México, Colômbia, Peru, Nicarágua, Costa Rica, Honduras, Panamá, Equador. O Paraguai é o único país que publica a versão argentina.19 (BURUNDARENA, 2011, tradução nossa)
A partir da resposta de Maitena sobre o nosso questionamento, foi possível confirmarmos a nossa primeira hipótese: as tiras cômicas que inicialmente foram destinadas ao público meta argentino tiveram que ser recontextualizadas em uma tradução intralingual20 para o novo público-meta espanhol, ou seja, a versão publicada de Mulheres Alteradas na Espanha conta como uma equipe editoral que faz as devidas adaptações linguístico-culturais que julgam necessárias para o entendimento e compreensão do leitor-meta.
Consideramos este dado relevante, pois a partir do conhecimento dessa informação em 2011 foi possível vislumbrar o magnífico potencial didático que esse gênero textual poderia representar para poder abordar o tema da diversidade linguística existente na língua espanhola. Dessa forma, a partir desse (re)conhecimento prévio, possibilitou pensarmos na sua utilização como ferramenta pedagógica no ensino de Espanhol como Língua Estrangeira (ELE) para brasileiros (futuros professores de espanhol).
19
Resposta original:“En libro, las únicas dos versiones son: español argentino y español español. Pero en medios de comunicación, existe una versión neutra (la hago yo) para los paises de América Latina que tienen un español muy distinto al argentino pero tampoco es el español español. Esa versión se publica en Vene- zuela, Chile, México, Colombia, Perú, Nicaragua, Costa Rica, Honduras, Pana- má, Ecuador. Paraguay es el único que publica en argentino”. (BURUNDARENA, 2011)
20
Segundo a tipologia de Roman Jakobson (1969), a tradução intralingual é aquela realizada dentro de um mesmo idioma.