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Com a aceleração do processo industrial brasileiro, a partir da década de 50, o setor têxtil passou por uma grande transformação, buscando se posicionar com base na modernidade organizacional e tecnológica. A partir de 1970, incentivos fiscais e financeiros canalizaram um considerável fluxo de investimentos para a modernização do setor, visando, especialmente, à capacitação para exportação. A partir de 1993, a situação mudou, drasticamente, com a rápida abertura do mercado, conduzida durante o governo Collor. Sem políticas de preparação e planejamento adequado, esta indústria viu-se frente a um novo padrão de concorrência, principalmente com os produtos têxteis e de confecção, originários da Ásia. O reposicionamento foi árduo e vitimou diversas empresas tradicionais. Neste início de década, em função de uma ainda fraca recuperação do mercado interno, o setor voltou-se para as exportações. Os resultados têm sido animadores, apresentando, no ano de 2003, números significativos. Houve um aumento de 40% no volume exportado, correspondente à cerca de US$ 600 milhões, em relação ao ano de 2002. Porém, apesar de serem animadoras as perspectivas de 2004 (os resultados não haviam ainda sido divulgados até a publicação deste trabalho), apenas a partir de 2005, o setor retornará aos números que atingiu em 1992, com o saldo recorde da balança comercial de US$ 950 milhões (PRADO, 2004).

A cadeia têxtil, no Brasil, engloba desde a produção das fibras têxteis até o produto acabado e confeccionado. O segmento de confecção é o principal produtor de bens finais do complexo têxtil, que é formado por uma rede de segmentos industriais profundamente heterogênea, com estruturas setoriais diversas, quanto ao tamanho e número de empresas, intensidade de capital e grau de complexidade tecnológica.

O Setor de Confecção brasileiro faturou US$ 18 bilhões e empregou mais de 1 milhão de pessoas, durante o ano de 2000. De 1990 a 1996 as importações do setor subiram 2.244% e, só a partir da desvalorização do Real, em 1999, a situação da competitividade do produto nacional voltou a apresentar níveis aceitáveis de lucratividade do setor produtivo, no Brasil (TESSARI, 2001).

Outros dados sobre os volumes do setor, relatados por Prado (2004), indicam que o setor representava, em 2003, cerca de 4,4% do PIB e empregava 1,7% da população economicamente ativa. Neste mesmo período, a produção nacional ficou posicionada como a 6a maior no mundo e 3ª, entre os produtores mundiais, no segmento de malhas. Para uma

posição de tamanho de mercado tão importante, os resultados do comércio exterior indicam que há um grande espaço a ser ocupado pelo setor, no cenário global. Importamos, em 2002, US$ 1,03 bilhão e exportamos, apenas, US$ 1,19 bilhão. Somos o 42o maior exportador e figuramos em 44º, entre os países importadores. O setor, como um todo, faturou cerca de US$ 33,9 bilhões, em 2003. Sendo que, apenas o segmento de confecções, foi responsável por US$ 20,0 bilhões.

Estas dificuldades, pelas quais passou o setor, provocaram um processo de reestruturação, que ainda encontra-se em curso. As empresas executaram reengenharia de seus processos e adotaram novos modelos organizacionais, terceirização parcial da produção e uma agressiva gestão de custos. Investiram em marketing, visando o fortalecimento de suas marcas, e no desenvolvimento técnico e de recursos humanos, com objetivo de melhorar o estilo e a qualidade do produto.

Para impulsionar as exportações do setor, liderada por uma maioria de pequenas e médias empresas (80%), foram implantados consórcios de exportação, a partir de 1998.

No início de 2003, existiam, no Brasil, mais de 18.000 empresas, oficialmente constituídas e dedicadas à confecção de vestuário. A origem do capital das empresas do setor é quase que totalmente nacional, com poucas exceções, normalmente em áreas com características mais capital-intensivas.

A tabela 6.2, a seguir, é uma consolidação dos conceitos e características relevantes, selecionados nesta revisão bibliográfica, sobre o Setor de Confecção:

Conceitos delimitadores: Setor de Confecção Referências Bibliográficas

1) Conceitos relacionados com o setor: alta complexidade de Mercado, alta especificidade de ativo, coordenação pela construção de laços hierárquicos e estruturas de organização em rede.

Holland e Lockett, 1997 2) Há negligência e incompreensão sobre a necessidade de coordenação

e otimização da cadeia. O setor exige alta flexibilidade sazonal, mas persistem características de baixa padronização e automação.

Saviolo e Testa, 2002 3) O setor apresenta cadeias segmentadas, longas e populosas. A

estratégia de coordenação do varejista baseia-se em ligações hierárquicas, muito próximas, e num número reduzido de

fornecedores, que conseguem atender aos requisitos idiossincráticos do setor.

Holland e Lockett, 1997

4) Porter descreveu o setor como um agrupamento fragmentado de

indústrias interconectadas. Porter, 1980

5) Muitas empresas pequenas e médias gravitam em torno de poucas

empresas grandes e tradicionais de fabricação e varejo. Saviolo e Testa, 2002 6) O Setor de Confecção é altamente competitivo e sobrevive do novo e

do diferente. O ciclo de produto é curto e marca e estilo dominam as características de diferenciação. Este cenário é um desafio à criação e manutenção de vantagens competitivas.

Richardson, 1996

7) Estratégias colaborativas interorganizacionais podem representar considerável vantagem competitiva. Para isso, é preciso: compartilhar estratégias, desenvolver atitude cooperativa, criar processos, anexar tecnologias e empregar sistemas colaborativos.

Saviolo e Testa, 2002

8) Os varejistas monitoram, de perto, os fornecedores, por meio de SII que provêm dados sobre projetos, produção, distribuição e

contabilidade, e, principalmente, para administrar os processos logísticos.

Holland e Lockett, 1997

9) A inovação tecnológica, especialmente a TI e os novos sistemas gerenciais, estão integrando os estágios da cadeia, ao combinar tarefas individuais em processos colaborativos. Neste caso, a coordenação é exercida pela empresa líder da cadeia, normalmente o varejista.

Saviolo e Testa, 2002

10) A integração do canal pela informação está em seus estágios iniciais, para o Setor de Confecção, mas parece já estar afetando o

relacionamento entre fornecedores e varejistas.

Abernathy et al., 1995 11) A especificidade de ativo é, principalmente, devida Resposta Rápida e

à demanda flutuante do Mercado. Fornecedores e varejistas interdependem no conhecimento, capacitação e informação.

Holland e Lockett, 1997 12) O varejo se tornou o principal elo da cadeia. O poder de barganha Saviolo e Testa, 2002

Conceitos delimitadores: Setor de Confecção Referências Bibliográficas

vem sendo continuamente transferido do fabricante para o varejista, normalmente uma grande empresa com muitas lojas em cadeia. 13) O Lean Retailing permite, ao varejista, melhorar o equilíbrio entre a

maximização da oferta e a minimização de estoques, com base no desempenho de cada produto, no nível de SKU (StockKeeping Unit).

Abernathy et al., 1995 14) Recentes avanços, no setor e na TI, aumentaram os incentivos para

que a informação seja compartilhada entre empresas da cadeia, em relacionamentos verticais.

Holland e Lockett, 1997 15) Tecnologias emergentes permitem ao varejista e seus fornecedores

processarem, em tempo real, dados de vendas, loja por loja, com detalhamento de especificação do produto, em SKU.

Hunter, 1990; Hammond, 1990 16) A estratégia colaborativa deve estabelecer um processo permanente de

criação de conhecimento compartilhado, para fomentar a contínua inovação, característica decisiva no Setor de Confecção e que pode levar à vantagem competitiva sustentável da cadeia, como um todo.

Saviolo e Testa, 2002

17) A Resposta Rápida ao Mercado mudou o foco da concorrência para a

rapidez e o know-how. Hunter, 1990; Hammond, 1990

18) A estabilização do mercado e a abertura comercial, após 1994, resultaram em grandes desafios para as cadeias produtivas do setor, que resultaram em investimentos em processos e automação.

Ferreira, 2000