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SANS INTERVENTION!

3.4.  Les sciences cognitives 

3.4.4.  Apports pratiques 

A Epistemologia Política (ROTHEN, 2004) propõe que a investigação sobre a produção e circulação de uma revista deve ser realizada a partir dos estudos de Robert Darnton (2010a, 2010b) a respeito da história dos livros. Nessa concepção, a história dos livros:

[...] até se poderia chamar de história social e cultural da comunicação impressa, se não fosse um nome tão comprido, pois sua finalidade é entender como as ideias eram transmitidas por vias impressas e como o contato com a palavra impressa afetou o pensamento e comportamento da humanidade nos últimos quinhentos anos (DARNTON, 2010b, p. 122).

De acordo com o autor, a investigação sobre a história dos livros “não começou ontem. Ela se estende até a cultura da Renascença, senão antes; e começou a sério no século XIX, quando o estudo dos livros como objetos materiais levou ao crescimento da bibliografia analítica na Inglaterra” (DARNTON, 2010b, p. 123).

Observando distintas pesquisas sobre a história dos livros, o autor destaca que, ao longo dos anos, várias disciplinas têm auxiliado pesquisadores na análise dos livros. Utilizadas de forma isolada (como, por exemplo, a história, a literatura, a sociologia) ou interdisciplinar (como a história da literatura ou a sociologia do conhecimento) tais disciplinas têm ampliado consideravelmente o campo de análise do livro.

No entanto, nenhuma delas “é capaz de fazer justiça a todos os aspectos da vida de um livro. Pela sua própria natureza, portanto, a história dos livros deve operar em escala internacional e com método interdisciplinar” (DARNTON, 2010a, p. 149). Destarte, o autor aponta outra direção para a análise dos livros: “para conseguir uma certa distância dessa correria interdisciplinar e enxergar o objeto como um todo, talvez caiba propor um modelo geral para analisar como os livros surgem e se difundem entre a sociedade” (DARNTON, 2010a, p. 112).

Ao propor esse modelo, Darnton (2010b) considerou que o modo de produção e de circulação dos livros possui certas peculiaridades. Segundo o autor:

[...] evidentemente, as condições variaram tanto de lugar para lugar e de época para época, desde a invenção do tipo móvel, que seria tolo esperar que todas as biografias dos livros se encaixassem num mesmo modelo. Mas, de modo geral, os livros impressos passam aproximadamente pelo mesmo ciclo de vida (DARNTON, 2010b, p. 125).

O ciclo de vida dos livros pauta-se na tese de que “os livros fazem parte de circuitos de comunicação que funcionam segundo modelos homogêneos, por mais complexos que sejam. Exumando esses circuitos, os historiados podem mostrar que os livros não se limitam

a relatar a história: eles a fazem” (DARNTON, 2010b, p. 149). Na Figura 3, observamos o circuito pelo qual o livro é produzido, segundo a proposta de Darnton (2010b).

Figura 2: O circuito das comunicações

Fonte: Darnton (2010, p. 127).

De acordo com esse modelo, o circuito inicia-se no autor passando pelo editor, impressor, distribuidor, vendedor, até chegar ao leitor, sendo que “o leitor encerra o circuito porque ele influencia o autor tanto antes quanto depois do ato de composição” (DARNTON, 2010b p.125), uma vez que ao escrever determinada obra, o autor idealiza o tipo de leitor que se quer atingir, ou seja, o seu leitor imaginário, adequando, portanto, a sua obra a esse sujeito. Os leitores também podem ser considerados como autores, pois “lendo e se associando a outros leitores e escritores, eles formam noções de gênero e estilo, além de uma ideia geral do empreendimento literário, que afetam seus textos [...]” (DARNTON, 2010b, p. 125). Nesse sentido, o leitor não é um sujeito passivo diante da obra, uma vez que a leitura “é uma ativa elaboração de significados dentro de um sistema de comunicação” (DARNTON, 2001, p. 279). Além disso, considera-se que a produção gráfica (disposição das letras e a textura do material utilizado) também influencia na composição/disposição das obras.

Analisando tal circuito, Rothen (2004, p. 103) destaca que “o ciclo do livro é constituído como uma cadeia produtiva, isto é, inicia-se no produtor (autor/editor) e termina com o consumidor (leitores), passando pela linha de produção (gráficos/fornecedores, distribuidores e livreiros)”. Embora, a análise de livros pressupõe a investigação sobre cada parte dessa “cadeia produtiva”, nesta Tese enfatizaremos apenas uma parte da referida “cadeia produtiva”, centralizada na dinâmica autor/editor, devido, especialmente, à delimitação de tempo e de recursos materiais para esta investigação.

Diferentemente dos livros que são considerados como obras fechadas, isto é, delimitados e possuidores de número finito de autores, Rothen (2004) aponta que as revistas devem ser compreendidas como obras abertas, uma vez que nelas a dinâmica tende a ser construída a cada novo número. Esse processo tende a dificultar a identificação da autoria de artigos nas revistas, pois constantemente há a incorporação de novos autores e, em alguns casos, até mesmo a sua não identificação. Além disso, a apresentação gráfica das revistas pode ser modificada, assim como o seu corpo editorial, sob a justificativa de renovação gráfica e política. A exploração de revistas científicas pode ser realizada por diversas técnicas. Embora não explicite em sua pesquisa, observamos que Rothen (2004) utilizou a bibliometria como procedimento exploratório da revista.

Sendo uma ferramenta estatística, a bibliometria é “um instrumento quantitativo, que permite minimizar a subjetividade inerente à indexação e recuperação das informações, produzindo conhecimento, em determinada área de assunto” (GUEDES; BORSCHIVER, 2005, p. 15).

Segundo a definição de Carlos Alberto Araújo (2006, p. 12), enquanto “técnica quantitativa e estatística de medição dos índices de produção e disseminação do conhecimento científico”, a bibliometria tem como meta a busca por uma avaliação objetiva do conhecimento científico.

Maria Cristina Piumbato Innocentini Hayashi et al (2007, p. 4) destacam, em sua definição sobre o termo, a questão da confiabilidade dessa técnica: “o princípio da bibliometria é analisar a atividade científica ou técnica pelo estudo quantitativo das publicações e o seu principal objetivo é o desenvolvimento de indicadores cada vez mais confiáveis”.

De acordo com Vânia L. S. Guedes e Suzana Borschiver (2005), a bibliometria é regida por distintas leis e princípios fundamentados no conceito da probabilidade. Para as autoras:

[...] ocorre que leis e princípios, de qualquer área de assunto, são enunciados a partir da observação de fenômenos que se repetem com freqüência, dado um determinado contexto. A generalidade no comportamento, verificada em suas aplicações, é que os caracteriza como leis e princípios, sem, contudo, deixar de se considerar suas limitações (GUEDES; BORSCHIVER, 2005, p. 15).

Tendo em vista que a bibliometria é, portanto, uma importante ferramenta de exploração científica regida por leis e princípios próprios, consideramo-la como fundamental para a investigação da revista Educação & Sociedade. Para essa exploração, construímos duas planilhas que foram denominadas “fichas técnicas das revistas” e “catalogação dos textos da revista”.

Na primeira planilha coletamos dados referentes às informações técnicas de publicação da revista (ano e número; título; editora; corpo editorial; comitê de redação; membros do conselho editorial; colaboradores; títulos e autores dos editoriais).

Já na ficha de catalogação dos textos, inserimos tanto as informações contidas nos estudos publicados na revista quanto as dispostas no Currículo Lattes19 de cada autor

(número; ano; mês e seção de publicação; autor(a) e coautores(as); gênero dos autores(as); título dos textos; palavras-chave; área de formação; titulação acadêmica; vínculo com grupos de pesquisa; vínculos com instituições acadêmicas; vínculos com o CEDES e vínculo com a revista). Convém ressaltar que as informações extraídas dos Currículos Lattes foram utilizadas com o propósito de caracterizar os autores, com base em sua vida acadêmica. Assim, optamos por coletar apenas as informações referentes ao ano em que o autor publicou seu texto na revista. A respeito do uso da técnica bibliométrica para a coleta e organização das informações, Hayashi et al (2007) destacam algumas críticas fundamentais que devemos considerar antes de sua utilização. Segundo os autores, o seu emprego pode apresentar algumas

19 Neste estudo, consideramos os currículos disponíveis na Plataforma Lattes. Esta Plataforma é uma base de dados

online que reúne informações sobre Currículos da vida profissional de estudantes e pesquisadores. Além disso, contém dados sobre Grupos de Pesquisas e Instituições. Sendo uma experiência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, a Plataforma Lattes foi instituída no final dos anos 1980. Convém ressaltar que a inserção de dados curriculares é realizada pelos próprios autores que assumem o compromisso de veracidade e atualização das informações. Informações disponíveis em: <http://lattes.cnpq.br/>. Acesso em 02 fev. 2015.

desvantagens quanto ao tempo, ao custo e à possibilidade de erros na coleta das informações. Além disso, existem casos em que a aplicação dessa técnica é ineficaz.

Os autores ainda nos alertam que alguns estudiosos associam a bibliometria a uma ciência positivista, especialmente, por apresentar ferramentas matemáticas e estatísticas. Essa crítica fundamenta-se na possibilidade do uso da bibliometria como um fim em si mesmo, ou seja, na consideração de que apenas os dados conseguem revelar a realidade, sem a mediação de outras disciplinas.

Isto posto, Hayashi et al (2007) ressaltam que, além de métodos quantitativos, devemos utilizar outros referenciais para a interpretação do objeto investigado. Araújo (2006, p. 24), também salienta essa questão ao afirmar que a bibliometria “é uma técnica útil que deve ser adotada em conjunto com métodos qualitativos fornecidos pelas ciências sociais”. Diante disso, consideramos a bibliometria como uma técnica auxiliar para a análise da revista Educação & Sociedade.

Ao longo dessa seção, observamos que a Epistemologia Política pressupõe a existência de dois momentos investigativos: análise do processo de circulação de revistas e análise dos discursos veiculados nesses impressos. No intuito de tornar tangível a Epistemologia Política, apresentamos ambos os momentos a partir das concepções que fundamentam seus procedimentos metodológicos. Assim, verificamos a existência de conceitos ímpares em cada momento e, também, a presença de premissas comuns.

A análise do processo de circulação de revistas fundamenta-se nos estudos de Darnton (2010a, 2010b) sobre o processo de produção e circulação de revistas. Todavia, apresentamos outros conceitos que podem auxiliar na análise desse momento: Jornalismo Integral (GRAMSCI, 1968, 2010); Partido (GRAMSCI, 1968, 2010); Intelectual (GRAMSCI, 1968, 2010); Poder (FOUCAULT, 2008, 2011); Paradigma (KUHN, 2011) e Comunidade Científica (KUHN, 2011). Além disso, destacamos, ainda, a técnica bibliométrica (ARAÚJO, 2006; HAYASHI et al, 2007).

Por sua vez, a análise dos discursos veiculados nas revistas fundamenta-se nos estudos de Popkewitz (1997) sobre a Epistemologia. Outras proposições auxiliam na investigação desse momento: Jornalismo Integral (GRAMSCI, 1968, 2010); Partido (GRAMSCI, 1968, 2010); Instituição Cultural Associativa (GRAMSCI, 1968, 2010); Relação

entre Política e Técnica (GRAMSCI, 1968, 2010, 2014); Poder (FOUCAULT, 2008, 2011), Discurso (FOUCAULT, 2008, 2011); Regime de Verdade (FOUCAULT, 2008, 2011) e Paradigma (KUHN, 2011).

Ademais, verificamos que as imagens dispostas na capa das revistas também produzem discursos. Para a análise desses discursos utilizamos a Semiologia (SAUSSURE, 2006; SANTAELLA, 1983). Apresentamos, ainda, outras concepções consideradas importantes para a apreensão da Semiologia: signo, significado e significante (BLIKSTEIN, 2003; BARTHES, 2012); leitura de imagens (BLIKSTEIN, 2003; FOUCAULT, 2007; MANGUEL, 2011); teoria das cores (GOETHE, 2006) e educação visual (ALMEIDA, 1999).

A partir desses conceitos apresentaremos na próxima seção a análise do processo de circulação e de produção da revista Educação & Sociedade.

3 O CICLO DE VIDA DA REVISTA EDUCAÇÃO & SOCIEDADE

O objetivo desta seção foi pautado na discussão sobre algumas das características da revista Educação & Sociedade que foi aqui compreendida como objeto de estudos, com a finalidade de investigarmos seu processo de formação e de consolidação na comunidade acadêmica. Utilizando o conceito de ciclo de vida (DARNTON, 2010a, 2010b), destacamos algumas peculiaridades desse impresso por meio da relação entre aspectos históricos e características formais de um periódico científico.

Sendo a revista Educação & Sociedade caracterizada como um periódico de comunicação do conhecimento científico, consideramos pertinente iniciar o presente capítulo pela abordagem de suas peculiaridades. Assim, primeiramente apresentaremos questões relacionadas à transmissão do conhecimento científico, destacando um de seus objetos de difusão: o periódico científico. Apresentaremos algumas das principais características da revista investigada. Posteriormente versaremos sobre alguns de seus aspectos históricos e políticos que marcaram o seu ciclo de vida. Nessa elucidação enfatizaremos a análise da revista ao longo do período investigado (1978-1988). Em um terceiro momento apresentaremos e discutiremos as informações e os dados da análise bibliométrica desse objeto de estudos.