Os resultados da pesquisa levada a efeito com proprietários de segunda residência em
Gravatá mostram a importância da sociabilidade que tal espaço enseja, diferentemente daquele
da cidade na qual essas pessoas possuem a residência permanente.
Gravatá, cidade de porte médio situada no agreste pernambucano possuía, segundo
dados levantados pelo IBGE, no Censo Demográfico de 2000, uma população de 67.204
habitantes, dos quais 55.468 habitantes viviam em área urbana e, 11.736 na zona rural. Tal
distribuição segue a tendência do Brasil, nas últimas décadas, de incremento do processo de
urbanização que concentrou não só atividades econômicas industriais e de serviços nas
grandes cidades, mas também um grande fluxo de pessoas atraídas pelas possibilidades de
inserir-se no mercado de trabalho. Em período mais recente, observa Wanderley (2001, p.1),
“os estudiosos da população vêm apontando para outro processo de concentração demográfica,
desta vez centrado no desenvolvimento das chamadas cidades médias situadas no interior do
país”.
É pertinente, nesse momento, identificar que critérios o IBGE utiliza para categorizar a
população e os domicílios como estando em situação urbana, ou rural.
Em situação urbana, consideram-se as pessoas e os domicílios recenseados nas áreas
urbanizadas ou não, correspondentes às cidades (sedes municipais), às vilas (sedes distritais)
ou, às áreas urbanas isoladas. A situação rural abrange a população e os domicílios
recenseados em toda a área situada fora dos limites urbanos, inclusive, os aglomerados rurais
É importante esclarecer que no desenvolvimento desse aspecto da análise, que se refere
ao contexto do rural e à sua interface com o urbano, toma – se como referência os estudos
realizados por Wanderley que muito contribuem para o conhecimento do meio rural.
O meio rural, entendido de uma maneira mais ampla pela forma como se dá sua
ocupação, “corresponde ao entorno da cidade, espaço de habitat disperso onde predominam as
paisagens naturais e os usos atribuídos às terras apropriadas, tradicionalmente à produção
agrícola ou os espaços improdutivos” (WANDERLEY, 2000, p.31-32).
Entretanto, o que os estudiosos do rural observam é que esse espaço vem sendo
ocupado de outras formas e com outro objetivo que não seja, apenas, o da produção agrícola, o
que vem dando margem ao crescimento dos serviços, inclusive daqueles direcionados ao
turismo, ao lazer e às diversas formas de recreação. Isso pode ser explicado por alguns fatores
como a facilidade de locomoção, a existência de boas rodovias e a conseqüente rapidez nos
deslocamentos17, a necessidade de contato com a natureza, a fuga, por um curto período que
seja, do barulho, da agitação e do estresse presentes na vida urbana, etc. “Neste sentido, o
meio rural não seria apenas o lugar da produção agrícola, mas também um espaço diferenciado
capaz de oferecer à população urbana, padrões de residência específicos e formas de lazer
ligadas ao contato com a natureza” (WANDERLEY, 1999).
17 Para Marly-le-Roy, (apud Bourdin 2001, p.65) a mobilidade é antes de tudo uma possibilidade, o que
corresponde à acessibilidade e, por exemplo, à oferta de transportes coletivos. Ela é em seguida uma competência, quer dizer em primeiro lugar o controle dos meios da mobilidade (por exemplo, a posse de um automóvel) mas igualmente dos saber-fazer ( que não são apenas técnicos mas também sociais: saber se constituir em rede de relações dispersa sobre um vasto território). Ela é, enfim, um capital: quanto mais tenho a possibilidade de me deslocar e quanto mais tiver competência para isso, tanto mais isso poderá me servir nas estratégias sociais. Essa distinção permite conceber perfeitamente a articulação entre a mobilidade como modo de funcionamento da sociedade e como experiência (e secundariamente como estilo de vida). (Destaques do autor).
Essa é uma tendência percebida nos países mais avançados da Europa e da América do
Norte e nas áreas mais urbanizadas do Brasil, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. Não se
pode excluir o Nordeste desse rol, uma vez que há espaços regionais que nele se inserem,
como é o caso de Gravatá, em Pernambuco, local onde se observa, nos últimos anos, um
crescimento significativo das residências secundárias que se evidenciam como espaços de
convivência, de sociabilidade, de lazer.
Pode-se, portanto, parafraseando Wanderley (2000a) dizer que, nesse contexto, o meio
rural é entendido “como um espaço suporte de relações sociais específicas, que se constroem,
se reproduzem, ou se redefinem sobre este mesmo espaço e que, portanto, o conformam
enquanto um singular espaço de vida”.
É nesse sentido que se coloca a leitura feita do espaço onde se situam as segundas
residências no município de Gravatá.
Kevin Lynch e P.Pellegrino, a partir de uma definição clássica do espaço – inspirada
em Kant, caracterizam a “espacialidade” como forma de espaço culturalmente construída [...]
(Cf. BOURDIN, 2001). Esse espaço tem como referência um sistema de valores que tem
levado aqueles que o procuram, a buscar o seu lugar: um lugar de identidade, de estabilidade,
de proteção, de expressão da autenticidade onde se pode dar livre curso à espontaneidade, à
valorização de uma afetividade que tem como base as relações primárias, a valorização do
convívio com a família, por exemplo.
Também Marsden e Murdoch (1993 e 1994 apud WANDERLEY, 2000b), percebem a
localidade rural como um meeting place. Principalmente para a classe média de origem urbana
Esta constrói um discurso próprio sobre a ruralidade, tendo como base uma “visão idílica” do meio rural – o contato com a natureza e a participação na vida comunitária –que o transforma em um espaço de ‘amenidades’ e que se expressa na defesa da expansão de atividades ligadas ao lazer e aos espaços residenciais e na oposição à presença de indústrias e de trabalhadores industriais (ibidem, p.104).
Segundo Wanderley (2000) essa população não faz parte da população rural, entendida
como a população residente no meio rural. É, no entanto, importante ressaltar que a população
que vem deixando as áreas urbanas e que se desloca nos finais de semana, nos feriados, ou
períodos festivos, como o das festas juninas que acontecem, principalmente, nas cidades
interioranas do nordeste brasileiro – influencia o processo de mudança que vem se
processando nesses espaços.
Com efeito, o meio rural é mais bem servido dos equipamentos coletivos necessários à vida moderna e dispõe de meios de comunicação e de transporte eficientes, que o integram aos espaços regionais mais amplos, circunstâncias às quais geralmente se acrescentam a existência de condições naturais - clima, patrimônio [...] (WANDERLEY, 2000, p.33).
Portanto, com os novos usos dados aos espaços rurais eles deixam de ser
prioritariamente produtivos para se tornarem espaços de consumo voltados, em especial, para
as atividades relacionadas às funções de residência e de lazer (Cf. WANDERLEY, 2000b).
Outra conseqüência que se pode notar como resultante da presença dos habitantes das
residências secundárias em determinada área rural, que buscam uma qualidade de vida que não
encontram mais no meio urbano, é a modificação não apenas da paisagem, mas da própria
natureza da vida social local que pode se perceber pelo
surgimento de novas ocupações (como caseiros e jardineiros, cuja “reconversão” tem sido pouco estudada no Brasil), freqüentemente recrutados entre os antigos moradores, e, ainda, ao afetar o ritmo de vida
local, agora determinado pelo fluxo da população “de fora”(WANDERLEY, 2000, p.34).
Essa é uma contradição inerente ao processo de reordenamento espacial acontecido a
partir do surgimento e proliferação das residências secundárias em Gravatá. Os proprietários
de segunda residência se referem positivamente à facilidade e à rapidez que se tem para se
deslocar até o município, como conseqüência da modernização da BR 232 que liga Recife a
Gravatá; elogiam as diversas possibilidades de escolha de restaurantes, dos mais típicos aos
mais sofisticados. Sobretudo, percebe-se uma satisfação ímpar ao se referirem às
especificidades do local, pelo estilo de vida que permite ter e pelo seu povo, com sua
simplicidade, sua cultura, seu jeito de ser, como ilustra o depoimento a seguir:
[...] faço compra pessoalmente, entro na padaria, entro no mercado, então, eu circulo, vou aos locais e vejo, vou ao caixa, pago, então são coisas que dificilmente eu faria aqui. Então, isso é diferente.[...]. E conversa, conversa com o homem do campo, com o agricultor, ouve aquelas histórias interessantes dele, as experiências de vida interessantes dele. Eu acho extremamente interessantes, muitos extremamente inteligentes, de rara inteligência, isso é outro lazer (entrevistado n.20).
Há indicativos de que o homem simples do campo se apresenta como um atrativo,
porque se mostra por inteiro, desnuda sua vida e seus sentimentos, cativando o homem da
cidade grande. É diferente e essa diferença atrai e distrai. Escutar as façanhas do outro, seus
problemas, de certa forma “aproxima”, ao mesmo tempo em que a “distância social” se
mantém.
O que a gente gosta é da tranqüilidade, a vida mesmo do interior. As pessoas da comunidade [...] a caseira da gente já está lá há uns 14 anos, ela se tornou
quase uma amiga, um parente, porque ela leva os problemas dela, participa
Para Paulo Meneses (1999) esse aparente interesse pelo Outro, é na verdade um
desrespeito, “ao tomá-lo como espetáculo e objeto de consumo, e não como sujeito cujas
práticas sociais são ricas de sentido e encontram seu lugar e compreensão no ‘conjunto
complexo’ que constituem como elemento de uma cultura”.
Percebe-se, portanto, como diversos, os fatores que influenciam a escolha do lugar
onde se quer vivenciar um lazer diferenciado com a família, ou seja, no presente estudo, o
local de segunda residência.
Segundo Bourdin (2001), o comprador de uma residência secundária deve mobilizar
recursos que variam conforme os lugares. O lugar constitui, pois, uma utilidade para a ação,
em função de três fatores: a probabilidade de nele encontrar os bens ou serviços procurados, o
nível dos recursos mobilizáveis que facilitam a procura desses bens ou serviços, a capacidade
de controle da situação que o ator se atribui. Mas, em matéria de residências secundárias como
em muitos outros campos, a utilidade não é a única questão.
Em alguns casos, as escolhas são baseadas no sentimento de segurança ou de
familiaridade. Em outros,
permanece a valorização do que é percebido como particularidade do meio rural, em especial no que se refere à proximidade com a natureza e ao estilo de vida nele dominante; trata-se de uma vida considerada mais tranqüila, onde as relações são baseadas no conhecimento pessoal e onde se pode viver “a vida como era no passado” (WANDERLEY, 2000, p.106).
Ou seja, muitas vezes, busca-se lugares de autenticidade, onde se pode dar livre curso à
espontaneidade, à informalidade, à afetividade fundada nas relações primárias.
Então veja, botar uma cadeira na calçada (aqui) não tem jeito. Em Gravatá, eu paro e fico olhando: que negócio é esse o povo com cadeira na calçada, conversando [...] botar a conversa em dia [...] que negócio
extraordinário.Quem é louco de colocar uma cadeira na calçada aqui? Veja, a qualidade de vida é muito, muito diferente (entrevistado n.21).
Daí porque “a afirmação sistemática do entre-si [...] influi na construção dos sistemas
residenciais e, mais além, na organização social por inteiro” (Cf. BOURDIN, 2001).
Como diz Mendras (apud WANDERLEY, 2000, p.134) “[...] a residência no meio
rural expressa cada vez mais uma escolha que não é outra senão [...] uma escolha por um certo
estilo de vida”.
3.5. Mudanças no (estilo de) lazer em função do redirecionamento do tempo e do espaço