PLAINE DU Sal
3.5 Bruit de la circulation routière
A proposta dessa análise será compreender como os espetáculos do Opinião tentaram estabelecer relações com o popular na primeira fase do Grupo. A escolha desse período se deu pelo fato de que, depois do AI-5 e até a encenação de O Último Carro, restaram poucos pontos de contato entre a perspectiva popular nas peças montadas pelo grupo.
Quais eram os impasses vivenciados pela sociedade brasileira quando a possibilidade de diálogo com o povo foi extinta pelo golpe civil-militar? Existiu alguma forma de resistência no diálogo com a classe média? Quais foram as estratégias utilizadas pelo Grupo Opinião para que o povo não saísse completamente de cena? Essas questões mobilizaram o interesse de abordar essa temática nos primeiros anos de atuação do coletivo.
Nesse período entre 1964 e 1968, o grupo montou onze espetáculos, das mais variadas temáticas. Em 1964, foi montada o show Opinião, com direção de Augusto Boal e texto de Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. Em 1965, foram realizados três espetáculos: Telecoteco Opus N° 1, direção de Armando Costa e texto de Tereza Aragão, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho; Samba Pede Passagem, direção de João das Neves e texto de Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho e Liberdade, liberdade, direção de Flávio Rangel e texto de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. Em 1966, ocorreu a estreia de Se correr o
bicho pega, se ficar o bicho come, com direção de Gianni Ratto e texto de Ferreira Gullar e
Oduvaldo Viana Filho. Em 1967, mais três montagens: Meia volta vou ver, texto de Oduvaldo Viana Filho e direção de Armando Costa; A saída? Onde fica a saída?, com direção de João das Neves e texto de Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura e Ferreira Gullar e O inspetor
geral, com direção de Benetido Corsi e texto de Nicolai Gogol. No ano que terminaria com a
promulgação do AI-5, foram encenadas as peças Jornada de um imbecil até o entendimento, de Plínio Marcos e direção de João das Neves; Dr. Getúlio sua vida e sua glória, de Dias Gomes e Ferreira Gullar e direção de José Renato, além de Bacobufo no Caterefofo, com texto e direção de João das Neves.
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Dentre esses espetáculos, dois deles foram aqui tomados para análise pelo fato de travarem diálogo com a temática de interesse: o popular. São eles: Opinião e Se correr o bicho
pega, se ficar o bicho come. O primeiro estreou em 11 de dezembro de 1964. Foi dirigido por
Augusto Boal e tinha no elenco Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão, posteriormente substituída por Susana de Moraes e Maria Bethânia.
Os autores buscaram demonstrar no texto e na escolha do elenco alguns personagens característicos do Brasil. Ao mesmo tempo em que demonstravam a diversidade cultural do país, apontavam para uma perspectiva de frente ampla contra a ditadura. O processo de criação do texto se deu conjuntamente com os atores, que integravam elementos reais e ficcionais, sempre permeados por canções. Os personagens foram construídos a partir da trajetória de cada indivíduo. João do Vale como o camponês do Nordeste e migrante, Zé Kéti como o operário carioca e Nara Leão como a garota da zona sul do Rio de Janeiro. De acordo com Toledo, "A
especificidade social dos protagonistas originais do espetáculo - Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão - lembrava os desígnios de encontro produtivo entre trabalhadores e intelectualidade de esquerda que foram decisivos nos grandes movimentos de democratização cultural entre 1961 e 1964, como o CPC e o MCP" (TOLEDO, 2018:36). Em alguma medida, existiu uma tentativa
de retomar o elo que fora perdido com o golpe civil-militar. A diferença é que não era mais necessário se preocupar com uma forma que pudesse chegar ao povo, já que ele se encontrava excluído do processo enquanto público, mas, de alguma maneira, estava presente na temática e no palco através dos relatos e da atuação de Zé Keti e João do Vale.
Quando se avalia a primeira montagem do grupo, que também conta com a incorporação de artistas das classes populares e sem experiência com atuação, percebe-se que a opção realizada em O Último Carro possuía lastros com o próprio passado do Opinião. Mesmo se tratando de músicos em um espetáculo lírico-poético, não deixa de ser importante mencionar que a peça radicaliza ao incorporar as classes populares no palco de um espetáculo e não apenas na temática. A diferença fundamental é que no Opinião existia um interesse de propagar a ideia de uma aliança de classe, o que tornava fundamental a presença desses elementos. Já em O
Último Carro, existia somente uma única classe, cuja presença era fundamental para a tentativa
de diálogo efetivo com as classes populares.
O Show Opinião foi o primeiro ato teatral de protesto contra a ditadura e movimentou os meios culturais do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que trabalhava a questão do protesto, fazia também uma reflexão sobre o popular e a necessidade de inserção do povo no processo
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de engajamento através da música. No texto do programa da peça intitulado “As intenções do
Opinião” o grupo explicitou os seus objetivos em relação à montagem. “A música popular é tanto mais expressiva quanto mais tem opinião, quando se alia ao povo na captação de novos sentimentos e valores necessários para a evolução social; quando mantém vivas as tradições de unidade e integração nacionais68”. Ainda que o povo não estivesse mais presente na plateia, eram reiterados alguns valores fomentados desde o CPC.
A questão da música foi explorada e demonstrava claro interesse por sua “popularização”, buscando transformá-la em um elemento politizador, que pudesse explicitar as discrepâncias político-sociais existentes no país. Também a defesa do autor nacional esteve presente, questão cara ao teatro engajado desde a politização do teatro brasileiro com o Teatro
de Arena. Ela foi inserida através da construção de argumentos que indicavam a necessidade
de ampliar o repertório do teatro brasileiro, com ênfase no debate das questões nacionais. A peça seria uma forma de cooperar com esse processo.
É uma tentativa de colaborar na busca de saídas para o problema do repertório do teatro brasileiro que está entalado - atravessando a crise geral que sofre o país e uma crise particular que, embora agravada pela situação geral, tem, é claro, seus aspectos específicos. [...] Além do excelente repertório do grupo Oficina, do grupo Decisão. Além das peças montadas pelo Teatro do Sete, Cacilda Becker, etc - é preciso restabelecer o teatro de autoria brasileira - não somente o teatro do dramaturgo brasileiro - o espetáculo do homem de teatro brasileiro. É preciso que finalmente e definitivamente nos curvemos a nossa força e a nossa originalidade69.
O excerto não fala diretamente da ditadura, mas indica uma crise geral que contribuiu para o processo, ainda que não seja a única razão para o problema do repertório nacional. É interessante que o texto se aproxima de outras manifestações, inclusive vanguardistas, para justificar que já existe uma produção de dramaturgos brasileiros, mas seria necessário estabelecer também “o espetáculo do homem de teatro brasileiro”, que seria o artista disposto a discutir as questões nacionais para além do próprio campo artístico. Não existe uma defesa clara de um teatro com maior diálogo com o popular, mas talvez, diante do espetáculo, essa seja a proposta implícita, já que o diálogo com as diferentes classes sociais era fomentado e valorizado pelo grupo.
Em sua estreia, a crítica ficou dividida, embora tenha reconhecido a inovação da proposta. O público, por sua vez, frequentou assiduamente o Teatro Opinião. A repercussão do
68 Programa do espetáculo “Opinião” encontrando na da Biblioteca do CEDOC – FUNARTE, ESP.TA/Opinião. 69Ibidem.
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espetáculo chegou a vários meios artísticos e meses depois foi organizada a mostra de arte
Opinião 6570, que reuniu 29 artistas plásticos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Ao longo do tempo, os objetivos da peça foram ressignificados e fomentaram outras narrativas que acabam por se distanciar dos sentidos originais.
Nos anos 1980, Mostaço faz uma dura crítica à montagem porque o seu público era exclusivamente de classe média. “Opinião operava uma comunicação de circuito fechado:
palco e plateia irmanados na mesma fé. Aliás, um raro momento de espetáculo brasileiro contemporâneo inteiramente grego em seu espírito. O povo do palco era o mesmo povo da plateia” (MOSTAÇO, 1982:77). O autor percebia a relação do Opinião com o CPC e PCB de
forma bastante pejorativa e isso contribuiu para a sua análise. Ainda que parta de um pressuposto correto, que é a exclusividade do público de classe média, ele não percebeu a impossibilidade de diálogo com um público mais amplo diante da própria conjuntura. Nesse contexto, o diálogo com o popular não era mais uma opção. Além do mais, o povo do palco não era o mesmo povo da plateia. A presença de Zé Keti e João do Vale desequilibrava o ambiente, pelo fato de que pertenciam às classes populares e mesmo já integrados ao mundo artístico cultural carioca, ainda moravam na periferia do Rio de Janeiro. Nesse sentido, a impossibilidade de uma plateia popular foi substituída por atores das classes populares.
Diante do elitismo de parte da classe teatral brasileira, esse aspecto merece ser reconhecido como uma ampliação significativa de horizontes políticos e estéticos. Serão observadas no capítulo que trata da montagem de O Último Carro em São Paulo, as dificuldades que João das Neves enfrentou com a classe artística para colocar em cena atores das classes populares treze anos depois da estreia de Opinião. Esse argumento justifica o quanto a proposta do Opinião era ousada para o contexto. Se não atingiu as classes populares enquanto público, tentou alguma inversão no que tange à incorporação das classes populares no fazer cênico.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come tinha uma proposta completamente
diferente. O diálogo com as classes populares se deu na construção do texto e não em sua participação efetiva enquanto público. A terceira peça do grupo, escrita por Ferreira Gullar e Vianinha em 1966, tentava ampliar a dimensão da resistência sem uma afronta direta ao regime, mas com um protagonista pertencente às classes populares. O enredo fez uso da literatura de cordel e narrava as desventuras de Roque, um anti-herói camponês que vivenciava situações
70 A exposição “Opinião 65” foi a primeira manifestação das artes plásticas durante o regime militar, claramente
inspirada no espetáculo “Opinião”. A exposição dialogou com a situação política, instigando público e artistas a se situarem diante da nova realidade brasileira.
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nas quais, por meio da esperteza e da malícia, conseguia desfechos favoráveis para ele, mesmo sendo pobre.
O texto do programa é introduzido explicitando que a peça foi escrita sob a pressão das circunstâncias políticas e, por isso, é uma resposta política à situação do país. Elencaram-se três razões para a escrita do texto: i. Ser contrário a política de castas do governo, onde o povo não teria capacidade de fazer julgamentos políticos. ii. Fazer oposição ao "quietismo social", que só poderia ser rompido através da liberdade de manifestação e de organização. iii. Um voto de confiança no povo brasileiro.
A filosofia do governo se baseia num voto de desconfiança, na capacidade de discernimento político do povo brasileiro. O "BICHO" é um voto de confiança no povo brasileiro. O discernimento é a conquista de "Roque", o personagem central, conquista que acabaria lhe custando a vida, não fosse a peça, quase sempre, uma comédia. O BICHO é também um voto de confiança no povo brasileiro porque procura suas forças nas nossas tradições, porque utiliza os versos, as imagens, o sarcasmo, a desilusão, a ingenuidade e a feroz vitalidade que a literatura popular, durante dezenas de anos, vem criando71.
Diferente do Opinião que trabalhou na perspectiva da aliança de classe, Se correr o
bicho pega, se ficar o bicho come expõe as dificuldades cotidianas da vida de um homem pobre.
Existe uma contradição de classe e perseguições permanentes ao herói Roque. Minimamente, trata-se de uma versão menos idealizada do popular, já que ele comete atos ilícitos, quebra com convenções e normas sociais.
O texto do programa é claramente político e faz mais enfrentamentos ao governo, se comparado ao do Opinião. Trata-se de um voto de confiança no povo brasileiro porque vem dele as inspirações estéticas na peça, para além de possuir um protagonista proveniente do povo. Reivindica-se o enredo na chave da literatura popular que dialoga com os problemas do povo, mas é carregado de leveza e descompromisso com a estética realista vista em outros espetáculos do grupo.
Rosangela Patriota, pesquisadora da obra de Oduvaldo Viana Filho, avalia que a peça é fruto de uma visão positiva da conjuntura discutida no texto Perspectivas do teatro em 1965, escrito por Vianinha. O autor defendia que a democracia havia sido destruída enquanto estrutura do Estado, mas não como aspiração do povo e do artista brasileiro. Para ele, junto com a democracia, foram destruídos vários mitos em torno da consciência social do povo.
71 Esse otimismo motivou a escrita, em parceria com Ferreira Gullar, da sátira política Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, na qual personagens/estereótipos representando opressores e oprimidos, por meio da comédia e da farsa, satiriza a conjuntura vivenciada, a partir da exposição de estratégias de sobrevivência, com vistas a demonstrar que a derrota não fora total. A partir da literatura de cordel, foram abordados temas como eleições, vontade popular, interesses de grupos sociais, reforma agrária, entre outros. Tais procedimentos justificavam-se porque a situação deixara de ser interpretada como REVOLUCIONÁRIA e, nessas circunstâncias, a construção da RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA fazia-se necessária (PATRIOTA, 2004:8).
O tema do popular é explorado também como estratégia de sobrevivência. Após o golpe civil-militar é como se a classe média precisasse aprender novas formas de lidar com uma conjuntura desconhecida, em oposição às classes populares, que sempre sobreviveram a margem do sistema.
O otimismo na sabedoria popular é encontrado também em O Último Carro, a partir do momento que uma parcela do povo assume as rédeas da situação e tenta lutar por sua vida em meio à tragédia. O autor acreditava na capacidade do povo de resolver os seus próprios conflitos, mas deixava claro que não existia uma concepção homogênea de povo. Ainda que a peça de Vianinha e Gullar tenha ousado textualmente na visão sobre o povo, no que tange à encenação, coube aos artistas de classe média representá-lo. Talvez essa seja uma grande inovação estética e política que não havia sido alcançada em outras montagens do Grupo
Opinião: o povo deixa de ser tema e passa a ser artista de uma obra exclusivamente dedicada a
ele e suas questões.
Com o AI-5, ocorreu uma separação ainda mais radical entre o grupo e a tentativa de diálogo com o povo. A partir desse momento a temática popular deixou de existir até mesmo como objeto de pesquisa estética e textual no Opinião. Até a montagem de O Último Carro, percebeu-se um esvaziamento dessa discussão nas montagens do grupo. Ao arbítrio do Ato Institucional nº 5, o grupo responde com Antígona, peça clássica de Sófocles com direção de João das Neves. Em 1971, é encenada A ponte sobre o pântano, de Aldomar Conrado e direção de João das Neves. Foi o último trabalho encenado pela atriz Glauce Rocha antes de sua morte. O texto havia sido o vencedor do primeiro Concurso de Dramaturgia do Opinião, realizado no ano anterior e claramente inspirado no Seminários de Dramaturgia do Arena.
De 1974 a 1976, João das Neves funda um Opinião 2, em Salvador. O Teatro Opinião continuou funcionando, principalmente com recursos obtidos com o aluguel do espaço para shows musicais e outros grupos. No retorno a cidade, tem início a montagem de O Último
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Carro. Depois de temporada paulista, João das Neves retorna ao Opinião, onde dirige e escreve
as peças Mural Mulher, de 1979 e Café da Manhã, de 1980. Ambas discutiam a condição feminina na sociedade e demonstravam o interesse de dialogar com outros sujeitos políticos que surgiram no processo de redemocratização do país.
É interessante observar que a trajetória do Opinião acompanhou, em parte, a dinâmica do regime militar brasileiro. De 1968 e 1975, entre o AI-5 e a consolidação do presidente- general Ernesto Geisel no poder, a temática popular praticamente saiu de cena. Não é uma coincidência que nesse período a atuação de diversos grupos de projeção no cenário dos anos 1960 tenha sido paralisada a exemplo do Teatro Oficina e do Teatro de Arena.
Buscou-se, com essa reflexão, atentar para o fato de que O Último Carro não foi um produto isolado de seu tempo, nem de seu meio. A peça reelabora elementos que, em alguma medida, já existiam no CPC, na trajetória do Opinião e no próprio sujeito que a concebeu. Dialoga também com o conceito de povo e popular do PCB, mas apresentava sintomas de uma crise nesta equação política e cultural, indagando-se sobre o lugar das classes populares como tema e público e revendo os termos da aliança de classes formulada desde 1958, na Declaração
de Março.
Pensar a temática do popular no Grupo Opinião permitiu identificar tanto as aproximações quanto os distanciamentos propostos no momento da encenação de O Último
Carro. Chegou-se à conclusão de que se a temática do popular foi mobilizada em alguns
momentos da história do grupo, mas, na peça analisada ela foi radicalizada ao pensar o popular não só como temática, mas como sujeito capaz de pertencer ao mundo artístico.
A partir desta análise foi possível compreender porque a peça não foi montada no contexto de sua escrita, como ela se aproximava ou não dos pressupostos defendidos pelo grupo e como sua temática estava deslocada da leitura conjuntural que o grupo fazia no contexto posterior ao golpe civil-militar.