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A investigação acerca dos factores que conduzem a resultados positivos na presença de adversidade tem uma longa história. Em alguns dos primeiros estudos realizados no âmbito desta temática, tornou-se evidente a presença de comportamento adaptativo, embora a nomenclatura utilizada não incluísse, ainda, o termo resiliência. No entanto, as origens dos trabalhos acerca desta questão podem situar-se em áreas diferentes. Mais especificamente, as investigações realizadas acerca da esquizofrenia, da pobreza e das reacções a situações traumáticas podem ser consideradas como antecessoras dos trabalhos relativos à resiliência, embora todas elas tivessem subjacentes resultados relevantes para este constructo.
A literatura relativa ao estudo dos indivíduos com esquizofrenia e dos seus padrões adaptativos forneceu inúmeros exemplos de resiliência. Destas primeiras pesquisas é de salientar o facto de ter sido dada pouca atenção a alguns pacientes que apresentavam, apesar da sua doença, padrões de adaptação relativamente positivos, tendo sido considerados atípicos. No entanto, em anos setenta, os investigadores descobriram que estes indivíduos possuíam antecedentes que se caracterizavam por uma relativa competência em termos profissionais, familiares e sociais, o que poderia ter contribuído para resultados que os colocavam em menor desvantagem. No entanto, o termo resiliência não era, ainda, utilizado para descrever estas trajectórias.
Os estudos cujo alvo foram crianças filhas de mães diagnosticadas como esquizofrénicas desempenharam um papel crucial na emergência do conceito de resiliência infantil como um tópico de interesse, tanto teórico, como empírico. O facto de que muitas destas crianças se desenvolviam com sucesso, apesar do seu estatuto de alto risco, conduziu a que se desenvolvessem esforços acrescidos no sentido de compreender a variabilidade em termos da forma através da qual os indivíduos reagiam à adversidade.
Fenómenos de resiliência tornaram-se, também, evidentes em outras situações associadas à exposição dos indivíduos a condições de adversidade crónica. É o caso dos estudos realizados acerca dos efeitos da pobreza e de outras condições que, normalmente, se lhe associam. A literatura descreve vários exemplos
CAPÍTULO II - Vulnerabilidade e Resiliência no Desenvolvimento dos Indivíduos
de crianças que, apesar de expostas a privação económica e/ou social, apresentavam comportamentos positivos. São referências incontornáveis, entre outras, os estudos realizados por Elder, Children of the Great Depression (1974), e por Festinger, No One Ever Asked Us (1983), descrevendo os resultados desenvolvimentais de crianças educadas em famílias de acolhimento e em contextos institucionais (Cicchetti & Garmezy, 1993).
Finalmente, as descrições de um funcionamento adaptado em indivíduos expostos a situações traumáticas contribuíram, também, para a consolidação dos alicerces sobre os quais se construíram as teorias e as investigações acerca da resiliência. É o caso dos trabalhos realizados por Epstein (1979) e por Moskovitz (1983) acerca do desenvolvimento das crianças do Holocausto.
Os esforços mais recentes, desenvolvidos no sentido de se compreender os mecanismos e processos que conduzem à resiliência, situam-se na área da Psicopatologia do Desenvolvimento. À medida que a perspectiva desenvolvimental assumiu um papel proeminente na pesquisa realizada nesta área, verificou-se um interesse crescente pelo estudo da resiliência. Segundo Sroufe e Rutter (Sroufe & Rutter, 1984, in Cicchetti & Garmezy, 1993) "a Psicopatologia do Desenvolvimento,
não só estuda as origens e curso dos padrões de inadaptação comportamental, mas deverá, também, compreender os padrões que sendo, normalmente, prognósticos de perturbação, por razões ainda por descobrir, não o são para um determinado subgrupo de indivíduos".
No entanto, não seria possível concluir esta retrospectiva sem salientar os estudos conduzidos por Emmy Werner, com crianças do Hawai, que, na década de setenta, impulsionaram, de forma decisiva, a pesquisa conducente à dilucidação do conceito de resiliência. Nesta pesquisa foram incluídas diferentes condições de adversidade, tais como a desvantagem socio-económica e riscos associados, doença mental dos pais, maus tratos, entre outros. Este estudo, conduzido na ilha havaiana do Kauai, teve início em 1955 e foi desenvolvido por uma equipa de pediatras, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde e de serviço social. O seu principal objectivo era o de estudar o desenvolvimento de 698 crianças, nascidas durante esse ano, até à idade adulta e avaliar as consequências, a longo prazo, no desenvolvimento e capacidade de adaptação desses indivíduos, de
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complicações perinatais e de condições de vida adversas (Werner, 1993). O estudo iniciou-se com a análise da condição de vulnerabilidade das crianças, isto é, a probabilidade de apresentarem resultados desenvolvimentais negativos devido à exposição a factores de risco graves, tais como dificuldades perinatais, situações de pobreza, condições psicopatológicas dos pais e situações de disrupção familiar. À medida que o estudo prosseguiu, foram, também, analisadas as situações em que as crianças conseguiram ultrapassar, com sucesso, esses factores de risco biológico e psicossocial, procurando-se, assim, as origens dessa resiliência. Dessa forma, procurou-se, também, identificar os factores de protecção que desempenhavam um papel importante na forma através da qual essas crianças e jovens recuperavam dessas situações marcadas pela adversidade e transitavam para a idade adulta.
Pelo exposto, pode verificar-se que os primeiros esforços no sentido de se compreenderem as trajectórias desenvolvimentais que não seguiam o curso previsto se dirigiram para a identificação de qualidades pessoais nas crianças resilientes, tais como a autonomia e uma auto-estima elevada. À medida que o trabalho nesta área evoluiu, os investigadores reconheceram que a resiliência poderia derivar, muitas vezes, de factores exteriores, tais como características das famílias dessas crianças e dos seus contextos sociais mais abrangentes. Por outro lado, durante as últimas décadas, o principal foco de pesquisa destacou-se da identificação de factores de protecção para se dedicar à compreensão dos processos de protecção subjacentes, isto é, de que forma esses factores poderiam contribuir para resultados positivos (Lutharefa/.,2000).
As concepções de resiliência modificaram-se, assim, ao longo do tempo. À medida que a pesquisa nesta área evoluiu, tornou-se claro que a adaptação positiva, apesar da adversidade, envolvia uma progressão desenvolvimental, de forma que
"novas vulnerabilidades e/ou forças emergem com a modificação das circunstâncias de vida. Assim, o termo "resiliente" que, de forma mais precisa, descreve a natureza relativa, por oposição a fixa, do conceito englobou o anteriormente referido como
"invulnerável"' (Lutharef a/., 2000: 544).
Engle, Castle e Menon (1996) identificaram quatro estádios no desenvolvimento das pesquisas realizadas acerca dos riscos que envolvem as crianças que crescem em situações de desvantagem económica. Assim, num
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primeiro estádio, procurou identificar-se o factor de risco considerando-o como uma causa de preocupação em termos do desenvolvimento futuro. Num segundo estádio, procurou analisar-se as causas e as consequências do risco, como por exemplo a avaliação da etapa de vida ou da extensão da exposição ao risco. O terceiro estádio emerge a partir do reconhecimento de que nem todas as crianças respondem da mesma forma à mesma ameaça e de que nem todas recebem, igualmente, influências negativas, o que conduziu à procura de factores de protecção. Finalmente, a pesquisa realizada acerca dos factores de protecção, foi aplicada e incorporada em programas de intervenção. De acordo com estes mesmos autores, no sentido de se explorarem os factores de risco e os factores de protecção, em cada estádio de pesquisa dever-se-ia atender a três níveis de análise: o individual, o contexto imediato da família e os contextos mais globais da comunidade e das instituições.
No entanto, segundo Luthar et ai., (2000: 552), "o progresso na área da
resiliência permanecerá seriamente constrangido enquanto os estudos realizados tiverem uma orientação claramente empírica, sem bases teóricas claramente definidas e sem o reconhecimento conceptual da importância de múltiplos contextos no desenvolvimento das crianças". De facto, de acordo com estes mesmos autores,
a maior parte da extensa pesquisa realizada poderá ser enquadrada em três grandes perspectivas teóricas. De acordo com a primeira destas perspectivas orientadoras, os processos de protecção e de vulnerabilidade, que afectam as crianças consideradas em risco, operam em três níveis gerais. Estes incluem influências ao nível da comunidade (por exemplo, apoio social), da família (clima parental caloroso ou de maus tratos, por exemplo) e da criança (características tais como a inteligência ou as competências sociais). Esta perspectiva foi identificada e defendida por autores como Norman Garmezy e Emmy Werner, já referidos anteriormente, e consubstanciou-se como referência em muitos dos estudos realizados acerca da resiliência. Um outro grande quadro de referências teóricas engloba perspectivas que colocam em foco as transacções que se realizam entre o contexto e a criança em desenvolvimento. Este modelo ecológico-transaccional, defendido por autores como Urie Bronfenbrenner, James Garbarino, Arnold Sameroff e Dante Cicchetti, conceptualiza os contextos (cultura, comunidade e família) como
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interdependentes, interagindo ao longo do tempo, influenciando o desenvolvimento e a adaptação do indivíduo de diferentes formas, consoante a sua proximidade relativa. Esta conceptualização enquadrou diferentes pesquisas acerca da resiliência relacionada com diferentes situações de risco, tais como situações de desvantagem económica e experiências de negligência e de maus tratos. Uma terceira perspectiva pertinente é a estrutural-organizacional, no centro da qual se encontra a convicção de que existe continuidade e coerência no desenvolvimento da competência ao longo do tempo. Assim, tanto os factores mais distantes, como os mais próximos são vistos como importantes para o processo de desenvolvimento e para as escolhas individuais e a auto-organização é vista como influenciando, de forma decisiva, o desenvolvimento. Esta perspectiva organizacional foi adoptada, como orientadora das suas pesquisas, por vários autores, como é o caso de Dante Cicchetti e Suniya Luthar.
Uma outra preocupação dominante das pesquisas realizadas no âmbito da resiliência centrou-se na identificação de factores que actuassem no sentido de proteger os indivíduos das consequências da exposição à adversidade, quer biológica, quer social e na compreensão dos mecanismos subjacentes a este processo.