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CHAPITRE 2 Voie de la cuisine et voix des cuisiniers

I. Le temps de l’école : les récits dans la pratique et la représentation d’une carrière

3. Du bonnet d’âne à la toque de cuisinier ?

Encontramos alguns indícios de tensões presentes no Quarto Evangelho. Ao mesmo tempo que o autor joanino dedica algumas páginas para edificar a comunidade, nota-se, também, a resposta da liderança joanina quanto aos diversos conflitos que emergiam no contexto do Quarto Evangelho. Considerando que Bultmann35 formulou a hipótese de que a comunidade joanina está em conflito com o movmento gnóstico, a crítica que se faz a Bult- mann é o anacronismo existente ao correlacionar o movimento gnóstico do jeito que se de- senvolveu no I século. Concordamos com a crítica, porém, queremos destacar que antes de surgir movimento, forma-se o imaginário. Defendemos, portanto, que os opositores de João

34 Cf. KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: 2 História e literatura do cristianismo primitivo. São

Paulo, Editora Paulus, 2005, p. 205-206. Seguimos a proposta estrutural de Koester por concordar com sua delimitação textual.

eram portadores de ideias que estão no embrião do que, posteriormente, foi denominado o movimento gnóstico.

Essa teoria ganhou consistência com “descoberta da biblioteca de Nag Hammadi36, [a qual] possibilitou o acesso a inúmeros escritos que auxiliam na reconstrução da evolu- ção desses discursos”37. Com a descoberta dessa Biblioteca, a hipótese da influência ou

tensão das correntes gnósticas se solidificou ao levar em conta, dentre outros aspectos, o dualismo gnóstico, os mediadores gnósticos e a redenção gnóstica, ingredientes que tempe- raram, ainda mais, as buscas em encontrar na comunidade joanina elementos gnósticos.

Além do grupo “gnóstico”, ou protognóstico, o Evangelho joanino vive conflitos in- tensos com a religião Hermética que, segundo Dodd, é a religião de maior prestígio do hele- nismo. Em síntese, as literaturas herméticas “são monumentos da fecundação cruzada do

pensamento grego e do oriental, característico do Oriente” 38. O destaque desse pensamen- to é que eles não formam uma escola no sentido estrito. Por mais que não sejam restritas a uma categoria, esses escritos partilham de “uma visão comum e um comum espírito religio-

so, e permitem formar uma ideia bastante coerente do modo de pensar do povo devoto e inteligente no mundo helenístico sob o Império Romano.” 39

Encontramos nos tratados Herméticos a perspectiva “de uma filosofia pagã sincretis-

ta da religião, apresentada como revelação que pode ser ensinada”40. Estabelece, pois,

relações com textos gnósticos, além de afirmações mitológicas a respeito da criação do mundo, além da presença de elementos judaicos. Observa-se a transdiciplinariedade e sin- cretismo nestes escritos.

Um personagem que exerceu bastante influência foi Fílon de Alexandria, o qual sin- tetizou bem uma das correntes filosóficas que influenciaram consideravelmente o judaísmo,

36 No ano de 1945 encontrou-se, próximo ao Vale do Rio Nilo, mais de 1100 páginas de antigos manuscritos.

Esses eram textos traduzidos do grego para o copto. Tal Biblioteca foi intitulada como Nag Hammadi. Dentre os achados está, como o mais conhecido, o Evangelho de Tomé. Esses manuscritos auxiliam a remontar as diversidades, tradições e estruturação das comunidades primitivas do primeiro século. A biblioteca de Nag Hammadi alterou completamente as pesquisas dos textos antigos, principalmente no que tange ao gnosticis- mo. Uma linguagem bastante peculiar que utiliza de conceitos místicos como parâmetro, os quais se aproxi- mam muito da literatura joanina.

37 KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: 2 História e literatura do cristianismo primitivo. São

Paulo, Editora Paulus, 2005, p. 195.

38 DODD, Charles. A Interpretação do Quarto Evangelho. São Paulo, Editora Paulus, 2003, p. 29-30. 39 DODD, Charles. A Interpretação do Quarto Evangelho. São Paulo, Editora Paulus, 2003, p. 29-30.

40 KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: 1 História e literatura do cristianismo primitivo. São

isto é, pelo viés do pensamento grego com o hebraico, “na atmosfera cosmopolita daque-

le grande centro de cultura helenística do Egito” 41. Fílon escreve duas obras Ad Flaccum e

Legatio ad Gaium, em um gênero apologético, na qual descreve quando Flaco, prefeito ro-

mano, castiga as classes sociais inferiores, quando elas se recusam a reverenciar imagens do culto ao imperador. Outro gênero utilizado por Fílon é a exegese, duas obras em especiais, ligadas ao ambiente religioso em Alexandria, são Quaestiones in Genesin e as Quaestiones

in Exodum42.

A influência de Fílon de Alexandria não está relacionada com as comunidades primi- tivas, mas, sim, com as comunidades e escritos posteriores, de modo que “a obra de Fílon

influenciou profundamente o desenvolvimento da teologia cristã e da visão de mundo cristã como um todo” 43.

O judaísmo rabínico era outra corrente teológica presente no contexto do Quarto Evangelho, a qual desencadeava tensões que os textos apresentam. Não se pode negar que “muitos são os problemas relacionados com a identificação dos precursores do judaísmo

rabínico”44, mas é inegável sua influência e existência no contexto socioambiental do Quar- to Evangelho. Ao considerar essa corrente teológica, esse dado lança o Evangelho joanino para dentro de um contexto judaico, o qual valoriza, pelo menos, três elementos indispensá- veis para o judaísmo rabínico que contrastava com o QE, sendo eles: a Torá; O Messias; e o Nome de Deus. Esses são três aspectos que constituíam o judaísmo rabínico, o qual estabe- lece conflitos com a comunidade joanina.

Vale destacar que para muitos exegetas o grande problema do Evangelho joanino, ou os principais adversários dessa comunidade, eram os judeus45, entretanto, avaliando as di- versas categorias que constituem as facetas, e considerando os períodos redacionais e a grande pluralidade existente tanto na região Sírio Palestinense como em Éfeso, nota-se que os judeus faziam parte do todo, todavia não eram o todo.

41 DODD, Charles. A Interpretação do Quarto Evangelho. São Paulo, Editora Paulus, 2003, p. 81.

42 Cf. KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: 1 História e literatura do cristianismo primitivo. São

Paulo, Editora Paulus, 2005, p. 278-285.

43 KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: 1 História e literatura do cristianismo primitivo. São

Paulo, Editora Paulus, 2005, p. 285.

44 KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: 1 História e literatura do cristianismo primitivo. São

Paulo, Editora Paulus, 2005, p. 404.

Por mais que não seja destacado ou ressaltado nos círculos teológicos, Dodd não se esquece de mencionar o grupo do Mandeísmo. Seus escritos são “uma extraordinária

mescla de teologia, mito, conto de fadas, instrução ética, prescrições rituais, e o que pre- tende ser história”46. Nesses escritos encontramos temas como: batalhas cósmicas entre

trevas e luz, batismo como ritual de passagem, entre outros temas.

Dodd cita o posicionamento de Bultman ao colocar que “o Quarto Evangelho repre-

senta uma revisão cristã do mito existente na seita batista (nazarena ou mandeia), no qual as ideias principais são as do mito original iraniano na sua forma mandeia, e pretende-se que Jesus seja de fato o Mensageiro divino que desce e de novo sobe para a salvação dos homens” 47. Tais escritos possuem paralelos, segundo Bultmann, nos Odes de Salomão,

Atos de João e os Atos de Tomé, incluindo o Hino da Alma.

Este foi apenas um apanhado das religiões e movimentos que faziam parte do possí- vel contexto conflitante do Quarto Evangelho. Citamos o que denominamos como protog- nosticismo, as literaturas Herméticas, Fílo de Alexandria, o judaísmo rabínico e o mandeís- mo como movimentos presentes no contexto do Evangelho de João. Partiremos, agora, para uma hipótese interpretativa, que auxiliará no processo hermenêutico do Livro dos Sinais.